Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
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sábado, outubro 22, 2011

DIGNIDADE (reportagem no Sudão)

quarta-feira, junho 10, 2009

Sr. Comendador





Entre os condecorados deste 10 de Junho, há pelo menos um que merece a distinção. Chama-se Alfredo Neres e é padre missionário, Comboniano. Conheci-o no norte do Congo, em Bondo. Já aqui escrevi sobre ele. Convido-vos a reler estes três posts - primeiro, segundo, terceiro - escritos em 2006, mas que revelam quase tudo o que sei sobre Alfredo Neres. Gostava de o ver no meio dos figurões (ex-ministros, almirantes, artistas da moda, catedráticos e outros doutores) que com ele vão receber a comenda. Tímido, meio desajeitado, Neres vai suar as estopinhas e desejar estar lá no mato, entre os seus, que já há muito tempo lhe dispensaram o merecido reconhecimento e amizade.

sexta-feira, dezembro 22, 2006

Carta ao menino Jesus

"Meu querido Menino Jesus,
Quando era puto, ensinaram-me que és tu que trazes os presentes na noite de Natal. Depois apareceu esse velhote de barbas brancas vestido à Benfica – que mau gosto! – a distribuir as prendas. Não tenho nada contra ele, mas o pai-natal é cada um de nós, porque «é Natal quando cada um quiser».
O Natal é o teu dia de anos! Às vezes esquecemo-nos disso… Tem piada: fazes anos e dás os presentes. És bué fixe. Por isso é que resolvi escrever-te alguns pedidos.
Antes de mais, quero que abençoes a pessoa que está a ler esta carta. Sabes? Gosto muito dela. Enche-a da tua paz e deixa-lhe um 2007 cheio de bondade!
Depois, peço a tua bênção para as crianças do Mundo. O Evangelho conta que nasceste fora da cidade, entre os excluídos, e que foste refugiado no Egipto para escapar à violência invejosa de Herodes. Há milhões de menores traficados, escravizados, forçados a pegar em armas ou a entrar na prostituição. Nunca vão ser meninos! Cuida deles de uma forma especial. Sobretudo das crianças do Darfur, da Palestina, do Iraque que (sobre)vivem e crescem no meio da violência e da morte.
Recorda-te também das pessoas do Sul do Sudão. Andam ocupadas a reconstruir as vidas depois de 20 anos de guerra. Muitas sentem-se frustradas. Que ultrapassem o ódio e os desejos de vingança! E que os dirigentes usem os recursos humanos, económicos, naturais, sociais e culturais para o bem comum. Sabes? Aqui dizem que a sigla GoSS – Governo do Sul do Sudão em inglês – também quer dizer Government of Serf Service, Governo de Auto Abastecimento!
Abençoa a equipa que está a iniciar a Rede Católica de Rádio do Sudão. Ser boa notícia neste contexto é um desafio enorme. Dá-nos audácia e coragem. E um forte sentido de equipa.
Com a tua ajuda, que os vizinhos descubram que os amas através das missionárias e dos missionários que vivem no espaço chamado Comboni House.
Para mim, já me deste tanto que até tenho vergonha de te pedir mais. Deste-me esta vida linda, a minha família, os amigos, a família comboniana… Faz que me sinta feliz no calor e no pó desta cidade em ebulição. É pedir muito?
Ah! Não te preocupes. A minha casa não tem chaminé e eu não uso sapatos. Só sandálias! Por isso, deixa os presentes no corredor à porta do meu quarto!
Um xi-coração do teu mano Zé."

Carta escrita pelo meu amigo José Vieira que está no Sudão a fazer pela vida dos outros.

sexta-feira, outubro 13, 2006

na página 11

da Revista Além Mar deste mês, sou eu que escrevo. Entrem no sítio, à esquerda do ecrã cliquem na secção ContraPonto.

quarta-feira, outubro 04, 2006

Pão quente

Já escrevi sobre Renato Kizito aqui e, também, sobre Nairobi. Mas o velho missionário tem uma obra vasta. Hoje, vou falar-vos do Kivuli Center, um abrigo para crianças de rua. É lá onde Kizito mora, num quarto com vista sobre o pátio onde os miúdos brincam no intervalo das aulas. Dezenas de crianças encontram ali uma casa. Não encontram uma família… embora Kizito seja pai e mãe daquela malta.

Renato kizito

Os miúdos têm roupa decente para vestir, têm educação escolar e religiosa, alguns ainda têm a sorte de aprender uma profissão às custas de patrocínios que Kizito procura obter incessantemente. A falta de dinheiro é a maior aflição do missionário. Dar de comer a dezenas de rapazes, vesti-los e calçá-los, manter o edifício de pé e com um mínimo de goteiras possível, custa uma fortuna.


Um dia, Kizito teve uma ideia brilhante. Engatou um amigo de infância, padeiro de profissão, a ir passar uns meses a Nairobi. Já reformado, tempo não faltava ao velho padeiro. Kizito teve o cuidado de o prevenir sobre as condições em Riruta, o bairro degradado onde vive. Mas o amigo foi.
O padeiro italiano ensinou os miúdos mais velhos a fazer pão. Belos cacetes de pão italiano que passaram a ser vendidos à porta do Centro, na rua enlameada. O negócio foi um sucesso. O problema, então, passou a ser como garantir os fornecimentos de farinha e fermento, de modo a não falhar na produção.


Agora, já sabem. Se forem a Nairobi e se vos apetecer pão quentinho e estaladiço, têm de ir a Riruta, um dos imensos bairros de lata de Nairobi. Os carros dificilmente entram nas ruelas do bairro, mas não há que enganar. Terão de caminhar e… seguir o cheiro a pão fresco. Garanto-vos que será uma experiência e tanto.

segunda-feira, setembro 18, 2006

As aparências iludem

Até pode parecer que ando a organizar a papelada da minha vida, mas não. Acontece que, volta e meia, remexo nas coisas e “descubro” velhos episódios…
Agora, encontrei o passepartout que o SPLA emitiu quando fui ao Sudão pela 2ª vez.
Estava num dossier, no meio de papelada diversa onde predominam documentos relacionados com a minha saída da SIC em 2003. Essa é uma outra história que vos contarei um dia destes…

O interessante sobre este documento do SPLA é o carimbo que o autentica. Em tinta roxa, certifica-se que o documento que me autorizava a viajar foi passado pelo Sudan Relief and Rehabilitation Association, uma ONG sedeada em Nairobi, no Quénia, que alegadamente se dedicava às crianças órfãs da guerra civil sudanesa. De facto, a sede da SRRA era a “embaixada” do SPLA no Quénia. Era, ainda, através desta ONG que o SPLA administrava boa parte do dinheiro doado pelos seus amigos ou aliados para a sustentação da guerra.Foi fácil obter este documento, sem o qual não teria conseguido viajar. Foi fácil porque quem solicitou a autorização foi a Igreja Católica, através da Diocese de Rumbek, uma cidade importante no sul do Sudão, cujo Bispo, um italiano, vivia refugiado em Nairobi.
Às vezes, encontramos apoios onde menos se espera, não é?

A segunda foto é um recuerdo dessa viagem. À minha direita está Dorinda Cunha, a heroína dessa história que contei num documentário intitulado "Missão Impossível", exibido na SIC, trabalho que mereceu o prémio Jornalismo Contra a Indiferença atribuído pela AMI.

quarta-feira, julho 12, 2006

Congo, Bambilo. Mãe muito velha

Todos os dias, Claudino atravessava a aldeia para chegar à última casa. Era uma habitação redonda, de pau a pique e telhado de palha. Uma casa muito pobre, a precisar de reforma. Vivia ali uma família. Duas irmãs e o filho de uma delas. As velhotas eram mesmo muito velhas, centenárias, o próprio filho já não era um jovem. Era a família mais pobre da comunidade. O homem tinha ficado aleijado há anos e era incapaz de fazer o que quer que fosse para procurar sustento para si e para as duas mulheres. Elas, eram uma imagem terrível. Cegas, muito magras, mal se mexiam.Claudino atravessava a aldeia, todos os dias, para passar umas horas com as velhotas. Pelo caminho, roubava sempre qualquer coisa. Um cacho de bananas, um ananás, uma raiz de mandioca, qualquer coisa que lhes pudesse servir de alimento.
Arrastava as velhas para fora da palhota, para que elas pudessem respirar ar fresco e apanhar um pouco de sol e vento. E ficava ali a conversar com elas. Falavam kizande, nunca percebi uma palavra do que diziam. Mas acho que lhes contava histórias alegres, porque elas riam.

sábado, junho 24, 2006

Congo, ano 2000. Philippe

Já vos contei que Alfredo Neres é um homem de fibra. Penso mesmo, de resto, que a maioria das pessoas que o rodeavam eram tipos corajosos. Ter coragem era condição sine qua non para se estar ali. Eram, todos eles, tipos esforçados e dedicados à causa. Mas nunca tive a noção exacta do que era aquela causa, até ter falado com o chefe daquele posto missionário, Philippe Nkiere Kena, um congolês do sul, nascido numa aldeia perto da fronteira com Angola.Philippe era bispo, um príncipe da Igreja Católica. E portava-se como tal. Penso que enfrentava as adversidades e as armas de fogo com uma serenidade só possível quando se tem a certeza de que os outros nos temem, mesmo aqueles que empunham as tais armas de fogo.
Fiz-lhe uma pequena entrevista, que já não me lembro se incluí no documentário realizado para a SIC, mas que publiquei na revista dos missionários Combonianos, a Além Mar. Foi uma conversa curta e, portanto, lê-se em dois minutos… lembrei-me, agora, que esta entrevista que vos convido a ler, serve de resposta a uma questão que me colocaram no passado dia 4 de Fevereiro, num comentário a um texto: "Estes homens e mulheres estão espalhados por toda a África. A igreja católica tem desempenhado um papel útil, em África, a meu ver, em tempos ferozes...Quero lá saber se vêem na Senhora de Fátima uma entidade animista, o que era bom é que ela servisse para de alguma forma unir povos. Tens tido imenso contacto com estes missionários, por todo o lado, já percebi. Gostava de saber a tua opinião sobre isto; sobre o papel que poderiam desempenhar numa espécie de pedagogia da união, se é que isso faz algum sentido." Pois, a resposta está, realmente, na entrevista que podem ler nos arquivos da Além Mar.
Philippe Nkiere Kena tem uma grande dimensão humana. A igreja reparou nisso, obviamente, e já tratou de o promover. Se, um dia, houver um papa negro há-de ser alguém como este Philippe.

sexta-feira, junho 23, 2006

Congo, ano 2000. O lar em Bondo

A maioria das pessoas tem um medo de morte de aranhas e outros bichos rastejantes. A casa em Bondo era uma espécie de santuário de aranhas e térmitas. Havias duas espécies de aranhas, qualquer delas grandes… assim, do tamanho de metade da mão de um homem. Bastante grandes, para aranhas…Uma das espécies, a mais abundante por sinal, pareceu-me aparentada com tarântulas. Eram umas aranhas felpudas, escuras, com abdómem inchado e, algumas, carregavam ovos no dorso. Não me pareceu que vivessem em teias, preferiam antes os cantos mais escuros e frescos da casa, especialmente atrás das portas. Morria de medo daquilo e, sempre que me deitava, olhava primeiro para debaixo da cama, porque achava que se elas se deitassem comigo me poderiam morder… mas nunca me fizeram mal. De resto, os missionários disseram-nos que faziam questão em não lhes tocar. Eram uma espécie de vacas sagradas, porque comiam os mosquitos, esses sim, muito mais perigosos por causa da malária.
Quando me deitava, à noite, punha os sapatos em cima da cama, por cima do lençol, porque tinha medo que se ficassem no chão alguma aranha poderia considerá-los uma boa residência e, de manhã, ao enfiar o pé… a bicada mortal! Além disso, tentava prender o mosquiteiro por debaixo do colchão, de modo a proteger-me melhor de alguma aranha que quisesse escalar a cama.
Enfim, um tormento. Levei muitos dias a habituar-me aquela convivência.

quinta-feira, junho 22, 2006

Congo, ano 2000. A vida em Bondo

Os missionários dispensaram-nos uma das suas casas, num dos bairros periféricos de Bondo. Não era uma mansão, como se vê pela foto, mas tinha o conforto mínimo: cama com mosquiteiro e um balde furado para servir de duche. Quanto à água, era preciso ir buscá-la a um poço ali perto. Foram umas semanas divertidas. Quando não estávamos a filmar, ficávamos por casa. A miudagem do bairro depressa dava pela nossa presença e o descanso virava algazarra. Os miúdos nunca se cansavam de brincar connosco. Às vezes pediam coisas, mas nunca insistiam muito. E o que eles mais pediam era precisamente aquilo que mais falta me fazia: papel de escrever e lápis… A porta não tinha fechadura, mas nunca desapareceu nada.As refeições eram na missão católica, com todos os outros padres. Em Bondo há, também, uma casa de madres missionárias, todas africanas curiosamente, mas homens e mulheres não se misturam, conforme manda a tradição. Excepto em ocasiões especiais… como foi o caso de uma reunião que se realizou em Bondo, por aqueles dias, com dezenas de convidados vindos de vários lugares do norte do Congo, onde eles discutiram os problemas das comunidades a que pertenciam e delinearam tácticas de actuação. Quando havia muitos convidados, as freiras viravam donas-de-casa e dedicavam-se a cozinhar… Nunca passamos fome, mas comemos mal muitas vezes. A comida era assegurada por um dos acólitos, um branco italiano que vivia ali em regime de voluntariado e que se dedicava a caçar e a organizar a pesca, de modo a garantir o sustento de um numeroso grupo de padres e freiras. Às vezes, o homem não caçava nada. Macaco era quase garantido… e, um dia, até uma águia foi parar à panela para uma bela canja… a pesca também dependia da sorte da faina e, naqueles dias, em plena época seca, o rio corria com pouca água e o peixe escasseava. A faina era realizada por uma família de pescadores locais, a quem os padres forneciam os apetrechos a troco de uma percentagem do pescado. Só que, às vezes, o peixe era tão pouco que os pescadores ficavam com tudo e ainda passavam mal. A penúria alimentar da população era evidente na escassez de alimentos postos à venda no mercado. Dezenas de bancas vazias, algumas com uns peixes do rio, volta e meia aparecia alguém com uma gazela morta a tiro ou um macaco caçado com arco e flecha, umas senhoras vendiam vegetais e era tudo para uma população de milhares de pessoas. Uma pobreza danada numa terra cheia de ouro e diamantes.

quarta-feira, junho 21, 2006

Congo, ano 2000. Bondo

Ao final da tarde, Bemba voltou para o seu avião e levantou voo de regresso a Gbadolite. Só então, Neres e os miúdos da escola puderam respirar de alívio. Fiquei ali, com o Odacir Júnior. Bondo é uma pequena cidade no norte do Congo, na Província Equatorial. A localidade teve o seu auge nos anos 50, quando foi um dos principais entrepostos comerciais da região. Foi ali que se estabeleceram três principais comunidades. Os belgas eram os donos da terra, exploraram grandes fazendas de café. Os gregos e os portugueses dedicavam-se ao comércio. Os locais trabalhavam para os brancos… claro. Julgo que Bondo chegou a ter largas centenas de brancos residentes. Também foi ali que a Igreja Católica estabeleceu um grande centro missionário. Pela dimensão das instalações e pelo número de celas (quartos), acredito que Bondo deve ter tido dezenas de missionários que, a partir dali, pregavam a fé pelas aldeias vizinhas. Cinquenta anos depois, Bondo ainda revela esses sinais da antiga importância social e administrativa. Ao longo das duas ruas principais, as antigas lojas de gregos e portugueses ainda lá estão, embora já sem gregos nem portugueses e, também, sem nada que se possa comprar ou vender, excepto numa onde se compra ouro e diamantes. É, de resto, a única loja que permanece aberta, no largo do mercado. De todas as antigas lojas de portugueses, há uma que ainda exibe um velho letreiro publicitário metálico, pintado com as letras “Casa Nogueira”. A ferrugem vai acabar por dissolvê-lo, mas no ano 2000 ainda lá estava. Em frente ao mercado, a catedral. Construída nesses anos 50, feita de tijolo cozido ao sol, é uma construção imensa para os padrões locais. Quando lá estive, não tinha telhado. Mas sei que já o reconstruíram, entretanto. Preferia ter encontrado um hospital em condições, confesso. O hospital de Bondo, que também é gerido pelos missionários, estava limpo. Limpo de pó e limpo de equipamentos, de pessoal médico, de medicamentos. Apenas as paredes tinham resistido às consecutivas pilhagens proporcionadas pelos avanços e recuos dos exércitos em conflito na guerra civil. Ainda assim, era ali que havia algum apoio para a população, nomeadamente para parturientes e doentes com malária. Mete raiva pensar que as sociedades desenvolvidas desperdiçam tanto e que, ali, em locais como aquele, a única coisa que se desperdiça é boa vontade e sorrisos.

segunda-feira, junho 19, 2006

Ainda sobre os mais velhos

Em muitas sociedades indígenas, e mesmo em sociedades modernas mas pouco desenvolvidas em termos industriais, o papel dos velhos é da maior importância. Ninguém sabe mais do que eles. Pelo que tenho lido, mas também pelo que tenho assistido, a sobrevivência de muitos povos depende dos ensinamentos que os velhos transmitem. Talvez seja por isso que, em muitas dessas sociedades, a idade não tem importância. Tomei consciência disso mais do que uma vez. Por exemplo, quando estive com Dorinda Cunha, no sul do Sudão, a missionária serviu de intérprete nas entrevistas que fiz com a população de Marial Lou, a aldeia dinka onde Dorinda vivia e, numa dessas entrevistas, a dada altura perguntei à senhora com quem falávamos que idade ela tinha. Dorinda hesitou e não fez a pergunta. Virou-se para mim e disse: “Eles não sabem. Isso não tem importância nenhuma”.No sul do Sudão, importante era saber com alguns dias de antecedência quando ia chover, o tempo suficiente para preparar o chão e deitar-lhe as sementes, importante era, também, perceber a tempo quando algum animal estava doente de modo a evitar a contaminação da manada, importante era ter muitos filhos e saudáveis e saber cuidar deles e ensinar-lhes a conversar com os deuses, as marcações dos rituais, o manejar da AK-47. Tudo coisas que os velhos sabem melhor do que ninguém.
Só nas sociedades nómadas e nas industrializadas, os velhos se tornam empecilhos. Nos nómadas, porque não conseguem acompanhar o andamento do grupo. Nas industrializadas, porque convencionou-se que o tempo é dinheiro e, assim, como a maioria de nós não tem dinheiro, acabamos por não ter tempo para os nossos velhos. E porque pensamos que não temos nada para aprender com eles.

quarta-feira, junho 07, 2006

Dignidade

Em muitos territórios africanos, os missionários católicos introduziram a necessidade do uso de roupa. Onde as pessoas andavam nuas ou quase, os missionários ensinaram o que era vergonha e decência e criaram mais um problema que, depois, não foram capazes de resolver. Hoje, esses povos andam tapados com trapos, indecentes e sujos. Perderam a dignidade que ostentavam com a exibição orgulhosa dos corpos vestidos de tatuagens e pinturas.
A foto em baixo é de Leni Riefensthal.

domingo, abril 30, 2006

Pontes

Sabiam que os portugueses andaram a construir pontes pela Etiópia? Eu não fazia a mínima ideia... leiam quem sabe do assunto.

terça-feira, janeiro 31, 2006

Carta de Manila, 5ª parte (e última...)

A minha experiência. Chegado aqui a Manila tive que começar a trabalhar. O colega que estava a dirigir a revista World Mission tinha que voltar para Macau, para substituir outro colega português destinado à rotação em Portugal.
Não houve tempo para grandes adaptações à realidade, nem para estudar a língua. Que é o que mais falta faz. O inglês tem vindo a perder importância por aqui desde a década de oitenta. O meio de instrução mudou e a malta jovem cada vez tem mais dificuldade em exprimir-se em inglês. É comum telefonar para instituições onde a telefonista não sabe responder em inglês. Enquanto os países vizinhos asiáticos estão a fazer um esforço para aprendê-lo, os filipinos estão a esquecê-lo! Embora a revista seja em inglês, seria importante saber tagalog, a principal língua nacional, para comunicar e penetrar melhor na cultura e na vida das pessoas.
Os filipinos dizem-se acolhedores. Naturalmente, segundo cânones diferentes dos nossos. Na realidade são asiáticos e não é fácil entrar nas suas casas, quanto mais nas suas vidas. Parece que é preciso conquistar cada amizade com dedicação ao milímetro. Para eles conta muito a imagem, as aparências. O sorriso é uma espécie de espelho que não deixa ver o que está do lado de lá, de dentro. Muitas vezes dizem «sim», mas já decidiram que é «não».
Uma das piores experiências a este respeito foi com um bispo, muito popular e que conhece bem os combonianos. Telefonei-lhe a pedir um texto para a revista. Fiquei admirado porque acedeu a vir pessoalmente ao telefone. Respondeu positivamente ao meu pedido e deu-me logo o seu número de telemóvel e endereço de e-mail. Pedi-lhe o texto para daí a duas semanas. Mandei-lhe logo de seguida um e-mail a resumir o pedido. Terminado o prazo dado tive a oportunidade de ir visitá-lo com um colega e participar na sua festa de aniversário. Pediu-me mais uma semana para escrever. Passado esse tempo mandei-lhe outro e-mail, que ficou sem resposta; tentei telefonar-lhe, mas depois de reconhecer o número já não atendia as chamadas; mandei-lhe duas mensagens de texto para o telemóvel com semelhante resultado. Tive de atrasar a entrega da revista e mudar de planos. Entretanto, já passaram três meses, e ainda nem uma explicação tive, dele ou de algum secretário! Certamente, não sou tonto ao ponto de me deixar enganar mais alguma vez por ele!
Ainda não percebi o que esperam de nós, missionários. Num breve curso de introdução à realidade em que participei alguns convidados responderam: «nada»; enquanto outros disseram: «carinho e compreensão, porque fomos muito enxovalhados pelos colonizadores!» Fica-se com a impressão de que a aparente auto-satisfação e segurança é uma forma cultural de encobrir a fragilidade e a deficiente auto-estima.
O trabalho na revista é exigente. Em geral, quando vos levantais já eu tenho feito um dia de trabalho (depois da mudança da hora, andamos oito horas adiantados)! Para me ajudar, tenho uma secretária (que também corrige provas) e um paginador, ambos a part-time. O administrador e o difusor da revista também são combonianos portugueses. Os superiores lá terão percebido que isto estava a precisar de uma equipa de gente trabalhadora e de iniciativa. A tiragem anda à volta dos oito mil exemplares. O nosso sonho é torná-la auto-suficiente. O que implicaria um certo crescimento. Vamos lá ver se conseguimos torná-lo realidade.
Quero dizer-vos que vos lembro a todos com muita amizade e gratidão. Peço a Deus que vos cumule dos seus dons, a começar pelo da saúde.

José António M. Rebelo

nota final: publiquei esta carta em cinco partes. Poderão consultá-la a partir destes links: dia 25, dia 26, dia 27 e ontem. Visitem também o link que está no início deste post, para ficarem a conhecer o trabalho deste meu amigo.

segunda-feira, janeiro 30, 2006

Carta de Manila, 4ª parte

Passatempos. O passatempo preferido dos filipinos é andar nos Centros Comerciais. Fazem fila para entrar logo às 10 da manhã. Não admira: pelo menos é onde podem ter ar condicionado de borla (e não só ventoinhas, como nas igrejas). Com as temperaturas que se registam por estes lados e o alto índice de humidade, é dos lugares onde estão mais frescos! A cadeia de SM (o nome original evoluiu de «Shoe Maker» para «Super Mall») é a mais numerosa. São enormes e em contínua expansão. Dão para tudo: até para “assistir” à missa ao Domingo (frequentemente num átrio e não numa capela).
Os filipinos são, segundo as estatísticas, os mais religiosos dos asiáticos (para já evito a palavra católicos!). E o que é curioso, também os mais corruptos (deixemos a discussão se existe ou não alguma relação entre as duas coisas para outra ocasião!). Aos Domingos, pelo menos, invadem as igrejas em vagas sucessivas para participar nas muitas missas que são celebradas e fazer as suas devoções.
Durante a novena de Natal, a maioria levanta-se ainda noite cerrada para participar no Simbang Gabi (as Missas que têm que começar e acabar de noite, e nos velhos tempos coloniais permitiam às pessoas assistirem à missa antes de irem para os campos). Em geral, são às 4.30 da manhã e registam a participação de autênticas multidões. O desporto nacional, diz-se, é comer. Qualquer actividade deve incluir uma «bucha», pelo menos. Há muitos e variados pratos, mas o arroz branco sem qualquer condimento é o acompanhamento de qualquer refeição. Devo confessar que ainda não o vi cozinhar. Mas a avaliar pela pasta compacta que vem para a mesa sou levado a pensar que gastam mais água a cozê-lo do que a cultivá-lo! Enfim, um dos casos em que a imaginação e a arte escasseiam!

(continua)

sexta-feira, janeiro 27, 2006

Carta de Manila, 3ª parte

"A aventura do trânsito. O que mais impressiona, chegando aqui, é o caótico trânsito, verdadeiro teste à paciência dos nativos, quanto mais dos estrangeiros! Não respeita qualquer regra: é comandado pela necessidade e o livre arbítrio. Algumas vezes assinalados pela mão de fora. Deve ser a única recomendação que os vendedores de Cartas de Condução dão aos seus clientes!
Os senhores da estrada são os «jeepneys», uns autocarros feitos à imagem e semelhança dos jipes americanos do tempo da segunda guerra mundial. Têm dois bancos laterias a todo o comprido. O pagamento passa de mão em mão até chegar ao condutor, que depois devolve o troco da mesma maneira (se o passageiro for estrangeiro, tentará esquecer-se!). São o principal transporte público e a eles se deve o congestionamento das vias: param onde lhe dá na real gana e guinam em todas as direcções sempre que podem e for necessário. Os condutores devem ser gente patriótica: num tempo em que a Presidente tem apelado à poupança de energia é comum encontrá-los de noite com as luzes desligadas!
Depois há alguns autocarros vindos da sucata do Japão e da China – os chamados «caixões ambulantes», pela ameaça que representam. Apesar de andarem meios «delapidados», voam a baixa altitude. E os passageiros saltam nos bancos de madeira. Menos agressivos há os táxis e os «trycicles», as motos-táxi com a caixa lateral para os passageiros. Os peões antes de se atreverem a cruzar a rua devem ganhar coragem e fazer uma acto de fé.
Todos estes veículos queimam galões de óleo e exalam nuvens espessas de dióxido de carbono, que dá cabo da saúde dos cidadãos e chega a impedir a visibilidade dos condutores dos outros veículos. Pelos vistos, todos passam na inspecção, à excepção do nosso novo Ford! Com uns pós de várias cores nos canos de escape podiam conseguir um efeito visual extraordinário, mas ainda não se lembraram disso! Antes de se sair de casa é conveniente pensar bem antes de tomar uma decisão tão grave, de que geralmente nos arrependemos. Consomem-se horas nas filas de trânsito e para se ter a certeza de chegar a tempo a qualquer lado é preciso sair com muita antecedência. Por isso até agora tenho optado muito pela vida caseira."

(continua)

quinta-feira, janeiro 26, 2006

Carta de Manila, 2ª parte

"Nesta República, o que conta é a solidariedade familiar, na política como no resto: quando um familiar é eleito ou promovido para qualquer cargo de responsabilidade, comem todos; quando faz uma asneira, pagam todos! Não há escândalo com isso.
O sistema favorece a corrupção. A Presidente distribui com liberalidade, como se fosse a dona da massa. Que não se percebe de onde vem. O dinheiro do Estado é distribuído não pelas regiões ou pelos municípios, mas pelos deputados, a quem serve para manterem a sua clientela e para mostrarem aos eleitores alguma obra feita. Por exemplo, o Presidente da Câmara da cidade onde vivemos, Parañaque, acabou de fazer novos passeios. Pois bem, em cada ladrilho mandou imprimir em letras garrafais as iniciais do seu nome, «JB», para que os eleitores não se esqueçam no momento de votar. Mas, se por acaso não o reelegerem, o próximo já terá aplicação para os fundos: tapar o nome do anterior!
Os filipinos são um povo migrante. Qualquer emigrante é a fonte se subsistência da família: quem fica já não precisa de trabalhar. Basta-lhe ter um telemóvel para lhe mandar regularmente mensagens a lembrá-lo do sagrado dever de mandar remessas. A alternativa é arranjar um ancião americano rico através da Internet, que garanta o futuro das garotas a troco de lhe servirem de bengala!"

"São os emigrantes – e não as politicas da senhora Glória Arroyo e da sua comandita – quem está a aguentar o peso (a moeda nacional) e o país. As suas remessas devem bater este ano o recorde de 10 mil milhões de dólares. Estou em crer que a Presidente deve passar mais tempo a maquilhar-se e a escolher a indumentária para a fotografia da manchete diária dos jornais (mesmo que não haja notícia correspondente) do que a governar! Não deve haver outro país no mundo onde haja tantas Fundações e organizações não-governamentais com tamanha variedade de projectos em favor dos pobres; e os pobres estão cada vez pior!"

(continua)

quarta-feira, janeiro 25, 2006

Carta de Manila, 1ªparte

Pelo Natal, recebi carta de um amigo, o José Rebelo. Escreveu de Manila, nas Filipinas e fala do país que está, agora,a conhecer. Era uma espécie de “carta aberta”, dirigida não só a mim como a muitos outros amigos dele. Chegou por e-mail e vou, agora, divulgá-la por partes.

I parte.

“Desde o início de Agosto que me encontro nas Filipinas, um arquipélago de sete mil e tal ilhas (o número varia consoantes as marés) e muitas mais maravilhas. Certamente, para muitos, o nome deste longínquo país, geográfica e culturalmente, não desperta particulares memórias, para além das histórias sobre as extravagâncias da Imelda Marcos. A ex-primeira dama perdeu a ‘modesta’ colecção de pares de sapatos, que faziam parte do seu guarda-roupa, mas ainda não deixou de reclamar a propriedade das jóias com que se adornava.
Desde 1986, o povo já desceu à rua para destituir dois Presidentes – em duas notáveis revoluções sociais, que deram ao mundo uma lição de poder popular – e ainda está a decidir se deve ou não destituir a actual, na base de alegadas fraudes eleitorais. Que parecem ser cada vez mais uma evidência, a julgar pela sua obstinada recusa em esclarecer o que se passou! Aos protestos, a administração responde com jactos de água. Até alguns bispos já foram «benzidos». Depois de ter ameaçado com a imposição da Lei Marcial, o Governo ficou-se pelo uso da «resposta calibrada preventiva».
O combate político tem as suas peculiaridades. É feito com orações, procissões e terços à mistura. Pouco a pouco a oposição tem vindo a desgastar a imagem da Presidente, cuja popularidade atingiu nestes dias os seus mínimos históricos. Para deitar abaixo os adversários vale tudo. Só um exemplo ilustrativo: nestes dias, um General na reserva e ex-ministro proclamou-se «Presidente de um Governo revolucionário de transição». Foi, naturalmente, preso por decisão política (!), na base de «Incitamento à sedição»; e os familiares em postos de chefia demitidos, como se fossem responsáveis pela decisão do velhote!”

(continua)

terça-feira, janeiro 03, 2006

A Escola

É uma obra notável, não apenas pela dimensão adquirida ao longo dos anos, não apenas pelo impressionante número de 600 alunos que a frequentam, não apenas pelo facto da escola estar também aberta à alfabetização de adultos, não apenas porque além das letras também se dá sopa naquela escola… mas porque, além de tudo isto, a escola do Padre José Júlio foi erguida no local mais improvável, na ocasião menos possível… é que, naqueles anos, já perto do fim da guerra civil, a guerrilha intensificou as acções militares nos arredores da capital moçambicana.
A Freguesia de Benfica ainda hoje é a última da cidade. Para lá da última casa, era a terra de ninguém, o campo das batalhas. Milhares de refugiados montaram tendas ou ergueram palhotas à volta da Igreja de Santo António. O pequeno bairro periférico transformou-se, por isso, num dos maiores bairros da lata de Maputo, com tudo o que isso acarreta. Pobreza, ignorância, crime e abuso. Tudo isto e mais uma escola.

Quinze anos depois, o Padre José Júlio persegue o mesmo sonho. A escola está lá, mas é preciso mantê-la de pé, não deixar que o telhado das salas de aula tenha demasiadas goteiras, substituir os vidros que se partem, as lâmpadas que se fundem, as tábuas que o caruncho come. É uma luta que não dá tréguas. É uma guerra quase sem aliados. Estranhamente, as ajudas são poucas. Para além da caixa das esmolas da igreja, quase nada mais existe. O Estado moçambicano não tem o suficiente para as escolas públicas, quanto mais para apoiar escolas privadas, mesmo que sejam de missões religiosas. Talvez, o Estado português pudesse ajudar… mas também parece que não. Quando o Padre José Júlio construiu a escola, o Instituto Camões forneceu uma pequena biblioteca. E ficou por aí, o apoio institucional de Portugal. Os livros da biblioteca nunca mais foram renovados ou acrescentados, sequer. E não deixa de ser verdade que é português que se aprende na escolinha da Igreja de Santo António de Benfica.

Curiosamente, o dinheiro que possibilitou a construção da escola foi doado pela cooperação norueguesa.

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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