Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











terça-feira, agosto 15, 2006

Évora

Passear por Évora sempre foi um prazer, nomeadamente pelo centro histórico.
Gosto daquelas ruas tortas e calçada irregular, das paredes brancas e grossas, das janelas pequenas, do jogo entre a sombra e o branco iluminado da cal. Gosto da calma que por ali se respira.

Mas, desta vez, notei alguma degradação que julgava estar a ser combatida com mais afinco pela autarquia. Há muitas casas abandonadas e, pior que isso, transformadas em depósitos de lixo. Se somarmos o lixo aos barrotes de madeira apodrecida que sustentaram telhados e que hoje estão caídos, temos ali, em cada uma daquelas casas abandonadas, um óptimo alimentador de incêndios.

sábado, agosto 12, 2006

Petra

Duas vezes por dia, fazíamos o percurso a pé, entre o hotel onde estávamos e a embaixada do Iraque em Amman, na Jordânia. Íamos lá para saber se o diligente funcionário já teria recebido ordens de Allah para nos passar o visto e deixar entrar no Iraque. Ao fim de 11 dias a ordem não tinha chegado e cansámo-nos de esperar. No dia seguinte, apanhámos um autocarro e fomos até Petra.É difícil dizer o que senti quando vi aquela cidade esculpida na pedra pelos homens, vento e água. Como se pode fazer uma coisa tão espantosa como aquela? Dizem os canhenhos que chegaram a viver ali 50 mil pessoas. A cidade existe desde o século V a.C., mas há ali perto vestígios de ocupação humana da Idade da Pedra. Hoje é um deserto, mas lindo de morrer. Dizem os mesmos canhenhos que a desertificação humana ficou a dever-se ao desvio das caravanas de comerciantes que passaram a optar por outra rota e deixaram de passar por ali. A mim parece-me que terá havido outro motivo, que estará ligado com mudanças climáticas ou, pelo menos, com o desaparecimento de água. Petra foi um sítio com muita água, basta olhar para aquelas pedras… e, hoje, não tem uma gota.Roma foi um grande Império, de facto. Petra é a evidência do génio que construiu esse Império e a prova que nada dura para sempre. Tal como tudo que existe, também os Impérios começam a morrer logo no dia em que nascem. No final do dia, descansámos da canseira de calcorrear Petra, com um narguilé à moda antiga… foi perfeito.
Quando voltámos para Amman, íamos de alma lavada. Até o sacaninha do funcionário diligente da embaixada iraquiana nos pareceu mais simpático. Mas o visto nunca chegou. Os iraquianos privilegiavam jornalistas de órgãos mais globais que a SIC ou mais representativos dos respectivos estados… mas também foi azar meu. De todas as vezes que tentei entrar no Iraque, nunca consegui o visto. Talvez para a próxima.

sexta-feira, agosto 11, 2006

Zanzibar

Anos depois, em Agosto de 2000, conheci outro paraíso do Índico. Estive na África do Sul e em Moçambique, em reportagem e, depois, à minha conta e em gozo de férias, subi a costa até Zanzibar, uma ilha da Tanzânia com estatuto político de região autónoma.O que Zanzibar sempre quis foi ser independente, mas as suas riquezas sempre atraíram os gananciosos. Foi por isso que os portugueses também por lá andaram aos tiros de canhão. A ilha foi um dos centros de disputa entre Portugal e Oman, entre os séculos XVI e XVIII, até que Portugal foi corrido de vez e outros se instalaram.Hoje, Zanzibar pouco mais é que um excelente resort turístico. Very tipical, povo simpático q.b., arquitectura oriental, canhões portugueses e condução automóvel pela esquerda.
Se alguém ainda está indeciso quanto às férias, esta é uma opção segura, embora um pouco dispendiosa… mas não há bela sem senão. As praias são muito boas e a cidade de Zanzibar, aka Stone Town (cidade de pedra), faz lembrar um pouco Alfama, Mouraria, o centro histórico de Lagos ou até de Évora…... lembro-me de ter ficado fascinado com as portas das casas. As portas, feitas à mão, lindíssimas. Também é interessante ir para as roças e entrar mato dentro, sentir o cheiro das árvores da baunilha ou da canela… e tentar perceber que aquilo, as especiarias, em tempos idos, foi a mola propulsora para o expansionismo mercantilista branco europeu, isto é, o capitalismo.
Zanzibar é outro daqueles sítios onde apetece inventar um modo de vida e ficar por lá…

quinta-feira, agosto 10, 2006

O inferno deve estar cheio de bibliotecas

Foi em 2001, no Kosovo. Nos arredores de Klina, numa das muitas aldeias destruídas pela guerra civil. No meio dos destroços e de entulho jazia um manuscrito queimado, inquieto pelo vento que lhe virava docemente as folhas.
Não sei o que lá estava escrito, não percebo uma palavra de servo-croata. Também não me apeteceu perguntar a quem me podia traduzir. Achei que não devia vasculhar aquele cadáver.
A guerra sempre foi inimiga dos livros. São os próprios livros que o contam, como se fossem biógrafos deles mesmo.Anos antes tinha estado em Sarajevo e vi os restos calcinados da biblioteca da cidade. Morreram ali muitos livros.
Lembro-me de ter lido sobre a destruição de mil bibliotecas e 11 milhões de livros em Grozny, na Chechénia, sob bombardeamentos russos. Sei do Índex do papa Paulo IV, uma lista de livros proibidos destinados a alimentar as fogueiras da Inquisição. Sei dos livros queimados pela Revolução Cultural na China. Conheço a história da Biblioteca Nacional de Madrid, bombardeada durante a guerra civil. Já li sobre a destruição das bibliotecas de Kioto, no Japão, no século XV e sobre a destruição das bibliotecas de Constantinopla, em 1204, pela Quarta cruzada. Sei que isto é uma história antiga, que começou com o primeiro livro, há seis mil anos na Mesopotâmia. Eram livros feitos de pranchas de barro, onde se gravavam os caracteres. Havia muitos guardados na Biblioteca Nacional de Bagdad… bombardeada e saqueada em 2003 durante a invasão americana. Todas as pranchas desapareceram.
O inferno deve estar cheio de bibliotecas.

quarta-feira, agosto 09, 2006

Quénia, Malindi. Podia ter ficado tudo por ali...

Não sei se é por estar quase, quase, quase a ir de férias que a praia de Malindi não me sai da cabeça. Não sei se é por isso ou se é por ter escrito sobre Mombaça
Ao terceiro dia alugámos um carro e partimos rumo ao norte, pela costa. Não nos interessava nada voltar para de onde tínhamos vindo, mas queria muito ir até Malindi.
Queria ver, e vi, o padrão que Vasco da Gama ali deixou, em pleno areal. Lá está, enfim, pelo menos a parte superior do padrão é a original. O pedestal já tem cimento do século XX e pichagens modernaças também.
Além do padrão, em Malindi existe outro local arqueológico que nos diz respeito: a igreja de São Francisco de Xavier. Em boa verdade, uma palhota, embora com paredes de pedra, claro. Foi a primeira igreja erguida na costa oriental de África. Achei muito curioso o pequeno cemitério existente ao lado da pequena igreja. Sou um sentimentalão, como já repararam… Agora, Malindi é a prova de que há homens que colocam o dever e a busca da riqueza acima de tudo. É que Malindi é o paraíso… Dom Vasco tinha ali tudo o que um homem poderia querer. O rei local recebeu-o de braços abertos e, de resto, foi aliado dos portugueses durante quase um século. Dom Vasco, representante do rei de Portugal, homem poderoso, em Malindi deve ter saciado todas as fomes que o inquietavam (menos a tal ânsia pelo poder) e, ainda assim, foi capaz de abandonar aquele paraíso… Dom Carlos teria ficado, disso tenho a certeza.

segunda-feira, agosto 07, 2006

A velha palavra de ordem

Deve ser a mais antiga pichagem de Portugal. Data de 1980, talvez 1981.
Quem pintou aquelas palavras fê-lo por motivos políticos, disso não tenho dúvidas, até porque ainda me lembro bem...
Mas o que me intriga é a razão da longevidade do protesto. Sobreviver 25 anos é obra. E não julguem que se trata de um muro escondido nalgum lugar esconso. Nada disso. Aquilo fica numa das ruas mais movimentadas de Odivelas, mesmo em frente aos paços do Concelho e ao lado de uma farmácia. Eu próprio passo por ali quase todos os dias e leio (com afecto, confesso) a velha palavra de ordem. Acho que se lá está, ao fim destes anos todos, só pode ser porque as pessoas gostam que lá esteja. Digo mesmo que deveria ser considerado, no mínimo, património municipal.

sábado, agosto 05, 2006

Mombaça. A Disneylandia do séc.XVI

Em Mombaça ficámos por nossa conta e risco. Os tripulantes russos disseram-nos bye-bye com as mãos e foram à vida deles.
Mombaça é uma ilha pequena, no meio de uma baía e fica bastante próximo da costa. No terraço do hotel, havia um bar no meio da piscina, onde se bebiam os melhores gin tonic da costa oriental de África. Era época baixa e o hotel estava quase vazio, o que ajudou muito a tornar inesquecível a estadia em Mombaça. Decidimos, eu e o Domingos Mascarenhas, ficar ali uma semanita para retemperar o ânimo. Depois de Mogadíscio, Mombaça era o paraíso.
Logo no segundo dia, fomos dar uma volta pela cidade. Mombaça cheira a sal, quando o vento vem do mar. Na zona velha, no centro, há outros cheiros mais persistentes: caril, canela, baunilha…




















E depois há o Forte Jesus, um castelo seiscentista português. Tem a particularidade de ter sido construído com coral da baía de Mombaça. Os portugueses só sabiam construir em pedra e não havendo pedra em terra, foram ao mar buscá-la… a baía era rica em coral rosa, de modo que o Forte Jesus tem muralhas cor-de-rosa. Peculiar…
Mas é a única coisa cor-de-rosa que o castelo tem. Tudo o resto faz lembrar guerras e morte. Os quenianos, que tão bem conservam o castelo, vão ao pormenor de venderem um pequeno livro com a história do local. Um pequeno livro cheio de 200 anos de guerras, morte e escravidão, afinal de contas os ingredientes da História.

“The Portuguese showed up in 1505 and took the town. The fighting took the lives of 1513 Mombasa defenders and 5 Portuguese attackers. After looting Mombasa and setting it on fire, they left and did not return for 15 years. The Portuguese looted the town again in 1528 and twice more in the 1580s. Two years after the last attack, Mombasa went on the offensive and attempted to conquer Malindi. The Mombasa attackers were massacred and the town fell shortly thereafter in a counterattack by Malindi, which turned Mombasa over to the Portuguese. The Portuguese began construction on Fort Jesus, which was finished in 1593”.











As muralhas cor-de-rosa foram assaltadas e bombardeadas durante 200 anos, quase ininterruptamente. O Forte Jesus mudou de mãos nove vezes, na disputa entre portugueses e os árabes de Oman que dominavam aquela zona da costa africana.
Os portugueses foram derrotados definitivamente em 1729.
É interessante perceber como os outros sentem a mesma História. Mesmo se não ficamos muito bem no retrato.

sexta-feira, agosto 04, 2006

Timor, o mural de Manatuto

Nunca fui a Timor, mas uma das minhas irmãs foi, a Vanda. Ela e todos os outros que conheço e que estiveram em Timor, dizem que aquilo “é um paraíso”. Pelas fotografias que vejo das praias e das montanhas, percebo o que querem dizer. Conheço outros sítios assim. Mas, quanto a Timor, a História conta-nos outra realidade, como todos sabemos. Muitas pessoas foram mortas naquelas praias, muitas valas comuns estão escondidas na floresta verde, muita miséria se esconde nas aldeias das montanhas.
Mas, agora, o futuro de Timor só depende dos próprios timorenses, livres de todas as colonizações e opressões, pensamos nós. Será assim? Os últimos acontecimentos revelam que as potências que rodeiam Timor, Indonésia e Austrália, continuam a condicionar as opções dos timorenses. O cheiro do petróleo trouxe demasiados tubarões para as praias timorenses.
A precariedade do Estado, quatro anos depois da independência, faz de Timor um “paraíso para o crime internacional, o terrorismo e para a injustiça social e humanitária”, tal qual afirmou recentemente o ministro da Defesa da Austrália, o senhor Brendon Nelson. Exagero?
A impunidade com que os insurrectos agiram, nos últimos acontecimentos, talvez justifique as palavras do político australiano.
Será que nos enganámos todos, quando desejámos tanto a independência de Timor? Foram razões do coração e não da razão que, dessa vez, influenciaram toda a comunidade internacional? Outro australiano, Don Watson, conselheiro de um antigo primeiro-ministro da Austrália, disse que considerava "ser preferível viver debaixo de uma ocupação impiedosa do que num Estado falhado”, referindo-se a Timor.
O afastamento de Alkatiri é visto, por muitos, como uma mudança de regime provocada pela Austrália, face a um dirigente hostil como Mari Alkatiri parecia estar a transformar-se… é esta a opinião de John Pilger, activista dos direitos humanos, um feroz crítico de todos quanto dizem que teria sido preferível Timor continuar integrado num Estado forte e dinâmico como a Indonésia, do que ser um micro-Estado eternamente dependente das ONG e da boa vontade dos EUA, Austrália e Portugal.
Quando se livraram da Indonésia, os dirigentes timorenses escolheram o português como língua oficial do novo Estado. Portugal inchou de orgulho neo-colonialista e fez um esforço real para ajudar a reimplantar o português como língua falante no território. Foi aí que a minha irmã foi a Timor e tirou a fotografia aquele muro grafitado… mas o resultado disso é que, hoje, Timor tem uma língua oficial de nenhuma utilidade para o relacionamento com outros parceiros asiáticos… embora, enfim, falar português sempre é uma marca distintiva e, verdadeiramente, a única que os separa de todos os outros povos indonésios.
Vem isto tudo a propósito de quê, quererão saber… é que, ao olhar para a fotografia que vos mostro aqui, dei comigo a imaginar quanto tempo aquela pintura mural vai resistir…

quinta-feira, agosto 03, 2006

Congo, Rio Uele. O que dirão os crocodilos...

É um rio com muito peixe. Muitos peixinhos pequenos e um muito grande, o peixe-tigre, com dentes de sabre e três metros de comprido da boca à barbatana caudal.Muzungo só gostava de apanhar peixe-tigre. Depois de morto, o bicho, por vezes maior que a canoa de Muzungo, tinha de ser rebocado para a aldeia, onde era aberto e limpo para poder secar ao sol. Chamam-lhe “cabalao”, quando está seco…O rio também tem crocodilos, que também comem peixe. Crocodilos e homens disputam o mesmo prato e é por isso, acho eu, que não se dão bem. Dizem os homens que o crocodilo é uma reincarnação de um espírito maligno. Não sei o que dirão os crocodilos…Os homens vão para o rio de manhã cedo, ainda quando tudo está escondido pelo nevoeiro. Um nevoeiro espesso, branco, que parece fumo a sair da água. A essa hora, os crocodilos dormem.

quarta-feira, agosto 02, 2006

Sudão, história antiga

“Nós três fomos levados para esse lugar. Quando nos tiraram a venda dos olhos, estávamos numa sala com uma janela muito alta. Estava muito escuro. Nunca soubemos onde aquela casa ficava, mas era em Cartum. Ficámos lá três dias. Sempre em pé, durante esses três dias, com as mãos na parede, dia e noite na mesma posição”.
Acabaram de ler uma pequena parte de um extenso depoimento feito por Magok Gou Riak, no final de 2003, quando esteve em Lisboa para participar numa acção cívica (promovida pelos Missionários Combonianos) que pretendeu chamar a atenção para o genocídio que o governo do Sudão leva a efeito sobre as populações do centro e sul do país.
Fui eu quem propôs a realização da entrevista à direcção da TSF. Se não fosse assim, ninguém se lembraria de considerar o assunto relevante. A guerra civil sudanesa nunca foi assunto de primeira página nos media portugueses. Só depois de António Guterres ter sido nomeado Alto Comissário da ONU para os Refugiados alguns jornalistas portugueses foram até ao Sudão, mas sempre trataram o assunto pela rama e com pressa, como se tivessem medo de perder o avião de regresso e ficar ali no meio das pedras do deserto. Até então, não me lembro de algum outro repórter ter andado por lá, a não ser eu, perdoem-me a imodéstia… se é que é disso que se trata.
Quando Magok Gou Riak chegou a Lisboa, no final de 2003, eu já estava a trabalhar na TSF. Nenhuma televisão o entrevistou…
Do meu bloco de notas não consigo tirar muito “sumo” deste acontecimento. Preciso de excitar a memória… mas mostro-vos (na folha digitalizada) como iniciei esse trabalho… “torturado, espancado, obrigado a confessar culpas inventadas pelos torturadores, acabou com dentes e ossos quebrados. Os que resistem à islamização, não têm futuro no Sudão”…
Continua no próximo capítulo.

terça-feira, agosto 01, 2006

A organização do Estado (2)

Descobri agora a razão porque tantas pessoas, aqui no local onde trabalho, estão a trazer os filhos com elas…A escola pública onde a minha filha estuda fecha as portas na próxima 2ªfeira. Isto é, as aulas já acabaram há umas semanas, mas a empresa que assegurava a Ocupação dos Tempos Livres dos miúdos também vai de férias. Assim, a escola fecha. Assim, não sei como fazer, para não ter que trazer a miúda o dia inteiro para um escritório “chato como a potassa”…
Curioso, é que com o meu outro filho, que anda num infantário privado (porque não tem vaga nos estabelecimentos públicos…), esse problema não se coloca. A escola não fecha, embora funcione sem actividades educativas. Os miúdos vão para lá, brincam e passam o dia num ambiente seguro e próprio.

segunda-feira, julho 31, 2006

Líbano. O vinho de Canã

Terá sido em Qana (Canã) que Cristo realizou o seu primeiro milagre, ao transformar água em vinho, durante a celebração de um casamento. É o que diz a tradição. Se for verdade, trata-se de um milagre perfeitamente dispensável e com efeitos nefastos e persistentes na região. É que parece que continuam todos bêbados… Confesso que estava à espera que isto acontecesse. É inevitável, quando a guerra se faz através de bombardeamentos a longa distância. E o Hezbollah também. Tinham tudo preparado para lançarem uma grande campanha hostil a Israel na opinião pública internacional, assim que acontecesse alguma coisa de parecido com isto…
Sempre que uma força militar se dissimula na população e usa as estruturas civis como bases logísticas, é muito provável que uma coisa destas aconteça. A táctica é velha e vem nos manuais de Mao sobre a guerra de guerrilha.
Pessoalmente, vi isso acontecer diversas vezes, nomeadamente na dita guerra civil da Guiné-Bissau, onde se perpretaram alguns massacres, embora ninguém se tenha sentido incomodado com isso... As tropas senegalesas, que apoiavam Nino Vieira, utilizavam katyushas montados em camiões. Essas rampas de lançamento nunca estavam no mesmo sítio. Uma madrugada dispararam na esquina da nossa casa, em Chão de Papel, um bairro residencial no centro de Bissau. Se a resposta tivesse sido orientada para o local do disparo, o bairro tinha, mais uma vez, apanhado em cheio com os obuses da Junta o que, de resto, aconteceu seis vezes durante o tempo em que lá estive. Atingiram um infantário, o edifício da meteorologia, várias residências…
Uma outra vez, dispararam os katyushas no Bairro do Caracol. Dessa vez, a Junta ripostou… felizmente que o bairro já estava deserto mas, ainda assim, morreram alguns residentes retardatários… uma outra vez, dispararam os katyushas na rua das traseiras da Sé Catedral de Bissau, sabendo que a Junta teria grande relutância em atingir aquele local...
Os fins justificam os meios, não é?

domingo, julho 30, 2006

Congo. Em quem votará Fido?

Pela 2ª vez na História do país, hoje há eleições no Congo.
Em quem irão votar Fido e os outros miúdos que montavam guarda à porta da sede do MLC, há 5 anos atrás. Hoje, já são maiores de idade… poderão votar, se se tiverem recenseado. Fido é o que está em pé, na foto.Cresceram analfabetos, mas num ápice conseguem desmontar e montar uma kalashnikov. São fiéis à tribo e aos seus homens importantes. Um deles até é candidato.
Será que vão votar nele ou, eventualmente, terão algum outro critério para a escolha? Ao todo, há 33 candidatos presidenciais e 9.500 candidatos a deputados… os boletins de voto têm 8 páginas. A maioria dos 25 milhões de eleitores é analfabeta e vê o Mundo à dimensão da tribo… o que se poderá esperar destas eleições, senão um imenso logro e uma tremenda confusão?

sábado, julho 29, 2006

Lenin Oil

Honoráveis,

Acabei de ler Lenin Oil, de Pedro Rosa Mendes. Trata-se de uma prosa infecta e perigosíssima que deve, desde já, ser indexada para aviso e cautelas da sociedade. Propaga ideias libertárias e inimigas da igualização pretendida pelos nossos mentores superiores.
Sugiro humildemente que tomem as providências necessárias. Sugiro, nomeadamente, que se seduza o autor, para que não volte a prevaricar deste modo e, seduzido, não reclame porque o livro não consta em destaque nas prateleiras das livrarias e supermercados. Seduzam-no com mulheres, meninos, pedrinhas ou bidões de crude, consoante as suas preferências. Mas recomendo toda a cautela e disfarce. Quanto menos se falar disto, melhor.
Se a sedução não funcionar, sugiro que se parta para métodos mais pragmáticos. Mas o que se tenha de fazer, que se faça sem sangue e com disciplina!
Para além de tudo o mais, assim se provará que democracia e corrupção não são antagónicas e, se por acaso fossem, não seria a nós que caberia dizê-lo. Com estas me subscrevo vosso fiel, e febril, servidor.Lenin Oil, Pedro Rosa Mendes e Alain Corbel (ilustrações), Dom Quixote, Lisboa, 2006

sexta-feira, julho 28, 2006

Angola, Tundavala

É como voar sem tirar os pés do chão. É uma vertigem e uma emoção. É esmagador, mete medo. É o fim do Mundo.Para se chegar ao abismo da Tundavala, é preciso fazer cerca de 15 quilómetros por estradas de terra batida desde a cidade do Lubango. Acho que não há quem não os faça. Ir ao Lubango e não ir à Tundavala, é pior que ir a Roma e não ver o Papa.Só lá estive uma vez, em 1986. Fui ao Lubango com o Paulo Dentinho. Lá fizemos parte de três episódios da série “Os Que Não Voltaram”, que a RTP exibiu no ano seguinte, se a memória não me falha.
Naquele tempo, viajar em Angola era uma aventura. A guerra retalhou o país e viajava-se como se Angola fosse um arquipélago. Cada cidade, uma ilha. Para ir de ilha em ilha, só de avião ou integrado em colunas militares. Essa viagem foi feita, como já antes expliquei aqui, sob escuta e escolta de diligentes funcionários públicos angolanos. De modo que, quando fomos levados à Tundavala por um dos portugueses que viviam no Lubango (um dos tais que não voltaram), ele chamou-nos a atenção, disfarçadamente, para o chão. Era um terreno arenoso, de areia clara. Enterrou a biqueira do sapato e, lentamente, trouxe à superfície uma cápsula de bala de kalashnikov. Durante o resto do tempo que passámos ali, eu e o Paulo dedicámo-nos a desenterrar mais cápsulas, disfarçadamente. Eram muitas. Eram a evidência dos fuzilamentos que se fizeram ali, à beira daquele precipício. Já nos tinham dito que, lá em baixo, no fundo da ravina com mais de mil metros, estavam muitos corpos de vítimas da violência política. Tínhamos duvidado mas, a partir daquele dia, passámos a acreditar.

quinta-feira, julho 27, 2006

Angola, 1998. Os farsantes

Voltei a meter o nariz no saco de plástico… e descobri um cartão misterioso. É um daqueles cartões que as organizações gostam de colocar ao peito dos jornalistas, de modo a que estes sejam facilmente identificáveis e não consigam passar despercebidos.O cartão não está datado. Tem o símbolo da UNITA e as palavras “Comité Renovador” e “IX Congresso”. O mistério está no facto de que o IX Congresso da UNITA ter sido em 2003, em Junho ou Julho, se não me engano e, nessa data, eu não ter estado em Angola. Além disso, a conexão entre o propalado “Comité Renovador” e o IX Congresso do partido não faz qualquer sentido… que raio de cartão é este?
Vou tentar enquadrar sumariamente os factos: no segundo semestre de 98, um grupo de destacados militantes da UNITA declarou que rejeitava a liderança de Savimbi e que formava uma “nova UNITA”, a que chamou UNITA Renovada. Esse grupo era liderado por dois tipos: Eugénio Manuvakola e Jorge Valentim.
Estou convencido que foram o MPLA e o governo angolano os autores morais deste golpe palaciano no interior da UNITA. Valentim era membro do chamado GURN (Governo de Unidade Nacional), onde detinha a pasta virtual do Turismo… e este cisma foi imediatamente aproveitado pelo governo que declarou passar a reconhecer unicamente esta “nova” UNITA.
No Parlamento, onde a UNITA tinha um grupo de 70 e tal deputados, Manuvakola foi imposto como novo líder da bancada, através de uma “decisão” do Supremo Tribunal (?). Assisti a essa palhaçada, estava lá no Parlamento. Vi o verdadeiro líder da bancada da UNITA, Abel Chivukuvuku, ser praticamente expulso do edifício. Alguns dias mais tarde, alguém alvejou o carro de Chivukuvuku, em frente à sua casa, no bairro de Alvalade. A intimidação não podia ser maior…Depois, a polícia cercou e assaltou a sede da UNITA em Luanda. Os militantes que não aderiram à facção renovadora deixaram de poder entrar no edifício.
O passo seguinte foi a realização, em Outubro, de uma reunião magna da UNITA Renovada, na qual o Comité de Renovação da UNITA anunciou a formação de um Comité Político Provisório para gestão do partido… talvez este cartão diga respeito à minha credenciação para esse evento… mas chamar aquilo “congresso” foi, de facto, exagero.
Para a História, ficou o reacender da guerra. A opção militar tinha sido definitivamente assumida pelo governo angolano.

quarta-feira, julho 26, 2006

Líbano. Um filme em reprise

Espero que tenham visto a reportagem atribulada do José Rodrigues dos Santos, no bairro xiita de Beirute. Pareceu-me admirado, o repórter, por perceber que o Hezbollah controla o bairro como se fosse um estado dentro do estado libanês. Mal o carro parava, apareciam “guardas” do Hezzbollah, como dizia o “orelhas”.
Mas Beirute sempre foi vítima da conjuntura política. Estes bombardeamentos não são, de resto, os primeiros com que Israel castiga a capital libanesa. Em Junho de 1982, no lugar do Hezbollah estava a OLP de Arafat. Era dali que o dirigente palestiniano dirigia a luta armada contra a ocupação israelita da Palestina. O bairro onde a OLP se tinha fortificado era conhecido por “Fatahland” (a terra da Fatah), tal qual o Hezbollah fez agora no bairro Haret Hreik, nos subúrbios de Beirute.
Quando a situação se tornou insustentável, o governo israelita ordenou a invasão do sul do Líbano e o ataque a Beirute. A cidade esteve cercada e foi ferozmente bombardeada. Israel exigia que Arafat e outros dirigentes palestinianos se rendessem incondicionalmente. A zona da “Fatahland” ficou reduzida a cinzas… Foi um acordo político cozinhado entre americanos, europeus e árabes sauditas que permitiu a retirada da OLP de Beirute para o exílio num país africano, a Tunísia.Arafat instalou-se em Tunis. Anos mais tarde, em 1991, durante a I Guerra do Golfo, fui a Tunis e ao bairro suburbano Borj Cedria (onde a OLP estava instalada) para tentar entrevistá-lo. Não consegui. Parece que Arafat não estava lá… Mas deu para ver como a OLP tinha reconstruído ali o reduto fortificado que teve em Beirute. O bairro da OLP tinha uma fronteira física, só possível de atravessar depois de obtida a devida autorização. Em Borj Cedria não entrava ninguém sem que a OLP concordasse, nem mesmo a polícia tunisina. Lembro-me de ter sido revistado minuciosamente, do equipamento de filmagem ter sido testado (porque podia ter uma arma no interior…), de ter sido interrogado mais do que uma vez sobre o assunto que queria ver tratado. No final, em vez de Yasser Arafat, entrevistei um lugar-tenente da OLP, um árabe de olhos azuis que dava pelo estranho nome de Abed Rabbo. Digamos que foi uma missão mal sucedida…

terça-feira, julho 25, 2006

TSF, até ao fim da rua...

O Largo do Chafariz é uma espécie de porta para Alfama. É lá que está o grande mural em mosaico que garante que “Alfama é fácil de amar”. Frase de duplo sentido…
Afixado na parede da Junta de Freguesia, um papel convite aos moradores do bairro para participarem nas reuniões onde se discute a reabilitação urbanística do bairro.Do Largo do Chafariz partem várias ruas bairro acima. Optei pela rua de São Pedro. Por ali, havia muitos prédios degradados. Adivinhava-se o avanço das obras coercivas Alfama dentro. Fiquei encurralado no Beco do Azinhal. Tive de dar meia volta, mas antes admirei a imensa árvore-da-borracha que ganhou ali raízes. Um “cheirinho” a Brasil que até fica bem em Alfama.
Taverna D`El Rey, Esquina de Alfama… o bairro está cheio de restaurantes típicos e casas de fado. Tudo fechado aquela hora da madrugada. Às 6 da manhã, Alfama dorme o 1ºsono…Continuei a caminhar pelas ruelas estreitas. Em algumas, de braços abertos tocava nas paredes dos dois lados da rua. Procurava gente, mas não encontrava… embora não faltassem sinais de vida: cuecas e peúgas penduradas nas janelas… miados de gato…E, de repente, uma senhora. “Boa noite”, em tom sereno para não assustar a senhora. “Só lhe queria perguntar que encanto tem viver nestas ruas velhas…”. Maria de Fátima parou, reparou nas letras do microfone a dizer TSF e disse: “Óh filho, deixa-me mas é passar que tenho de apanhar o transporte para a Duque de Loulé!”
Maria de Fátima lá foi à vida, limpar casas nas avenidas novas. Alfama, para que vos quero…

segunda-feira, julho 24, 2006

Atravessar o Oceano Atlântico, 1997.

E se acham que nunca atravessei oceanos, estão muito enganados.
Em Novembro de 1997, sete gloriosos malucos, a bordo de um veleiro de 14 metros, largaram de Lagos rumo a Martinica, nas Caraíbas.
Demoramos 26 dias a lá chegar. Tivemos dias esplendorosos e outros menos bons, alguns horríveis… acho que é uma história para contar aqui, também, um dia destes.Foi uma experiência inesquecível. Quando a viagem terminou e pusemos finalmente os pés em terra, o que eu queria mesmo era que aquilo jamais acabasse.
Quando amarramos o veleiro ao cais na Baía de Le Marin, na Martinica, estava inchado de orgulho. Tinha participado numa grande aventura. No cais estavam três crianças. Três meninas, obviamente irmãs. A mais nova teria aí uns 3 anos e as outras talvez 5 e 7. A mais crescida olhou para nós e perguntou-me de onde vínhamos. Respondi-lhe com indisfarçável orgulho que tínhamos acabado de atravessar o oceano, que vínhamos de Portugal. Ela disse que também conhecia, que já tinha estado em Vila do Conde e Cascais. Achei curioso e, então, perguntei-lhe o que estavam elas ali a fazer, se moravam ali. Respondeu-me que não. Que estavam a dar a volta ao Mundo, à vela, com os papás… (e eu ali, armado em bom…).

domingo, julho 23, 2006

A ver navios


Foi lindo, o desfile, pá.
"No mar tanta tormenta, e tanto dano,
Tantas vezes a morte apercebida!
Na terra tanta guerra, tanto engano,
Tanta necessidade aborrecida!
Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme, e se indigne o Céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?"
(Lusíadas, Canto I, 106)
Eles lá vão, mar dentro. E eu, aqui no escritório...

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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