Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











segunda-feira, setembro 11, 2006

Medo de sonhar

Havia um miúdo, naquela reportagem da Cândida Pinto, que dizia que sonhar era difícil… E, realmente, é muito difícil. Sonhar é visualizar um desejo. É sentir-lhe a forma, o peso, as cores e, até, sentir-lhe o cheiro. É, ainda, imaginar um mundo perfeito e querer realizar essa utopia.
É, pois, muito difícil sonhar, tal como pedes, querida Isabela: “Hora da redacção: "vamos sonhar": o actual governo angolano desaparecia num ápice, não interessa para onde, todos raptados por extraterrestres, e nunca mais voltariam…”. Sonhar assim é até perigoso… e, sinceramente acho que, desde Fernando Pessoa, mais ninguém disse ter “todos os sonhos do Mundo”.
Dom Hélder da Câmara é que dizia que quando dava pão a um pobre, chamavam-lhe santo, mas que quando reclamava pelas condições de vida injustas impostas pela sociedade, chamavam-lhe comunista. É assim…Não tenho 10 medidas milagrosas, como sugeres. Só encontro uma saída: a revolução. Voltar a partir tudo, para compor mais tarde. Nacionalizar tudo de novo e, enfim, redistribuir verdadeiramente. Mas sei que isso é... um sonho.

7

Acabo de votar para a eleição das 7 Maravilhas do Mundo.
Se não sabem do que se trata, leiam o Diário de Notícias ou vejam este site.

sábado, setembro 09, 2006

Luanda revisitada. Nginga

Pediu-me 200 kuanzas (ou 2 €) de entrada. Aceitou o dinheiro, escreveu qualquer coisa numa folha e perguntou-me se trazia máquina fotográfica. Informou que podia fotografar tudo o que quisesse, inclusivé as paisagens da cidade, menos a parte onde está situado o palácio presidencial. Zédú não gosta de ser fotografado... Não me deu bilhete de entrada.
Quem visita o Forte de São Miguel, em Luanda, tem de se preparar para um choque. Parte das instalações estão, ainda, ocupadas por militares e outras instituições públicas angolanas e, portanto, não são visitáveis. Mas o pior são os maus-tratos... O que resta… são só paredes… e as ruínas de painéis de azulejos centenários… No edifício central, construído à volta de um poço, os painéis contavam a história de Angola, desde que os portugueses lá chegaram. Hoje, é impossível contar essa história através desses azulejos.

Apenas num deles (a terceira foto) se percebe ainda que se trata da cerimónia de baptismo da Rainha Nginga, heroína angolana da resistência contra os colonialistas.
Nginga Nbandi viveu no século XVII e juntou o seu reino ao do Rei do Congo, com quem casou, com a condição de que quem mandava no reino era ela e não ele. Parece que Nginga tinha mau feitio… enfim, reza a História (e a tradição) que foi ela quem comandou um poderoso exército africano que derrotou as tropas do governador português de Angola, João Corrêa de Souza, em 1621. Mais tarde acabou por se submeter e foi mesmo baptizada com o nome Ana de Souza…

Podiam ter deixado ficar os azulejos…

sexta-feira, setembro 08, 2006

Economia paralela

Li hoje no Público que Louçã lançou “um vigoroso desafio ao Conselho Económico e Social para que faça um estudo rigoroso sobre o número exacto de desempregados em Portugal”. A dúvida do deputado parece-me legítima, porque tenho a certeza que há muito mais desempregados do que os que constam nas estatísticas oficiais.
Porque digo isto? Porque apercebi-me, agora, que há várias profissões que, na maioria dos casos, estão preenchidas por trabalhadores “fantasmas”. Por exemplo, se as senhoras julgam que todas as cabeleireiras, manicuras e esteticistas que trabalham no estabelecimento onde costumam ir pentear a popa ou depilar as pernocas estão, de facto, empregadas, desenganem-se. Muitas dessas pessoas trabalham sem salário (ganham percentagem sobre a receita que produzem) e, portanto, não descontam para a Segurança Social. São trabalhadores sem direitos e o estado não vê um tostão dos impostos que deveria cobrar.

Gostava era de perceber como se faz a contabilidade de um negócio que funciona nesses moldes… como se faz, de modo a que o Fisco não dê pela marosca. E se é assim nos cabeleireiros, quem garante que não seja igual noutras actividades? O que impede qualquer comerciante de praticar o mesmo esquema com os seus empregados? Principalmente naquelas actividades em que é difícil medir os consumos...
É claro que Louçã não se referia a esta situação particular, ele parece mais preocupado com o número de desempregados de longa duração que já deixaram de receber subsídio e, portanto, desapareceram da lista do IEFP.

quinta-feira, setembro 07, 2006

Nzenanga Mobutu

No início da década de 70 (do século passado...), tive um professor de Português, o Dr.Lufinha, que me fez a vida negra e que, olhando para o mísero estado dos meus livros, completamente rabiscados com desenhos, predisse que eu haveria de ser cartoonista. Como se sabe, enganou-se. Embora seja verdade que sinto uma certa veia para o rabisco…
Uma vez até tentei retratar um tipo…
Estivemos duas semanas imobilizados em Gbadolite. Esperávamos autorização de Jean Pierre Bemba para seguirmos para Bondo, onde queríamos fazer parte de uma reportagem sobre missionário portugueses em cenários de guerra (de que aqui já escrevi bastante).
Fomos alojados pelo MLC num bloco de apartamentos onde, segundo percebi, costumavam ficar os oficiais do grupo rebelde que iam a Gbadolite “a despacho”, receber as instruções do chefe. Não éramos os únicos clientes. Estavam lá, também, uma senhora, comerciante de pedras preciosas, dois russos ou ucranianos, tripulantes do avião de Bemba e um outro tipo que não percebi o que fazia na vida. Mas, de todos, nós éramos os únicos com direito a almoçar na mesa do Estado-Maior de Bemba. O próprio Bemba nunca apareceu mas, enfim, a comida era razoável.
Um dia, depois do almoço, vimos entrar um anão no edifício, para uma reunião com Kamitato, um dos secretários de Bemba.Via-se que era um tipo importante, pelo modo como os outros o tratavam. Pensei que seria por ser anão… que houvesse alguma crença local relacionada com esta insuficiência física, mas não. O anão era mesmo “homem grande”. Chamava-se Nzenanga Mobutu e era, tal como o nome denuncia, familiar próximo do antigo ditador zairense. Era o seu irmão mais novo.Deixo-vos com o retrato possível do pequeno senhor. Não tinha a máquina fotográfica comigo e pensando que não teria outra oportunidade, rabisquei em segundos a expressão de Nzenanga. Hoje, olhando para o rabisco, acho que ficou longe da realidade…

quarta-feira, setembro 06, 2006

Luanda revisitada, os roboteiros

" …o carpinteiro se comprometia a fazer um cangulo de madeira, para ele se tornar roboteiro. O mais difícil podia ser arranjar a roda… (…)… o serviço de roboteiro, sempre dependente da clientela precisando de transportar produtos ou compras pesadas e sem dinheiro para alugar uma carrinha."

Pepetela, Predadores, p.329

É o trabalho possível para a casta dos intocáveis de Angola, os mais pobres entre os pobres. Em Luanda, só se encontram nos bairros pobres porque, nos outros, la bourgeoisie tem criadagem própria e jeeps para ir às compras. A última moda no que respeita aos todo-o-terreno é o trambolho dos Hummer, um carro de combate que o exército americano amaricou para vender a bimbos endinheirados. Luanda deve ser a cidade com mais Hummer por metro quadrado em toda a África, quiçá no Mundo.Os cangulos, esses, são todos iguais. De madeira e pesados. Os roboteiros (não descobri porque lhes chamam assim…) trabalham sem horário e só param quando não têm mais clientes. Estes homens (nunca vi uma mulher roboteira) passam o dia a empurrar os cangulos, sempre por pouco dinheiro. Não vale a pena aumentar a tarifa, porque a clientela não tem mesmo como pagar mais… além de que a concorrência existente nesta actividade impossibilita que os preços subam. É que há sempre alguém disposto a fazer o frete por menos uns kuanzas. É a perfeição do sistema capitalista, da lei da oferta e procura. Irónico, não é?

segunda-feira, setembro 04, 2006

Luanda revisitada, a zungaria

… tinha medo, sim, quando os via a cobiçar algum aparelho que ele mostrava aos possíveis compradores que passavam nos carros. Já tinha sido penteado duas vezes por polícias, de uma vez perdeu uma ventoinha portátil, a pilhas, e de outra vez foi um rádio… (…)… aliás, quando os caíngas apareciam na banda logo um miúdo gritava pente, pente. Era a debandada, cada um para seu lado, para não serem penteados das coisas que serviam de seu sustento. Depois como podiam comprar outras para revender? Perder o capital era dramático, situação só possível de resolver roubando alguma coisa, o que não só era difícil como perigoso.

Pepetela, Predadores, pp.246 e 247


Mas acontece com muita frequência, podem crer. Estive na cidade apenas duas semanas e vi isso acontecer mais do que uma vez. Isto é, vi aquela malta a fugir da polícia com a tralha às costas, uma vez no bairro Azul, outra na estrada que atravessa o bairro da Koreia. E se fugiam, por alguma coisa seria…
A verdade é que, em Luanda, há centenas de milhar de pessoas que não têm outro modo de vida, senão o de zungar pela cidade à procura de quem lhes compre alguma coisa. E, podem crer, vende-se de tudo na zungaria…Os zungeiros compram os produtos nos armazéns dos chineses, a preços muito baixos, e procuram revender, depois, pelas ruas, procurando um mínimo de margem de lucro, apenas o suficiente para comer naquele dia e, no dia seguinte, voltar a comprar outra traquitana qualquer para revenderem de novo. Quem tem a sorte de morar à beira de uma rua mais movimentada, monta banca mesmo na porta de casa.
Também há quem invada o espaço público para erguer mais uma barraca, encostada a um muro qualquer, para montar negócio com uma prestação de serviço de bastante procura. Na foto que vos mostro, trata-se de um barbeiro, mas vi cabeleireiros de senhoras, lojas de mercearia, oficinas de automóveis…É assim, um dia de cada vez…

sábado, setembro 02, 2006

Luanda revisitada

…”estava tão habituado que nem notava o cheiro nauseabundo que se evolava do bairro, vindo das fossas a céu aberto que se transformavam em regatos acompanhando os caminhos e do lixo acumulado aos montes à espera de uma hipotética camioneta. As casas de blocos de cimento ou de tijolo, minúsculas, estavam unidas a autênticos tugúrios de chapas e papelão, misturados a todos os materiais possíveis existentes na construção civil para tapar buracos, criar paredes ou inventar tectos. Em todas chovia, evidentemente. Felizmente a chuva era rara em Luanda”…

Pepetela, Predadores, pag.34

Mesmo agora, em tempo de cacimbo, a chuva é rara em Luanda, apesar do céu ameaçador.
Não é tempo de praia e não há festas na cidade. Nem sequer é tempo de férias… as escolas fecham em Dezembro, não agora.
Mas era agora que eu tinha férias e lá fui a Luanda para matar saudades. Do que vi e senti, vou deixar aqui alguns relatos.

A primeira impressão foi de estupefacção… há oito anos que não ia a Angola. Depois da guerra ter terminado começaram a escrever nos jornais que Angola é uma terra de futuro, que a economia está em expansão, que os negócios vão de vento em popa. Assim, ao fim de oito anos, julgava que ia encontrar sinais novos dessa realidade nascente. Mas disso vi muito pouco. Dois ou três prédios altos em construção na Mutamba, a baixa da cidade, um viaduto rodoviário no cruzamento em frente ao aeroporto, outro na Samba, mais um (pedonal) no Prenda. Quase nada, no meio de milhões de barracas.

É em barracas que vivem os funcionários do estado e dos privados, é em barracas que vivem os milhões de desempregados da cidade. Quase todos vivem em barracas, alguns ainda habitam os prédios degradados da cidade colonial, alguns estão a conseguir mudar para as periferias onde já existem vários bairros novos de má construção e péssima planificação.

Bairros onde só existem casas e nenhum serviço de apoio, onde a farmácia mais próxima fica a 20 quilómetros de distância, ou a mercearia, ou a estação de serviço, ou a escola para os filhos. Conheço gente que já mora ali e que tem de sair de casa às cinco da manhã, para estar às oito no emprego, no centro da cidade.

Os engarrafamentos são monstros do lusco-fusco. Ao final do dia, fechados nos carros de portas trancadas e vidros corridos (e com medo dos ladrões) demora-se outras duas horas para atravessar o Rocha Pinto (um dos maiores bairros da lata de Luanda) e chegar à casa suburbana. Aquela “África” do gin às 5 da tarde… em Luanda, já quase não existe.

terça-feira, agosto 15, 2006

Évora 2

Espero que não tenha de acontecer alguma desgraça para que se tomem as necessárias providências…Também acho que os moradores do centro histórico poderiam fazer alguma pressão no município para que alguma coisa fosse feito com urgência. No mínimo, limpar as casas do lixo acumulado e dos escombros de madeira no interior.Afinal de contas, estamos a falar de um centro histórico classificado como Património da Humanidade pela UNESCO…

Évora

Passear por Évora sempre foi um prazer, nomeadamente pelo centro histórico.
Gosto daquelas ruas tortas e calçada irregular, das paredes brancas e grossas, das janelas pequenas, do jogo entre a sombra e o branco iluminado da cal. Gosto da calma que por ali se respira.

Mas, desta vez, notei alguma degradação que julgava estar a ser combatida com mais afinco pela autarquia. Há muitas casas abandonadas e, pior que isso, transformadas em depósitos de lixo. Se somarmos o lixo aos barrotes de madeira apodrecida que sustentaram telhados e que hoje estão caídos, temos ali, em cada uma daquelas casas abandonadas, um óptimo alimentador de incêndios.

sábado, agosto 12, 2006

Petra

Duas vezes por dia, fazíamos o percurso a pé, entre o hotel onde estávamos e a embaixada do Iraque em Amman, na Jordânia. Íamos lá para saber se o diligente funcionário já teria recebido ordens de Allah para nos passar o visto e deixar entrar no Iraque. Ao fim de 11 dias a ordem não tinha chegado e cansámo-nos de esperar. No dia seguinte, apanhámos um autocarro e fomos até Petra.É difícil dizer o que senti quando vi aquela cidade esculpida na pedra pelos homens, vento e água. Como se pode fazer uma coisa tão espantosa como aquela? Dizem os canhenhos que chegaram a viver ali 50 mil pessoas. A cidade existe desde o século V a.C., mas há ali perto vestígios de ocupação humana da Idade da Pedra. Hoje é um deserto, mas lindo de morrer. Dizem os mesmos canhenhos que a desertificação humana ficou a dever-se ao desvio das caravanas de comerciantes que passaram a optar por outra rota e deixaram de passar por ali. A mim parece-me que terá havido outro motivo, que estará ligado com mudanças climáticas ou, pelo menos, com o desaparecimento de água. Petra foi um sítio com muita água, basta olhar para aquelas pedras… e, hoje, não tem uma gota.Roma foi um grande Império, de facto. Petra é a evidência do génio que construiu esse Império e a prova que nada dura para sempre. Tal como tudo que existe, também os Impérios começam a morrer logo no dia em que nascem. No final do dia, descansámos da canseira de calcorrear Petra, com um narguilé à moda antiga… foi perfeito.
Quando voltámos para Amman, íamos de alma lavada. Até o sacaninha do funcionário diligente da embaixada iraquiana nos pareceu mais simpático. Mas o visto nunca chegou. Os iraquianos privilegiavam jornalistas de órgãos mais globais que a SIC ou mais representativos dos respectivos estados… mas também foi azar meu. De todas as vezes que tentei entrar no Iraque, nunca consegui o visto. Talvez para a próxima.

sexta-feira, agosto 11, 2006

Zanzibar

Anos depois, em Agosto de 2000, conheci outro paraíso do Índico. Estive na África do Sul e em Moçambique, em reportagem e, depois, à minha conta e em gozo de férias, subi a costa até Zanzibar, uma ilha da Tanzânia com estatuto político de região autónoma.O que Zanzibar sempre quis foi ser independente, mas as suas riquezas sempre atraíram os gananciosos. Foi por isso que os portugueses também por lá andaram aos tiros de canhão. A ilha foi um dos centros de disputa entre Portugal e Oman, entre os séculos XVI e XVIII, até que Portugal foi corrido de vez e outros se instalaram.Hoje, Zanzibar pouco mais é que um excelente resort turístico. Very tipical, povo simpático q.b., arquitectura oriental, canhões portugueses e condução automóvel pela esquerda.
Se alguém ainda está indeciso quanto às férias, esta é uma opção segura, embora um pouco dispendiosa… mas não há bela sem senão. As praias são muito boas e a cidade de Zanzibar, aka Stone Town (cidade de pedra), faz lembrar um pouco Alfama, Mouraria, o centro histórico de Lagos ou até de Évora…... lembro-me de ter ficado fascinado com as portas das casas. As portas, feitas à mão, lindíssimas. Também é interessante ir para as roças e entrar mato dentro, sentir o cheiro das árvores da baunilha ou da canela… e tentar perceber que aquilo, as especiarias, em tempos idos, foi a mola propulsora para o expansionismo mercantilista branco europeu, isto é, o capitalismo.
Zanzibar é outro daqueles sítios onde apetece inventar um modo de vida e ficar por lá…

quinta-feira, agosto 10, 2006

O inferno deve estar cheio de bibliotecas

Foi em 2001, no Kosovo. Nos arredores de Klina, numa das muitas aldeias destruídas pela guerra civil. No meio dos destroços e de entulho jazia um manuscrito queimado, inquieto pelo vento que lhe virava docemente as folhas.
Não sei o que lá estava escrito, não percebo uma palavra de servo-croata. Também não me apeteceu perguntar a quem me podia traduzir. Achei que não devia vasculhar aquele cadáver.
A guerra sempre foi inimiga dos livros. São os próprios livros que o contam, como se fossem biógrafos deles mesmo.Anos antes tinha estado em Sarajevo e vi os restos calcinados da biblioteca da cidade. Morreram ali muitos livros.
Lembro-me de ter lido sobre a destruição de mil bibliotecas e 11 milhões de livros em Grozny, na Chechénia, sob bombardeamentos russos. Sei do Índex do papa Paulo IV, uma lista de livros proibidos destinados a alimentar as fogueiras da Inquisição. Sei dos livros queimados pela Revolução Cultural na China. Conheço a história da Biblioteca Nacional de Madrid, bombardeada durante a guerra civil. Já li sobre a destruição das bibliotecas de Kioto, no Japão, no século XV e sobre a destruição das bibliotecas de Constantinopla, em 1204, pela Quarta cruzada. Sei que isto é uma história antiga, que começou com o primeiro livro, há seis mil anos na Mesopotâmia. Eram livros feitos de pranchas de barro, onde se gravavam os caracteres. Havia muitos guardados na Biblioteca Nacional de Bagdad… bombardeada e saqueada em 2003 durante a invasão americana. Todas as pranchas desapareceram.
O inferno deve estar cheio de bibliotecas.

quarta-feira, agosto 09, 2006

Quénia, Malindi. Podia ter ficado tudo por ali...

Não sei se é por estar quase, quase, quase a ir de férias que a praia de Malindi não me sai da cabeça. Não sei se é por isso ou se é por ter escrito sobre Mombaça
Ao terceiro dia alugámos um carro e partimos rumo ao norte, pela costa. Não nos interessava nada voltar para de onde tínhamos vindo, mas queria muito ir até Malindi.
Queria ver, e vi, o padrão que Vasco da Gama ali deixou, em pleno areal. Lá está, enfim, pelo menos a parte superior do padrão é a original. O pedestal já tem cimento do século XX e pichagens modernaças também.
Além do padrão, em Malindi existe outro local arqueológico que nos diz respeito: a igreja de São Francisco de Xavier. Em boa verdade, uma palhota, embora com paredes de pedra, claro. Foi a primeira igreja erguida na costa oriental de África. Achei muito curioso o pequeno cemitério existente ao lado da pequena igreja. Sou um sentimentalão, como já repararam… Agora, Malindi é a prova de que há homens que colocam o dever e a busca da riqueza acima de tudo. É que Malindi é o paraíso… Dom Vasco tinha ali tudo o que um homem poderia querer. O rei local recebeu-o de braços abertos e, de resto, foi aliado dos portugueses durante quase um século. Dom Vasco, representante do rei de Portugal, homem poderoso, em Malindi deve ter saciado todas as fomes que o inquietavam (menos a tal ânsia pelo poder) e, ainda assim, foi capaz de abandonar aquele paraíso… Dom Carlos teria ficado, disso tenho a certeza.

segunda-feira, agosto 07, 2006

A velha palavra de ordem

Deve ser a mais antiga pichagem de Portugal. Data de 1980, talvez 1981.
Quem pintou aquelas palavras fê-lo por motivos políticos, disso não tenho dúvidas, até porque ainda me lembro bem...
Mas o que me intriga é a razão da longevidade do protesto. Sobreviver 25 anos é obra. E não julguem que se trata de um muro escondido nalgum lugar esconso. Nada disso. Aquilo fica numa das ruas mais movimentadas de Odivelas, mesmo em frente aos paços do Concelho e ao lado de uma farmácia. Eu próprio passo por ali quase todos os dias e leio (com afecto, confesso) a velha palavra de ordem. Acho que se lá está, ao fim destes anos todos, só pode ser porque as pessoas gostam que lá esteja. Digo mesmo que deveria ser considerado, no mínimo, património municipal.

sábado, agosto 05, 2006

Mombaça. A Disneylandia do séc.XVI

Em Mombaça ficámos por nossa conta e risco. Os tripulantes russos disseram-nos bye-bye com as mãos e foram à vida deles.
Mombaça é uma ilha pequena, no meio de uma baía e fica bastante próximo da costa. No terraço do hotel, havia um bar no meio da piscina, onde se bebiam os melhores gin tonic da costa oriental de África. Era época baixa e o hotel estava quase vazio, o que ajudou muito a tornar inesquecível a estadia em Mombaça. Decidimos, eu e o Domingos Mascarenhas, ficar ali uma semanita para retemperar o ânimo. Depois de Mogadíscio, Mombaça era o paraíso.
Logo no segundo dia, fomos dar uma volta pela cidade. Mombaça cheira a sal, quando o vento vem do mar. Na zona velha, no centro, há outros cheiros mais persistentes: caril, canela, baunilha…




















E depois há o Forte Jesus, um castelo seiscentista português. Tem a particularidade de ter sido construído com coral da baía de Mombaça. Os portugueses só sabiam construir em pedra e não havendo pedra em terra, foram ao mar buscá-la… a baía era rica em coral rosa, de modo que o Forte Jesus tem muralhas cor-de-rosa. Peculiar…
Mas é a única coisa cor-de-rosa que o castelo tem. Tudo o resto faz lembrar guerras e morte. Os quenianos, que tão bem conservam o castelo, vão ao pormenor de venderem um pequeno livro com a história do local. Um pequeno livro cheio de 200 anos de guerras, morte e escravidão, afinal de contas os ingredientes da História.

“The Portuguese showed up in 1505 and took the town. The fighting took the lives of 1513 Mombasa defenders and 5 Portuguese attackers. After looting Mombasa and setting it on fire, they left and did not return for 15 years. The Portuguese looted the town again in 1528 and twice more in the 1580s. Two years after the last attack, Mombasa went on the offensive and attempted to conquer Malindi. The Mombasa attackers were massacred and the town fell shortly thereafter in a counterattack by Malindi, which turned Mombasa over to the Portuguese. The Portuguese began construction on Fort Jesus, which was finished in 1593”.











As muralhas cor-de-rosa foram assaltadas e bombardeadas durante 200 anos, quase ininterruptamente. O Forte Jesus mudou de mãos nove vezes, na disputa entre portugueses e os árabes de Oman que dominavam aquela zona da costa africana.
Os portugueses foram derrotados definitivamente em 1729.
É interessante perceber como os outros sentem a mesma História. Mesmo se não ficamos muito bem no retrato.

sexta-feira, agosto 04, 2006

Timor, o mural de Manatuto

Nunca fui a Timor, mas uma das minhas irmãs foi, a Vanda. Ela e todos os outros que conheço e que estiveram em Timor, dizem que aquilo “é um paraíso”. Pelas fotografias que vejo das praias e das montanhas, percebo o que querem dizer. Conheço outros sítios assim. Mas, quanto a Timor, a História conta-nos outra realidade, como todos sabemos. Muitas pessoas foram mortas naquelas praias, muitas valas comuns estão escondidas na floresta verde, muita miséria se esconde nas aldeias das montanhas.
Mas, agora, o futuro de Timor só depende dos próprios timorenses, livres de todas as colonizações e opressões, pensamos nós. Será assim? Os últimos acontecimentos revelam que as potências que rodeiam Timor, Indonésia e Austrália, continuam a condicionar as opções dos timorenses. O cheiro do petróleo trouxe demasiados tubarões para as praias timorenses.
A precariedade do Estado, quatro anos depois da independência, faz de Timor um “paraíso para o crime internacional, o terrorismo e para a injustiça social e humanitária”, tal qual afirmou recentemente o ministro da Defesa da Austrália, o senhor Brendon Nelson. Exagero?
A impunidade com que os insurrectos agiram, nos últimos acontecimentos, talvez justifique as palavras do político australiano.
Será que nos enganámos todos, quando desejámos tanto a independência de Timor? Foram razões do coração e não da razão que, dessa vez, influenciaram toda a comunidade internacional? Outro australiano, Don Watson, conselheiro de um antigo primeiro-ministro da Austrália, disse que considerava "ser preferível viver debaixo de uma ocupação impiedosa do que num Estado falhado”, referindo-se a Timor.
O afastamento de Alkatiri é visto, por muitos, como uma mudança de regime provocada pela Austrália, face a um dirigente hostil como Mari Alkatiri parecia estar a transformar-se… é esta a opinião de John Pilger, activista dos direitos humanos, um feroz crítico de todos quanto dizem que teria sido preferível Timor continuar integrado num Estado forte e dinâmico como a Indonésia, do que ser um micro-Estado eternamente dependente das ONG e da boa vontade dos EUA, Austrália e Portugal.
Quando se livraram da Indonésia, os dirigentes timorenses escolheram o português como língua oficial do novo Estado. Portugal inchou de orgulho neo-colonialista e fez um esforço real para ajudar a reimplantar o português como língua falante no território. Foi aí que a minha irmã foi a Timor e tirou a fotografia aquele muro grafitado… mas o resultado disso é que, hoje, Timor tem uma língua oficial de nenhuma utilidade para o relacionamento com outros parceiros asiáticos… embora, enfim, falar português sempre é uma marca distintiva e, verdadeiramente, a única que os separa de todos os outros povos indonésios.
Vem isto tudo a propósito de quê, quererão saber… é que, ao olhar para a fotografia que vos mostro aqui, dei comigo a imaginar quanto tempo aquela pintura mural vai resistir…

quinta-feira, agosto 03, 2006

Congo, Rio Uele. O que dirão os crocodilos...

É um rio com muito peixe. Muitos peixinhos pequenos e um muito grande, o peixe-tigre, com dentes de sabre e três metros de comprido da boca à barbatana caudal.Muzungo só gostava de apanhar peixe-tigre. Depois de morto, o bicho, por vezes maior que a canoa de Muzungo, tinha de ser rebocado para a aldeia, onde era aberto e limpo para poder secar ao sol. Chamam-lhe “cabalao”, quando está seco…O rio também tem crocodilos, que também comem peixe. Crocodilos e homens disputam o mesmo prato e é por isso, acho eu, que não se dão bem. Dizem os homens que o crocodilo é uma reincarnação de um espírito maligno. Não sei o que dirão os crocodilos…Os homens vão para o rio de manhã cedo, ainda quando tudo está escondido pelo nevoeiro. Um nevoeiro espesso, branco, que parece fumo a sair da água. A essa hora, os crocodilos dormem.

quarta-feira, agosto 02, 2006

Sudão, história antiga

“Nós três fomos levados para esse lugar. Quando nos tiraram a venda dos olhos, estávamos numa sala com uma janela muito alta. Estava muito escuro. Nunca soubemos onde aquela casa ficava, mas era em Cartum. Ficámos lá três dias. Sempre em pé, durante esses três dias, com as mãos na parede, dia e noite na mesma posição”.
Acabaram de ler uma pequena parte de um extenso depoimento feito por Magok Gou Riak, no final de 2003, quando esteve em Lisboa para participar numa acção cívica (promovida pelos Missionários Combonianos) que pretendeu chamar a atenção para o genocídio que o governo do Sudão leva a efeito sobre as populações do centro e sul do país.
Fui eu quem propôs a realização da entrevista à direcção da TSF. Se não fosse assim, ninguém se lembraria de considerar o assunto relevante. A guerra civil sudanesa nunca foi assunto de primeira página nos media portugueses. Só depois de António Guterres ter sido nomeado Alto Comissário da ONU para os Refugiados alguns jornalistas portugueses foram até ao Sudão, mas sempre trataram o assunto pela rama e com pressa, como se tivessem medo de perder o avião de regresso e ficar ali no meio das pedras do deserto. Até então, não me lembro de algum outro repórter ter andado por lá, a não ser eu, perdoem-me a imodéstia… se é que é disso que se trata.
Quando Magok Gou Riak chegou a Lisboa, no final de 2003, eu já estava a trabalhar na TSF. Nenhuma televisão o entrevistou…
Do meu bloco de notas não consigo tirar muito “sumo” deste acontecimento. Preciso de excitar a memória… mas mostro-vos (na folha digitalizada) como iniciei esse trabalho… “torturado, espancado, obrigado a confessar culpas inventadas pelos torturadores, acabou com dentes e ossos quebrados. Os que resistem à islamização, não têm futuro no Sudão”…
Continua no próximo capítulo.

terça-feira, agosto 01, 2006

A organização do Estado (2)

Descobri agora a razão porque tantas pessoas, aqui no local onde trabalho, estão a trazer os filhos com elas…A escola pública onde a minha filha estuda fecha as portas na próxima 2ªfeira. Isto é, as aulas já acabaram há umas semanas, mas a empresa que assegurava a Ocupação dos Tempos Livres dos miúdos também vai de férias. Assim, a escola fecha. Assim, não sei como fazer, para não ter que trazer a miúda o dia inteiro para um escritório “chato como a potassa”…
Curioso, é que com o meu outro filho, que anda num infantário privado (porque não tem vaga nos estabelecimentos públicos…), esse problema não se coloca. A escola não fecha, embora funcione sem actividades educativas. Os miúdos vão para lá, brincam e passam o dia num ambiente seguro e próprio.

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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