Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











sábado, junho 10, 2006

Congo, ano 2000. Meninos sem aniversário

Ainda sobre Jean Pierre Bemba
O quartel-general do MLC, em Gbadolite, estava guardado por crianças soldados.
Era um grupo de meia dúzia de miúdos, o mais novo andava pelos doze anos e pouco mais alto era que a kalashnikov que carregava nos braços.
O recrutamento de crianças para combater é velho como o Mundo. Mas, hoje, é uma prática condenada pelo Direito Internacional. E, no entanto, os senhores da guerra que continuam a incentivar essa prática nunca foram incomodados por esse facto.

menino-soldado do MLC, em Bondo

A organização católica PIME, que tem muitas missões em África, diz que “as meninas representam 40% dos 300 mil menores envolvidos em conflitos armados em todo o mundo. Estas centenas de milhares de meninas e meninos são obrigados a servir, a trabalhar como espiões, como escravos sexuais, e a morrer no campo de batalha”.

Em documentos da União Europeia, pode-se ler que “no último decénio, os conflitos armados custaram a vida a mais de 2 milhões de crianças, mutilaram 6 milhões, tornaram órfãs 1 milhão e deram lugar a cerca de 20 milhões de crianças deslocadas ou refugiadas. As estimativas actuais falam da existência de cerca de 300 000 meninos-soldados no mundo. Entende-se por meninos-soldados os rapazes e raparigas com menos de 18 anos que façam parte de um exército regular ou de um grupo armado, mesmo que não usem armas. A idade média de recrutamento das crianças-soldados situa-se em redor dos dez anos.”

O Tribunal Penal Internacional considera crime de guerra a participação activa de crianças com menos de 15 anos em hostilidades, bem como o seu recrutamento no exército.

Mas nada disto impediu que a comunidade internacional aceitasse Jean Pierre Bemba como parceiro válido e legítimo para discutir o futuro do Congo e agora, até, para ser candidato à presidência da república. Por outro lado, Bemba é apenas um entre muitos que utilizam desse modo os recursos humanos à sua disposição. Porquê condená-lo? Talvez porque não fosse má ideia começar por algum lado…

sexta-feira, junho 09, 2006

T.P.C.

Todas as noites, depois de chegar da escola, a Sara faz os trabalhos de casa que a professora prescreveu. Contas de somar e diminuir, leitura de textos curtos, preenchimento de espaços em branco em frases incompletas, coisas assim. Gosto de ver como ela progride. Já soletra melhor, com mais rapidez, já entende o texto de modo a conseguir resumi-lo no final. O cálculo mental também está mais agilizado.
Quando a professora deixar de passar trabalhos de casa, como irei fazer para perceber a progressão escolar da Sara? Obrigo-a a fazer mais trabalhos, além daqueles que ela já fez na escola?
Percebo a intenção da ministra, percebo a preocupação de tornar a escola mais igualitária e democrática. Mas acho que se devia começar pela obrigatoriedade do uso da bata escolar nas escolas públicas (o que não acontece na escola da Sara). O uso da bata esbate as diferenças sociais. As crianças ficam mais iguais entre si, mesmo se por baixo da bata umas vestem roupa de marca e outras roupa do supermercado. Essa talvez devesse ser a primeira medida.
Quanto ao resto das medidas anunciadas ultimamente, no âmbito do Plano de Enriquecimento Curricular do 1ºciclo, agrada-me a introdução das actividades desportivas e do ensino musical, embora note que existe uma contradição com as intenções democratizantes da ministra. É que se as novas actividades, tal como o inglês, não fizerem parte do currículo escolar, só alguns terão acesso a elas: os filhos dos mais ricos. Além de que não percebo como se podem obrigar as escolas a proporcionar actividades extracurriculares.

quinta-feira, junho 08, 2006

Paquistão, Peshawar, 2001. Hospitalidade

Em Peshawar, uma parte da cidade é ocupada por população afegã. A colónia tem até nome próprio, qualquer coisa que se pronuncia aproximadamente “cafahan coçon”… enfim, um emaranhado de ruelas labirínticas onde os refugiados recriaram um ambiente típico, onde é proibido filmar ou fotografar mulheres e onde a maioria das lojas vendem as famigeradas burkas.Mesmo sem nunca ter entrado no Afeganistão, ali podemos ter uma ideia muito real de como eles vivem. Falei com vários membros daquela comunidade, todos homens, claro. Alguns eram refugiados antigos, do tempo da guerra contra a URSS. Outros, tinham acabado de chegar. Mas a conversa de todos conduzia para a mesma conclusão: os estrangeiros nunca tinham levado nada de bom para o Afeganistão… e, embora seja difícil entender os hábitos medievais daquela gente, acho que eles têm razão nesse capítulo. Ao almoço fomos convidados para nos sentarmos à mesa, em casa de Haji Abdul Jabbar, um tipo que se portava como chefe da comunidade. Aquele almoço foi o modo dele nos explicar a tradição pashtun de receber quem vem por bem e nunca expulsar de casa um visitante amigo. Em última análise, é ao abrigo dessa tradição que Osama Bin Laden ainda hoje está entre eles.

quarta-feira, junho 07, 2006

Dignidade

Em muitos territórios africanos, os missionários católicos introduziram a necessidade do uso de roupa. Onde as pessoas andavam nuas ou quase, os missionários ensinaram o que era vergonha e decência e criaram mais um problema que, depois, não foram capazes de resolver. Hoje, esses povos andam tapados com trapos, indecentes e sujos. Perderam a dignidade que ostentavam com a exibição orgulhosa dos corpos vestidos de tatuagens e pinturas.
A foto em baixo é de Leni Riefensthal.

terça-feira, junho 06, 2006

Pedro Sousa Pereira

Se Mário Castrim ainda fosse vivo e ainda escrevesse crónicas de televisão, diria que “vendem a prata e ficam com a lata”. Esta frase foi escrita em 1992, quando a RTP permitiu, sem estrebuchar, o êxodo de dezenas de jornalistas para a SIC (com as consequências que depois se viram) e seria hoje aplicada à vontade que os jornalistas da SIC terão em sair dali para qualquer lado.
Vem isto a propósito da saída de Pedro Sousa Pereira da SIC para a Lusa. Bom, a agência noticiosa fica a ganhar um excelente repórter, um fantástico contador de histórias e, creio eu, um tipo íntegro.
Para quem não conhece o Pedro e gostaria de ficar a conhecer, vão à Feira do Livro e folheiem “Paralelo 75 ou o Segredo de Um Coração Traído”. A prosa é do Jorge Araújo, outro excelente repórter, e as ilustrações são do Pedro. É o terceiro livro desta dupla que, curiosamente, se conheceu em plena reportagem em Timor Leste. Pedro Sousa Pereira estava abandonado na SIC. Vivia uma espécie de exílio na sua própria redacção. Agora, os senhores directores vão poder dizer ao patrão que já conseguiram economizar mais mil e quinhentos euros por mês. O patrão vai ficar todo contente e os senhores directores talvez tenham um up grade na próxima renovação da frota automóvel. Que bom. É assim mesmo que se faz televisão.

segunda-feira, junho 05, 2006

Paquistão, Peshawar, 2001. Outra Heroína

Dost significa amigo, no idioma pushtun. É o nome de uma organização paquistanesa que tenta contrariar a pobreza extrema e o consumo de ópio e heroína. Recolhe os sem-abrigo, dá-lhes comida, banho e uma hipótese de auxílio médico. É uma gota de água num imenso oceano de miséria e dificuldades, mas a Dost faz o que pode.
A heroína desta história chama-se Parveen Khan. Sim, é uma mulher. Coisa rara no mundo islâmico, ver uma mulher à frente seja do que for, não é? Andei meses à procura de uma fotografia dela, para vos mostrar, mas não encontrei. Mas o que interessa é saber que ela existe e que tem uma obra para mostrar. E interessa, também, saber que precisa de ajuda, como não podia deixar de ser. Quem puder, quem quiser, pode procurar contactá-la através do link que coloquei logo no início deste texto.
A tarefa de Parveen Khan não tem fim. O ópio e a heroína, no Paquistão, são baratíssimos. Uma dose custa menos que uma garrafa de água mineral. Os paquistaneses fumam, injectam e snifam heroína e ópio. Em Peshawar, os drogados são uma multidão dispersa em pequenos grupos pelas ruas da cidade. Reúnem-se à volta de pequenas fogueiras, onde preparam os cachimbos ou o “caldo”.
A polícia raramente actua. Parveen Khan disse-me que há fortes suspeitas da existência de relações próximas entre a polícia, os políticos e os traficantes da droga que, quase toda, vem do Afeganistão.
Naquela altura, em que conheci Parveen Khan, havia problemas de abastecimento nas ruas de Peshawar. Por causa da invasão americana, dos bombardeamentos, as aldeias tinham ficado desertas e os campos de papoilas abandonados. Mas, hoje, tudo voltou ao normal. O trabalho agrícola, a indústria transformadora e a comercialização do produto. Os americanos não mudaram nada.

domingo, junho 04, 2006

Paquistão, Peshawar, 2001. Heroína

A camara estava no chão, o João Duarte de joelhos, debruçado, espreitava pelo view-finder o melhor enquadramento. Depois levantou a cabeça e disse-me: “acho que é a imagem mais forte em toda a minha vida!” Era a imagem de um homem barbudo, ainda jovem, deitado na via pública. O tipo tinha uma barba escura e a pele suja. Estava no meio de um grupo numeroso de consumidores de heroína, numa avenida de Peshawar, uma cidade paquistanesa junto à fronteira com o Afeganistão. E estava morto, também. Só dei por isso quando vi uma coisa mexer-se por entre os pelos da barba, junto à boca. Era uma mosca… e estranhei aquele sono tão profundo. Depois, reparei nos olhos semi-abertos. Na ausência de respiração. Na rigidez corporal. Aquela “viagem” tinha chegado ao fim.

sábado, junho 03, 2006

Uns tabefes em público

Descobri hoje, no Correio da Manhã, uma guerrinha de alecrim e manjerona entre um tipo que se considera "o máximo do jornalismo português" e o homem que, um dia, lhe deu a mão e o tirou do banco de suplentes. Na RTP, Rodriguinho lia notícias da secção desportiva... quem se lembra?
Hoje, tenta morder a mão que lhe deu de comer, porque julgará que jamais voltará a precisar dele. É a vida... Mas é sempre bom que estes atrevimentos venham a público, para que se conheçam melhor as pessoas.

sexta-feira, junho 02, 2006

A mão na Bolsa

Segundo uma nota de imprensa da corretora Lisbon Brokers, os investidores bolsistas fariam bem se investissem em acções da SIC… no entanto, ainda há bocadinho lia o último relatório da Media Monitor e a SIC continua a ser o terceiro canal nas preferências dos telespectadores, atrás da TVI e da RTP.
Portanto, a recomendação da corretora deve ser uma “questão de fé” num futuro bom desempenho da SIC…, “fé” que pretende contrariar o share medíocre da SIC de 24%... embora a Lisbon Brokers diga que “acredita que a Impresa irá conseguir reter parte dos telespectadores que serão conquistados ao longo do próximo mês” com a transmissão dos jogos do Mundial… aqui, a “questão de fé” alarga-se ao desempenho da selecção nacional, porque se a coisa lhes corre mal, a SIC pode dizer adeus às audiências…
Indisfarçável é que as audiências do canal continuam em queda. Em Maio do ano passado, o share da SIC era de 27,7%, hoje é de 24%... mas os corretores, ainda assim, reforçaram a recomendação de compra… deve ser porque não é com o dinheiro deles.

quinta-feira, junho 01, 2006

Ai Timor...

O que se passa em Timor é de indubitável interesse público em Portugal.
Não só porque lá vivem várias centenas de portugueses, não só porque os timorenses mantiveram laços de amizade com Portugal ao longo dos anos, não só porque o território foi colónia portuguesa e isso torna-nos, de certo modo, parte interessada em tudo quanto lá se passa, não só porque a causa da libertação de Timor do jugo indonésio foi a manifestação colectiva mais bonita que os portugueses levaram à cena nos últimos cinco séculos, mas por tudo isso Timor interessa-nos e preocupa-nos.
Assim, os órgãos de comunicação social têm feito notícia do que por lá se passa. Não só pelas razões que apontei, mas porque cenas de tiros e facadas, casas incendiadas e pilhagens, choros e gritos, mortos e feridos sempre serviram bem para vender papel e tempo de antena. Por mais sereno que seja o jornalismo feito, nestas situações a reportagem é sempre emocionante. E isso “agarra” o público. Agora, a verdade é que se não fosse o serviço público de rádio, televisão e agência noticiosa, não haveria notícias de Timor. É a RDP e a RTP, mas principalmente a LUSA quem estão a alimentar os noticiários dos outros.
Dizem-me que a SIC não tem lá ninguém… como se naquela redacção já não houvesse um repórter em condições, capaz de enfrentar aquele tipo de situação com frieza e raciocínio ágil. Será que os directores estarão desautorizados pela administração?... Sinceramente, não percebo.

quarta-feira, maio 31, 2006

A organização do Estado

Fui de manhã à Caixa dos Jornalistas entregar comprovativos de despesas de saúde do meu agregado familiar. Consultas no dentista, uma radiografia, coisas assim. Por causa da radiografia já lá tinha ido uma outra vez. O papel não tinha sido aceite, porque faltava o comprovativo do pedido médico. Como se alguém andasse a tirar radiografias por gostar de ver os seus ossos… Agora, aconteceu que um dos recibos do dentista foi rejeitado. Porque falta a especificação do tipo de tratamento e o número do dente tratado! Que interesse tem para o Estado saber se a cárie é no segundo molar inferior direito, se no canino superior esquerdo?
Tenho de voltar ao dentista, por causa da especificação-escrita-e-certificada-sem-qualquer-margem-para-dúvidas-do-dente-tratado e, depois, regressar uma vez mais ao guichet estatal onde, finalmente, me aceitarão o papel e o respectivo pedido de reembolso.
Percebo que o Estado tente evitar as burlas, mas assim.... Até porque, enquanto ando para trás e para a frente, não trabalho. E depois vão-me chamar absentista.

terça-feira, maio 30, 2006

Despedimento com justa causa

A pandemia da SIDA é um flagelo em Moçambique, como todos sabemos. Os índices de contaminação da população são altíssimos, dos mais altos do Mundo. Um dos principais problemas prende-se com a qualidade da assistência médica prestada à população. Só recentemente o governo começou a disponibilizar medicamentos retrovirais para o tratamento da SIDA. As duas últimas viagens que fiz a Moçambique foram dedicadas a reportagens sobre o tema. Por isso, conheci bem a realidade da assistência hospitalar em Maputo, na Beira, no Chimoio.
Sou testemunha das tremendas dificuldades existentes e do fantástico trabalho dos médicos.
Por isso, foi com horror que soube que, há dias, o director do Hospital Central da Beira tinha despedido cinco médicos, cooperantes chineses e indianos. O horror tem que ver com as razões do despedimento… esses médicos foram acusados de tratamento arrogante com os doentes, motivo que levou ao afastamento de muitos utentes.
O problema é bem mais grave do que possam pensar. É que já é difícil que as pessoas queiram ir ao hospital de livre vontade. Os costumes tradicionais continuam a ditar lei e, primeiro, as pessoas vão ao feiticeiro. Depois, vão ao feiticeiro. Se não ficarem melhor, ainda voltam ao feiticeiro. Só em último caso vão ao hospital. Se não são bem recebidos, nunca mais lá voltam.
Por isso, tratar com arrogância um doente em Moçambique pode ser o mesmo que o condenar à morte. E isso é indesculpável.

segunda-feira, maio 29, 2006

Angola, 1999. Lágrimas de crocodilo

A última vez que regressei de Angola foi em Janeiro de 1999. Tinha feito uma viagem relâmpago, com o Renato Freitas camera-man. Na bagagem trouxemos as imagens do Cuíto cercado, na derradeira ofensiva da UNITA. Tínhamos “belos bonecos” da contra-ofensiva governamental, com imagens de combates tiradas à boleia de um dos blindados do governo. Numa dessas sequências, via-se de relance, mas via-se, um soldado da UNITA que se tinha rendido a ser interrogado e, logo a seguir, sumariamente fuzilado.
Essa sequência fechou a reportagem. Era um soco no estômago e a resposta a uma pergunta que já tinha feito inúmeras vezes e a que nunca me tinham respondido. Era por “aquilo” que não havia campos de prisioneiros de guerra… os únicos prisioneiros poupados eram os oficiais superiores, os que poderiam ter informações úteis quanto às tácticas do inimigo e saber dos pensamentos íntimos dos chefes. É verdade que nem todos os soldados rasos eram mortos. Alguns safavam-se, por algum prurido do inimigo, desde que passassem a combater contra o outro lado. Os angolanos sofreram coisas indizíveis, nessa guerra longa…
Enfim, tudo isto para vos dizer que soube, no dia seguinte à exibição da reportagem, que o Presidente da República tinha ficado muito incomodado com “aquilo” (eventualmente, verteu alguma lágrima) e que iria promover uma discussão pública para denunciar aqueles horrores. A informação tinha chegado por um dos assessores presidenciais que antes tinha trabalhado na SIC. Imagino que Sampaio tenha sido melhor aconselhado, mais tarde, porque nunca mais ouvi falar no assunto.

sábado, maio 27, 2006

Um pormenor da vida, no Iraque

Nunca estive no Iraque. Por duas vezes tentei entrar e fiquei na fronteira, no lado jordano. A concessão de vistos a jornalistas por parte do Iraque sempre foi obra do acaso e de políticas que favoreciam os nacionais das grandes potências mundiais ou os trabalhadores de empresas globalmente famosas e importantes. Nem a RTP, muito menos a SIC, alguma vez adquiriram esse estatuto e o nome de Portugal nem fazia estremecer a pálpebra do funcionário consular iraquiano... de modo que, com algum azar à mistura, nunca lá consegui entrar, tanto mais que, nas ocasiões em que o visto era garantido, porque a política era de portas abertas, as "estrelas da companhia" fizeram sempre valer as suas prerrogativas.
Enfim, nunca lá fui mas, claro, tenho acompanhado com interesse a evolução dos acontecimentos. O Iraque sempre tem sido notícia. Mas há coisas que, por mais jornais que se leiam ou mais televisão que se veja, há coisas que não nos apercebemos facilmente.
Como isto, por exemplo...

O primeiro conjunto de fotos diz respeito às actividades estudantis femininas, no campo desportivo, e data de 1963-1964... a outra foto diz também respeito a actividades estudantis femininas neste ano lectivo de 2006... As fotos são uma espécie de antes-e-depois da "libertação" propiciada pelos EUA. Não digo, com isto, que tudo estava bem no tempo de Saddam e que tudo vai mal, hoje. Acho que havia muita coisa mal, nos anos 60, 70, 80, 90, acho que o regime de Saddam foi um regime indecente sob muitos aspectos. Mas, realmente, acho que hoje tudo está bem pior, para a maioria dos iraquianos. E o pormenor revelado pela foto, é apenas isso mesmo... um pormenor.

Farmácias, só mais uma achega...

A nova lei das farmácias impede a manutenção do monopólio da propriedade das farmácias, até aqui privilégio dos farmacêuticos. Além disso, impede também que a propriedade da farmácia possa ser detida por médicos, laboratórios, distribuidores farmacêuticos, privados que prestem cuidados de saúde e subsistemas que comparticipem no preço dos medicamentos.
Gostei!

sexta-feira, maio 26, 2006

Farmácias

O governo acaba de anunciar o fim do monopólio da propriedade das farmácias. Finalmente!
Um a um, os privilégios corporativos salazaristas estão a chegar ao fim. Os argumentos de Sócrates não podiam ser mais consensuais. Por que diabo haviam os farmacêuticos de ter a exclusividade da propriedade das farmácias? Por acaso, as escolas têm de ser propriedade de professores? As clínicas têm de ser propriedade de médicos? Os jornais são dos jornalistas? A TAP é dos pilotos?

Costaleras do Amor (4)

Último passo desta procissão:

O capataz dá três pancadas fortes no alto da estrutura. A pausa durou poucos minutos. À pressa, as costaleras dão as últimas baforadas nos cigarros antes de se colocarem debaixo da parihuela. “Vamos calar a boquinha aí debaixo. Vamos escutar e calar!”, ordena o 2º capataz. Olhando para dentro pergunta: “A traseira está?”. A resposta vem do fundo, “a traseira está.” Nova pancada antes de a estrutura se erguer num salto. “Todas por igual. Ao céu”. O rádio leitor de CDs começa a tocar o andamento da banda que acompanhará a Virgem da Encarnação. Seguindo o andar arrastado das mulheres, Rafael Martin, de 44 anos, desempregado, segura o rádio como se levasse a música ao colo. A t-shirt branca com o rosto da imagem impressa molda-lhe a barriga. Não falta a um ensaio. “À parte destas [coisinhas], venho pela minha Encarnação”, acrescenta. Cumprimenta toda a gente em tom de festa, e não consegue conter as lágrimas de mãos coladas ao rosto quando contempla a imagem da Virgem. A estrutura avança até deparar com mais um carro estacionado. “Parem aí!”, à ordem do capataz mudam de direcção num ângulo de 90 graus. “Pouco a pouco a esquerda à frente, pouco a pouco a direita atrás!”. Ensaiam durante várias horas pelas ruas do bairro. Às vezes começam a meio da tarde, outras à noite com uma luz giratória de sinalização de cargas pesadas em cima do passo. Por tradição, promessa, ou apenas por curiosidade estas mulheres decidiram entrar na confraria do Amor por 12 euros/ano. Trazem os filhos aos ensaios, passam-nos debaixo do manto da imagem e põem-lhes o costal. Por vezes desentendem-se. “Todas por igual, valentes!”, diz o capataz. Há até quem veja a Igreja com maus olhos. “Isso está tudo podre. Há interesses económicos, políticos, e mais...”, desabafa Verónica Relaño, de 23 anos. Na t-shirt negra tem escrito Full Contact , e nas calças justas Kiss Me. “Rezo todas as noites mas não tenho porque confessar-me a um padre. Dá-me vergonha”.
Os candeeiros de rua acendem-se com o cair da noite. Passaram mais de três horas de cigarros fumados à pressa pelas descidas à parihuela, de garrafas de água esvaziadas, de piadas. Mas a garagem ainda está longe. “À saída qualquer uma é costalera!”, diz um ajudante do capataz. “Isso não pesa nada. Isso é uma brincadeira”, anima em seguida. “Já está aí o Domingo de Ramos. Já falta pouco para levarem a Mãe”.

quinta-feira, maio 25, 2006

Costaleras do Amor (3)

A 3ªestação desta via sacra:

Posta a parihuela na rua, as mulheres trazem do fundo da garagem vários tijolos de betão que vão dispondo no cimo da estrutura. Têm que levantar cerca de uma tonelada, o peso que terá o passo em procissão. Cada uma carrega mais de 30 quilos.
Avançam sob as ordens de um capataz, por chicotas, trajectos que raramente ultrapassam os 200 metros. O trabalho é árduo. Meia hora depois da saída o cansaço transparece no rosto das costaleras, as garrafas de água começam a passar de mão em mão. Talvez por isso a formação deste grupo de mulheres tivesse sido tão mal recebida pelas irmandades. “O mundo confrade é muito machista”, afirma o segundo capataz, José Delgado de 33 anos, técnico de ar condicionado. “Mas elas souberam criar um estilo único e conseguiram ser respeitadas”.A fundadora recorda o quanto foram aplaudidas na praça das Tendillas, a Passagem Oficial da Semana Santa em Córdova. “Fomos primeira página do El País e abertura do telejornal”, acrescenta com emoção. Suportou durante 13 anos o peso do passo da Virgem da Encarnação, graças ao pai que se comprometeu a pagar qualquer eventual estrago.
Vários confrades abandonaram a irmandade, e ouviam-se críticas das mulheres à porta de casa: “Vai mas é para casa esfregar os pratos”. Eram as que mais doíam porque o sentimento machista é por vezes responsabilidade do sexo feminino. “Afinal cada homem é educado por uma mulher!”, exclama Rafaela.

quarta-feira, maio 24, 2006

Congo, ano 2000. Gbadolite, casa chinesa

No alto de outra colina, nos arredores de Gbadolite, mais uma obra ao absurdo. É uma área toda murada. Um quadrado, com uma porta larga em cada lado. Cada porta está guarnecida por dois grandes leões de pedra.Lá dentro, é fresco. Caminhamos sobre estrados de teca, por entre um emaranhado vegetal que começou a tomar conta do local. Mas os pavilhões em madeira de cerejeira ainda lá estão, ligados uns aos outros por pontes pedonais feitas de bambu e pau-rosa. Madeira bordada, rendilhada, em relevo, ainda com as cores fortes ao gosto chinês, amarelo torrado, rosa escuro, vermelho vivo, verde claro, azul céu, as cores da loucura de quem tudo queria e tudo podia. A cidadela chinesa de Mobutu, cheia de lagos e cisnes e pavões. Os cisnes e pavões, o povo comeu-os. Os lagos e a piscina pertencem, agora, aos sapos.Mas ainda é possível adivinhar as farras que ali se desenrolaram. Ou se enrolaram… depende da imaginação de cada um.
O custo destes caprichos é difícil de adivinhar. Para erguer o Palácio Gbadolite foram operários portugueses, para a casa de campo foram operários italianos, para esta cidadela chinesa os escolhidos foram... artífices chineses. Mobutu não poupava.

terça-feira, maio 23, 2006

Costaleras do Amor (2)

2ªfatia do texto do Bruno Rascão:

Os ensaios para a Semana Santa começaram a seguir ao dia de Reis. “Mas foi pouco”, lamenta uma habitante do bairro, enquanto espera que as costaleras saiam da confraria para mais um ensaio. “Apanharam muitos dias de chuva”, esclarece. As mulheres começaram a chegar perto da hora marcada, às 21h de sexta-feira. Há quem esteja desde a fundação e quem se estreie este ano. A maioria tem mais de três anos debaixo da parihuela. Chegam a pé, sozinhas ou em pequenos grupos, subindo a praça do Cristo do Amor, iluminada pelos candeeiros de rua. “A minha filha chegou agora de Badajoz, neste carro que aqui estava”, diz uma senhora que passeia o seu cãozinho branco. “Trabalha lá num hospital, e veio para o ensaio. Tem 21 anos”. Perto das 22 horas chega numa scooter amarela outra das confrades. Um blusão preto protege-a da brisa da noite. Entra pela porta da confraria, com um ar apressado, até à sala onde se reúnem as mulheres antes dos ensaios. O ambiente é de boa disposição. No meio da névoa dos muitos cigarros que se fumam na sala, contam-se piadas, enrola-se o costal no chão, comentam-se pormenores sobre a saída de 9 de Abril, Domingo de Ramos. Num canto duas costaleras puxam uma faixa, enquanto outra a vai enrolando à volta da zona lombar, de forma a que fique muito justa. No total são 64, mas é raro que compareçam todas em tempo de ensaios. A maioria anda na casa dos 20 anos. Umas mais fortes outras aparentemente frágeis. Vestem roupa desportiva, camisolas do Barcelona ou de outros clubes, mas também jeans e camisolas largas. Algumas têm piercings, no lábio ou no nariz. Uma mistura heterogénea de mulheres, que por tradição, curiosidade, promessa, devoção, se encontram debaixo de uma trave que lhes assenta no pescoço durante muitas horas por ano.Aida Herdia, de 20 anos, começou a carregar passos aos 15, em equipas mistas, na Ciudad Real onde nasceu. Queria experimentar, “saber o que se sentia em penitência debaixo de uma imagem”. Está no exército desde Outubro de 2005, e foi recentemente transferida para Córdova. “Queria mudar de ares”, e estar mais perto da irmandade. Pertencer a confrarias significa, para ela, uma maneira de expressar a devoção e penitência a Deus, no quotidiano. “É a forma de levar a minha cruz”. Confessa que a música que mais mexe com ela é a das bandas da Semana Santa. Sempre marcada pelo ritmo dos tambores e pela melodia das cornetas, num andamento de inspiração militar.
(continua)

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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