Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











domingo, maio 21, 2006

Costaleras do Amor (1)

Conheci o Bruno Rascão no aeroporto de Lisboa, a caminho de Dacar. Ele e o Pedro Rosa Mendes, mais o Carlos Aranha, foram os meus companheiros nas primeiras aventuras da guerra da Guiné.
O Bruno é um excelente repórter fotográfico, mas nem por isso conseguiu trabalhar em Portugal. Ou temos muitos repórteres excelentes ou a excelência não é factor decisivo no recrutamento de jornalistas em Portugal.
É assim que o Bruno está a viver em Espanha. E foi de lá que me enviou um email com um texto sobre uma das suas últimas reportagens, no caso sobre uma estranha tradição religiosa de Córdoba, em Espanha. As fotografias desse trabalho estão neste site (procurem em All Stories, Las Costaleras). O texto, com a devida vénia ao Bruno Rascão, vou passá-lo aqui. Fatiado, para evitar o cansaço de uma leitura mais longa que a aconselhada para um blog.
Aqui têm a primeira fatia...

Nas traseiras da igreja o capataz abre uma pequena garagem. Um buraco grande e sem luz. Javier Perez faz girar uma porta basculante. Lá dentro, está uma estrutura em ferro, de tom avermelhado, da qual saem quatro pés. Cá fora, mais de 40 mulheres, de diversas idades, aproximam-se com o costal na cabeça, tecido grosso dobrado em forma de saco. “Vamos a isto”, diz o capataz às costaleras: “Lá para dentro, e a rezar”.
Aquela estrutura, em forma de mesa, ocupa por inteiro a garagem. Chama-se mesa ou parihuela, objecto que o capataz há-de conduzir ao longo do bairro do Cerro, em Córdova; e as mulheres suster durante o ensaio de quase quatro horas numa tarde quente de Março. Dez metros quadrados que servirão de palco à Virgem da Encarnação no Domingo de Ramos. De modo informal a pequena multidão começa a murmurar as orações. Debaixo distribuem-se 30 mulheres, em grupos de cinco, ao longo de seis traves. Estão prontas a erguer a parihuela, que no dia de penitência, com a imagem em cima, se chama passo. Os primeiros costaleros eram profissionais, homens de faina que carregavam os produtos nos mercados grossistas. Utilizavam o costal, na época um saco de serapilheira posto na cabeça para amortecer o peso que carregavam às costas. A troco de um soldo saíam às ruas nas exuberantes procissões da Semana Santa andaluza, debaixo dos passos com imagens das paróquias. A Virgem da Encarnação não escapava à regra. Chegou ao Cerro em 1981, um bairro de operários de classe baixa, e passou a acompanhar o Cristo do Amor, que dá nome à irmandade. De perto seguiam-na, entre os nazarenos (penitentes com um capuz em cone a cobrir o rosto), um grupo de mulheres. Rafaela Vasquez, 47 anos, ex-empresária, era uma delas e o pai Hermano Maior, ou director da confraria. Por vontade da filha, deixou que formasse um grupo de costaleras, pioneiro em Espanha. O objectivo era substituir os profissionais. Em 1986, depois de três anos de ensaios e um troço do percurso no Domingo de Ramos de 1985, passaram a ser as portadoras do passo da Encarnação.
(continua)

sábado, maio 20, 2006

Congo, ano 2000. A palhota

Numa outra colina, fora da cidade, fica a residência particular de Mobutu.
Quem pilhou, não deixou ficar nada. Mas ainda dá para ver o requinte das instalações.
Recordo que fiquei fascinado com uma das casas-de-banho.Sempre gostei delas grandes… e uma das casas de banho tinha mais de 250 metros quadrados, uma imensa frente envidraçada para a piscina. Mobutu podia estar no jacuzzi e apreciar as suas convidadas estiraçadas na borda da piscina ou nadando. Ou vice-versa. Ou na banheira com hidromassagem… A piscina, profunda, em forma de gota.A casa, hoje, está ocupada por militares e respectivas famílias. Não foi possível meter o nariz em todas as divisões. As paredes exteriores da casa estão pintadas com frescos enormes, com figuras africanas que não sei identificar.Mas pareceram-me representações da vida familiar de gente comum. O que não deixa de ser estranho, para um ditador tão megalómano.

sexta-feira, maio 19, 2006

A alegria do povo não é o ópio de toda a gente

Carta de um amigo (homónimo):

Carlos,
As minhas férias deste ano têm início na próxima sexta-feira e serão passadas bem longe de Portugal, por razões ponderosas (esta não é uma forma bonançosa de sugerir que as passarei no rancho da família Cartwright).
Na realidade, estou em fuga. E aproveito para comunicar esse facto a todas as autoridades interessadas. Podem facilmente interceptar esta comunicação. Estou em fuga ao grande massacre. Não aguento mais "informação" sobre o mundial de futebol. Estou a ficar maluco com os fãs, as opiniões dos fãs, os bitaites dos comentadores, dos treinadores, dos ex-jogadores, estou deseperado com o país de professores marcelos que de repente começou a atacar. Mais as "reportagens" sobre os casais do futebol e do showbizz, as mulheres e namoradas dos craques, as ex-mulheres e as promitentes namoradas dos craques, as ex-mulheres e as ex-namoradas dos presidentes ou as ex-mulheres e ex-namoradas dos ex-presidentes. E os anúncios da selecção, que já nos vende gás natural, gasolina e gasóleo, tudo de primeira, cervejas, iogurtes, contas bancárias e seguros, tudo do mais saudável que há, cadeias de supermercados e a Casa do Gil, tudo do melhor, como o "kunami" do Gato Fedorento, e até, o eterno copyright da camisola do Eusébio-66, na versão "tenho-uma-lágrima-no-canto-do-olho". Mas muito mais há ainda para vender, incluindo a alma ao diabo. Até nos convencerem de vez, e sem margem para contraditório, que os portugas do país Scolari, de bandeirinha à janela, somos definitivamente os maiores. Uma das sopinhas de letras "simple minded" das musiquetas nacionalistas que já se ouvem por todo o lado, garante mesmo que "nós unidos, jamais seremos vencidos".
Ora aí está um pensamento original e com bastas provas dadas. Capaz de legitimar a ideia de que "quer se possa ou se não possa, a vitória será nossa" ( tal como reza o hino do Sporting, o meu clube) .
A meu ver, este mundial é de todo desnecessário. Já ganhámos, já somos os gloriosos e imbatíveis campeões mundiais da futebolite parola. Por isso, não estarei cá para apoiar a enorme causa. Temos voluntários de sobra para gramarem o grande massacre.
Um abraço ! Até ao meu regresso !
Carlos

quinta-feira, maio 18, 2006

Congo, ano 2000. Le Palais Gbadolite

O defunto ditador, Mobutu Sese Seko, tinha um carinho especial por Gbadolite, uma pequena cidade encostada à fronteira norte do Zaire, a fronteira com a República Centro-Africana. Compreende-se, era a sua terra natal. Fez da aldeia uma cidade. Dotou-a de estruturas que poucas cidades no Mundo se podem gabar de ter. Exemplos? Um aeroporto capaz de albergar o Concorde, com uma pista com 4 quilómetros de comprimento e uma gare modernaça, toda envidraçada, com free-shops e tudo. Além disso, Gbadolite tem uma central de energia eléctrica produzida pela força da corrente do rio Congo. O rio ali corre com força, como podem ver nestas fotos aqui, e a central trabalha ininterruptamente em automático até que alguma peça se parta e a engrenagem paralise. Enquanto isso não acontecer, Gbadolite tem luz eléctrica e de borla. Mas, além disto tudo, Mobutu tinha uma casa ali. Mandou construir uma catedral e um palácio e, ainda, uma cidadela chinesa… vou mostrar isso tudo. Começo pelo palácio. Três pisos de salões imponentes e terraços rasgados para vários hectares de jardins decorados com estatuetas e repuxos iluminados de noite por lâmpadas multicores. Do jardim, sobram alguns arbustos finalmente libertos da tesoura dos jardineiros, mas quase tudo foi já engolido pelo mato. Lá dentro, já desapareceu a mobília estilo Luís XIV, os lustres, as torneiras em ouro, as chaise-long, levaram tudo menos as paredes e as mesas de 20 metros de comprimento, feitas de mármore alentejano e tão pesadas que ninguém se atreveu a roubá-las. Mobutu teve o prazer de mandar construir o Palais Gbadolite. Kabila deixou que fosse pilhado e destruído. Jean Pierre Bemba nunca soube o que fazer dessa herança.
Mobutu esteve aqui, pela última vez, em 16 de Maio de 1997, na véspera da entrada de Kabila em Kinshasa.Deve ter andado por estes salões, talvez tenha celebrado a sua última ceia com os fiéis numa daquelas mesas de pedra alentejana. Daqui seguiu para o aeroporto, onde nunca nenhum Concorde aterrou, a caminho do exílio no Togo e, mais tarde, em Marrocos. Uma memória que vai desaparecendo. O tempo deitará abaixo o símbolo de tanta vaidade.

quarta-feira, maio 17, 2006

O Brasil em guerra

A vaga de atentados contra a polícia e as estruturas do estado no Brasil tomou proporções alarmantes. Claro que mesmo numa cidade como São Paulo, onde só ali vive o dobro da população de Portugal inteiro, a morte violenta de 130 ou 140 pessoas não deixa de constituir um facto assustador.

manchete do Diário de Notícias, ontem

Mas o que mais assusta, penso eu, é o desafio das organizações criminosas que não hesitam em iniciar uma guerra contra o estado. O que também assusta muito é a percepção de que há franjas da sociedade que estão dispostas a tudo, como se nada tivessem a perder. Atacam, só pensam em matar, dedicam-se à vingança, como se também quisessem morrer vendendo caro a sua morte. É uma espécie de suicídio, a não ser que os tipos que se meteram nisto pensem que têm alguma hipótese de derrotarem o Estado. Mas, depois disto, ninguém espere que a polícia brasileira tenha respeito pelos direitos dos que lhes caírem nas mãos.

favela Rosinha, Rio de Janeiro

O crime no Brasil há muito que é um fenómeno bastante visível. Nos anos 80, na minha primeira viagem ao Rio de Janeiro, lembro-me de ter lido nos jornais cariocas que, só no Rio, a média diária de vítimas mortais do crime era superior à média de mortes da guerra do Vietname. E, algumas noites, da janela do quarto do hotel em Copacabana, que em vez de dar para o mar dava para uns morros, lembro-me de ver o risco característico das balas tracejantes, em batalhas de um morro contra outro pelo controlo das bocas de fumo e de zonas de prostituição.

Os Nuba

As fotografias e o testemunho de António Cores, um espanhol que também andou pelas Montanhas Nuba.

terça-feira, maio 16, 2006

Carimbo = Poder

Testemunhei várias situações em que entidades não-estatais desempenhavam o papel do Estado. Quase sempre grupos rebeldes, mas nem sempre. Na Bósnia, por exemplo, foi um soldado norueguês quem me carimbou a vermelho no passaporte MAYBE AIRLINES.
Uma espécie de recuerdo que eles impunham a todos que chegavam a Sarajevo a bordo dos aviões militares. Na primeira vez que entrei no Sudão, tive de pedir um passepartout ao SPLA, Exército de Libertação dos Povos do Sudão. A “embaixada” funcionava em Nairobi, no Quénia, na sede de uma ONG que alegadamente tratava de ajuda humanitária nas zonas controladas pelos rebeldes sudaneses. Duas fotografias e um impresso em duplicado, tal qual nas representações oficiais dos Estados. O documento que vos mostro autorizava-me a viajar nas Montanhas Nuba, no Kordofan sul, por um período de três semanas a partir de 19 de Março de 99. Um carimbo azul e outro vermelho certificam o documento e oficializam a autorização. Estes rituais têm dois propósitos: arrecadar receitas e, principalmente, exercitar poder. Depois de emitidos, normalmente nunca nos pedem para exibir tais documentos. Talvez porque sem eles não poderíamos estar ali e porque a maioria das pessoas que nos poderiam pedir para ver a autorização não sabe ler.

segunda-feira, maio 15, 2006

Congo, ano 2000. A travessia

Correu tudo como mister John tinha dito. A travessia do rio Congo foi qualquer coisa de inesquecível. A canoa passou junto aos rápidos, como podem ver na fotografia. Por alguma razão da dinâmica das águas que desconheço em absoluto, perto da cachoeira a corrente tem menos força. Como também se pode ver nas fotografias, houve uma ponte projectada para aquele sítio, que se tivesse sido construída evitaria aquela trabalheira. Mas, contaram-me, Mobutu desistiu da ideia a meio da construção porque, subitamente, temeu que a ponte facilitasse a invasão do Zaire por algum inimigo. De modo que ficaram os pilares… Os homens da canoa que nos foram buscar à margem da República Centro Africana eram já elementos do MLC, homens de Jean Pierre Bemba. Na margem congolesa tivemos de cumprir todos os rituais alfandegários. O MLC exercia, de facto, a administração pública do território e não brincava em serviço. Até nos carimbaram os passaportes, como faz um Estado a sério.

domingo, maio 14, 2006

Guiné Bissau, guerra civil. O bilhetinho

Outro bilhetinho amarrotado encontrado no mesmo saco de plástico.
São papelitos tipo post it, daqueles que se colam na porta do frigorífico.
Diz a anotação que em 13 de Fevereiro de 99, o número de refugiados da guerra era de 45877 pessoas, em Safim (que fica relativamente perto de Bissau). E que cada uma dessas pessoas recebeu 3 kg de arroz, 1 litro de óleo, 1 kg de ervilhas, 1 kg de farinha de trigo e que cada agregado familiar recebeu 5 barras de sabão amarelo, até 11 de Fevereiro. Nova distribuição foi realizada dia 12, mas apenas de meio litro de óleo e 2 kg de farinha de trigo por pessoa.
Nada de carne, nada de peixe, nem uma gota de leite. Não sei quem me deu estas folhas de papel, não me lembro, mas pela caligrafia deve ter sido uma mulher. Lembro-me da fila de centenas de outras mulheres e de crianças em frente à capela de Nhacra, em horas de espera ao sol e dos atropelos quando a distribuição começava. Era a ânsia, o medo de que a ração acabasse antes de terem recebido o quinhão prometido. Porque havia sempre alguém que ficava de mãos vazias.

sábado, maio 13, 2006

Congo, ano 2000. mister John

De todos os candidatos presidenciais que vão a votos, no próximo mês, no Congo, apenas conheço um: Jean Pierre Bemba, dirigente do MLC - Mouvement de Libération du Congo. Bemba (0 senhor alto da foto, em cima) foi um dos War Lords que dividiram o Congo e disputaram entre si as riquezas do país.
As negociações que levaram ao fim da guerra e à formação de um governo de transicção, colocaram Bemba na vice-presidência do Congo e, agora, na luta pela presidência.
Se lerem os textos antigos que já publiquei aqui, poderão ficar a conhecer um pouco este personagem.
Mas, a partir de hoje, retomo o tema “Congo e Bemba”. Há muito para contar, ainda.
Começo por relatar como cheguei até Bemba. O que eu queria, mesmo, era entrar no Congo e chegar a Bondo, na província Equatorial, no norte do país. A minha tarefa era fazer um documentário sobre a vida dos “missionário da linha da frente” do cristianismo, aqueles homens e mulheres que a Igreja Católica envia para as zonas mais inóspitas do planeta, com a missão de evangelizar os povos.
Primeiro, tentei um percurso a partir do Quénia, indo até ao Uganda ou ao Rwanda e usar uma dessas fronteiras. Mas a guerra não deixou. Os combates no leste do Congo impediam-me de tentar sequer a travessia por aí. De modo que fui de Nairobi para Bangui, na República Centro Africana e aí tentei atravessar a fronteira. Mas, para isso, precisava de ter autorização dos rebeldes, do outro lado do Rio Congo.
O Cônsul português em Bangui, um senhor que dirige um supermercado, aconselhou-me a ir até à embaixada dos EUA e pedir para “falar com Mr.John”. Deu-me um número de telefone, para onde liguei. Atendeu-me o tal senhor John. Combinámos um encontro, em plena via pública, para dali a uma hora. Conversámos sobre o que queria eu fazer no Congo… ele ouviu e depois disse para voltar a telefonar-lhe no dia seguinte. Foi então que me deu as seguintes instruções. Teria de alugar um avião e ir até Mobaye. Aí estaria um carro à minha espera que me levaria até ao rio, onde estaria uma canoa para me levar até ao outro lado, onde estaria alguém à minha espera e então seria levado até Gbadolite onde iria ter oportunidade de falar com Bemba e pedir-lhe o que quisesse. E não é que correu tudo conforme mister John disse?

sexta-feira, maio 12, 2006

Hanan, mais uma vez

É uma mulher de cara destapada. O Mundo descobriu-a em 1988, quando participou num debate televisivo sobre o processo de paz do Médio Oriente. De um lado estavam quatro palestinianos, entre eles Hanan Ashrawi, do outro lado quatro israelitas. A capacidade argumentativa que revelou, o raciocínio ágil, o brilhozinho nos olhos, transformaram uma professora numa tremenda activista política. Encontrei-a em Ramallah, em 89 e em 1991 em Lisboa. Foi aqui que a entrevistei longamente para o Jornal das 9 do Canal 2 da RTP. Longamente, porque me deixei enfeitiçar pelas palavras e pelo olhar escuro desta mulher. De facto, utilizei três ou quatro minutos úteis para o trabalho exibido nesse jornal televisivo. Mas não fui capaz de prescindir do privilégio de estar ali com ela e poder aprender com ela.
Hanan Ashrawi tinha um discurso muito humano, democrático, inatacável. Falava em direitos humanos e políticos para todos os povos do Médio Oriente e rejeitava, absolutamente, o poder da força que sustentava a repressão israelita. Era até um discurso algo deslocado da praxis da OLP. Por alguma razão, Hanan Ashrawi acabou por ser afastada dos cargos que desempenhava (em 91, ela era porta-voz da delegação da OLP nas negociações de paz). Tal como a convidou, Arafat também a despediu…
Guardei dela a consciência de estar perante uma mulher muito corajosa, que arriscava muito naquele jogo de homens armados.

quinta-feira, maio 11, 2006

Santo Nyerere

«Desejaria acender uma vela e colocá-la no topo do monte Kilimanjaro para que iluminasse até mais além de nossas fronteiras, dando esperança aos que estão desesperados, pondo amor onde há ódio e dignidade onde há humilhação». O homem que disse isto, está prestes a ser canonizado, segundo uma notícia que li na revista dos missionários combonianos.

na foto, Julius Nyerere com Gabriel Garcia Marquez

Confesso ignorância total e completa sobre os requisitos para se ser considerado santo pela Igreja Católica mas, julgo, será necessário ter feito algum milagre. E, sendo assim, ainda mais me intriga que Julius Nyerere venha a ser canonizado. É que nunca ouvi falar de nenhum presidente africano… milagreiro. A não ser que se considere que não ter ficado agarrado ao poder, ter abdicado de livre vontade, ter tentado promover uma política de desenvolvimento sustentável, seja milagre. Se for isso, acho que há mais um na calha… quase pelas mesmas razões, Nelson Mandela. Mas não sei se Mandela é religioso…
Julius Nyerere morreu em 1999, com leucemia. O povo da Tanzânia chamava-lhe Mwalimu.
Irónico é que, se Nyerere chegar a Santo da Igreja Católica, deve ser o primeiro santo a que muitos chamaram de comunista, tal como consta na Marxists Internet Archive Photo Gallery.

Guiné Bissau, guerra civil. O sobrevivente

Meus amigos, quando a vida vos correr mal, quando parecer que tudo está perdido, quando a derrota vos parecer incomensurável, quando já só o desespero vos alumiar o olhar, venham aqui, a este texto, olhar para a foto e beber do exemplo deste homem amarrado, levado sob armas para uma cadeia escura e suja. Baciro Dabó era o home forte da segurança do estado guineense, em 1999. Foi um homem fiel até ao fim a Nino Vieira. No dia 7 de Maio de 1999 não conseguiu escapar aos inimigos e foi apanhado e encarcerado. Baciro era justamente acusado pela Junta Militar de ser um dos principais torturadores da ditadura de Nino Vieira que, então, acabava de ser deposto. Poucos dariam um chavo pela sua vida, naquela altura. De resto, era uma espécie de “mal de família”, já que o irmão de Baciro, Iaia Dabó também estava preso e em maus lençóis, acusado de roubo, assassínios e violações. Iaia tinha sido apanhado no mato, nos arredores de Bissau, quando comandava um pelotão de combate que se dedicava a pilhar as aldeias da vizinhança de Cumura, Cumeré e Nhacra . Fui, um dia, visitá-lo à cadeia da base aérea, onde ele ocupava uma pequena cela de cimento que nem latrina tinha… Mas, Baciro (o mais velho dos dois irmãos), passou alguns meses encarcerado embora, na verdade, nunca tenha sido julgado. Quando Kumba Yala venceu as eleições para a presidência da república, recuperou Baciro Dabó. Saiu da prisão para reocupar o lugar que tão bem conhece na segurança do estado. Hoje, o homem de mãos amarradas atrás das costas é secretário de estado da Ordem Pública, o boss das polícias guineenses. Realmente, a vida dá muitas voltas…

quarta-feira, maio 10, 2006

Nha Terra

Sim, é a Ilha do Fogo e não a Boavista como, por engano, afirmei no post anterior. A Ilha do Fogo é, de resto, uma das mais belas de todo o arquipélago, um pouco pelo vulcão mas muito pelas características físicas de muitos dos seus habitantes, estranhamente mestiçados com sangue holandês (ouvi falar de um naufrágio do século XVII cujos sobreviventes nunca foram resgatados da ilha...). Nos homens, enfim, não se nota muito, mas as mulheres são liinnndas!

Obrigado à Margarida, pelo reparo.

Tarrafal

Correspondência recebida por e-mail:
"Nascido depois das agruras do Regime, a verdade é que quando "visitei" oTarrafal quase que senti os horrores provocados à gente ali encarcerada. As pessoas que me acompanhavam (Vítor Norte, João Lagarto) tiveram a mesma sensação, segundo confessaram depois. Mesmo assim, Lagarto referia que a Cidade Velha lhe provocava ainda mais repúdio do que o Tarrafal. Confesso que sou de opinião contrária..."
José Lucio Duarte, jornalista.
A foto foi tirada por mim, em Março de 2003. Lá longe, é a Ilha da Boavista vista da Ilha de Santiago.

terça-feira, maio 09, 2006

Cabo Verde, Tarrafal

Por questões profissionais, quase todos os dias leio quase todos os jornais. Portanto, com mais ou menos agrado, tanto passo os olhos pelo 24 Horas como pelo Avante e, com isto, não estou a fazer nenhum paralelismo entre os dois… como é óbvio.
Isto, para dizer que aqui há dias li, com curiosidade, um texto comemorativo dos 70 anos da criação da Colónia Penal do Tarrafal. O texto exagerava um pouco na comparação que fazia entre o Tarrafal e as prisões de Hittler. Na minha opinião, a cadeia portuguesa nunca foi um campo de extermínio. Mas é bom que se saiba que aquilo existiu e que, ainda assim, lá morreram 32 presos por delito de opinião.Sempre que fui a Cabo Verde, estive no Tarrafal. Isto é, sempre que fui a Santiago, estive no Tarrafal. Almoço um peixe grelhado no restaurante sobre a praia e cumpro uma espécie de peregrinação pessoal à antiga prisão. De todas as vezes, senti tristeza por ver o sítio a cair aos pedaços. Ninguém liga a mínima importância àquele local, um desleixo que ofende a memória dos que ali sofreram e morreram por delito de opinião.O Tarrafal nunca foi uma prisão de delinquentes. Era uma prisão política… e, por isso, deveríamos cuidar do Tarrafal, fazer daquilo um atractivo turístico, recuperar as celas, recolocar os instrumentos de tortura, reconstruir a “frigideira”, a enfermaria, a cozinha, as latrinas, o cemitério. Deveríamos pedir autorização ao governo caboverdeano para podermos ajardinar aquilo, pintar as paredes, montar uma lojinha de souvenirs alusivos. Porque é terrível não ter memória.

segunda-feira, maio 08, 2006

Israel, na primeira Intifada. O crente

Em 1989, Belém era uma cidade ocupada. Os soldados israelitas ocupavam os telhados das casas mais altas. Raramente se viam patrulhas nas ruas, mas dos telhados eles controlavam todos os movimentos da cidade.
Naquele dia, havia pedras a voar e tiros de gás lacrimogéneo, nas ruelas estreitas que desembocavam na praça principal da cidade, onde está a Igreja da Natividade.
Ainda assim, havia turistas por ali. Chegavam de camioneta, vindos de algum hotel de Jerusalém ou Telavive, paravam à porta da igreja e entravam. Não se passeava pela cidade, por causa dos distúrbios e isso afectava bastante o negócio dos comerciantes palestinianos.
Elias Freij era o presidente da câmara de Belém. Era um tipo importante, com uma história política longa. Recebeu-me em casa, porque naquele dia, como já disse, o ar da cidade estava cheio de fumo lacrimante… Tive, assim, oportunidade de conhecer um dos dirigentes palestinianos menos ortodoxos, se é que a palavra se pode aplicar… Freij era católico (presbeteriano?) e pertencia a uma família residente em Belém há mais de cinco séculos. Além de edil, tinha umas lojas onde se podiam comprar recordações locais como, por exemplo, garrafinhas com azeite e pequenas esculturas em pedra. Sempre foi um tipo influente, tanto no período do domínio inglês, no jordano ou no israelita. Freij era o único dirigente palestiniano que os israelitas não depuseram.
Quando estive com ele, já me pareceu um homem de movimentos lentos… não sei que idade tinha, nem sei se seria por causa da idade se apenas um hábito cauteloso adquirido pela experiência de quem sempre viveu a contar que o céu lhe iria cair na cabeça…
Mas tinha um espírito ágil. E falava do futuro com uma certeza inabalável. E para ele, o futuro era a independência da Palestina e a autodeterminação do seu povo. Era a isso que ele rezava, todos os domingos, na Igreja da Natividade.

domingo, maio 07, 2006

Guiné Bissau, a guerra civil. A crueldade

Uma das mais eficazes tácticas de guerra é meter medo ao inimigo. Quanto mais medo ele tiver, mais perto está da derrota. Na guerra civil da Guiné, foi isso que os rebeldes fizeram. Deitaram mão a tudo que pudesse intimidar a jovem tropa senegalesa e os miúdos que Nino tinha mandado recrutar nos Bijagós. Os feiticeiros andaram ocupadíssimos, nesses meses. Era preciso que o adversário soubesse que o feitiço estava em marcha, para que pudesse resultar. Por isso, na linha da frente do cerco a Bissau, esses sinais multiplicavam-se. Como andei muito para lá e para cá, nessa linha da frente, tive oportunidade de ver o efeito que isso provocava nos soldadinhos mais imberbes. Via-os a passar, em cima dos blindados, de lágrimas nos olhos. Acho que acreditavam piamente que iam para a morte. Estavam, assim, quase mortos. Bubo Na Tchuto, como já disse, um dois mais carismáticos, valentes e cruéis comandantes do cerco, utilizou meios ainda mais brutais. Ele e os seus homens exibiam, em combate, cabeças de inimigos. Debaixo da cama, Bubo guardava um crânio de um oficial senegalês, que ele próprio cozeu e descarnou… Bubo não era o único. Conheci um outro chefe guerreiro balanta, Bidom Na Montche, que também tinha um crânio de um senegalês como talismã. Estas coisas sabiam-se nos dois lados da guerra. E tinham o efeito desejado.

sábado, maio 06, 2006

Israel, na primeira Intifada. O aristocrata

Já contei alguns dos episódios ocorridos durante a viagem que fiz a Israel, Cisjordânia e Gaza em 1989. Foi uma experiência bastante intensa, até porque tive oportunidade de conhecer pessoas bastante interessantes, nomeadamente no lado palestiniano. Infelizmente, os israelitas revelaram-se muito mais retraídos nos contactos com jornalistas estrangeiros, muito mais desconfiados e muito mais sobranceiros.
Vou, então, dar início a uma curta sequência de apresentações dessas pessoas que considerei, considero ainda hoje, de elevado nível intelectual e de rara qualidade humana.
Faisal Husseini foi uma dessas pessoas. Era um tipo importante dentro da OLP e da Fattah. Na época era mesmo considerado um dos prováveis sucessores de Yasser Arafat.Faisal Husseini era um aristocrata palestiniano. Nascido de boas famílias, gente com dinheiro, donos de fábricas e comerciantes, estudou em Bagdad (onde nasceu, em 1940), em Damasco e em Amman.
Combateu contra Israel, seguindo a tradição familiar, mas, com tudo isto, não me pareceu ser um sectário irredutível. Era um homem sereno, apesar de estar constantemente sob observação militar, apesar de estar muitas vezes sob regime de prisão domiciliária, apesar disso tudo falava claro e suavemente. Era um homem de negociação, não de combate armado. Gostei dele, gostei dos argumentos que utilizou para justificar a Intifada então em curso. Não falava em ódio nem em vinganças bíblicas, citava antes as resoluções da ONU e as normas do direito internacional. Percebi que acreditava profundamente nas justas razões da causa por que lutava. Morreu cedo, aos 61 anos, de ataque cardíaco. Está enterrado no local mais emblemático e sagrado para os palestinianos, a Mesquita Al Aqsa, em Jerusalém.

sexta-feira, maio 05, 2006

Guiné Bissau, a guerra civil. A humilhação

Quando em 7 de Maio de 99, Ansumane Mane ordenou a ofensiva final sobre Bissau, Nino Vieira procurou refúgio no Centro Cultural francês que estava guarnecido por um pelotão de soldados franceses. Era ali, no Centro Cultural, que o embaixador da França dormia, quando estava em Bissau. A embaixada tinha sido evacuada logo no início da guerra, havia mais de um ano. Nino confiava que a França o protegeria, mas acabou escorraçado pelos soldados que perceberam não terem a mínima possibilidade de defenderem o Centro Cultural se os rebeldes descobrissem que era ali que Nino se escondia. Foi depois disso que Nino se refugiou na embaixada de Portugal, onde ficaria durante dois ou três meses, até que o novo poder do país aceitou deixá-lo partir para o exílio. No final desse dia 7, tinham morrido 80 pessoas e havia quase 300 feridos no Hospital Simão Mendes, em Bissau. A foto que vos mostro é do momento da rendição da guarnição francesa em Bissau. Um momento humilhante para a França que apoiou, desde a primeira hora, o presidente Nino Vieira e a intervenção militar do Senegal que sustentou o presidente guineense. A França alimentou o conflito, com armas e munições e, juravam muitos rebeldes, até com soldados intervenientes nos combates. Bubo Na Tchuto garantiu-me ter morto dois brancos, mas nunca foi capaz de me mostrar os corpos ou qualquer comprovativo de haver soldados franceses em combate.
O que se passa hoje na Guiné-Bissau é, ainda, consequência desses dias tumultuosos. Depois da reeleição, Nino teve de fazer a aliança com o Senegal para o combate contra os independentistas de Casamança, como parte da factura que está a pagar aos que o apoiaram na guerra civil.
Para a França, a vingança serve-se fria.

quinta-feira, maio 04, 2006

Pedreira dos Húngaros, Bairro Negro

Volta e meia acontecem coisas curiosas. Ontem, recebi um e-mail de uma pessoa, devidamente identificada mas que não conheço, um leitor deste blog. Escreveu-me para “saber se por ventura existe alguma possibilidade de poder adquirir a reportagem completa que fez sobre o bairro negro, a tal reportagem de 1984, com o seu colega Mario Lindofo, na já desaparecida Pedreira dos Húngaros "meu pais de nascença".. No ano que foi feita essa reportagem entrei eu na escola, tinha na altura 6 anos, neste momento tenho 28 anos casado e duas filhas... não vivo numa barraca de 50 contos, mas sei o que é isso... pois vivi durante a minha infância e durante a minha juventude… e é muito diferente daquilo que vemos nos Morangos com Açúcar. Por isso tudo que fosse recordação desse pequeno "país" eu gostaria de "coleccionar" principalmente para que as minhas filhas, sejam elas o que vierem a ser, se lembrarem que começaram numa barraca de 50 contos, isolada da sociedade, como uma doença em quarentena...” É este o teor essencial da mensagem e que me enterneceu. Pela determinação que revela, por demonstrar que é possível sair por cima de sítios daqueles. Conforme já respondi a este senhor, a reportagem em questão está incluída numa colectânea que pode ser adquirida, segundo julgo, no Sindicato dos Jornalistas, aqui em Lisboa, na Rua Duques de Bragança, ali ao Chiado.

quarta-feira, maio 03, 2006

Bairro da Torre (2)

Manchete quase única nos jornais de hoje, a operação policial ao Bairro da Torre.
Mesmo nos jornais de referência, também muito necessitados de vender papel. Ao menos que tenha servido para isso, já que a polícia encontrou poucas armas a julgar pelas reportagens publicadas: 3 pistolas, 3 carabinas, 13 caçadeiras. Segundo parece, houve fuga de informação. Os alegados marginais terão tido conhecimento prévio de que a operação se ia realizar, pode-se ler numa das reportagens. Quem terá bufado? Ou foram polícias ou foram… jornalistas…

terça-feira, maio 02, 2006

Bairro da Torre

Não há quem não tenha ouvido falar do Bairro da Torre. Hoje, apenas. Porque a polícia foi lá à procura de armas e tratou de publicitar com tempo essa iniciativa. Aposto que as manchetes de amanhã de manhã vão estar cheias de fotos da acção policial e de considerações sobre os ciganos e os africanos detidos pela polícia. Mas há quantos anos existe o Bairro da Torre? Quem permitiu que a criminalidade se instalasse ali de modo avassalador? Quem andou décadas a fazer de conta que aquilo não existia? Quem teimou em não ver os sinais? O que fizeram quando os trabalhadores dos serviços municipalizados de Loures se recusaram a entrar no bairro, porque eram assaltados sempre que lá iam recolher o lixo? Esticavam o braço para engatar o contentor à grua do camião e desaparecia o relógio de pulso… ou era a carteira que ia na ponta e mola do tipo escondido na sombra… e quem resistia levava porrada… sei disto porque andei por lá, numa reportagem para a TSF, em 2004.
Desde que a recolha de lixo se passou a fazer apenas nos contentores junto à estrada asfaltada, o Bairro da Torre passou a ser uma estrumeira inqualificável. No Inverno, a lama dos caminhos mistura-se com as montanhas de desperdícios e restos de comida, dejectos humanos e ratos mortos a tiro de caçadeira. No Verão é bastante melhor… não há lama, apenas pó e dejectos humanos, lixo e ratos mortos a tiro de caçadeira.
Agora que a polícia lá foi e arrecadou todas as caçadeiras, os ratos vão fazer uma festa!

segunda-feira, maio 01, 2006

Guiné Bissau, a guerra civil. A rádio

Descobri uns papéis velhos. Dentro de um saco de plástico, no meio de tralha sem préstimo estavam uns papéis que têm significado. São bilhetes, rascunhos, documentos que contam histórias, embora não façam parte da História.
Hoje, vou mostrar-vos um desses papéis. É um manuscrito de letra incerta, assinado por um Barreto. Não está datado, mas sei que é de 1999, altura em que se davam os últimos tiros da guerra civil guineense. E que história conta este papel? Conta-nos o inestimável contributo das rádios da Guiné-Bissau na ajuda a centenas de milhar de refugiados. As pessoas tinham fugido de Bissau e estavam por conta própria. Não havia ONG no terreno, excepção da Igreja Católica que nunca fugiu para lado nenhum. As famílias estavam separadas, os vizinhos distantes, não havia telefones nem qualquer outro meio de comunicação à distância. Foi então que as rádios, principalmente as rádios locais, iniciaram um serviço de apoio às populações que se revelou essencial. Durante horas a fio, liam comunicados familiares, tipo este que vos mostro: “Favor comunicar à Guida, mulher do Poió, a Perpétua, Joana Carvalho, todas em Prábis possivelmente, de que devem sair porque o grupo que vai para Cabudu e Bolama pode encontrar carros em Safim…”. Era preciso que o aviso fosse ouvido ou pelo destinatário ou por alguém que pudesse retransmitir o recado. Era um tiro no escuro, mas funcionou bem muitas vezes, até porque as pessoas passavam o dia com a orelha colada ao transístor para ouvirem estes recados e para saberem as últimas da guerra.
A rádio que mais se distinguiu nesta tarefa heróica foi a Rádio Bombolon, que já não existe.

domingo, abril 30, 2006

Pontes

Sabiam que os portugueses andaram a construir pontes pela Etiópia? Eu não fazia a mínima ideia... leiam quem sabe do assunto.

sábado, abril 29, 2006

Angola, 1986. Luanda

Na década de 80, Luanda era uma cidade difícil. Violenta, suja, já bastante degradada. Não havia restaurantes, nem bares, nem cafés. A Ilha era zona militar restrita. Comprava-se tabaco nas esquinas, em volumes de 10 maços. Para comprar batatas, íamos ao Samba onde as senhoras vendiam, na berma da estrada, montinhos de 5 batatas ou 3 tomates pequeninos. Peixe havia com fartura. Pescava-se ali mesmo, na baía. Mas carne e ovos era preciso apanhar um avião e ir ao Lubango. Muitos faziam essa viagem, para abastecerem a dispensa ou para ganhar dinheiro com a revenda dos produtos em Luanda. Mas havia fome. Na baixa da cidade, na Mutamba ou em Alvalade, o lixo não era recolhido mas ficava abandonado pouco tempo. As ratazanas e os indigentes comiam tudo num instante. Havia alguns hotéis, mas o risco de apanhar pulgas e percevejos era considerável. Daquela vez, alugámos uma casa no Bairro Azul. A casa estava vazia e quem tomava conta dela era o senhor Baganha, um tuga já velhote mas cheio de energia e de expediente. O senhor Baganha ganhava a vida com um camião. Ia e vinha, de Luanda até Viana, transportava gente e tudo o mais que houvesse. Fazia o percurso várias vezes ao dia e, à noite, gastava duas horas a contar as notas. Parecia muito, mas não era. O dinheiro não valia nada. Para comprar uma cerveja, tínhamos de levar um carrinho de mão cheio de notas. Era uma vida arriscada, não só porque ele era branco e, por isso, dava nas vistas, mas porque Viana era fronteira com o território dominado pela UNITA. Estar em Luanda, naqueles tempos, era como estar numa ilha. Só se saía dali voando.
Um dia uma vizinha adoeceu gravemente e precisava de ser evacuada para Lisboa. Só aguentaria a viagem se levasse uma transfusão de sangue imediatamente antes de embarcar. O Hospital Maria Pia não tinha sangue. Os vizinhos mobilizaram-se e fomos dar sangue à senhora. Fui com muito medo. Não de dar sangue, mas da agulha com que me iam espetar… seria descartável? Na dúvida, levei uma que tinha na maleta dos primeiros socorros. No final, era demasiado grossa e não teria servido. Mas, a agulha do hospital era descartável. A médica era cubana e tratou-me bem. No final, até me ofereceram pão com manteiga e um copo de leite, que não aceitei. Só queria sair dali. Não aguentava mais com o cheiro. Era um cheiro penetrante, gorduroso, que vinha dos canos e das paredes castanhas e amareladas de sujidade. Havia 10 anos que ninguém lavava aquelas paredes.

sexta-feira, abril 28, 2006

E o Rangel a rir-se...

Como diria o saudoso Mário Castrim, "venderam a prata e ficaram com a lata". Acho que o Dr.Balsemão bem poderá começar a pensar em se dedicar ao negócio do ferro-velho.
É uma pena.

Malária, mata que se farta

Na primeira vez que fui a Moçambique, apanhei malária. A culpa não é da terra. Já tive malária noutros lugares e tantas vezes que lhes perdi a conta.
Vem sito a propósito da notícia de há dois dias, no site da Lusa (notícia que não vi reproduzida em nenhum jornal), sobre a decisão do Ministério da Saúde de Moçambique passar a fornecer gratuitamente tratamento e medicamentos contra a malária, em todo o país.
É que, quando fiquei doente, naquele ano de 1986, não havia medicamentos no Hospital Central de Maputo. Não era sequer uma questão de ter ou não dinheiro. Não havia. Quer dizer, havia no mercado negro… a um preço que só alguns podiam pagar. Naquela época, o exercício da medicina privada era proibido. Devia ser considerado um perigoso vício da burguesia. Ainda assim, havia médicos que arriscavam, como foi o caso do que se prontificou a ir ver-me à cama onde ardia em febre. Além disso, deu-me os comprimidos de quinino e prescreveu a dose de cavalo, tipo ou te curas ou morres. Eu curei-me, mas sei que, todos os anos, morrem milhares de seres humanos em Moçambique, por causa dessa doença. Li umas estatísticas que falam em 4 mil mortes anuais, o que faz da malária a principal causa de morte no país.
Fico contente por, agora, 30 anos depois da independência, o Estado moçambicano começar a assumir as suas responsabilidades. Para quem não sabe do que estou a falar, vou tentar explicar. A malária é transmitida através de um plasmodium (um parasita) transportado por um mosquito. Ao picar a pele para beber sangue, o mosquito acaba por introduzir o plasmodium no sangue. Depois, esse plasmodium ataca os glóbulos vermelhos, o que provoca infecção, daí a febre. Acho que não expliquei muito mal.
Ainda posso acrescentar que existem dois tipos de plasmodium. O falciparum, menos agressivo e o vivax, mais mortal. Já tive os dois, à vez e em simultâneo. É muito giro.

quinta-feira, abril 27, 2006

A Máquina da Verdade

A primeira vez que entrei na cadeia de Vale de Judeus foi para visitar o padre Frederico.
Shocking, isn`t it? Pois… fui lá perguntar-lhe se aceitava ser entrevistado por mim e submetido a um teste com um polígrafo, o vulgar detector de mentiras. Pensei que ele ia desatar a gritar pelos guardas para me porem dali para fora, mas não… olhou-me, com aqueles olhinhos redondos muito abertos, pensou e disse que sim.
O padre Frederico Cunha, brasileiro, cumpria pena de prisão por ter sido considerado culpado do homicídio de um rapaz, na Ilha da Madeira. O padre era membro da Ordem dos Crúzios, uns tipos meio estranhos, místicos, uma ordem religiosa oriunda da Holanda, se não me engano.
O padre Frederico tinha sido condenado por “convicção do tribunal”, ouvi eu o digníssimo juiz dizer quando proferiu a sentença. Só mesmo por convicção, porque ninguém tinha assistido ao crime e havia até várias testemunhas que ilibavam o padre. Mas, um tipo como Frederico Cunha tem sempre ar de culpado. Gordo, baixinho, suado, titubeante, meio gago, sotaque estranho, incapaz de olhar outros de frente, homossexual.

Confesso aqui que nunca acreditei na culpa do padre. Talvez isso tenha ajudado a convencê-lo a alinhar na história do polígrafo. É claro que, fosse qual fosse o resultado do teste, aquilo não passaria de um programa de televisão e, portanto, não iria influenciar quanto ao cumprimento da pena de prisão. Quer ele passasse no teste, quer não, continuaria preso a cumprir a pena decretada. Pedi autorização para que o padre pudesse ser escoltado até ao estúdio para se gravar a entrevista. O Director-Geral dos Serviços Prisionais não viu inconvenientes e aceitou deixar que Frederico Cunha saísse da cela para ir à televisão. Mas ninguém sabia do polígrafo…
Quem manipulava a máquina era um tipo italiano, esperto na matéria, psicólogo ou coisa parecida. As questões eram combinadas com ele. Um interrogatório com polígrafo tem regras. Podia perguntar o que quisesse, mas tinha de combinar a sequência com o italiano. O programa foi feito. No final, o padre Frederico passou no teste: “fala verdade quando diz que não matou”; “fala verdade quando diz que não conhecia” a vítima do crime; “fala verdade quando diz que nunca se encontrou” com a vítima. Pode-se enganar um polígrafo? Pode. Mas é muito difícil. A máquina é usada pela CIA para controlar os seus próprios agentes, é usada pela Mossad e por outras polícias no Mundo.
Quando o programa foi exibido, caiu o Carmo e a Trindade. Que ofensa às instituições! Que afronta à dignidade dos tribunais! Que nojo de televisão! Proíbam-no! Calem-no! Fechem a baiuca! Ponham-no a ferros! Crucifiquem-no!
Meses depois, deixaram fugir o padre Frederico. Quando voltei a falar com ele, foi em Copacabana, Rio de Janeiro.

As fotos do padre Frederico foram gentilmente cedidas por Frederico Duarte Carvalho.

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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