Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











sábado, julho 22, 2006

Congo. Os cães Basenji

Um dia fomos à caça com os homens da aldeia do chefe Selassié. Fiquei fascinado com a técnica que eles usaram. Os homens levaram redes compridas. Centenas de metros de uma rede de malha larga. Com isso, eles fazem uma espécie de funil para onde tentam empurrar os animais. Os animais ficam encurralados nesse corredor estreito e acabam por ficar presos na rede e, assim, são mortos com facilidade. Este método de caçar não implica o uso de armas de fogo. O que eles usam mesmo são lanças compridas. Falta dizer que para levar os animais a fugir na direcção da área cercada, os Azande usam cães. São cães de raça Basenji, uns bichos pequenitos, magrelas, de pelo curto e orelhas bicudas. É um cão feioso e quase ridículo, com uma cauda enrolada que lhes dá um certo ar gay… confesso que pouco olhei para os animais. Nem uma fotografia lhes tirei…... e, agora, para vos mostrar um cão Basenji no seu meio natural, tive de perder horas na net para achar uma foto tirado nos anos 30, no norte do Congo, onde se vê um Azande e o seu cão… Hoje, as populações foram obrigadas a recorrer, de novo, à caça de animais selvagens, depois das aldeias terem sido sucessivamente pilhadas, ao longo de anos a fio, pelos exércitos em luta na guerra civil.
Bom, os cães são largados no mato, em matilha, acompanhados por uns pisteiros que os comandam através de assobios. Com este tipo de caça, eles conseguem apanhar herbívoros de pequeno e médio porte, pequenas gazelas ou veados, galinhas do mato e pouco mais. Os cãezitos magrelas são, apesar de tudo, bichos rijos e valentes. Comem pouco e enfrentam javalis e outros animais selvagens bastante perigosos e bem maiores que eles. Além disso, têm uma particularidade: não ladram. Emitem uns ganidos e uns grunhos, mas não ladram. Acho que isso os coloca bem próximos do lobo… afinal de contas, um cão que também não ladra.
Agora imaginem o meu espanto quando, há dias, descobri que os cães Basenji são uma raça velha como o Mundo, que estão referenciados nos hieróglifos egípcios como cães de estimação dos faraós… e que são, hoje, animais de companhia muito estimados nos Estados Unidos e em Inglaterra onde, aliás, existem em grande número. Quem diria, hem?

sexta-feira, julho 21, 2006

Angola (continuação do texto anterior). Um pouco mais de violência

Mais tarde, no Cuango, uma manhã cedo ia a passar em frente ao posto da polícia e um graduado deteve-me. Dentro da guarita, pediu-me a identificação. Mostrei-lhe o passaporte e ele, em vez de mo devolver, atirou-o ao chão. E disse-me para tirar o que tinha nos bolsos e lhe dar o dinheiro que trazia e que se não obedecesse que me dava uma carga de porrada de caixão à cova. Olhei-o nos olhos e disse-lhe que ele podia bater-me, mas que ali eu era convidado do vice-governador civil e do vice Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas e que ele se iria arrepender… o tipo disse que talvez se viesse a arrepender mas que, mesmo assim, nada me livrava da carga de porrada. No silêncio que se seguiu, foi ele quem quebrou o ânimo. Acabou por se dobrar e apanhar o passaporte que tinha atirado ao chão e devolveu-mo. Antes de lhe virar as costas, ainda me disse para nunca mais passar por ali, que ainda podia mudar de ideias.

(a foto que exibo é de José da Silva Pinto).

Voltei a ver o mesmo filho da puta, quando detinha um velho que se cruzou com ele. O velho carregava um saco de serapilheira às costas. O polícia tirou-lhe o saco e abriu-o e despejou a carga no chão, para a poder examinar bem. Eram duas raízes de mandioca, das grandes. Sem justa causa, deu voz de prisão ao senhor. Quando o velhote tentou reclamar, levou um bofetão tremendo que o derrubou. Não voltou a abrir a boca, mas o olhar toldado dizia tudo. O velho foi mesmo encarcerado. O filho da puta foi vender as mandiocas ou empanturrar-se com elas. Agora, podem perguntar-me se este tipo de violência se pode generalizar, se isto não é um caso singular, que só diz respeito a esse polícia mau. Gostaria de dizer que não, mas suspeito que sim. O problema é que o governo angolano usou uma táctica já experimentada antes pelo governo colonial, que consiste em colocar forças policiais e militares constituídas por indíviduos de etnias estranhas ao local. Assim, nem polícias nem soldados têm qualquer tipo de relacionamento com a população, não têm qualquer tipo de lealdade com as estruturas tribais nem reconhecem os costumes locais. A relação que se estabelece é de pura dominância. Manda quem tem mais força. Então, a prepotência...

quinta-feira, julho 20, 2006

Rafael Marques

A denúncia de Rafael Marques é completamente verdadeira. Mas chega tarde. Cafunfo, Loremo e Cuango são terras violentas, onde mandam as armas e só sobrevivem os mais duros. Já aqui escrevi algumas histórias que vivi por aquelas bandas em 1998. Já nessa época, aquilo era o far-west. Já naquela época, todos os dias morria um garimpeiro. Já então, a tropa abusava da população. Naqueles dias, entre Agosto e Novembro de 98, houve uma população inteira massacrada, numa aldeola chamada Bula, se a memória não me falha. Não era mais do que um acampamento de mineiros. Palhotas muito rudimentares e imensos buracos das escavações no aluvião do rio. Centenas de pessoas foram ali mortas. A tropa governamental levou-nos lá, para sermos testemunhas de “mais um massacre da UNITA”. Até pudemos falar com sobreviventes... Mas enquanto deambulei pelos escombros da aldeia, reparei que o chão estava pejado de cápsulas de munição de armas automáticas. E vi que eram munições espanholas. Sabia que quem utilizava munições espanholas era o exército governamental e não a UNITA. Tive o pressentimento que aquela história estava a ser mal contada, mas não era possível prová-lo. Na reportagem, disse apenas que um grupo não identificado tinha atacado e massacrado aquela população. Mas estou convencido que não foi a UNITA quem fez aquilo. Só sei que quem o fez, foi só para roubar o produto do garimpo.

quarta-feira, julho 19, 2006

O reptilário (4)

O novo director de Informação chamou-me ao gabinete. “Vais a Bilbau”, disse-me. A missão era cobrir uma conferência internacional sobre terrorismo. O tema era bom, mas estranhei porque “cobrir conferências” não era o estilo da SIC. Nós éramos uma redacção de contadores de histórias. Repórteres. Alguns, muito bons. Estranhei, também, porque não vislumbrei nenhuma razão lateral para aquela missão. Não tinha havido nenhum atentado de realce nos últimos dias, o 11 de Setembro ainda nem tinha acontecido…Lá fui, já não me lembro quem foi o camera-man. Chegados a Bilbau, depois de pousar as malas no hotel, fomos até ao local onde a conferência ia decorrer. Credenciamo-nos no secretariado e forneceram-nos o programa das festas. Percebi então a razão daquela reportagem: o antigo primeiro-ministro português e conhecido empresário da comunicação social, Dr.Pinto Balsemão, ia botar discurso…
O meu patrão abria a conferência, num discurso pela fresca das 9 da manhã. Calculei que o senhor falasse para aí uma hora. Cheguei às dez em ponto, ainda a tempo de ouvir as palmas da assistência. Viu-nos, desceu do palanque, atravessou a plateia, saiu para o hall, pegou no telemóvel. Apostei com os meus botões em como o meu telemóvel iria tocar dali a 10 minutos. Tocou mesmo. Era o novo director de Informação: “então não gravaste o discurso do Dr.Balsemão?”
Uma hora depois, voltou a ligar-me. Tinha descoberto que a agência EFE tinha o discurso gravado na íntegra. Eu só teria de ir buscar a cassete. Já estava paga.
Nessa noite, ao jantar, o telemóvel voltou a tocar. Era o antigo director de Informação… porque lhe tinham contado o que se estava a passar e queria dar-me um abraço de solidariedade. Obrigado, Emídio. Pulhices destas nunca aconteceram contigo.

terça-feira, julho 18, 2006

Mandela

Nelson Mandela faz hoje 88 anos. Nunca conheci pessoalmente este “mais velho”, mas tive o privilégio de ter assistido ao vivo a uma palestra dele e, assim, ter recebido uma lição de cidadania, de respeito pelos outros e de genuíno interesse pelo bem-estar da Humanidade.Foi em Durban, precisamente em Julho de 2000, no último dia da XIII Conferência Internacional sobre Sida. Mandela foi ali, para dizer ao Mundo quanto o envergonhava a “postura negocial” das multinacionais farmacêuticas que não estavam dispostas a libertar as patentes de fabrico dos medicamentos essenciais para a luta contra a pandemia e, talvez mais ainda, quanto o envergonhava a actuação do governo sul-africano e do seu líder, afinal de contas o homem que lhe sucedeu na chefia do estado, Thabo Mbeki.
Mbeki ainda hoje recusa-se a deixar que a pandemia, na África do Sul, seja tratada com medicamentos anti-retrovirais e parece acreditar que se trata de uma doença curável e provocada por interesses financeiros das multinacionais farmacêuticas. Ele parece acreditar nessa cabala e, com isso, tem deixado morrer milhares de homens, mulheres e crianças contaminados pelo vírus.
Por isso, ver e ouvir Mandela, ali, nestas circunstâncias, foi um momento tão precioso. Não só pelas palavras de solidariedade, não só pela compreensão e humanidade reveladas, mas pela coragem política de ter dito que tanto as multinacionais como Mbeki estavam enganados e que era preciso que o Mundo tudo fizesse para os convencer. E que ele iria ajudar…

segunda-feira, julho 17, 2006

Médio Oriente.O microfone aberto

Porque foi que, entre 1975 e 1990, o Líbano teve uma guerra civil devastadora? Porque Israel precisava de criar uma zona tampão junto à sua fronteira e, para isso, fomentou a criação de um exército cristão maronita no sul do país. Parece-me que a actual crise, vai terminar quando for possível por em prática uma solução desse tipo, isto é, criar uma zona de segurança para Israel que mantenha fisicamente longe os activistas do Hezbollah.Talvez agora não seja possível ressuscitar o exército cristão maronita, mas pode ser que as Nações Unidas ou os EUA façam uma coisa parecida, ou seja, enviem para a zona um exército qualquer que garanta a segurança e a separação dos inimigos. Uma força de interposição.
O que já é evidente é que nem o Hezbollah, nem Israel, respeitam a soberania libanesa ou as instituições do estado. O Líbano é uma espécie de terra de ninguém, onde agora mandam uns, depois mandarão outros, mas nunca libaneses… Segundo li, numa crónica publicada na página electrónica da BBC News, o presidente dos EUA acredita que os verdadeiros responsáveis pelos actos do Hezbollah são dirigenes da Síria. À mesa da cimeira do G-8, Bush terá dito (quando julgava que o microfone estava fechado) que "What they ( referindo-se provavelmente à ONU) need to do is to get Syria to get Hezbollah to stop doing this shit and it's over." (o que eles precisam é de fazer com que a Síria faça o Hezbollah parar com esta merda e pronto).
A diplomacia ao mais alto nível.

Médio Oriente. Loucos

Nesta confusão do Médio Oriente, já pouco importa quem disparou o primeiro tiro. A questão está em descobrir um modo de parar com a loucura… e, pelo que se tem visto, pode não haver maneira de o fazer. De todos os acontecimentos recentes, desde os raptos de soldados israelitas até às retaliações mútuas, há um pormenor relevante: o armamento do Hezbollah é surpreendente. Porque a mim me surpreende que um partido político (?) possa dispor de armamento e isso seja tolerado pelo governo do Líbano, quando seria certo que esse armamento se destinava a agredir outro estado. Mas o que acho verdadeiramente surpreendente é a dimensão do arsenal do Hezbollah… mísseis de curto e médio alcance de fabrico iraniano, aparentemente os Fajr-3 (alcance de 45 km) e os Fajr-5 (alcance 75 km) e, provavelmente, também o Zelzal-2 (200 km de alcance), para além da arma mais tradicional, o mundialmente famoso Katyushas de fabrico russo (25 km de alcance). Parece-me que, primeiro, Israel foi surpreendido por esta capacidade de fogo do Hezbollah e, segundo, que existe aqui um óbvio “dedinho” do Irão e, talvez, da Síria, de modo a tirarem dividendos seguros de uma situação de conflito como a que já está em curso.Israel não quis Arafat como interlocutor político. Talvez os israelitas julgassem que com outro dirigente palestiniano poderiam manobrar mais facilmente. Mas esqueceram-se que Arafat queria, essencialmente, construir um estado. Os que o substituiram talvez só queiram destruir. Os generais desta guerra parecem procurar uma batalha definitiva para esta luta... como se fosse possível escolher entre glória ou morte. Loucos.

sexta-feira, julho 14, 2006

Moscovo, 1985. Exploração de mão-de-obra

Começa hoje, em São Petersburgo, a Cimeira do G-8, os tais senhores que mandam no Mundo.
O camarada Milhazes (no texto São Petersburgo em "estado de sítio") dá conta dos preparativos e cuidados tomados para que nada perturbe o pensamento dos poderosos. Ali vai ser difícil alguém realizar grandes manifestações anti-globalização. O espaço aéreo fechado, os portos marítimos bloqueados, as estradas controladas, as fachadas das casas pintadas, as putas afastadas.
Esta coisa das putas sempre foi um trauma para os mandantes russos, já desde os tempos da defunta União Soviética. Teimavam em existir, contrariando a propaganda do regime, segundo a qual, no reino dos sovietes, não havia desemprego, pedintes nem prostituição.

Moscovo, Hotel Cosmos em 1985

Em 1985, quando passei umas semanas em Moscovo, não vi pedintes mas vi muitas prostitutas. Funcionavam de um modo muito organizado, que incluía acesso fácil aos melhores hotéis e restaurantes da cidade.
Era notório que o esquema abrangia os porteiros e a polícia. Beneficiavam todos das quecas profissionais das senhoras. A única coisa que posso dizer quanto a isso é que, ao menos, pareceu-me que os rendimentos eram distribuídos por bastantes pessoas. Não sei se de um modo equitativo.... afinal de contas, só elas é que davam o corpinho ao manifesto.

quinta-feira, julho 13, 2006

Angola, Cuíto. O orfanato

Das várias vezes que estive no Cuíto, visitei sempre o orfanato da cidade. Se procurava tema de reportagem, aquele era dos fáceis de fazer. Para onde quer que virássemos a objectiva da betacam, havia sempre um “bom boneco” no enquadramento. Era um edifício de rés-do-chão e primeiro andar. Deve ter sido em tempos uma escola, pela traça do prédio. Mas acabou em orfanato, dadas as circunstâncias da guerra. Viviam dentro daquelas paredes dezenas de crianças, de todas as idades. Havia bebés e adolescentes, rapazes e raparigas. Muitos eram deficientes. Físicos e mentais, consoante o estrago feito pela mina ou pelo susto. O edifício era uma ruína difícil de descrever. Podem ver, nas fotos, as paredes esburacadas pelos obuses, remendadas à pressa com tijolo e pouco cimento. No recreio, permanecia espetado no chão o esqueleto de um baloiço.Aqueles miúdos eram sobreviventes. Estavam vivos, depois de todos os outros terem morrido. Escaparam a bombas e minas, a violações e abandonos. A casa era gerida por três senhoras, que diariamente praticavam vários milagres. Era o da multiplicação dos grãos de milho e da farinha de mandioca. Era o milagre dos andrajos para tapar os corpos vivos e o da força para cavar novas sepulturas. Era o milagre da lenha para cozinhar para tanta fome. O Cuíto é uma terra de milagres, disso não tenho dúvidas.

quarta-feira, julho 12, 2006

Congo, Bambilo. Mãe muito velha

Todos os dias, Claudino atravessava a aldeia para chegar à última casa. Era uma habitação redonda, de pau a pique e telhado de palha. Uma casa muito pobre, a precisar de reforma. Vivia ali uma família. Duas irmãs e o filho de uma delas. As velhotas eram mesmo muito velhas, centenárias, o próprio filho já não era um jovem. Era a família mais pobre da comunidade. O homem tinha ficado aleijado há anos e era incapaz de fazer o que quer que fosse para procurar sustento para si e para as duas mulheres. Elas, eram uma imagem terrível. Cegas, muito magras, mal se mexiam.Claudino atravessava a aldeia, todos os dias, para passar umas horas com as velhotas. Pelo caminho, roubava sempre qualquer coisa. Um cacho de bananas, um ananás, uma raiz de mandioca, qualquer coisa que lhes pudesse servir de alimento.
Arrastava as velhas para fora da palhota, para que elas pudessem respirar ar fresco e apanhar um pouco de sol e vento. E ficava ali a conversar com elas. Falavam kizande, nunca percebi uma palavra do que diziam. Mas acho que lhes contava histórias alegres, porque elas riam.

terça-feira, julho 11, 2006

Angola, 1997. No Bailundo

Estive uma vez no Bailundo. Foi em 1997, quando Kofi Annan foi a Angola e viajou até ao Bailundo para conversar com Jonas Savimbi. O que os dois homens disseram um ao outro não sei ao certo, mas estou convencido que Savimbi desperdiçou a última oportunidade de vir a partilhar o poder com José Eduardo dos Santos. Acho que Savimbi não queria partilhar coisa nenhuma, acho que ele considerava ter o direito de exercer todo o poder e não apenas parte. Acho que José Eduardo dos Santos pensava da mesmíssima maneira e, assim, a viagem de Kofi Annan só poderia ser um fracasso político como foi, de resto.Gostei muito daquelas horas passadas no Bailundo. Foi interessante verificar como Kofi Annan tratava Savimbi em público, como se o angolano fosse a pessoa mais importante do Mundo. De certo modo, até era. Pelo menos, naquele momento e naquele lugar, era, de facto. Foi igualmente interessante ver como o povo do Bailundo temia aquele chefe. Nunca antes tinha estado com gente tão silenciosa e de olhos tão em baixo. Foi muito interessante, também, apreciar a arrogância de Savimbi quando, depois de terminada a reunião, foi à varanda do 1º piso mostrar Kofi Annan ao povo e discursou em umbundo. Nem uma palavra em português ou inglês, nem mesmo por cortesia com o convidado ou os vários jornalistas estrangeiros que ali estavam ou, até, pelos jornalistas angolanos que não falassem aquele dialecto.Mas também sei que a tradição ainda é um valor real para os povos que vivem longe das influências globalizantes do Mundo moderno e, por isso, percebo que não se possa confundir a obediência revelada por aquelas pessoas apenas com temor. O respeito pelas hierarquias, o respeito pela idade ou pela fama do outro, elementos da cultura tradicional dos povos bantu, ajudam a uma certa passividade perante o chefe. É um modo de se evitarem conflitos, que funciona desde que não seja o próprio chefe a causá-los.

segunda-feira, julho 10, 2006

Futebol


É assim, em câmara lenta, que também eu gosto mais de ver futebol.

domingo, julho 09, 2006

1998, fronteira Angola-Congo. O Mercedes Benz

A primeira vez que entrei no Congo, foi por aquela ponte. Do lado de lá é Angola. Atravessei a ponte dentro de um Mercedes Benz sem chapa de matrícula, conduzido por um soldado do exército angolano que, à falta de chave de ignição, usava uma ligação directa para por o motor em funcionamento. A caixa de velocidades tinha as habituais 5 mudanças, mas o soldado só usava as duas primeiras. Hábitos estranhos. No lado congolês, em Matadi, havia uma barreira da polícia para fiscalizar veículos e identidades, mas o soldado angolano fez questão de acelerar e furar a barreira, enquanto gritava pela janela. A excursão tinha um único objectivo: mostrar-nos quem mandava ali.
O exército angolano tinha uma base militar em Matadi, no Congo. Dali controlavam boa parte da fronteira e impediam, assim, que a UNITA continuasse a utilizar o Congo como santuário protector. Foi uma táctica inteligente dos generais angolanos que, deste modo, levaram a frente de batalha para fora do território angolano. Em 1998, a UNITA, apesar de ainda controlar a maior parte do território angolano, já não conseguia sair do mato e começava a ter problemas logísticos significativos. Em todo o território angolano, naquela época, a UNITA já só mantinha os bastiões históricos da Jamba, nas Terras do Fim do Mundo e, no Planalto, as localidades do Andulo e Bailundo e pouco mais.
O condutor do Mercedes Benz chamava-se a si mesmo “o soldado inteligente”. Via-se que gostava do poder que aquele volante significava. Reconheci naquele homem, a mesma ganância que já tinha visto (e voltei a ver, até hoje) em directores e adjuntos que, noutras latitudes, fazem coisas aparentadas, apenas porque também gostam do volante do Mercedes Benz que o patrão lhes põe nas mãos.

sábado, julho 08, 2006

Tcheka

“Amizadi fingidu duem
Amizadi fingidu ta due
Di algem ki sta pa mi
Ah! Coraçon fridu…”

Parece uma missa em latim, mas é um bocadinho de uma canção do Tcheka que ouvi, ontem à noite, num concerto na Torre de Belém.
Para quem gosta de blues, foi um momento precioso. Tcheka pertence a um grupo de jovens talentos musicais emergente em Cabo Verde. Com ele, não é só a voz, é também a guitarra e a alma que sobem ao palco.

A primeira vez que o ouvi foi na Cidade da Praia, em Março ou Abril de 2003, na minha última noite, depois de lá ter passado um mês numa acção de formação para jornalistas da televisão caboverdeana. Nessa noite, Tcheka era o “artista convidado” no concerto de outro miúdo, Vadu. Não sei de qual gosto mais.

sexta-feira, julho 07, 2006

Congo. De Land Rover

Durante esta estadia com os missionários portugueses no Alto Congo, fizemos duas viagens de carro. Uma de Bondo para Bambilo: 100 km, em 12 horas. A outra, de Bambilo para Zémio, na República Centro Africana: 200 km, em 48 horas. A velocidade de cruzeiro do velho Land Rover era de 5 a 10 km por hora. Dependia da picada e, principalmente, dependia das pontes que tivéssemos de atravessar. Era muito frequente encontrar árvores caídas a cortar o caminho. Árvores grandes, que morriam de velhice. Toneladas de madeira que tínhamos de cortar em pedaços suficientemente leves para poderem ser arrastados para a berma. Nas pontes, havia problemas de sustentabilidade… ou seja, as pontes eram de madeira, simples troncos deitados a unirem as margens dos rios, às vezes com uma face aparada. Apodreciam rapidamente e era necessário verificar se estariam em condições para aguentarem com o peso do carro. Como frequentemente não estavam, lá íamos nós de machado e serrote em punho cortar umas árvores para refazermos a ponte. Como o norte do Congo é uma imensa rede hidrográfica, de 20 em 20 km havia uma ponte para reparar…

quinta-feira, julho 06, 2006

Congo, Bambilo. Feijoada à brasileira

Já mencionei várias vezes o nome do Odacir Júnior, um dos companheiros de trabalho da SIC. Trabalhámos juntos várias vezes, ao longo dos 11 anos em que estive na SIC, mas só já no final descobri o seu grande talento. Não quero com isto dizer que ele não é um bom profissional, porque é. O Oda tem a vantagem de fazer o que gosta e, portanto, faz quase sempre bem. Além disso é corajoso e sofredor, ou seja, tem o perfil para ser recrutado para missões de sacrifício, onde se come mal e se dorme pior. Estivemos juntos no Sudão, no Congo, na Guiné-Bissau em reportagem e ele trabalhou muitas vezes para o “Casos de Polícia”, programa que apresentei e coordenei durante os três primeiros anos. Sei, sem sombra para dúvidas, que é um bom repórter.
Mas qual é, então, o grande talento do Oda, perguntarão… se olharem para a foto, saberão a resposta.Em Bambilo, em casa do missionário Claudino, o problema não eram só as aranhas, os mosquitos e o calor. Comia-se francamente mal. Peixe bagre seco… um bocado de farinha de mandioca ou de milho ou, em dias mais felizes, um pouco de arroz. O pior era que aquilo que se jantava, repetia-se ao pequeno-almoço na manhã seguinte e acabava-se de comer ao almoço desse dia. Comida fresca, feita de novo, só ao jantar. E, de noite, as baratas davam uma ajudinha para acabar com o farnel. Algumas empanturravam-se de tal modo que já não eram capazes de sair do tacho e acabavam por morrer, ali mesmo, no meio do arroz do pequeno-almoço. Era sempre uma visão feliz, olhar para aquele tacho, às 7 da manhã…
Um dia, o Odacir disse não. Naquele dia, ele iria cozinhar um almoço diferente. Foi ao mercado e comprou um saco de feijão, pôs de molho e cozinhou-o passado umas horas. Sim, era feijão com feijão, uma cebolita e um tomatito. Sem sal. Talvez com umas folhas de liamba para dar sabor… mas foi um sucesso. Em Bambilo, o Claudino nunca comeu melhor.

quarta-feira, julho 05, 2006

Guiné-Bissau. Mentira, arma de guerra

Durante a guerra, os estúdios da RTP África em Bissau eram utilizados pelos membros do governo guineense como se fossem propriedade do Estado. Entravam, usavam e abusavam, do telefone, do tempo de antena e das instalações sanitárias. Aquilo era território conquistado. Naqueles tempos, o delegado da RTP fazia malabarismos para manter a delegação em funcionamento. Sem aquelas instalações operacionais, não teria sido possível cobrir a guerra do modo como foi feito, pelo menos nos primeiros meses do conflito. Mais tarde, já foi possível transportar equipamento para Bissau que permitiu, pelo menos à SIC, prescindir da colaboração da RTP.
Nino também acreditava que beneficiava com a operacionalidade da RTP. Isto é, era pela RTP que ele e outros dignitários do regime tentavam passar a sua mensagem, tanto para os guineenses fora do país como para outros governos e a opinião pública internacional.
O momento que esta foto documenta é de uma conferência de imprensa dada em finais de Julho de 98 pelo tenente-coronel Afonso Té, naquele tempo Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas (umas FA`s que não existiam, na realidade).
O que a foto mais me lembra são as mentiras que Afonso Té disse naquele dia. Convocou a conferência de imprensa para os estúdios da RTP África, para anunciar que as tropas do regime tinham quebrado o cerco de Bissau e que estavam à beira de tomar Brá e o aeroporto. Naquele dia, essa mentira passou. Mas no dia seguinte, quando foi possível verificar a situação real, foi desmentida pelo menos na SIC e no Público.

terça-feira, julho 04, 2006

Congo, ano 2000. Bambilo

Um velho, às vezes, não tem mais de 50 anos. Mas são 50 anos de malária, guerras e fome. Nunca se consegue sobreviver muito tempo a uma conjuntura dessas. Se o mosquito não os mata, é o escorbuto ou a lepra que os consome por fora até ao osso. Se não for a bala é a fome. Vidas inteiras a comer raízes e porrada. Uma brutalidade que nenhum de nós sabe avaliar. Uma brutalidade que ninguém sabe descrever. Chegar a velho é, assim, sinal de grande sorte. Como se tivessem sido escolhidos por Deus.Claudino dedica-se essencialmente aos velhos, à escola e ao posto médico. A escola vai melhor. Cinco palhotas, uma para cada classe e mais uma para sala de reunião de professores que o próprio Claudino formou. Não há livros nem sebentas. A biblioteca é constituída por revistas missionárias já muito antigas, mas sempre fascinantes, porque têm fotografias que são como janelas para um mundo muito diferente.
No posto médico, os medicamentos eram poucos. São trazidos por comerciantes que fazem a pé o percurso desde Bondo até Zémio, na República Centro Africana. Para lá, carregam nas costas carne fumada de elefante, búfalo ou chimpanzé, que vendem nos mercados do lado de lá da fronteira. Para cá, carregam medicamentos, munições para AK-47 ou caçadeiras de chumbo grosso e roupa. Os comerciantes demoram uma semana a ir e outra para voltar. Palmilham centenas de quilómetros e muitos morrem no caminho, vítimas de doença ou de assaltantes. Por isso, os produtos que trazem são caros. Por isso, havia poucos medicamentos no posto médico de Bambilo. Só a caixa dos preservativos estava cheia. “Não gostam de os usar”, disse Claudino.

segunda-feira, julho 03, 2006

Somália 92. Do inferno para o paraíso

Os últimos dias em Mogadíscio foram de grande sobressalto. Tínhamos a sensação de que estávamos a arriscar demasiado. Julgo que esse sentimento foi fortemente influenciado pelo que sucedeu a um companheiro de trabalho holandês, um camera-man da RTL que quebrou psicologicamente. Um dia, resolveu não sair mais para a rua e deixou de conseguir trabalhar. Também nós já fazíamos riscos na parede do quarto…
Aquilo que aconteceu há dias a Martin Adler, tinha acontecido por aqueles dias a um funcionário de uma ONG que, ao recusar um aumento salarial aos seus guarda-costas, foi sumariamente fuzilado à porta de casa. De modo que quando recebemos luz verde para retirar dali, foi um alívio. O drama era sair. A única maneira era apanhar um avião. Ir para a pista e esperar que aparecesse algum avião, civil ou militar, que nos desse uma boleia para qualquer lado do Mundo. Naquela altura, o aeródromo central de Mogadíscio era um local movimentado. A Somália concentrava todas as atenções, políticas e humanitárias, de modo que chegavam a toda a hora aviões carregados com sacas de alimentos e que saíam vazios.

Foi isso que fizemos, com uma particularidade. Não queríamos ir para qualquer lado. Eu queria ir para Mombassa… depois daquele inferno, só queria meter a cabeça debaixo de água no Índico. Demo-nos ao luxo de recusar boleias para Dar-es-Salam, Nairobi, Entebbe. De repente, aterrou um monstro branco com asas enormes. Quando o piloto saiu, perguntei-lhe para onde iria regressar, depois de descarregar os sacos de farinha de milho. O russo tirou uma garrafinha de bolso, abriu-a e inspirou o perfume do whisky. Depois, tomou um trago. Por fim, respondeu-me: Mombassa.
Foi assim que viajamos, eu e o Domingos Mascarenhas, no maior avião do Mundo. O Antonov 225. Com uma tripulação russa que parecia acabadinha de sair de uma história de banda desenhada de Hugo Pratt.
Eram todos estranhos, emporcalhados, arrotavam a whisky e peidavam-se olimpicamente. Mas levaram-nos pelo céu e aterraram suavemente em Mombassa, onde preenchi o meu imaginário com novos sonhos.

sábado, julho 01, 2006

Guiné-Bissau. O bicho feio

Saltinho é o nome de uma queda de água no rio Corubal, no sul da Guiné-Bissau, junto à aldeia de Mampatá, relativamente perto de Bambadinca e Xitole, povoações de média dimensão.
Na curva do rio, a seguir à ponte, existe um clube de caçadores, com quartos e restaurante. Aquelas instalações começaram por ser dos militares portugueses, durante a guerra colonial. Estava ali uma companhia de caçadores, precisamente. Guardavam a única ponte jamais construída em todo o território guineense, o que fazia da estrutura um provável alvo militar. A ponte, de facto, facilita bastante as ligações rodoviárias do sul com o resto do país. No entanto, acho que o PAIGC nunca atacou a ponte do Saltinho. Ainda hoje lá está.As instalações militares, depois da independência, passaram a clube civil. Chamaram-lhe clube de caçadores, talvez para manter a designação. Sempre que fui à Guiné, procurei ter tempo para passar no Saltinho. Do lado de cima da queda de água dizem que há crocodilos e hipopótamos. Não sei, nunca vi. O “bicho” mais horrível que vi, no Saltinho, foi o rabo do Odacir Júnior, numa tarde de paródia.

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