
Quando soube que eles tinham chegado, fui à procura deles. Sabia que estavam alojados nas instalações da UER (Union Européenne de Rádio-Télévision). Era uma situação de luxo, já que estavam alojados no mesmo local onde trabalhava uma das mais importantes pools de recolha de imagens… e de onde se faziam os envios para o satélite. Estranhamente, iam editar no Kilometer Seven, no mesmo local que eu e, curiosamente, com o mesmo editor, Sean, um irlandês meio chanfrado que acabou por ficar meu amigo.
Encontrei-os ainda a desfazer as malas… da equipa, só conhecia Albarran. Os outros já tinham entrado na RTP depois de eu ter saído para a SIC. Albarran é daqueles tipos que exibe o sorriso mais caloroso mas não perde a frieza de cálculo. Conversámos durante algum tempo, trocámos algumas impressões, dei-lhe algumas dicas sobre o ambiente e as dificuldades de trabalhar num sítio daqueles e, depois, olhando para os caixotes de comida, perguntei-lhe se tinha garrafas de água que me pudesse dispensar… “trouxemos poucas”, disse-me. Mas prontificou-se a dispensar-me uma, de litro e meio. Foi a outra sala, onde estavam guardadas as paletes de garrafas de água, tirou uma. Vi-o entrar de novo na sala onde tinha ficado à espera… vi-o dar três passos na minha direcção… e vi a garrafa escapar-lhe da mão e cair… e vi a garrafa de plástico a rebentar… e a água mineral a derramar-se… ainda consegui agarrar o fundo da garrafa e salvar 1/10 do conteúdo. Ficámos a olhar um para o outro. Eu, com o resto da garrafa na mão. Encolheu os ombros, percebi que não haveria segunda garrafa. E não houve, mesmo.

8 comentários:
Pois... Mas, também, como é que ele iria depois tirar a pasta de dentes da boca?!
Por alguma razão tu continuas a ser Jornalista e não, como outros, produtor de conteúdos.
Orlando Castro
lembro-me também das declarações de Albarran sobre Cáceres Monteiro em 1991, na 1a invasão do Iraque. Albarran gabava-se de despachar do "front" enquanto Cáceres ficava no hotel a comprar tapetes.
Estas pessoas existem nas outras profissões.
Num cenário de guerra, quando a sobrevivência pode depender de uma garrafa de água, e pode, é indizivelmente grave.
Mas, vindo de onde vem, não surpreende.
O que raio faz um produtor de conteúdos? Edita?
um produtor de conteúdos é... a Teresa Guiherme. Ok?
Laughing out loud!
Percebi... mas, no género, a Teresa Guilherme sai-se muito melhor!
:-)
Meu Caro Carlos Narciso,
Não tenho por habito comentar seja o que for que seja escrito a meu respeito. No entanto e tendo acidentalmente passado pelo teu blog li incrédulo a tua historia sobre "as garrafas de água" na Somália. Porque não te conhecia essa capacidade delirante, confesso que quase fiquei estupefacto. Afinal pensava-te repórter... Será que o teu afastamento da profissão te toldou a memoria ou te terá criado alguma espécie de amargura de vida?
Meu caro, a equipa que tu chamas de luxo e que cobriu para a RTP os eventos na Somália à época que referes - como podem comprovar os elementos que a compunham, (ex.: o jornalista Rui Paulo da Cruz) não levou "paletes" de água para essa sua missão. Nem uma garrafinha sequer. Sinceramente não me recordo do episódio mas, se te fui encontrar alguma fica a saber que te terá sido amavelmente cedida pelos reporteres da RAI, televisão que na altura nos apoiou em algumas dificuldades logísticas tão prosaicas como essa. Podes portanto agradecer-lhes neste teu blog. Não te ficará mal!
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