
É assim, em câmara lenta, que também eu gosto mais de ver futebol.
No lado congolês, em Matadi, havia uma barreira da polícia para fiscalizar veículos e identidades, mas o soldado angolano fez questão de acelerar e furar a barreira, enquanto gritava pela janela. A excursão tinha um único objectivo: mostrar-nos quem mandava ali.
Nas pontes, havia problemas de sustentabilidade… ou seja, as pontes eram de madeira, simples troncos deitados a unirem as margens dos rios, às vezes com uma face aparada. Apodreciam rapidamente e era necessário verificar se estariam em condições para aguentarem com o peso do carro. Como frequentemente não estavam, lá íamos nós de machado e serrote em punho cortar umas árvores para refazermos a ponte. Como o norte do Congo é uma imensa rede hidrográfica, de 20 em 20 km havia uma ponte para reparar…
Em Bambilo, em casa do missionário Claudino, o problema não eram só as aranhas, os mosquitos e o calor. Comia-se francamente mal. Peixe bagre seco… um bocado de farinha de mandioca ou de milho ou, em dias mais felizes, um pouco de arroz. O pior era que aquilo que se jantava, repetia-se ao pequeno-almoço na manhã seguinte e acabava-se de comer ao almoço desse dia. Comida fresca, feita de novo, só ao jantar. E, de noite, as baratas davam uma ajudinha para acabar com o farnel. Algumas empanturravam-se de tal modo que já não eram capazes de sair do tacho e acabavam por morrer, ali mesmo, no meio do arroz do pequeno-almoço. Era sempre uma visão feliz, olhar para aquele tacho, às 7 da manhã…
Claudino dedica-se essencialmente aos velhos, à escola e ao posto médico. A escola vai melhor. Cinco palhotas, uma para cada classe e mais uma para sala de reunião de professores que o próprio Claudino formou. Não há livros nem sebentas. A biblioteca é constituída por revistas missionárias já muito antigas, mas sempre fascinantes, porque têm fotografias que são como janelas para um mundo muito diferente.
De repente, aterrou um monstro branco com asas enormes. Quando o piloto saiu, perguntei-lhe para onde iria regressar, depois de descarregar os sacos de farinha de milho. O russo tirou uma garrafinha de bolso, abriu-a e inspirou o perfume do whisky. Depois, tomou um trago. Por fim, respondeu-me: Mombassa.
As instalações militares, depois da independência, passaram a clube civil. Chamaram-lhe clube de caçadores, talvez para manter a designação. Sempre que fui à Guiné, procurei ter tempo para passar no Saltinho. Do lado de cima da queda de água dizem que há crocodilos e hipopótamos. Não sei, nunca vi.
O “bicho” mais horrível que vi, no Saltinho, foi o rabo do Odacir Júnior, numa tarde de paródia.
Entrei no Cuito em Janeiro de 1999 com o Renato Freitas. Fomos os primeiros jornalistas a lá chegar. Connosco, à boleia, foi também uma jornalista do Expresso.
Nós ficámos na cidade, filmámos cenas de outro tipo de violência. Tudo junto, deu um documentário esmagador (intitulado Cuíto, simplesmente, exibido no programa da Margarida Marante), que o José Alberto Carvalho anunciou, no Jornal da Noite, como sendo “a reportagem mais violenta da história da televisão portuguesa”.
Quem me lê, sabe que participei numa expedição científica que pretendia deslindar esse mistério, alimentado por testemunhos de quem jura ter visto o animal e vestígios deixados por ele, tais como pegadas, fezes e camas.
o grupo expedicionário, no acampamento, na floresta Makulungo, Bili
Pois, ao ir ao http://www.accoona.eu/ descobri isto…
De todos os missionários que conheci, até hoje, Claudino é o que mais me impressionou. Tenho tido muita dificuldade em falar dele, porque temo ir cometer alguma injustiça em relação a outros. É que eu acho que Claudino deve estar muito próximo da santidade. É que, com ele, a vida não é só abnegação, compromisso, dádiva, sofrimento e rezas. È que ele ri muito. Tem quase sempre um sorriso na cara. Gosta de tocar nas pessoas, abraça-as, pega-lhes ao colo, beija-as. Acho que ele tem um amor genuíno pelas pessoas com quem vive e a quem tenta minorar as dificuldades do quotidiano.


A proibição decretada agora, para a região do Darfur, não é novidade, portanto. O pretexto de que as Nações Unidas transportaram um líder rebelde e que, com isso, teriam violado a soberania sudanesa, é mais uma vergonhosa chantagem de um governo que apenas pretende manipular politicamente os factos e usar as necessidades prementes do povo como moeda de troca.
O memorial será composto por um passeio com pedras brancas, onde vão figurar os nomes dos jornalistas que, desde 1944, foram mortos um pouco por todo o mundo. A recolha da informação está a ser feita pela organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF).
Para que seja prestado um tributo ao maior número possível de jornalistas, a RSF apela a quem tiver informações sobre jornalistas mortos (nome, local de trabalho, data e local onde ocorreu a morte) para que as envie para o e-mail memorial@rsf.org. Os dados recebidos serão confirmados antes dos nomes serem inscritos nas pedras do memorial.
Philippe era bispo, um príncipe da Igreja Católica. E portava-se como tal. Penso que enfrentava as adversidades e as armas de fogo com uma serenidade só possível quando se tem a certeza de que os outros nos temem, mesmo aqueles que empunham as tais armas de fogo.
Uma das espécies, a mais abundante por sinal, pareceu-me aparentada com tarântulas. Eram umas aranhas felpudas, escuras, com abdómem inchado e, algumas, carregavam ovos no dorso. Não me pareceu que vivessem em teias, preferiam antes os cantos mais escuros e frescos da casa, especialmente atrás das portas.
Morria de medo daquilo e, sempre que me deitava, olhava primeiro para debaixo da cama, porque achava que se elas se deitassem comigo me poderiam morder… mas nunca me fizeram mal. De resto, os missionários disseram-nos que faziam questão em não lhes tocar. Eram uma espécie de vacas sagradas, porque comiam os mosquitos, esses sim, muito mais perigosos por causa da malária.
Além disso, tentava prender o mosquiteiro por debaixo do colchão, de modo a proteger-me melhor de alguma aranha que quisesse escalar a cama.
As refeições eram na missão católica, com todos os outros padres. Em Bondo há, também, uma casa de madres missionárias, todas africanas curiosamente, mas homens e mulheres não se misturam, conforme manda a tradição. Excepto em ocasiões especiais… como foi o caso de uma reunião que se realizou em Bondo, por aqueles dias, com dezenas de convidados vindos de vários lugares do norte do Congo, onde eles discutiram os problemas das comunidades a que pertenciam e delinearam tácticas de actuação. Quando havia muitos convidados, as freiras viravam donas-de-casa e dedicavam-se a cozinhar…
Nunca passamos fome, mas comemos mal muitas vezes. A comida era assegurada por um dos acólitos, um branco italiano que vivia ali em regime de voluntariado e que se dedicava a caçar e a organizar a pesca, de modo a garantir o sustento de um numeroso grupo de padres e freiras. Às vezes, o homem não caçava nada. Macaco era quase garantido… e, um dia, até uma águia foi parar à panela para uma bela canja… a pesca também dependia da sorte da faina e, naqueles dias, em plena época seca, o rio corria com pouca água e o peixe escasseava. A faina era realizada por uma família de pescadores locais, a quem os padres forneciam os apetrechos a troco de uma percentagem do pescado. Só que, às vezes, o peixe era tão pouco que os pescadores ficavam com tudo e ainda passavam mal.
A penúria alimentar da população era evidente na escassez de alimentos postos à venda no mercado.
Dezenas de bancas vazias, algumas com uns peixes do rio, volta e meia aparecia alguém com uma gazela morta a tiro ou um macaco caçado com arco e flecha, umas senhoras vendiam vegetais e era tudo para uma população de milhares de pessoas. Uma pobreza danada numa terra cheia de ouro e diamantes.
Bondo é uma pequena cidade no norte do Congo, na Província Equatorial. A localidade teve o seu auge nos anos 50, quando foi um dos principais entrepostos comerciais da região. Foi ali que se estabeleceram três principais comunidades. Os belgas eram os donos da terra, exploraram grandes fazendas de café. Os gregos e os portugueses dedicavam-se ao comércio. Os locais trabalhavam para os brancos… claro. Julgo que Bondo chegou a ter largas centenas de brancos residentes. Também foi ali que a Igreja Católica estabeleceu um grande centro missionário. Pela dimensão das instalações e pelo número de celas (quartos), acredito que Bondo deve ter tido dezenas de missionários que, a partir dali, pregavam a fé pelas aldeias vizinhas. Cinquenta anos depois, Bondo ainda revela esses sinais da antiga importância social e administrativa. Ao longo das duas ruas principais, as antigas lojas de gregos e portugueses ainda lá estão, embora já sem gregos nem portugueses e, também, sem nada que se possa comprar ou vender, excepto numa onde se compra ouro e diamantes. É, de resto, a única loja que permanece aberta, no largo do mercado. De todas as antigas lojas de portugueses, há uma que ainda exibe um velho letreiro publicitário metálico, pintado com as letras “Casa Nogueira”. A ferrugem vai acabar por dissolvê-lo, mas no ano 2000 ainda lá estava.
Em frente ao mercado, a catedral. Construída nesses anos 50, feita de tijolo cozido ao sol, é uma construção imensa para os padrões locais. Quando lá estive, não tinha telhado. Mas sei que já o reconstruíram, entretanto. Preferia ter encontrado um hospital em condições, confesso. O hospital de Bondo, que também é gerido pelos missionários, estava limpo. Limpo de pó e limpo de equipamentos, de pessoal médico, de medicamentos. Apenas as paredes tinham resistido às consecutivas pilhagens proporcionadas pelos avanços e recuos dos exércitos em conflito na guerra civil. Ainda assim, era ali que havia algum apoio para a população, nomeadamente para parturientes e doentes com malária.
Mete raiva pensar que as sociedades desenvolvidas desperdiçam tanto e que, ali, em locais como aquele, a única coisa que se desperdiça é boa vontade e sorrisos.

em Bissau, 1998
O relato passa a discurso directo: “Eu era de Nova Lamego, actualmente chamada Gabú, na região de Bafatá. O meu pai, que nascera em Amarante, trabalhava lá como farmacêutico desde os anos 30. E eu gostava de África. Passava parte do meu tempo em Portugal, mas quando estava na Guiné acompanhava sempre os negros. Dava-me muito bem com eles, não havia diferença entre nós. Foram os melhores anos das nossas vidas, como a minha mãe sempre dizia, e quando fui para a escola, ‘Nino’ Vieira ficava ao meu lado. Era um bom aluno, muito respeitador dos professores e dos colegas. Ficávamos nas filas da frente e os professores davam-nos mais atenção a nós do que aos outros rapazes. E ‘Nino’ já revelava uma certa personalidade. Um carácter forte, determinado, sem racismo nenhum. Quando me vim embora, ele, como outros, pediu-me várias vezes que não viesse, que ficasse ali a viver com eles.”