Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











domingo, abril 30, 2006

Pontes

Sabiam que os portugueses andaram a construir pontes pela Etiópia? Eu não fazia a mínima ideia... leiam quem sabe do assunto.

sábado, abril 29, 2006

Angola, 1986. Luanda

Na década de 80, Luanda era uma cidade difícil. Violenta, suja, já bastante degradada. Não havia restaurantes, nem bares, nem cafés. A Ilha era zona militar restrita. Comprava-se tabaco nas esquinas, em volumes de 10 maços. Para comprar batatas, íamos ao Samba onde as senhoras vendiam, na berma da estrada, montinhos de 5 batatas ou 3 tomates pequeninos. Peixe havia com fartura. Pescava-se ali mesmo, na baía. Mas carne e ovos era preciso apanhar um avião e ir ao Lubango. Muitos faziam essa viagem, para abastecerem a dispensa ou para ganhar dinheiro com a revenda dos produtos em Luanda. Mas havia fome. Na baixa da cidade, na Mutamba ou em Alvalade, o lixo não era recolhido mas ficava abandonado pouco tempo. As ratazanas e os indigentes comiam tudo num instante. Havia alguns hotéis, mas o risco de apanhar pulgas e percevejos era considerável. Daquela vez, alugámos uma casa no Bairro Azul. A casa estava vazia e quem tomava conta dela era o senhor Baganha, um tuga já velhote mas cheio de energia e de expediente. O senhor Baganha ganhava a vida com um camião. Ia e vinha, de Luanda até Viana, transportava gente e tudo o mais que houvesse. Fazia o percurso várias vezes ao dia e, à noite, gastava duas horas a contar as notas. Parecia muito, mas não era. O dinheiro não valia nada. Para comprar uma cerveja, tínhamos de levar um carrinho de mão cheio de notas. Era uma vida arriscada, não só porque ele era branco e, por isso, dava nas vistas, mas porque Viana era fronteira com o território dominado pela UNITA. Estar em Luanda, naqueles tempos, era como estar numa ilha. Só se saía dali voando.
Um dia uma vizinha adoeceu gravemente e precisava de ser evacuada para Lisboa. Só aguentaria a viagem se levasse uma transfusão de sangue imediatamente antes de embarcar. O Hospital Maria Pia não tinha sangue. Os vizinhos mobilizaram-se e fomos dar sangue à senhora. Fui com muito medo. Não de dar sangue, mas da agulha com que me iam espetar… seria descartável? Na dúvida, levei uma que tinha na maleta dos primeiros socorros. No final, era demasiado grossa e não teria servido. Mas, a agulha do hospital era descartável. A médica era cubana e tratou-me bem. No final, até me ofereceram pão com manteiga e um copo de leite, que não aceitei. Só queria sair dali. Não aguentava mais com o cheiro. Era um cheiro penetrante, gorduroso, que vinha dos canos e das paredes castanhas e amareladas de sujidade. Havia 10 anos que ninguém lavava aquelas paredes.

sexta-feira, abril 28, 2006

E o Rangel a rir-se...

Como diria o saudoso Mário Castrim, "venderam a prata e ficaram com a lata". Acho que o Dr.Balsemão bem poderá começar a pensar em se dedicar ao negócio do ferro-velho.
É uma pena.

Malária, mata que se farta

Na primeira vez que fui a Moçambique, apanhei malária. A culpa não é da terra. Já tive malária noutros lugares e tantas vezes que lhes perdi a conta.
Vem sito a propósito da notícia de há dois dias, no site da Lusa (notícia que não vi reproduzida em nenhum jornal), sobre a decisão do Ministério da Saúde de Moçambique passar a fornecer gratuitamente tratamento e medicamentos contra a malária, em todo o país.
É que, quando fiquei doente, naquele ano de 1986, não havia medicamentos no Hospital Central de Maputo. Não era sequer uma questão de ter ou não dinheiro. Não havia. Quer dizer, havia no mercado negro… a um preço que só alguns podiam pagar. Naquela época, o exercício da medicina privada era proibido. Devia ser considerado um perigoso vício da burguesia. Ainda assim, havia médicos que arriscavam, como foi o caso do que se prontificou a ir ver-me à cama onde ardia em febre. Além disso, deu-me os comprimidos de quinino e prescreveu a dose de cavalo, tipo ou te curas ou morres. Eu curei-me, mas sei que, todos os anos, morrem milhares de seres humanos em Moçambique, por causa dessa doença. Li umas estatísticas que falam em 4 mil mortes anuais, o que faz da malária a principal causa de morte no país.
Fico contente por, agora, 30 anos depois da independência, o Estado moçambicano começar a assumir as suas responsabilidades. Para quem não sabe do que estou a falar, vou tentar explicar. A malária é transmitida através de um plasmodium (um parasita) transportado por um mosquito. Ao picar a pele para beber sangue, o mosquito acaba por introduzir o plasmodium no sangue. Depois, esse plasmodium ataca os glóbulos vermelhos, o que provoca infecção, daí a febre. Acho que não expliquei muito mal.
Ainda posso acrescentar que existem dois tipos de plasmodium. O falciparum, menos agressivo e o vivax, mais mortal. Já tive os dois, à vez e em simultâneo. É muito giro.

quinta-feira, abril 27, 2006

A Máquina da Verdade

A primeira vez que entrei na cadeia de Vale de Judeus foi para visitar o padre Frederico.
Shocking, isn`t it? Pois… fui lá perguntar-lhe se aceitava ser entrevistado por mim e submetido a um teste com um polígrafo, o vulgar detector de mentiras. Pensei que ele ia desatar a gritar pelos guardas para me porem dali para fora, mas não… olhou-me, com aqueles olhinhos redondos muito abertos, pensou e disse que sim.
O padre Frederico Cunha, brasileiro, cumpria pena de prisão por ter sido considerado culpado do homicídio de um rapaz, na Ilha da Madeira. O padre era membro da Ordem dos Crúzios, uns tipos meio estranhos, místicos, uma ordem religiosa oriunda da Holanda, se não me engano.
O padre Frederico tinha sido condenado por “convicção do tribunal”, ouvi eu o digníssimo juiz dizer quando proferiu a sentença. Só mesmo por convicção, porque ninguém tinha assistido ao crime e havia até várias testemunhas que ilibavam o padre. Mas, um tipo como Frederico Cunha tem sempre ar de culpado. Gordo, baixinho, suado, titubeante, meio gago, sotaque estranho, incapaz de olhar outros de frente, homossexual.

Confesso aqui que nunca acreditei na culpa do padre. Talvez isso tenha ajudado a convencê-lo a alinhar na história do polígrafo. É claro que, fosse qual fosse o resultado do teste, aquilo não passaria de um programa de televisão e, portanto, não iria influenciar quanto ao cumprimento da pena de prisão. Quer ele passasse no teste, quer não, continuaria preso a cumprir a pena decretada. Pedi autorização para que o padre pudesse ser escoltado até ao estúdio para se gravar a entrevista. O Director-Geral dos Serviços Prisionais não viu inconvenientes e aceitou deixar que Frederico Cunha saísse da cela para ir à televisão. Mas ninguém sabia do polígrafo…
Quem manipulava a máquina era um tipo italiano, esperto na matéria, psicólogo ou coisa parecida. As questões eram combinadas com ele. Um interrogatório com polígrafo tem regras. Podia perguntar o que quisesse, mas tinha de combinar a sequência com o italiano. O programa foi feito. No final, o padre Frederico passou no teste: “fala verdade quando diz que não matou”; “fala verdade quando diz que não conhecia” a vítima do crime; “fala verdade quando diz que nunca se encontrou” com a vítima. Pode-se enganar um polígrafo? Pode. Mas é muito difícil. A máquina é usada pela CIA para controlar os seus próprios agentes, é usada pela Mossad e por outras polícias no Mundo.
Quando o programa foi exibido, caiu o Carmo e a Trindade. Que ofensa às instituições! Que afronta à dignidade dos tribunais! Que nojo de televisão! Proíbam-no! Calem-no! Fechem a baiuca! Ponham-no a ferros! Crucifiquem-no!
Meses depois, deixaram fugir o padre Frederico. Quando voltei a falar com ele, foi em Copacabana, Rio de Janeiro.

As fotos do padre Frederico foram gentilmente cedidas por Frederico Duarte Carvalho.

quarta-feira, abril 26, 2006

Sudão, 2000. Dorinda (2)

Na aldeia de Marial Lou, Dorinda dedicava especial atenção a dois dos seus empreendimentos: o internato de raparigas e a cooperativa de mulheres. Numa sociedade tradicionalista como aquela (tribo Dinka), estas duas iniciativas eram revolucionárias. Na escola interna, as meninas estavam a salvo de hábitos milenares de submissão feminina à vontade dos homens. Entre estes povos sudaneses, casar uma filha aos 10 ou 12 anos não é nenhuma raridade. Tudo depende da riqueza do pretendente… das dezenas de meninas que viviam no internato, Dorinda tinha a secreta esperança de conseguir “desviar” duas ou três, as mais capazes intelectualmente, para continuarem os estudos no Quénia. Esta era a verdadeira revolução que Dorinda tinha em marcha, a mudança de mentalidades. Na cooperativa de mulheres, tecia-se a mesma “intriga”… as cooperantes foram recrutadas entre as mais pobres e as mais exploradas mulheres da aldeia. Uma delas era, mesmo, uma prisioneira de guerra. Era uma mulher de etnia Nuér, uma mulher soldado, capturada em combate pelos Dinka. Ao longo dos anos de cativeiro, aquela mulher tinha sido violada em todos os sentidos. Quando Dorinda deu por ela, morria de fome e de pancada. Ela e um filho ainda bebé… na cooperativa, as mulheres faziam roupa, com tecidos que Dorinda pedinchava no Quénia. Vendiam a roupa e o dinheiro dava-lhes não só capacidade de sobrevivência, como as tornava independentes dos homens. Muitas deixaram de ser vítimas da brutalidade com que habitualmente eram tratadas. Algumas até acabaram por expulsar os agressores de casa. Completamente revolucionário.

Dorinda Cunha está ao centro, na foto, entre mim e o Odácir Júnior, o repórter de imagem que trabalhou comigo no sul do Sudão. O outro branco é o padre John Pax, comboniano norte-americano.

terça-feira, abril 25, 2006

Ter ou não ter, flor na lapela

foto da Lusa
O senhor Presidente da República não usou cravo vermelho na lapela. A ausência da flor tem um significado político. Pelas mesmas razões, ou parecidas, os deputados do PSD e do CDS também não usaram.

Diamantes com sangue

Sabem como são financiados os partidos políticos em Angola? Pelo orçamento do Estado, claro, como em todo o Mundo, mas, Angola ensaiou uma originalidade. Pelo menos um dos partidos políticos, a UNITA, beneficiou da concessão de uma mina de diamantes numa das regiões diamantíferas mais ricas do país, na Lunda Norte. Que se saiba, só a UNITA tem um benefício do género… isto se considerarmos que o MPLA é uma estrutura independente do Estado, o que é tema controverso… A UNITA está, agora, a negociar com empresas mineiras estrangeiras a prospecção e exploração da sua concessão diamantífera. Para muitos dirigentes do Galo Negro, a exploração dos diamantes é coisa familiar, já que foi com eles que a UNITA sustentou uma guerra de quase 30 anos contra o governo angolano. Mas, antes, essas pedras eram conhecidas por “diamantes de sangue”, por serem, precisamente, o sustentáculo da guerra… há mesmo quem pense que boa parte da vontade de fazer a guerra, durante tantos anos, se deveu à questão de como dividir a riqueza do país. Eu acho que, pelo menos para Jonas Savimbi, a única coisa que lhe interessava era o exercício do poder e não o manuseamento do dinheiro. Mas em relação a outros dirigentes da UNITA já não tenha tantas certezas…
Digo isto, embora saiba que desde 1994 ficou estipulado uma determinada divisão das riquezas naturais do país. Mas enquanto Savimbi viveu, mesmo nos curtos períodos de paz que existiram, esse clausulado redigido nos Acordos de Lusaka nunca foi accionado. Talvez porque a UNITA considerasse que não necessitava de negociar aquilo a que teria direito pela natureza das coisas… a verdade é que até tanques de assalto e carros blindados a UNITA conseguiu colocar dentro de Angola, para já não falar em mísseis Milan, katiuskas, ou qualquer outro tipo de arma ligeira. A UNITA só não conseguiu ter força aérea. Foi o grande handicap da máquina de guerra de Savimbi. Mas esteve quase…
Hoje, esses diamantes malditos continuam a aguçar a cobiça dos angolanos. Para além do papel que desempenharam no financiamento da UNITA, agora os diamantes são uma das principais fontes de enriquecimento dos funcionários superiores governamentais e das altas patentes militares. O regime também lhes atribuiu concessões diamantíferas como recompensa pela fidelidade… e esses fiéis são, agora, os tais “parceiros” tão procurados pelos empresários ocidentais sedentos de triplicarem os seus investimentos nos três dias seguintes…

segunda-feira, abril 24, 2006

Baptista Bastos

Já há muito tempo que não via o Herman. Não por causa do programa, mas por causa do canal onde o programa passa… o que querem? Tenho direito às minhas manias. Mas esta noite, não sei o que me deu. Talvez um pressentimento…
E, ainda bem que liguei o canal 3 da TV Cabo… em vez de estar lá um banqueiro ou um qualquer político em missão de branqueamento, estava um senhor que merece muito respeitinho: Baptista bastos. Então não é que o homem, sempre naquele tom suave, embora um pouco rouco, que lhe caracteriza a voz, relembrou que hoje, 32 anos depois do 25 A, vivemos de novo a censura, não a censura do lápis azul, mas a censura da dependência económica, do ter de parecer politicamente correcto sob pena de perder o emprego, vivemos uma ditadura do medo motivada pelos 500 mil desempregados e a certeza de ser quase impossível de recuperar um emprego perdido…
BB lembrou-nos o escândalo das mordomias dos dirigentes que temos, das reformas imorais dos banqueiros de Portugal, dos direitos adquiridos ao fim de 6 meses de função em determinadas empresas do Estado. Tudo isto, dito no local mais improvável. O Herman SIC. Pareceu-me que Herman está a dizer adeus ao programa e ao canal. Sem querer ser cínico, cheira-me que tanta liberdade tem muito pouco que ver com o mês que corre no calendário. Com a certeza da não renovação do contrato, Herman está livre para fazer o que lhe apetece. Ainda bem.

domingo, abril 23, 2006

Sudão, 2000. Dorinda (1)

No interior da região do Alto Nilo, a missionária portuguesa Dorinda Cunha dedicava-se a salvar vidas. A acção decorria em Marial Lou, uma aldeia que não consta em qualquer mapa. A localidade tinha sido fundada apenas quatro anos antes, para servir de refúgio aos fugitivos dos ataques do exército governamental sudanês. Na época das chuvas, Marial Lou transformava-se numa ilha rodeada de pântanos. Durante meses, era um local inacessível. Estas condições geográficas, a localização incerta, mantinham Marial Lou a salvo da guerra, mas demasiado perto da miséria extrema… Dorinda falava perfeitamente o dialecto local. Só assim conseguia dinamizar grupos de pais para apoiar a construção da escola, só assim os conseguia convencer a não retirar as meninas da escola cedo demais, para as casar com o primeiro homem que aparecesse com dinheiro na mão, só assim conseguiu pôr de pé a fábrica de tijolos com que pretendia revolucionar a construção de habitações, só assim era possível viver no meio dos Dinka, um povo demasiado habituado à guerra. Uma mulher no meio dos guerreiros. Foi assim durante mais de 30 anos. A primeira missão de Dorinda Cunha foi no Norte do Sudão. Foi expulsa, quando o governo sudanês decretou a sharia e decidiu islamizar à força a maioria não-muçulmana dos habitantes do país. Expulsa do Norte, entrou clandestinamente no Sul e passou a viver com as comunidades católicas nas zonas controladas pela rebelião do SPLA.

sábado, abril 22, 2006

Israel 1989, na primeira Intifada. Gaza

A entrada em Gaza foi estudada minuciosamente. Com a aproximação do dia 9 de Dezembro, dia do segundo aniversário da Intifada, os israelitas aumentaram o grau de alerta das forças armadas. Multiplicavam-se as barreiras nas estradas e, muitas vezes, não nos deixavam passar, se desconfiavam que poderíamos ir a algum sítio e servir de motivação para mais distúrbios. É verdade que os palestinianos aproveitavam a presença de equipas de televisão para iniciarem desacatos.Nunca nada acontecia, sem que a televisão lá estivesse. Qualquer televisão lhes servia, não precisava de ser a BBC… (ainda não existia CNN).
De modo que decidimos atravessar a Cisjordânia de noite e entrar em Gaza pela madrugada. Usámos apenas estradas secundárias, para evitar o mais possível as barreiras militares. Nessa noite, desabou uma tempestade tremenda. Chovia torrencialmente e o vento soprava gelado. A intempérie ajudou-nos. Os militares israelitas estavam pouco mobilizados para tarefas policiais, ainda por cima à chuva e ao frio…
Quando chegámos a Karni Crossing, assim se chama a “porta” para entrar em Gaza, deviam ser 3 ou 4 da manhã. A escuridão era iluminada por fogueiras que ardiam dentro de bidões. Dirigi o carro em ziguezague, evitando os blocos de cimento colocados no caminho de modo a evitar que alguém pudesse forçar a passagem conduzindo um veículo a alta velocidade. Quando cheguei à cancela, o soldado veio, arrepiado pela molha e pelo vento frio. Olhou para a matrícula e perguntou se queríamos mesmo seguir… disse-lhe que sim e encolheu os ombros. Nem chegou a pedir-nos a identificação… Chegámos à cidade e resolvemos esperar que o sol nascesse. Parámos num largo, onde havia muitas camionetas e uma multidão imensa de vultos. Na escuridão, aquele cenário metia medo. Quem eram aqueles todos? O intérprete explicou que eram trabalhadores palestinianos, a caminho do emprego em território israelita. E explicou que 90% da população activa de Gaza não tem emprego. E que as pessoas não têm outra solução senão ir trabalhar para Israel. E que, assim, os israelitas ganham de duas formas: exploram mão-de-obra barata e sem capacidade reivindicativa e, quando querem pressioná-los politicamente, proíbem a circulação dos trabalhadores, deixando as pessoas sem trabalho e sem salário.
De repente, ficámos rodeados por centenas daqueles tipos. Alguns começaram a abanar o carro. O intérprete gritou com eles. O que quer que lhes tenha dito, foi o suficiente para os acalmar. Também ajudou o facto das camionetas começarem a partir. O nosso problema era que estávamos com um carro de matrícula amarela, a matrícula dos israelitas, e deveríamos ter um carro de matrícula azul, a cor atribuída para as matrículas dos carros dos árabes… de modo que saímos dali rapidamente, escondemos o carro numa garagem da estalagem onde íamos ficar e alugámos um táxi ao dia.

sexta-feira, abril 21, 2006

Israel, 1989. Na primeira Intifada. No hospital

E de que me lembro eu do hospital de Nablus? Lembro-me de enfermarias pintadas de amarelo e branco, cheias de gente entubada, engessada, dorida. Lembro-me de ver um homem gordo, que destaparam de propósito para que pudéssemos ver bem o corpo todo pisado de porrada. Não havia um centímetro de pele que não estivesse enegrecida do sangue pisado. Lembro-me de ver miúdos com o corpo retalhado, paraplégicos e que ainda faziam o V com os dedos… V de quê? V de vida fodida? Que vida era aquela? E as famílias à volta dos feridos, pais, mães, avós, resignados perante tanta fatalidade. Lembro-me de registar a lengalenga dos médicos sobre a falta de medicamentos e de instrumentos cirúrgicos, a falta de energia, a falta de água, a falta de tudo. Lembro-me de ter notado que não havia soldados feridos, que todos os feridos eram civis, que todos os civis eram combatentes, que as convenções internacionais sobre a matéria estão desactualizadas e que ninguém as respeita. Lembro-me de ficar muito cansado daquilo tudo e de não perceber como conseguiam eles continuar naquilo, naquele dia-a-dia demente e sem fim à vista. E não teve, ainda, um final. Aquela luta ainda hoje continua. Não sei como é possível que uns ainda não se tenham cansado de bater e outros não tenham ainda desistido de apanhar. Lembro-me, ainda, de termos comido com os médicos, na cozinha do hospital. Comemos todos à volta de uma enorme frigideira com qualquer coisa frita com tomate. Não sei o quê, mas comemos. A reportagem em Nablus estava feita, só faltava sair dali…

quinta-feira, abril 20, 2006

Cego, é quem não quer ver

…”a perda de audiências da SIC levou à queda de 82% do resultado líquido do grupo, para 0,6 milhões de euros, de acordo com o mesmo ‘research’. O analista adianta que as receitas de publicidade da TVI deverão crescer 11%, contra a queda de 14% das da SIC”, reza a análise de Pedro Mendes, especialista da bolsa do BCP Investimento, em declarações publicadas no Diário Económico.
A SIC está com problemas crescentes. Nada que surpreenda. Todos sabem (menos o Dr.Balsemão…) que o negócio da televisão se faz investindo. Investindo sempre e cada vez mais. Fazer televisão é um combate sem tréguas, tanto mais num mercado publicitário pequeno como o português, onde o primeiro ganha a maior parte do bolo e os segundos dividem as migalhas entre si. Um dia, em 2001, o Dr.Balsemão decidiu que a SIC iria deixar de lutar pelo prime-time. Foi avisado de que aquele era o caminho errado… disse-lhe o Emídio Rangel (antes de ser despedido) e disseram-lhe os delegados sindicais dos jornalistas (antes de serem despedidos), numa Carta Aberta publicada no jornal Público, em Setembro de 2002. Dizia essa carta:

“Carta Aberta aos accionistas da SIC
Senhores accionistas,
Há ocasiões na vida de uma empresa em que o desnorte parece ditar todas as decisões. Em nosso entender, na SIC, é o que se passa. A uma crise sucede-se outra e todas têm a mesma solução: despedimentos. Aquilo que constituiu sempre a primeira razão do sucesso da SIC – os trabalhadores da empresa - começa a desaparecer na voragem desta gestão. Já saíram da empresa profissionais qualificadíssimos e prepara-se, agora, nova ronda, como se a única doutrina gestionária fosse o afastamento das pessoas que estiveram desde o início e fazem parte da fundação da empresa. Aos nossos olhos, assistir-se-á de novo ao enfraquecimento e ao depauperamento da empresa. Triste ironia, se este ritmo prosseguir não conseguimos projectar quem vai pensar e realizar todo o trabalho que uma empresa de televisão exige. Nós calculamos que os senhores vivem também angustiadamente a situação daquela que foi considerada a melhor empresa de televisão da Europa e que apresentava lucros elevados todos os anos, em nítido contraste com o que se passa hoje. Nós sabemos que a vossa reflexão induzida por terceiros ou apreendida directamente e a de que a crise económica e publicitária é a responsável por este quadro de “miséria” que tudo consente, desde o afastamento de quadros importantes até ao abandono de linhas de programação e informação que fizeram o êxito da SIC. Mas talvez seja importante dizer-lhes que nós, representantes dos jornalistas da empresa, temos uma outra leitura da situação que queremos partilhar humildemente com todos, para se superar este período negro da empresa, que consome todos os dias muito dinheiro e uma parte substancial das nossas energias.
Para qualquer observador comum, mas sobretudo para nós que vivemos lá dentro, a primeira razão que dificulta a ultrapassagem da crise é a desorientação que reina na administração e na direcção e a insistência numa estratégia que não dá resultados. Voltada para o objectivo de ser a segunda estação, a SIC é por vezes a terceira e normalmente perde o prime-time. Quando a SIC nasceu e tinha zero por cento de audiência definiu como objectivo o confronto com a RTP que dispunha, obviamente, de mais de 95% do share. Parecia arrogância, mas foi a única maneira de mostrar a nossa ambição em pôr de pé um projecto alternativo e ganhador. Que sentido faz, nos dias de hoje, que a SIC mostre que não é carne nem peixe e não procure ser o que durante anos conseguiu, isto é, a primeira estação do País. Todos sabem que a distribuição publicitária, mesmo em tempos de crise, se faz sempre de forma desigual. Quem é primeiro recebe a maior fatia. Depois do episódio “Big Brother” a SIC teve uma oportunidade única de voltar à liderança e desperdiçou-a. A administração, fixada na ideia dos despedimentos, e os directores de programas e informação, cada um a disparar para alvos diferentes, não souberam construir uma solução duradoura que ganhasse o dia e o prime-time. O resultado está à vista. A TVI, sem nenhuma precipitação, voltou ao comando do prime-time, admitiu profissionais qualificados, alguns da SIC, em vez de despedir, e tem de novo um orçamento de exploração positivo, isto é, está a ganhar dinheiro. É este saber e ambição que está a faltar à SIC. Quando o teve, liderou e ganhou muitos milhões de contos.
Queríamos dizer-lhes, senhores accionistas, que estamos profundamente preocupados com a situação da nossa empresa e gostávamos de ajudar a encontrar uma solução, porque a SIC interessa-nos, a nós como aos senhores. Estamos ali há mais de dez anos, trabalhámos com afinco para pôr de pé aquele projecto e não queríamos, de maneira nenhuma, assistir ao desmoronamento da única estação privada de televisão em Portugal que vai ficar na História. A nossa convicção é de que alguma coisa os senhores podem fazer. Pelo menos, podiam ajudar a empresa a voltar a um clima sereno onde se gerem soluções bem pensadas para retomar os caminhos do sucesso, do lucro e do gosto de fazer televisão. A SIC precisa de uma estratégia de programação e informação que não nasça já derrotada, e aí também os senhores podem ajudar, animando e impulsionando os profissionais que têm essa tarefa entre mãos. Nós, pelo nosso lado, estamos preparados para todos os sacrifícios, desde que se retomem os caminhos da esperança num projecto ganhador. Tudo o que queremos é recuperar a SIC, a nossa e a vossa estação. Tudo o que não queremos é desmantelá-la e vê-la sem forças e sem ânimo. A crise económica e publicitária é um grande obstáculo, mas não explica tudo.
Carlos Narciso
Waldemar Abreu
Delegados sindicais dos jornalistas da SIC”

Cinco anos depois, os problemas da SIC não desapareceram. A administração da empresa não mudou de estratégia, apesar do exemplo ganhador da TVI que investe forte em produção própria. Em 2001, o Dr.Balsemão anunciou-nos que a SIC teria de se adaptar ao mercado. Adaptação feita à custa de despedimentos de centenas de trabalhadores, alguns de uma lealdade para com a empresa a toda a prova. A SIC continua a perder audiência (é já o 3ºcanal, atrás da RTP-1) e, portanto, deverá ter de se adaptar novamente. Os trabalhadores da empresa sabem bem o que isso significa.

quarta-feira, abril 19, 2006

Guiné Bissau, a traição

Como seria de esperar, o exército guineense acabou por conseguir desalojar os rebeldes de Casamança das aldeias fronteiriças. Como também seria de esperar, não conseguiram capturar ou eliminar os principais dirigentes da rebelião de Casamança. São guerrilheiros que sempre viveram no mato e que sabem como se esconder, principalmente quando podem contar com a solidariedade das populações.
Tagma Na Waie, CEMGFA

O que mais me surpreendeu, nesta acção militar da Guiné-Bissau, foi a atitude assumida por Tagma Na Waie, o actual Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas da Guiné-Bissau, um homem que combateu ferozmente contra Nino Vieira, durante a guerra civil e que, nessa luta, liderou vários guerrilheiros de Casamança que foram ajudar no cerco a Bissau. Espanta-me a traição de Tagma a quem o ajudou no combate contra Nino. Porque Tagma é um dos militares de etnia balanta que mais sofreu às mãos da polícia secreta, durante a vigência do “primeiro regime” de Nino Vieira. Tagma esteve preso, foi torturado selváticamente, condenado à morte e deportado para a Ilha das Galinhas, uma ilha-prisão nos Bijagós, onde penou 9 anos até ser perdoado. Quando Ansumane Mané se sublevou, Tagma vivia como um indigente, esmolando caridade… Disse-me, numa conversa que tivemos durante a guerra, que sonhava com a hora de furar o peito de Nino com as balas da sua kalashnikovQuem conhece a história contemporânea da Guiné-Bissau sabe que alianças e traições são o quotidiano da política guineense. Foi assim que Amílcar Cabral foi morto, foi assim que Luís Cabral foi deposto, foi por isso que liquidaram Ansumane Mane, foi por isso que assassinaram Veríssimo Seabra. Nino e Tagma já se atraiçoaram mutuamente e combateram um contra o outro. Hoje estão amigos e aliados. Mas se, um dia destes, um deles não acordar, não me surpreende. Acho difícil que um homem a quem arrancaram os testículos consiga perdoar ao algoz. E acho ainda mais difícil que o carrasco acredite que foi perdoado.

terça-feira, abril 18, 2006

O Mar Morto morre

O Mar Morto está a desaparecer, li ontem a notícia (já não sei onde). Estive duas vezes nas margens desse Mar. Em 1989, no lado israelita e em 2001 no lado da Jordânia. Se Israel deixar morrer o Mar Morto perde um dos principais encantos do país. As praias do Mar Morto são únicas no Mundo. Em cada uma daquelas estâncias balneares há avisos que proíbem os mergulhos, sob pena de se cegar devido à salinidade da água. Mas pode-se flutuar sentado… o que é uma experiência única. Há mesmo quem leia livros ou o jornal flutuando na água que, devido à salinidade exagerada, tem uma impulsão muito maior que a água normal. Se a salinidade continuar a aumentar, acho que se vai chegar ao ponto de se conseguir caminhar sobre a água… onde é que já ouvi falar disto? Israel faz negócio com o seu Mar Morto. Não são só as praias, são também os hotéis com spa que utilizam aquela água para tratamentos de não sei o quê e uma quantidade de produtos de merchandising derivados do Mar Morto: cristais de banho, pedras, areia, lama de beleza, por aí fora. Além do mais, o Mar Morto é uma barreira natural, uma fronteira fácil de guardar e de vigiar. Não consta que seja por ali que entram os terroristas que colocam bombas em Israel. Visto do lado jordano, o Mar Morto tem menos atractivos. Não sei se é pelas margens serem mais rochosas, mas a margem jordana não está explorada do ponto de vista turístico, nem há venda dos produtos com que os israelitas ganham bom dinheiro. Portanto, segundo a notícia que li, são os israelitas quem estão a dar cabo do Mar Morto, ao impedir que a água do Jordão lá chegue na quantidade necessária para o Mar Morto se manter.Talvez Israel tenha chegado à conclusão que a água do Rio Jordão é melhor empregue na irrigação dos campos agrícolas. Cheira-me que está ali (na água) mais um foco de tensão entre os vários estados da região. A saber: Líbano, Jordânia, Palestina e Israel.

segunda-feira, abril 17, 2006

Guiné Bissau, a guerra civil. Bubo

Um dos mais temíveis guerreiros que conheci na Guiné, chama-se José Américo Bubo Na Tchuto. Capitão fuzileiro. Os primeiros cadáveres de senegaleses que vi, foi ele quem mos mostrou. Estavam já podres, inchados, cheios de moscas. Aquilo deu-me volta ao estômago. Tirei umas fotos, mas não sei delas. O Carlos Aranha filmou os presuntos e em Portugal a guerra civil guineense passou a ter outro peso. Afinal… os gajos matavam-se mesmo. Pois matavam… Bubo Na Tchuto fartou-se de matar senegaleses. A roupa que vestia tinha sido de um oficial inimigo morto em combate. Ainda tinha o nome do morto no peitoral… as botas também deviam ter sido do morto.

Bubo Na Tchuto

Um dia, o grupo de combate de Bubo Na Tchuto aprisionou uma dúzia de senegaleses. Os prisioneiros eram todos miúdos, soldadinhos tenros e inexperientes enviados para aquela frente de batalha. Foram postos em fila indiana e encaminhados para a cadeia militar que existe na base aérea. Nunca lá chegaram. Alegadamente, tentaram fugir e morreram na tentativa. A partir desse dia, todos os soldados de Bubo passaram a vestir camuflados quase novos e, estranhamente, sem vestígios de buracos de bala. Como se os anteriores proprietários os tivessem despido antes de morrerem… percebem?

domingo, abril 16, 2006

Guiné Bissau, a guerra civil. Balas perdidas

O principal problema era que o governo guineense não controlava a SIC, como controlava a RTP. Mesmo do ponto de vista institucional, o governo guineense tinha alguma autoridade sobre os funcionários da RTP em Bissau. Além do mais, a RTP foi apanhada sem jornalistas em Bissau, quando a guerra começou. Quem lá estava era o delegado, um gestor, sem formação jornalística, desobrigado em termos de ética e deontologia profissional. Era, além do mais, um homem muito habituado a obedecer. Por isso, era fácil controlar o que a RTP emitia a partir de Bissau. Por isso, a presença da SIC passou a ser um incómodo grande. Pior que isso, assim que entrei em Bissau passei a ser solicitado pelas rádios Voz da América, Voz da Alemanha e BBC para lhes prestar colaboração. Até a TSF me pediu crónicas, mas enquanto as outras rádios me pagavam o trabalho, a TSF achava que eu tinha de o fazer de borla… de modo que deixei-os a falar sozinhos ao fim de três dias. E se era verdade que na Guiné-Bissau ninguém sabia bem o que eu dizia nas reportagens na SIC, o mesmo já não se passava, por exemplo, com o que eu dizia na BBC, talvez a estação de rádio mais escutada em Bissau durante a guerra. E o que eu dizia desmentia, muitas vezes, o que dizia o governo guineense sobre o desenrolar da guerra.

Campo de batalha, no Paiol de Brá, 1998

Até mesmo na embaixada de Portugal se notava algum incómodo pela nossa presença em Bissau. O embaixador Henriques da Silva sempre foi de uma educação extrema connosco, mas percebia-se que nos temia, isto é, temia as consequências do nosso trabalho. Bissau deve ter sido o posto mais difícil da carreira do embaixador Henriques da Silva. O homem sentia-se infeliz, manifestamente. Esteve meses sem sair da embaixada e passou pelo susto de sentir a explosão de um obus que caiu na zona residencial da embaixada, felizmente sem ferir ninguém. Um dia, o embaixador confidenciou-me que o próprio Presidente Nino Vieira lhe tinha dito para eu "ter cuidado com as balas perdidas". A mensagem era tão clara que o embaixador me pediu encarecidamente para eu sair de Bissau e, se possível, sair do país. Fiquei e denunciei a ameaça num directo para o programa da Margarida Marante. Se tivesse havido alguma bala perdida, sabia-se de onde tinha partido…

sábado, abril 15, 2006

Paquistão, 2001. Wadud

Wadud é um dos 99 nomes de Deus. Por isso, aquela mesquita chamava-se Wadud. Deve haver milhares de mesquitas Wadud na parte islâmica do Mundo. Aquela mesquita tinha uma escola corânica, uma madrassa. Era a madrassa Jamia Ashrafia. Uma estrutura arruinada, austera. Não havia mobília em nenhuma sala, apenas umas enxergas no chão onde os alunos dormiam. A luz era de velas. As paredes nuas, o chão de pedra.Era até difícil acreditar como, em tempos normais, costumavam estudar ali mais de 400 alunos. Numa madrassa, estudar significa viver. Passar as 24 horas do dia, durante 9 anos. É o tempo dos taliban, palavra que significa estudantes. Nove anos, para decorar o livro sagrado, aprender ética e a respeitar Deus e os mestres. Ao fim de 9 anos, quem terá dúvidas sobre o significado da vida? A madrassa Jamia Ashrafia era dirigida pelo mulana Yousef Qureshi, um velho pançudo que me recebeu refastelado numa chaise long. Conversámos um bocado sobre como o Mundo ia, em 2001. O mulana era um homem com muitas dúvidas. Dizia-me ele, confrontado com uma escola sem alunos, que não sabia para onde tinham eles ido. Se tinham ido combater para o Afeganistão, ou não. Mas que durante a guerra contra os soviéticos, os seus alunos tinham ido combater o comunismo. Sobre Osama Bin Laden, o santo homem não acreditava numa só palavra das acusações que os americanos lançavam sobre Osama. Podia lá ser… “Osama sempre ajudou os pobres e combateu na guerra contra os cruéis”.

sexta-feira, abril 14, 2006

Moçambique, a esperança

Acabo de ler uma notícia, num jornal sul-africano com edição on-line, sobre Moçambique. Diz o jornalista que a economia moçambicana parece estar no bom caminho do desenvolvimento. A economia cresceu 7,5% em 2005 e em 2006 parece ir bem, novamente. Segundo entendi, o FMI controla as políticas económicas do país com mão-de-ferro. As expectativas são boas: descobertas recentes revelam que existem grandes reservas de gás e está em marcha um mega-projecto mineiro e industrial para a produção de alumínio. A indústria conseguiu desenvolver-se, graças à mão-de-obra barata e há um conjunto de países doadores que continua a apostar em Moçambique. Claro que os doadores não são completamente desinteressados e, digamos assim, não há dádivas de borla… A última vez que estive em Maputo, já lá vão quase 4 anos, surpreendi-me com dois pormenores: inúmeras gruas de construção civil por toda a cidade e out-doors espalhados por todo o lado com ofertas de apartamentos para vender. Achei que aquilo era sinal de desenvolvimento ou, pelo menos, da existência de dinheiro a circular. Disseram-me que o país estava a beneficiar com o crescente mau estar das comunidades brancas na África do Sul, no Zimbabwe e na Namíbia que, assim, estariam a deslocar-se para Moçambique. Infelizmente, Maputo continua rodeada de bairros da lata e vê-se muita gente a dormir nas ruas, principalmente na baixa da cidade. Infelizmente, o sector da saúde luta com problemas colossais, como, em parte, já descrevi aqui num texto anterior. Infelizmente, a maior parte da população do país continua sem ter acesso a água potável e a uma dieta apropriada. A pobreza não é só falta de casa e de emprego, reflecte-se também no sistema escolar, no serviço de saúde, na rede viária, em coisas do género. Lembro-me que aí há cerca de um ano, ano e meio, talvez, os meus amigos Combonianos lideraram um movimento de opinião pública para sensibilizar o governo português a perdoar a dívida de Moçambique. Parece que resultou e, segundo julgo, Moçambique foi um dos países que viu a dívida externa ser perdoada, se não por todos, pela maioria dos países emprestadores. Só espero que façam bom proveito do dinheiro e que os dirigentes saibam dividir a riqueza pelo povo. Acham que é esperança em demasia?

quarta-feira, abril 12, 2006

Zeca, Adriano, Sérgio, José Mário, Fausto, Salgueiro Maia, Paredes, Viegas, Ary, Agostinho... os meus heróis

O pedido de divulgação chegou-me por email. Fui espreitar e gostei. Gostei, mesmo muito. O artista chama-se Henrique Gabriel. Gostava de ter dinheiro para lhe comprar um dos quadros desta colecção alusiva ao 25 de Abril. São janelas para a memória, ícones da revolução que deus tem...

Paquistão, 2001. Kacha Gharai

Kacha Gharai em língua pushtun significa “casas de lama”. Era o nome apropriado para aquele imenso campo de refugiados nos arredores de Peshawar, junto à fronteira com o Afeganistão. Era um quadrado imenso onde cabiam 100 mil pessoas. Um labirinto de casas de adobe, casas baixinhas, ruelas estreitas e esgotos a céu aberto. Tudo cor de lama… ou de merda. A cor confunde-se.
Meti-me lá dentro, com o João Duarte. Eu e o João fizemos algumas coisas muito loucas, durante os anos em que trabalhámos juntos na SIC. A SIC também não o quis… hoje, ele é camera-man da BBC em Moscovo. Fomos devidamente autorizados pela polícia paquistanesa e acompanhados por um oficial que nos guiou pelo dédalo de pistola em punho. Tenho aqui o nome do polícia (no meu bloco de notas…), chama-se Sadullah Khattak e era um homem corajoso. É que entrar em Kacha Garai só para ganhar umas moedas de uns jornalistas estrangeiros é sinónimo de bravura ou de extrema necessidade. Dentro de campo, defrontavam-se etnias inimigas. Aquilo era como um reflexo do que se passava no Afeganistão (só não havia bombardeamentos de B-52). Refugiados tajik combatiam refugiados pushtun. Os tajik tinham fugido dos taliban, os pushtun tinham fugido das bombas americanas. A nossa visita acabou em passo de corrida, sob uma chuva de pedras e a saltar em andamento para o veículo…
Soube agora que Kacha Gharai está, finalmente, a ser demolido. As Nações Unidas têm em marcha um programa de repatriamento dos quase 3 milhões de refugiados afegãos que estão no Paquistão. Gostava de ficar contente com esta notícia, mas acho que Kacha Gharai voltará a ter uso, mais tarde ou mais cedo.

terça-feira, abril 11, 2006

Angola, 1999. Cuíto, o hospital

Quando conheci o senhor Nicolau, ele tinha as duas pernas. Quando acabámos de conversar, já lhe tinham cortado a direita. O senhor Nicolau tinha sido ferido pelo chamado “friendly fire” na última guerra do Cuíto. A UNITA já batia em retirada, para nunca mais voltar, quando o soldado bêbado lhe enfiou um tiro de kalashnikov na perna. A bala estilhaçou-lhe o fémur, o osso infectou e a perna não tinha salvação. Ou lha cortavam ou Nicolau morria com ela. Cortaram.Era Janeiro de 1999. O Cuíto estava sem médicos desde 12 de Dezembro. Os médicos fugiram quatro dias antes da UNITA atacar. Ficaram só três enfermeiros. Eram eles quem dirigiam o hospital. Mestres carpinteiros que, de serrote em punho, cortavam sem hesitações. Pediram-me para ficar ali a distrair o senhor Nicolau, porque a epidural é só uma anestesia local e o homem podia assustar-se quando visse a perna a ser serrada.
Conversámos sem parar, durante aquela meia hora. A cabeça dele abanava ao ritmo com que o enfermeiro empurrava e puxava o serrote. Não sei do que falámos. Sei que ele nunca olhou para a perna, nem mesmo quando o enfermeiro pegou nela e a lançou para dentro de um caixote. Também não olhei…
Naquela noite e na noite seguinte e na outra, não dormi. Fechava os olhos e ouvia o serrote no osso e cheirava de novo aquela mescla de suor e formol que se sentia no bloco operatório do Hospital Provincial do Cuíto.

segunda-feira, abril 10, 2006

Moçambique, sida

Há dias, ouvi na TSF a divulgação de um estudo elaborado pela Fundação Moçambicana para o Desenvolvimento da Comunidade que aponta para um elevado índice de orfandade provocado pela Sida.
Ouvi isto e pensei que os jornalistas passam a vida a repetir notícias. No final de 2002 já eu dizia o mesmo e não fui o primeiro… Numa das últimas reportagens que fiz para a SIC… (os filhos da mãe despediram-me em Janeiro de 2003) … mostrei o drama que então se vivia no Hospital Central de Maputo, onde 70% dos doentes internados tinham Sida. A cifra foi-me confidenciada pelos médicos do hospital, embora nenhum deles tenha dado a cara pela informação. Era um dado incómodo, secreto, que o Governo moçambicano nunca quis assumir.
Em todas as enfermarias, a maioria dos doentes estava contaminada. Em qualquer enfermaria, desde a psiquiatria até à pediatria, passando pela medicina e pela infecto-contagiosa. Estive na maternidade e, também ali, uma boa percentagem de parturientes tinha Sida e ia dar à luz bebés contaminados. Aquilo era um carrossel demente… 90% dos bebés corriam sério risco de nascerem já infectados e o hospital não tinha anti-retro-virais para dar aos doentes. A verdade das mortes hospitalares era camuflada por certidões de óbito politicamente correctas… tuberculose, meningite, malária sempre pareciam menos mal que Sida.
A situação que encontrei em 2002 foi a mesma que já tinha encontrado dois anos antes e, pelo que ouvi agora, é a mesma que subsiste. Mas nunca nada muda?

domingo, abril 09, 2006

Não pode fotografar dentro do Centro Comercial, dizia-me o segurança. Ah não? Porquê?

Lá dentro prometem a beleza eterna, usam todos os truques para enganar rugas, verrugas, rabos descaídos, mamas flácidas, papos nos olhos, orelhas de abano, cabelos brancos e unhas roídas. Parece ser um mundo cheiroso, higiénico, mas a maquilhagem esconde uma exploração gananciosa de mão-de-obra barata e, de preferência, ilegal. Acabei de saber que a empresa da foto pretende contratar esteticistas a 500 € por mês, das 9 às 19, 7 dias por semana e com a obrigatoriedade da trabalhadora ter de cumprir horário tanto na loja do Odivelas Park como do Centro Comercial de Massamá. Dia de descanso? Um por mês...Por alguma razão, a empresa em questão parece ter dificuldade em manter os trabalhadores ao serviço. É que, com apenas um dia de folga por mês, os esgotamentos devem ser em catadupa.
Este horário de trabalho é ilegal e, portanto, isto pressupõe que a empresa não celebre qualquer tipo de contrato de trabalho com esses trabalhadores.
Acho que este é um caso para a Inspecção Geral do Trabalho, se é que este organismo ainda não foi “simplexficado”.

sábado, abril 08, 2006

Israel, 1989 - na primeira Intifada - Yad Vashem

Em Jerusalém, em 1989, era fácil percebermos se estávamos na zona árabe ou na israelita. Os bairros árabes eram sujos, desordenados, as casas inacabadas com o tijolo à mostra, as ruas tortuosas e esburacadas. Na zona israelita não havia pichagens a sujar as paredes, nem pneus a arder no meio das ruas, nem contentores de lixo a abarrotar para o chão, notavam-se as preocupações urbanísticas e o cuidado na preservação das pedras milenares. Estas diferenças abismais, às vezes, eram de uma rua para outra ou do outro lado do cruzamento.Hoje talvez já não se note, porque estão a construir um muro alto para separar as comunidades. O olhar deixará de se escandalizar com a degradação, para ficar murado pelo betão. Não sei se o muro irá dividir Jerusalém do modo como está a cortar a Cisjordânia
Eu e o Carlos Aranha percorremos a cidade de lés a lés e fomos à descoberta do resto do país, visitámos Tel Aviv, fomos a Haifa, no norte, conhecemos Nazaré, estivemos em Beersheba, ficámos uns dias em Elat para darmos uns mergulhos no Mar Vermelho. Israel pode ser um país encantador, culturalmente riquíssimo, tanto quanto pode ser um local horrível onde povos inimigos se matam metódica e encarniçadamente. E é tão estranho que seja assim… como pode um povo que passou pelo Holocausto ser, assim, tão duro com outro? Ou será que é precisamente por isso que, hoje, os judeus preferem matar a correrem o risco de voltarem a ser alvo de extermínio colectivo? Um dos locais que mais me impressionou foi o Museu Yad Vashem, em Jerusalém, erigido em memória dos que foram mortos pelos nazis. É um museu sui generis, um espaço de vários hectares, com jardins e vários pavilhões temáticos. Tudo o que está ali foi concebido para provocar emoções… o labirinto de Babi Yar, por exemplo, mexe com os nervos de qualquer um. É um labirinto, ao ar livre, constituído por imensos blocos de granito. Em cada bloco, o nome de uma ou mais comunidades judaicas exterminadas pelos nazis.São tantos nomes escritos na pedra… os caminhos desse labirinto levam, forçosamente, ao centro da estrutura onde está um banco de pedra em frente à pedra de Babi Yar, uma localidade russa que os nazis riscaram do mapa e onde não sobreviveu um único membro judeu. Quem se senta naquele banco, sente uma tristeza imensa, uma angústia esmagadora, indisfarçável.Outro local que jamais esquecerei, em Yad Vashem, é o pavilhão dedicado às crianças mortas nos campos de concentração nazis. Dirigi-me para lá, convencido que ia ver um montão de fotos de meninos e meninas esqueléticas, de cadáveres amontoados, de carinhas tristes… mas, no interior, mal entramos, fomos envolvidos pela escuridão imensa, impenetrável. Uma voz aconselhou-nos a tactear um corrimão e a caminharmos pela escuridão apoiados nessa trave. Começámos a caminhar, devagar, apareceram umas luzinhas de vela ao longe, primeiro uma, duas, três… chegaram às centenas. Por cada luzinha trémula, ouvia-se a voz dizer um nome e uma idade: João, 3 anos… Inês, 5 anos… Maria, 6 meses… Joaquim, 7 anos… Ana, 11 anos… Manuel, 9 meses… Sofia, 6 anos… António, 10 anos… Joana… uma vertigem, uma coisa horrível, as lágrimas irreprimíveis… no final do corrimão, a porta abriu-se e entrou luz do dia, violenta, que iluminou o porteiro… um homenzinho muito magro, vestido com umas calças e um casaco cinzento às tiras pretas, que ao esticar o braço para segurar a porta aberta destapou um número tatuado no antebraço… e que nos disse “obrigado por terem vindo”.

sexta-feira, abril 07, 2006

A semente do diabo

Quinta-feira foi Dia Internacional de Sensibilização para o Perigo das Minas e a Assistência à Acção Antiminas… uma efeméride com um nome demasiado extenso. A não ser que o tamanho do nome esteja relacionado com a dimensão do problema… lendo umas coisas, fiquei a saber que se estima em 110 milhões o número de minas por explodir em todo o Mundo… ontem, realizaram-se vários eventos para protestar contra a utilização cobarde desta arma, que mata mais civis que militares, mais crianças que adultos, mais mulheres que homens… porque são os civis que ignoram onde as minas foram colocadas, porque enquanto o rebentamento de uma mina decepa uma perna a um adulto, corta uma criança ao meio, porque nos países do Terceiro Mundo, os que estão mais minados, são as mulheres que trabalham nos campos e acabam por pisá-las…

ontem, em Trafalgar Square, Londres

Segundo uma nota de imprensa divulgada ontem, pelas Nações Unidas, 20 mil pessoas morrem, anualmente, porque pisaram onde não deviam. Uma merda…mas os lamentos sobre o fabrico e uso de minas anti-pessoal fazem-me lembrar as políticas cínicas da luta anti-tabagista ou anti-alcóol. É tudo muito mau, continuam a morrer pessoas por causa desses negócios, mas eles continuam, porque dão empregos, porque pagam impostos, porque os lobbies permanecem fortes e actuantes. Ao longo dos anos, vi muitos mutilados por causa das minas. Principalmente em Angola e Moçambique, mas também no Sudão, na Bósnia, no Congo.
Em 1997 fiz uma grande reportagem sobre o tema, em Angola. Sempre foi um assunto que me interessou e, se têm lido os textos que deixo por aqui, sabem que tive alguns “encontros imediatos” com a “semente do diabo”.
Aqui fica o relato de mais um:
Quando, em 1997, Kofi Annan visitou Angola, foi ao Cuito. Foi recebido por uma multidão de amputados, soldados e civis, homens, mulheres e crianças, vitimados pelas minas terrestres. Nesse dia, choveu a cântaros. Bátegas de água, pesadas e densas como são as chuvadas tropicais. Sempre que começava a chover, o povo refugiava-se nos escombros dos edifícios circundantes da praça central do Cuito, onde estava o palanque onde Kofi Annan haveria de subir para se mostrar ao povo e discursar as habituais palavras sensatas e inúteis.
O grupo de jornalistas que acompanhava a visita do Secretário-Geral da ONU viajava num avião que antecedia o avião da comitiva oficial. Chegámos ao Cuito duas horas antes… e, por isso, apanhámos com muita chuva…
Entre o grupo estava o enviado-especial do jornal Público, Pedro Rosa Mendes. Quando caiu a primeira carga de água, o povo fugiu para os alpendres das casas arruinadas. Em pouco tempo, deixou de haver espaço livre para mais alguém se abrigar da chuva. Olhei à volta e vi uma casa vazia… e disse ao Pedro para irmos para lá, que ali havia espaço. Atravessámos a praça a correr e entrámos de um salto para dentro da casa. As paredes esburacadas de tiros de obus, o tecto caído, destroços por todo o lado… e começámos a ouvir gritos vindos da rua: “aí tem mina!”, “aí tem mina!”…
Era por isso! Porque aquela casa ainda não tinha sido desminada, ninguém se refugiava nela. Tinha de haver alguma razão, estúpido, pensei para mim próprio. Olhámos para o chão, como se fossemos ver a mina armadilhada ali mesmo à frente… mas vimos as nossas pegadas no pó da tijoleira… e foi por ali mesmo, pisando nas próprias pegadas, que saímos, inteiros, para a chuva que continuava a cair.

quinta-feira, abril 06, 2006

Guiné Bissau, a guerra civil - o monopólio da RTP

Com a nossa entrada em Bissau, terminava o exclusivo da RTP sobre os acontecimentos na Guiné-Bissau. A partir desse dia a SIC passou a ter reportagens diárias sobre os acontecimentos daquela guerra, assim como o jornal Público. Mas, nos primeiros dias, as minhas reportagens eram apenas sonoras e as do jornal Público não tinham as fotos do Bruno Rascão. É que a RTP não nos autorizava a usar as suas instalações para efectuar o envio de imagens via satélite. Não se pense que se tratava de uma borla. Seria um serviço pago, claro. De modo que, era como se a RTP estivesse a recusar atender um cliente, apenas para defender um pretenso direito ao exclusivo. De modo que, enquanto em Bissau nós filmávamos uma guerra, em Lisboa estalou uma outra guerra entre a SIC e a RTP. Ao fim de uns dias, o Emídio Rangel conseguiu desbloquear esses entraves mas, julgo, foi preciso recorrer ao Governo para resolver a situação. O problema do Público era outro… é que o Bruno tinha deixado no Senegal o laboratório portátil de revelação… e, em Bissau, não havia modo de revelar rolos fotográficos, nem de os imprimir… mas, uns dias depois, no Centro Cultural da Embaixada de França, na divisão onde dormia o embaixador francês, o Bruno encontrou líquidos reveladores e equipamento para fazer a impressão das fotos. De facto, o embaixador dormia na câmara escura do Centro Cultural… a embaixada tinha sido abandonada, por estar muito próximo da frente de batalha e já ter sido atingida várias vezes por tiros de morteiro. Depois disso, o Bruno passou a imprimir quatro ou cinco fotos por dia, sem interromper a sesta do senhor embaixador e o Carlos Aranha filmava as fotos alinhadas no chão. Essas imagens seguiam no final da nossa reportagem diária e depois, em Carnaxide, as imagens das fotos eram, finalmente, passadas para papel e publicadas no jornal…... era total a colaboração entre as equipas de reportagem da SIC e do jornal Público, naquelas circunstâncias. Partilhámos tudo: carro, casa, comida, histórias. O que nós mostrávamos na pantalha, aparecia melhor explicado, no dia seguinte, na prosa do Pedro Rosa Mendes. Foi uma coisa rara…

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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