Conheci o Bruno Rascão no aeroporto de Lisboa, a caminho de Dacar. Ele e o Pedro Rosa Mendes, mais o Carlos Aranha, foram os meus companheiros nas primeiras aventuras da guerra da Guiné.O Bruno é um excelente repórter fotográfico, mas nem por isso conseguiu trabalhar em Portugal. Ou temos muitos repórteres excelentes ou a excelência não é factor decisivo no recrutamento de jornalistas em Portugal.
É assim que o Bruno está a viver em Espanha. E foi de lá que me enviou um email com um texto sobre uma das suas últimas reportagens, no caso sobre uma estranha tradição religiosa de Córdoba, em Espanha. As fotografias desse trabalho estão neste site (procurem em All Stories, Las Costaleras). O texto, com a devida vénia ao Bruno Rascão, vou passá-lo aqui. Fatiado, para evitar o cansaço de uma leitura mais longa que a aconselhada para um blog.
Aqui têm a primeira fatia...
Nas traseiras da igreja o capataz abre uma pequena garagem. Um buraco grande e sem luz. Javier Perez faz girar uma porta basculante. Lá dentro, está uma estrutura em ferro, de tom avermelhado, da qual saem quatro pés. Cá fora, mais de 40 mulheres, de diversas idades, aproximam-se com o costal na cabeça, tecido grosso dobrado em forma de saco. “Vamos a isto”, diz o capataz às costaleras: “Lá para dentro, e a rezar”.
Aquela estrutura, em forma de mesa, ocupa por inteiro a garagem. Chama-se mesa ou parihuela, objecto que o capataz há-de conduzir ao longo do bairro do Cerro, em Córdova; e as mulheres suster durante o ensaio de quase quatro horas numa tarde quente de Março. Dez metros quadrados que servirão de palco à Virgem da Encarnação no Domingo de Ramos. De modo informal a pequena multidão começa a murmurar as orações. Debaixo distribuem-se 30 mulheres, em grupos de cinco, ao longo de seis traves. Estão prontas a erguer a parihuela, que no dia de penitência, com a imagem em cima, se chama passo.
Os primeiros costaleros eram profissionais, homens de faina que carregavam os produtos nos mercados grossistas. Utilizavam o costal, na época um saco de serapilheira posto na cabeça para amortecer o peso que carregavam às costas. A troco de um soldo saíam às ruas nas exuberantes procissões da Semana Santa andaluza, debaixo dos passos com imagens das paróquias. A Virgem da Encarnação não escapava à regra. Chegou ao Cerro em 1981, um bairro de operários de classe baixa, e passou a acompanhar o Cristo do Amor, que dá nome à irmandade.
De perto seguiam-na, entre os nazarenos (penitentes com um capuz em cone a cobrir o rosto), um grupo de mulheres. Rafaela Vasquez, 47 anos, ex-empresária, era uma delas e o pai Hermano Maior, ou director da confraria. Por vontade da filha, deixou que formasse um grupo de costaleras, pioneiro em Espanha. O objectivo era substituir os profissionais. Em 1986, depois de três anos de ensaios e um troço do percurso no Domingo de Ramos de 1985, passaram a ser as portadoras do passo da Encarnação.(continua)
Mobutu podia estar no jacuzzi e apreciar as suas convidadas estiraçadas na borda da piscina ou nadando. Ou vice-versa. Ou na banheira com hidromassagem… A piscina, profunda, em forma de gota.
A casa, hoje, está ocupada por militares e respectivas famílias. Não foi possível meter o nariz em todas as divisões. As paredes exteriores da casa estão pintadas com frescos enormes, com figuras africanas que não sei identificar.
Mas pareceram-me representações da vida familiar de gente comum. O que não deixa de ser estranho, para um ditador tão megalómano.
Estou em fuga ao grande massacre. Não aguento mais "informação" sobre o mundial de futebol. Estou a ficar maluco com os fãs, as opiniões dos fãs, os bitaites dos comentadores, dos treinadores, dos ex-jogadores, estou deseperado com o país de professores marcelos que de repente começou a atacar. Mais as "reportagens" sobre os casais do futebol e do showbizz, as mulheres e namoradas dos craques, as ex-mulheres e as promitentes namoradas dos craques, as ex-mulheres e as ex-namoradas dos presidentes ou as ex-mulheres e ex-namoradas dos ex-presidentes.
E os anúncios da selecção, que já nos vende gás natural, gasolina e gasóleo, tudo de primeira, cervejas, iogurtes, contas bancárias e seguros, tudo do mais saudável que há, cadeias de supermercados e a Casa do Gil, tudo do melhor, como o "kunami" do Gato Fedorento, e até, o eterno copyright da camisola do Eusébio-66, na versão "tenho-uma-lágrima-no-canto-do-olho". Mas muito mais há ainda para vender, incluindo a alma ao diabo. Até nos convencerem de vez, e sem margem para contraditório, que os portugas do país Scolari, de bandeirinha à janela, somos definitivamente os maiores.
Uma das sopinhas de letras "simple minded" das musiquetas nacionalistas que já se ouvem por todo o lado, garante mesmo que "nós unidos, jamais seremos vencidos".
Três pisos de salões imponentes e terraços rasgados para vários hectares de jardins decorados com estatuetas e repuxos iluminados de noite por lâmpadas multicores. Do jardim, sobram alguns arbustos finalmente libertos da tesoura dos jardineiros, mas quase tudo foi já engolido pelo mato. Lá dentro, já desapareceu a mobília estilo Luís XIV, os lustres, as torneiras em ouro, as chaise-long, levaram tudo menos as paredes e as mesas de 20 metros de comprimento, feitas de mármore alentejano e tão pesadas que ninguém se atreveu a roubá-las.
Mobutu teve o prazer de mandar construir o Palais Gbadolite. Kabila deixou que fosse pilhado e destruído.
Deve ter andado por estes salões, talvez tenha celebrado a sua última ceia com os fiéis numa daquelas mesas de pedra alentejana. Daqui seguiu para o aeroporto, onde nunca nenhum Concorde aterrou, a caminho do exílio no Togo e, mais tarde, em Marrocos. Uma memória que vai desaparecendo. O tempo deitará abaixo o símbolo de tanta vaidade.



Na
O documento que vos mostro autorizava-me a
Como também se pode ver nas fotografias, houve uma ponte projectada para aquele sítio, que se tivesse sido construída evitaria aquela trabalheira. Mas, contaram-me, Mobutu desistiu da ideia a meio da construção porque, subitamente, temeu que a ponte facilitasse a invasão do Zaire por algum inimigo. De modo que ficaram os pilares…
Os homens da canoa que nos foram buscar à margem da República Centro Africana eram já elementos do
Não sei quem me deu estas folhas de papel, não me lembro, mas pela caligrafia deve ter sido uma mulher.
Lembro-me da fila de centenas de outras mulheres e de crianças em frente à capela de Nhacra, em horas de espera ao sol e dos atropelos quando a distribuição começava. Era a ânsia, o medo de que a ração acabasse antes de terem recebido o quinhão prometido. Porque havia sempre alguém que ficava de mãos vazias.
Bemba (0 senhor alto da foto, em cima) foi um dos War Lords que dividiram o Congo e disputaram entre si as riquezas do país.
O que eu queria, mesmo, era entrar no Congo e chegar a Bondo, na província Equatorial, no norte do país. A minha tarefa era fazer um documentário sobre a vida dos “missionário da linha da frente” do cristianismo, aqueles homens e mulheres que a Igreja Católica envia para as zonas mais inóspitas do planeta, com a missão de evangelizar os povos.
Encontrei-a em Ramallah, em 89 e em 1991 em Lisboa. Foi aqui que a entrevistei longamente para o Jornal das 9 do Canal 2 da RTP. Longamente, porque me deixei enfeitiçar pelas palavras e pelo olhar escuro desta mulher. De facto, utilizei três ou quatro minutos úteis para o trabalho exibido nesse jornal televisivo. Mas não fui capaz de prescindir do privilégio de estar ali com ela e poder aprender com ela.
Baciro Dabó era o home forte da segurança do estado guineense, em 1999. Foi um homem 

A foto foi tirada por mim, em Março de 2003. Lá longe, é a Ilha da Boavista vista da Ilha de Santiago.
O texto exagerava um pouco na comparação que fazia entre o Tarrafal e as prisões de Hittler. Na minha opinião, a cadeia portuguesa nunca foi um campo de extermínio. Mas é bom que se saiba que aquilo existiu e que, ainda assim, lá morreram 32 presos por delito de opinião.Sempre que fui a Cabo Verde, estive no Tarrafal. Isto é, sempre que fui a Santiago, estive no Tarrafal. Almoço um peixe grelhado no restaurante sobre a praia e cumpro uma espécie de peregrinação pessoal à antiga prisão.
De todas as vezes, senti tristeza por ver o sítio a cair aos pedaços. Ninguém liga a mínima importância àquele local, um desleixo que ofende a memória dos que ali sofreram e morreram por delito de opinião.
O Tarrafal nunca foi uma prisão de delinquentes. Era uma prisão política… e, por isso, deveríamos cuidar do Tarrafal, fazer daquilo um atractivo turístico, recuperar as celas, recolocar os instrumentos de tortura, reconstruir a “frigideira”, a enfermaria, a cozinha, as latrinas, o cemitério. Deveríamos pedir autorização ao governo caboverdeano para podermos ajardinar aquilo, pintar as paredes, montar uma lojinha de souvenirs alusivos. Porque é terrível não ter memória.
Tive, assim, oportunidade de conhecer um dos dirigentes palestinianos menos ortodoxos, se é que a palavra se pode aplicar… Freij era católico (presbeteriano?) e pertencia a uma família residente em Belém há mais de cinco séculos. Além de edil, tinha umas lojas onde se podiam comprar recordações locais como, por exemplo, garrafinhas com azeite e pequenas esculturas em pedra. Sempre foi um tipo influente, tanto no período do domínio inglês, no jordano ou no israelita. Freij era o único dirigente palestiniano que os israelitas não depuseram.
Faisal Husseini era um aristocrata palestiniano. Nascido de boas famílias, gente com dinheiro, donos de fábricas e comerciantes, estudou em Bagdad (onde nasceu, em 1940), em Damasco e em Amman.
Gostei dele, gostei dos argumentos que utilizou para justificar a Intifada então em curso. Não falava em ódio nem em vinganças bíblicas, citava antes as resoluções da ONU e as normas do direito internacional. Percebi que acreditava profundamente nas justas razões da causa por que lutava.
Morreu cedo, aos 61 anos, de ataque cardíaco. Está enterrado no local mais emblemático e sagrado para os palestinianos, a Mesquita Al Aqsa, em Jerusalém.
A foto que vos mostro é do momento da rendição da guarnição francesa em Bissau. Um momento humilhante para a França que apoiou, desde a primeira hora, o presidente Nino Vieira e a intervenção militar do Senegal que sustentou o presidente guineense. A França alimentou o conflito, com armas e munições e, juravam muitos rebeldes, até com soldados intervenientes nos combates.
É este o teor essencial da mensagem e que me enterneceu. Pela determinação que revela, por demonstrar que é possível sair por cima de sítios daqueles. Conforme já respondi a este senhor, a reportagem em questão está incluída numa colectânea que pode ser adquirida, segundo julgo, no Sindicato dos Jornalistas, aqui em Lisboa, na Rua Duques de Bragança, ali ao Chiado.
Ao menos que tenha servido para isso, já que a polícia encontrou poucas armas a julgar pelas reportagens publicadas: 3 pistolas, 3 carabinas, 13 caçadeiras.
Segundo parece, houve fuga de informação. Os alegados marginais terão tido conhecimento prévio de que a operação se ia realizar, pode-se ler numa das reportagens.
Quem terá bufado? Ou foram polícias ou foram… jornalistas…
Mas há quantos anos existe o Bairro da Torre? Quem permitiu que a criminalidade se instalasse ali de modo avassalador? Quem andou décadas a fazer de conta que aquilo não existia? Quem teimou em não ver os sinais? O que fizeram quando os trabalhadores dos serviços municipalizados de Loures se recusaram a entrar no bairro, porque eram assaltados sempre que lá iam recolher o lixo? Esticavam o braço para engatar o contentor à grua do camião e desaparecia o relógio de pulso… ou era a carteira que ia na ponta e mola do tipo escondido na sombra… e quem resistia levava porrada… sei disto porque andei por lá, numa reportagem para a TSF, em 2004.
E que história conta este papel? Conta-nos o inestimável contributo das rádios da Guiné-Bissau na ajuda a centenas de milhar de refugiados. As pessoas tinham fugido de Bissau e estavam por conta própria. Não havia ONG no terreno, excepção da Igreja Católica que nunca fugiu para lado nenhum. As famílias estavam separadas, os vizinhos distantes, não havia telefones nem qualquer outro meio de comunicação à distância. Foi então que as rádios, principalmente as rádios locais, iniciaram um serviço de apoio às populações que se revelou essencial. Durante horas a fio, liam comunicados familiares, tipo este que vos mostro: “Favor comunicar à Guida, mulher do Poió, a Perpétua, Joana Carvalho, todas em Prábis possivelmente, de que devem sair porque o grupo que vai para Cabudu e Bolama pode encontrar carros em Safim…”.
Era preciso que o aviso fosse ouvido ou pelo destinatário ou por alguém que pudesse retransmitir o recado. Era um tiro no escuro, mas funcionou bem muitas vezes, até porque as pessoas passavam o dia com a orelha colada ao transístor para ouvirem estes recados e 
Daquela vez, alugámos uma casa no Bairro Azul. A casa estava vazia e quem tomava conta dela era o senhor Baganha, um tuga já velhote mas cheio de energia e de expediente. O senhor Baganha ganhava a vida com um camião. Ia e vinha, de Luanda até Viana, transportava gente e tudo o mais que houvesse. Fazia o percurso várias vezes ao dia e, à noite, gastava duas horas a contar as notas. Parecia muito, mas não era. O dinheiro não valia nada. Para comprar uma cerveja, tínhamos de levar um carrinho de mão cheio de notas. Era uma vida arriscada, não só porque ele era branco e, por isso, dava nas vistas, mas porque Viana era fronteira com o território dominado pela UNITA. Estar em Luanda, naqueles tempos, era como estar numa ilha. Só se saía dali voando.
Naquela época, o exercício da medicina privada era proibido. Devia ser considerado um perigoso vício da burguesia. Ainda assim, havia médicos que arriscavam, como foi o caso do que se prontificou a ir ver-me à cama onde ardia em febre. Além disso, deu-me os comprimidos de quinino e prescreveu a dose de cavalo, tipo ou te curas ou morres. Eu curei-me, mas sei que, todos os anos, morrem milhares de seres humanos em Moçambique, por causa dessa doença. Li umas estatísticas que falam em 4 mil mortes anuais, o que faz da malária a principal
Para quem não sabe do que estou a falar, vou tentar explicar. A malária é transmitida através de um plasmodium (um parasita) transportado por um mosquito. Ao picar a pele para beber sangue, o mosquito acaba por introduzir o plasmodium no sangue. Depois, esse plasmodium ataca os glóbulos vermelhos, o que provoca infecção, daí a febre. Acho que não expliquei muito mal.
Confesso aqui que nunca acreditei na culpa do padre. Talvez isso tenha ajudado a convencê-lo a alinhar na história do polígrafo. É claro que, fosse qual fosse o resultado do teste, aquilo não passaria de um programa de televisão e, portanto, não iria influenciar quanto ao cumprimento da pena de prisão. Quer ele passasse no teste, quer não, continuaria preso a cumprir a pena decretada.
Pedi autorização para que o padre pudesse ser escoltado até ao estúdio para se gravar a entrevista. O Director-Geral dos Serviços Prisionais não viu inconvenientes e aceitou deixar que Frederico Cunha saísse da cela para ir à televisão. Mas ninguém sabia do polígrafo…
