Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











sexta-feira, junho 16, 2006

Stringers

No jornalismo, principalmente em televisão, o termo stringer designa o repórter irregular, uma espécie de freelance. Os stringers são, hoje, bastante usados pelas grandes cadeias de televisão, em locais perigosos e onde os estrangeiros têm dificuldades acrescidas para trabalhar.Numa conversa menos polida, diria que o stringer é carne para canhão, é o tipo que vai lá custe o que custar, porque sem aquele boneco não ganha o dia.
No Iraque, por exemplo, a maioria dos jornalistas mortos ou feridos em reportagem têm sido stringers. Quase todos iraquianos, camera-men mais ou menos improvisados, que trabalham para a CNN, a BBC, a NBC, a CBS e todas as grandes networks que tenham dinheiro para lhes pagar.
O problema dos stringers é que são tipos sem deontologia profissional. São capazes de qualquer coisa para trazerem a tal história. Ética? Encolhem os ombros… São estes tipos quem, porventura, mais facilmente se conluiam com agências de informação e organizadores de espectáculos para encenações como esta, para a qual Sofocleto me chamou a atenção há uns dias.
Por outro lado, os stringers locais tem muito mais facilidade em estar em determinados locais e em perceber o que se passa. Em países de línguas mais estranhas, eles falam a língua, conseguem ler jornais e perceber o que se diz na rádio, coisas que os estrangeiros dificilmente conseguem.
Utilizei stringers duas vezes na vida, até hoje. A primeira vez foi na Guiné-Bissau. Rendo, aqui, homenagem a um homem chamado Néné Marcos Lopes, o tipo que filmou muitas das imagens gravadas durante combates ferozes do cerco de Bissau e que eu utilizei nas minhas reportagens. Néné era amigo do capitão Bubo Na Tchuto, um dos comandantes do cerco, que liderava um pelotão entrincheirado na zona do poilão de Brá e que susteve alguns dos ataques mais violentos da tropa senegalesa que tentava quebrar o cerco à cidade. Essa amizade era a condição que lhe permitia estar lá. Por outro lado, Bubo não se preocupava muito se Néné podia levar um tiro e morrer. O mesmo não se passava quanto a nós. Se algum de nós levasse um tiro, ele poderia ter problemas com outros chefes militares e isso ele evitava. Por outro lado, Néné ajudava nos combates, enquanto filmava. Levava recados, transportava munições, era quase um combatente, coisa que nós jamais seríamos.
Compilei quatro cassetes de 30 minutos cada, cheias de imagens de Néné Marcos Lopes. Paguei-lhe 1500 dólares, mais do que ele ganharia a trabalhar durante um ano, mas menos do que ele merecia, concerteza.

quinta-feira, junho 15, 2006

Tecnologia

Quando comecei a trabalhar em televisão, a emissão ainda era a preto-e-branco… As reportagens eram feitas em filme, o inefável 35 m/m inversível cor… um filme sem negativo, de revelação rápida. Mesmo assim, o apresentador do telejornal dava, sempre, notícias de ontem. Lembro-me de que uma das minhas primeiras reportagens foi sobre um pequeno incêndio deflagrado num edifício da Rua Castilho, em Lisboa. O incêndio foi ao final da tarde e a reportagem só foi exibida no dia seguinte à hora do jantar.
Depois, as coisas aceleraram. O vídeo mudou tudo. Trabalhamos muito com as Ikegami, uma câmara de vídeo japonesa grande e pesada que nem um trambolho. Mas era tecnologia de ponta, a meio da década de 80.
Entrar em directo era uma coisa do além e carecia de uma preparação de 48 horas. Havia que fazer uma visita técnica ao local, ver se havia linha de vista para o retransmissor de Monsanto ou da Arrábida, montar os feixes, ligar o carro de exteriores e rezar para que aquilo tudo funcionasse. Funcionava, mas não dava para improvisar. De modo que quando em 1998, já na SIC, fomos para a Guiné-Bissau, em plena guerra civil, e levamos um “toko”, nem queria acreditar. O que é um “toko”? É um equipamento portátil que permite ligação via-satélite entre quaisquer dois pontos no Mundo. Lá arrastámos aquilo até Bissalanca, local onde montámos a nossa base. Na altura, Bissau permanecia cercada e não se podia entrar ou sair da cidade. Ficámos numa casa de dois quartos, onde dormíamos e editávamos as reportagens. Na rua montámos a antena parabólica apontada para o céu. Do outro lado da rua, num barracão, estava o gerador. Em Lisboa, antes de partirmos, o engenheiro da empresa que tinha vendido aquilo à SIC foi lá explicar-nos como se ligava o equipamento, como se introduziam as coordenadas correctas para o satélite e o equipamento parecia estar em condições. Mas, ali em Bissau, teimava em não funcionar. De Carnaxide, diziam-nos que não chegava lá nada. Foi assim no primeiro dia. E foi assim no segundo dia. Telefonámos para o tal engenheiro que nos aconselhou a fazer o re-set, isto é, a desligar e voltar a ligar a aparelhagem. Às vezes funciona, dizia ele. Mas não daquela vez… Ao terceiro dia, olhei para a maquineta que voltava a não funcionar e, quando lhe ia assentar um pontapé, reparei num autocolante que dizia “em caso de mal funcionamento, ligue para este número, serviço de atendimento permanente”… Liguei. O número era de um telefone nos EUA. Atenderam-me e expliquei o que se passava. Do outro lado, o homem perguntou-me onde eu estava e para onde queria enviar as imagens. Depois, elaborou um check-up técnico: tecla LES; selection; 002; menu-enter; LES 002, enter; select 002, enter; exit…No fim disse “agora experimente lá, com as coordenadas que vocês tinham estavam a enviar imagens para uma estação terrena na América do Norte”. A verdade é que passou a funcionar na perfeição. E não foi preciso fazer re-set… O tal “toko”, hoje já nem existe. Foi ultrapassado pelo vídeo-phone.

quarta-feira, junho 14, 2006

Manipulação

Tratar os factos com imaginação é, não só uma possibilidade como, até, um dever dos jornalistas. Embrulhar bem a história, de modo a torná-la um produto apetecível, mais vendável, não significa, necessariamente, adulterar os factos. Inventar factos é que não vale… e, curiosamente, essa é uma das queixas de José Maria Carrilho, alegada causa que contribuiu para a sua derrota eleitoral. Confesso que ainda não tinha pensado muito neste assunto, mas a questão colocado por Sofocleto trouxe-me à memória histórias antigas que, de certo modo, se relacionam com esta questão da manipulação de factos e da mensagem jornalística. Sim, é verdade que muitas vezes os jornalistas tomam como boa a primeira informação que lhes permita fazer figura perante o chefe. Sim, é verdade que muitas vezes os chefes de redacção apenas estão preocupados com o impacto da manchete ou da abertura do noticiário e descuram a qualidade da notícia. Como julgava que ontem ia dar o Brasil na SIC, vi a abertura do Jornal da Noite com uma peça sobre o mau tempo em Famalicão, onde houve vento forte e chuva intensa, mas não aconteceu nada demais que justificasse essa abertura, a não ser o facto da SIC ter imagens fortes da intempérie, capazes de provocar alguma emoção aos telespectadores. Outra das queixas de Carrilho relaciona-se com a influência das agências de informação. Se as agências existem é para exercerem essa influência, disso não vale a pena ter dúvidas. Mas é difícil de medir essa influência e ainda mais difícil é provar a manipulação dos factos pela acção dessas agências. No DN de ontem, muito a propósito, vinha um artigo sobre as agências de comunicação… mas nos EUA.

terça-feira, junho 13, 2006

A primeira vítima

O que acho eu deste vídeo? A questão foi-me posta por Sofocleto, do Um Homem das Cidades… O que este vídeo demonstra é que na guerra a primeira vítima é a verdade, tal como já alguém disse. A única novidade, para mim, é o termo Pallywood para designar esta alegada palhaçada propagandística dos palestinianos. Tal como está, do modo como está editado, com a narração naquele tom convincente, o vídeo parece revelar diabólicas encenações manipuladoras da verdade. Talvez seja assim, talvez não. Nem sempre será, estou certo.

Um dia, em Mogadíscio, na Somália, entre outras fantochadas, deparei com uma encenação destas, mas toda ela (aparentemente) inventada pelo jornalista. A coisa passou-se assim… Havia dois locais possíveis para editar reportagens, em Mogadíscio. Ou na UER ou na Reuters. Eu (pela SIC) editava na Reuters, porque era mais barato e porque a SIC, sendo uma estação privada, não é membro da UER (uma associação de televisões públicas europeias). Mas, porque era mais barato, também a RTP montava na Reuters as reportagens dos seus enviados-especiais. Depois de algumas semanas a frequentar o Kilometer 7, assim chamávamos ao hotel onde estava a Reuters, tratava o editor irlandês como se o conhecesse há décadas. Um dia, antes de começarmos o trabalho, tivemos este diálogo:

Ele - A tua concorrência já cá esteve, hoje.

Eu – Ah, sim? E então, uma boa história?

Ele – Sim. Melhor que a tua, de certeza.

Eu – Porquê?

Ele – Queres ver?

E mostrou-me a peça já editada e que seria enviada por satélite para Lisboa dali a pouco. Era uma reportagem cheia de acção. A equipa de reportagem tinha sido apanhada num fogo cruzado, o carro estava danificado, uma bala tinha furado o radiador, o motorista tinha perdido o controlo e embatido num muro. A reportagem era feita à volta daquele cenário, com os repórteres de joelhos, abrigados do tiroteio pela carcaça do veículo. Muitos tiros, ta-ta-ta-tra-ra-ra-ra-ta-ta!!! Gritos. Fiquei derrotado. Naquele dia eram 10 a zero.

Depois, o irlandês contou-me aquela história de outra maneira. Os outros tipos tinham apenas tido um acidente, o carro tinha-se despistado e não havia modo de sair dali. O intrépido repórter magicou aquela cena, rastejou por ali e contou uma história que nunca aconteceu. Na montagem, meteu o som do tiroteio… et voilá!Muitos anos depois, no Sudão. A história que eu perseguia era uma denúncia feita por várias organizações da extrema-direita católica norte-americana, da existência de mercados de escravos negros em zonas controladas pelas milícias arabizadas, conhecidas por janjaweed (palavra árabe que significa “pistoleiro”, mas que em vários dialectos tribais do sul do Sudão significa “diabo a cavalo”). Tentei começar a reportagem pelo lado das vítimas. Falei com dezenas de pessoas que o SPLA me trazia. Quase todas mulheres, convenientemente. Nunca encontrei ninguém com quem pudesse ter uma conversa a sós, olhos nos olhos. Era sempre através de intérprete. Não consegui nunca ter a certeza de que ele transmitia as perguntas que eu fazia, nem nunca consegui perceber se a tradução das respostas era ou não manipulada. A verdade é que muitas pessoas davam respostas curtas, às vezes monossilábicas, e a tradução era sempre um arrazoado longo sobre violações e torturas. Naquelas condições, não quis continuar a reportagem. Embora seja solidário com a causa dos negros sudaneses.

segunda-feira, junho 12, 2006

Guiné Bissau, a guerra civil. O último massacre

A Guiné-Bissau não é uma Nação, ao contrário do que diz o hino nacional do país. “Ramos do mesmo tronco / olhos na mesma luz / esta é a força da nossa união / cantem o mar e a terra / a madrugada e o sol / que a nossa luta fecundou”. É mentira.
Salvo raríssimas excepções, de que o presidente interino Henrique Rosa foi exemplo raro, os dirigentes guineenses pouco ou nada se têm preocupado com a união dos povos da Guiné-Bissau. De facto, não são “ramos do mesmo tronco”. Muito do que se passou na guerra civil, só foi possível porque, realmente, o povo lhes interessa muito pouco.
O último tiro dessa guerra fraticida foi disparado em 7 de Maio de 1999. Quando já nada havia a fazer para salvar o regime, Nino e Ansumane ainda mandavam disparar.
O último obus caiu no pátio de uma escola dos missionários do PIME. O local estava apinhado de populares, que ali se tinham refugiado do tiroteio nas ruas de Bissau.
Aquela multidão de homens, mulheres e crianças ouviu o assobio do voo do obus, um som cada vez mais agudo. No último segundo devem ter adivinhado o que se ia passar.
Mas já não havia tempo… Estas fotos foram-me mostradas pelo padre João, que as tirou com a raiva de denunciar esta barbárie. Na altura, fiz uma reportagem à volta destas imagens. Quarenta morreram logo no local. O depauperado Hospital Simão Mendes recebeu mais de 280 feridos. Muitos morreram aí nos dias seguintes, devido à gravidade dos ferimentos e à míngua de tratamento médico capaz de debelar infecções oportunistas. Foi o último tiro daquela guerra. Um tiro demasiado cruel e inútil.

domingo, junho 11, 2006

Do meu caderno de notas, contributos para a História da Guiné-Bissau

Em Maio de 99, Buotha N`Mbatcha, 60 anos feitos, acabava de recuperar as divisas de coronel do exército da Guiné-Bissau, perdidas quando tinha sido acusado de conspirar contra Nino Vieira.
O coronel Buotha N`Mbatcha passou seis anos na cadeia, onde jura que foi torturado, foi condenado à morte e perdoado magnanimamente no derradeiro minuto. Até aqui, a história de Buotha N`Mbatcha não é muito diferente de milhares de outros guineenses enredados na trama política de Bissau.
Estes antecedentes levaram-no, claro, a alinhar na revolta de Ansumane Mane que culminou no derrube de Nino. No dia 7 de Maio de 1999, Nino caiu. Para evitar ser capturado, o ditador andou fugido pelas ruas de Bissau. Procurou esconder-se na casa do bispo, depois pediu abrigo no Centro Cultural francês. Tudo isto já foi aqui relatado, antes.
Nesse dia 7 de Maio de 99, os caminhos de Buotha N`Mbatcha e Nino Vieira voltaram a cruzar-se.
“Aderi à Junta Militar pela justiça, porque quero que todo o Mundo, principalmente o povo da Guiné-Bissau, saiba que Nino nunca falou verdade. Por isso quero justiça. Eu podia tê-lo morto no dia 7 de Maio. Fui eu que o fui buscar ao sítio onde ele estava e o levei para a embaixada. Tinha a minha pistola. Se quisesse vingança, tinha-o morto. Fui eu próprio. Peguei nele, não lhe fiz nada, levei-o para a embaixada. Espero apenas que se faça justiça e se conheça a verdade” (do meu caderno de notas).

sábado, junho 10, 2006

Congo, ano 2000. Meninos sem aniversário

Ainda sobre Jean Pierre Bemba
O quartel-general do MLC, em Gbadolite, estava guardado por crianças soldados.
Era um grupo de meia dúzia de miúdos, o mais novo andava pelos doze anos e pouco mais alto era que a kalashnikov que carregava nos braços.
O recrutamento de crianças para combater é velho como o Mundo. Mas, hoje, é uma prática condenada pelo Direito Internacional. E, no entanto, os senhores da guerra que continuam a incentivar essa prática nunca foram incomodados por esse facto.

menino-soldado do MLC, em Bondo

A organização católica PIME, que tem muitas missões em África, diz que “as meninas representam 40% dos 300 mil menores envolvidos em conflitos armados em todo o mundo. Estas centenas de milhares de meninas e meninos são obrigados a servir, a trabalhar como espiões, como escravos sexuais, e a morrer no campo de batalha”.

Em documentos da União Europeia, pode-se ler que “no último decénio, os conflitos armados custaram a vida a mais de 2 milhões de crianças, mutilaram 6 milhões, tornaram órfãs 1 milhão e deram lugar a cerca de 20 milhões de crianças deslocadas ou refugiadas. As estimativas actuais falam da existência de cerca de 300 000 meninos-soldados no mundo. Entende-se por meninos-soldados os rapazes e raparigas com menos de 18 anos que façam parte de um exército regular ou de um grupo armado, mesmo que não usem armas. A idade média de recrutamento das crianças-soldados situa-se em redor dos dez anos.”

O Tribunal Penal Internacional considera crime de guerra a participação activa de crianças com menos de 15 anos em hostilidades, bem como o seu recrutamento no exército.

Mas nada disto impediu que a comunidade internacional aceitasse Jean Pierre Bemba como parceiro válido e legítimo para discutir o futuro do Congo e agora, até, para ser candidato à presidência da república. Por outro lado, Bemba é apenas um entre muitos que utilizam desse modo os recursos humanos à sua disposição. Porquê condená-lo? Talvez porque não fosse má ideia começar por algum lado…

sexta-feira, junho 09, 2006

T.P.C.

Todas as noites, depois de chegar da escola, a Sara faz os trabalhos de casa que a professora prescreveu. Contas de somar e diminuir, leitura de textos curtos, preenchimento de espaços em branco em frases incompletas, coisas assim. Gosto de ver como ela progride. Já soletra melhor, com mais rapidez, já entende o texto de modo a conseguir resumi-lo no final. O cálculo mental também está mais agilizado.
Quando a professora deixar de passar trabalhos de casa, como irei fazer para perceber a progressão escolar da Sara? Obrigo-a a fazer mais trabalhos, além daqueles que ela já fez na escola?
Percebo a intenção da ministra, percebo a preocupação de tornar a escola mais igualitária e democrática. Mas acho que se devia começar pela obrigatoriedade do uso da bata escolar nas escolas públicas (o que não acontece na escola da Sara). O uso da bata esbate as diferenças sociais. As crianças ficam mais iguais entre si, mesmo se por baixo da bata umas vestem roupa de marca e outras roupa do supermercado. Essa talvez devesse ser a primeira medida.
Quanto ao resto das medidas anunciadas ultimamente, no âmbito do Plano de Enriquecimento Curricular do 1ºciclo, agrada-me a introdução das actividades desportivas e do ensino musical, embora note que existe uma contradição com as intenções democratizantes da ministra. É que se as novas actividades, tal como o inglês, não fizerem parte do currículo escolar, só alguns terão acesso a elas: os filhos dos mais ricos. Além de que não percebo como se podem obrigar as escolas a proporcionar actividades extracurriculares.

quinta-feira, junho 08, 2006

Paquistão, Peshawar, 2001. Hospitalidade

Em Peshawar, uma parte da cidade é ocupada por população afegã. A colónia tem até nome próprio, qualquer coisa que se pronuncia aproximadamente “cafahan coçon”… enfim, um emaranhado de ruelas labirínticas onde os refugiados recriaram um ambiente típico, onde é proibido filmar ou fotografar mulheres e onde a maioria das lojas vendem as famigeradas burkas.Mesmo sem nunca ter entrado no Afeganistão, ali podemos ter uma ideia muito real de como eles vivem. Falei com vários membros daquela comunidade, todos homens, claro. Alguns eram refugiados antigos, do tempo da guerra contra a URSS. Outros, tinham acabado de chegar. Mas a conversa de todos conduzia para a mesma conclusão: os estrangeiros nunca tinham levado nada de bom para o Afeganistão… e, embora seja difícil entender os hábitos medievais daquela gente, acho que eles têm razão nesse capítulo. Ao almoço fomos convidados para nos sentarmos à mesa, em casa de Haji Abdul Jabbar, um tipo que se portava como chefe da comunidade. Aquele almoço foi o modo dele nos explicar a tradição pashtun de receber quem vem por bem e nunca expulsar de casa um visitante amigo. Em última análise, é ao abrigo dessa tradição que Osama Bin Laden ainda hoje está entre eles.

quarta-feira, junho 07, 2006

Dignidade

Em muitos territórios africanos, os missionários católicos introduziram a necessidade do uso de roupa. Onde as pessoas andavam nuas ou quase, os missionários ensinaram o que era vergonha e decência e criaram mais um problema que, depois, não foram capazes de resolver. Hoje, esses povos andam tapados com trapos, indecentes e sujos. Perderam a dignidade que ostentavam com a exibição orgulhosa dos corpos vestidos de tatuagens e pinturas.
A foto em baixo é de Leni Riefensthal.

terça-feira, junho 06, 2006

Pedro Sousa Pereira

Se Mário Castrim ainda fosse vivo e ainda escrevesse crónicas de televisão, diria que “vendem a prata e ficam com a lata”. Esta frase foi escrita em 1992, quando a RTP permitiu, sem estrebuchar, o êxodo de dezenas de jornalistas para a SIC (com as consequências que depois se viram) e seria hoje aplicada à vontade que os jornalistas da SIC terão em sair dali para qualquer lado.
Vem isto a propósito da saída de Pedro Sousa Pereira da SIC para a Lusa. Bom, a agência noticiosa fica a ganhar um excelente repórter, um fantástico contador de histórias e, creio eu, um tipo íntegro.
Para quem não conhece o Pedro e gostaria de ficar a conhecer, vão à Feira do Livro e folheiem “Paralelo 75 ou o Segredo de Um Coração Traído”. A prosa é do Jorge Araújo, outro excelente repórter, e as ilustrações são do Pedro. É o terceiro livro desta dupla que, curiosamente, se conheceu em plena reportagem em Timor Leste. Pedro Sousa Pereira estava abandonado na SIC. Vivia uma espécie de exílio na sua própria redacção. Agora, os senhores directores vão poder dizer ao patrão que já conseguiram economizar mais mil e quinhentos euros por mês. O patrão vai ficar todo contente e os senhores directores talvez tenham um up grade na próxima renovação da frota automóvel. Que bom. É assim mesmo que se faz televisão.

segunda-feira, junho 05, 2006

Paquistão, Peshawar, 2001. Outra Heroína

Dost significa amigo, no idioma pushtun. É o nome de uma organização paquistanesa que tenta contrariar a pobreza extrema e o consumo de ópio e heroína. Recolhe os sem-abrigo, dá-lhes comida, banho e uma hipótese de auxílio médico. É uma gota de água num imenso oceano de miséria e dificuldades, mas a Dost faz o que pode.
A heroína desta história chama-se Parveen Khan. Sim, é uma mulher. Coisa rara no mundo islâmico, ver uma mulher à frente seja do que for, não é? Andei meses à procura de uma fotografia dela, para vos mostrar, mas não encontrei. Mas o que interessa é saber que ela existe e que tem uma obra para mostrar. E interessa, também, saber que precisa de ajuda, como não podia deixar de ser. Quem puder, quem quiser, pode procurar contactá-la através do link que coloquei logo no início deste texto.
A tarefa de Parveen Khan não tem fim. O ópio e a heroína, no Paquistão, são baratíssimos. Uma dose custa menos que uma garrafa de água mineral. Os paquistaneses fumam, injectam e snifam heroína e ópio. Em Peshawar, os drogados são uma multidão dispersa em pequenos grupos pelas ruas da cidade. Reúnem-se à volta de pequenas fogueiras, onde preparam os cachimbos ou o “caldo”.
A polícia raramente actua. Parveen Khan disse-me que há fortes suspeitas da existência de relações próximas entre a polícia, os políticos e os traficantes da droga que, quase toda, vem do Afeganistão.
Naquela altura, em que conheci Parveen Khan, havia problemas de abastecimento nas ruas de Peshawar. Por causa da invasão americana, dos bombardeamentos, as aldeias tinham ficado desertas e os campos de papoilas abandonados. Mas, hoje, tudo voltou ao normal. O trabalho agrícola, a indústria transformadora e a comercialização do produto. Os americanos não mudaram nada.

domingo, junho 04, 2006

Paquistão, Peshawar, 2001. Heroína

A camara estava no chão, o João Duarte de joelhos, debruçado, espreitava pelo view-finder o melhor enquadramento. Depois levantou a cabeça e disse-me: “acho que é a imagem mais forte em toda a minha vida!” Era a imagem de um homem barbudo, ainda jovem, deitado na via pública. O tipo tinha uma barba escura e a pele suja. Estava no meio de um grupo numeroso de consumidores de heroína, numa avenida de Peshawar, uma cidade paquistanesa junto à fronteira com o Afeganistão. E estava morto, também. Só dei por isso quando vi uma coisa mexer-se por entre os pelos da barba, junto à boca. Era uma mosca… e estranhei aquele sono tão profundo. Depois, reparei nos olhos semi-abertos. Na ausência de respiração. Na rigidez corporal. Aquela “viagem” tinha chegado ao fim.

sábado, junho 03, 2006

Uns tabefes em público

Descobri hoje, no Correio da Manhã, uma guerrinha de alecrim e manjerona entre um tipo que se considera "o máximo do jornalismo português" e o homem que, um dia, lhe deu a mão e o tirou do banco de suplentes. Na RTP, Rodriguinho lia notícias da secção desportiva... quem se lembra?
Hoje, tenta morder a mão que lhe deu de comer, porque julgará que jamais voltará a precisar dele. É a vida... Mas é sempre bom que estes atrevimentos venham a público, para que se conheçam melhor as pessoas.

sexta-feira, junho 02, 2006

A mão na Bolsa

Segundo uma nota de imprensa da corretora Lisbon Brokers, os investidores bolsistas fariam bem se investissem em acções da SIC… no entanto, ainda há bocadinho lia o último relatório da Media Monitor e a SIC continua a ser o terceiro canal nas preferências dos telespectadores, atrás da TVI e da RTP.
Portanto, a recomendação da corretora deve ser uma “questão de fé” num futuro bom desempenho da SIC…, “fé” que pretende contrariar o share medíocre da SIC de 24%... embora a Lisbon Brokers diga que “acredita que a Impresa irá conseguir reter parte dos telespectadores que serão conquistados ao longo do próximo mês” com a transmissão dos jogos do Mundial… aqui, a “questão de fé” alarga-se ao desempenho da selecção nacional, porque se a coisa lhes corre mal, a SIC pode dizer adeus às audiências…
Indisfarçável é que as audiências do canal continuam em queda. Em Maio do ano passado, o share da SIC era de 27,7%, hoje é de 24%... mas os corretores, ainda assim, reforçaram a recomendação de compra… deve ser porque não é com o dinheiro deles.

quinta-feira, junho 01, 2006

Ai Timor...

O que se passa em Timor é de indubitável interesse público em Portugal.
Não só porque lá vivem várias centenas de portugueses, não só porque os timorenses mantiveram laços de amizade com Portugal ao longo dos anos, não só porque o território foi colónia portuguesa e isso torna-nos, de certo modo, parte interessada em tudo quanto lá se passa, não só porque a causa da libertação de Timor do jugo indonésio foi a manifestação colectiva mais bonita que os portugueses levaram à cena nos últimos cinco séculos, mas por tudo isso Timor interessa-nos e preocupa-nos.
Assim, os órgãos de comunicação social têm feito notícia do que por lá se passa. Não só pelas razões que apontei, mas porque cenas de tiros e facadas, casas incendiadas e pilhagens, choros e gritos, mortos e feridos sempre serviram bem para vender papel e tempo de antena. Por mais sereno que seja o jornalismo feito, nestas situações a reportagem é sempre emocionante. E isso “agarra” o público. Agora, a verdade é que se não fosse o serviço público de rádio, televisão e agência noticiosa, não haveria notícias de Timor. É a RDP e a RTP, mas principalmente a LUSA quem estão a alimentar os noticiários dos outros.
Dizem-me que a SIC não tem lá ninguém… como se naquela redacção já não houvesse um repórter em condições, capaz de enfrentar aquele tipo de situação com frieza e raciocínio ágil. Será que os directores estarão desautorizados pela administração?... Sinceramente, não percebo.

quarta-feira, maio 31, 2006

A organização do Estado

Fui de manhã à Caixa dos Jornalistas entregar comprovativos de despesas de saúde do meu agregado familiar. Consultas no dentista, uma radiografia, coisas assim. Por causa da radiografia já lá tinha ido uma outra vez. O papel não tinha sido aceite, porque faltava o comprovativo do pedido médico. Como se alguém andasse a tirar radiografias por gostar de ver os seus ossos… Agora, aconteceu que um dos recibos do dentista foi rejeitado. Porque falta a especificação do tipo de tratamento e o número do dente tratado! Que interesse tem para o Estado saber se a cárie é no segundo molar inferior direito, se no canino superior esquerdo?
Tenho de voltar ao dentista, por causa da especificação-escrita-e-certificada-sem-qualquer-margem-para-dúvidas-do-dente-tratado e, depois, regressar uma vez mais ao guichet estatal onde, finalmente, me aceitarão o papel e o respectivo pedido de reembolso.
Percebo que o Estado tente evitar as burlas, mas assim.... Até porque, enquanto ando para trás e para a frente, não trabalho. E depois vão-me chamar absentista.

terça-feira, maio 30, 2006

Despedimento com justa causa

A pandemia da SIDA é um flagelo em Moçambique, como todos sabemos. Os índices de contaminação da população são altíssimos, dos mais altos do Mundo. Um dos principais problemas prende-se com a qualidade da assistência médica prestada à população. Só recentemente o governo começou a disponibilizar medicamentos retrovirais para o tratamento da SIDA. As duas últimas viagens que fiz a Moçambique foram dedicadas a reportagens sobre o tema. Por isso, conheci bem a realidade da assistência hospitalar em Maputo, na Beira, no Chimoio.
Sou testemunha das tremendas dificuldades existentes e do fantástico trabalho dos médicos.
Por isso, foi com horror que soube que, há dias, o director do Hospital Central da Beira tinha despedido cinco médicos, cooperantes chineses e indianos. O horror tem que ver com as razões do despedimento… esses médicos foram acusados de tratamento arrogante com os doentes, motivo que levou ao afastamento de muitos utentes.
O problema é bem mais grave do que possam pensar. É que já é difícil que as pessoas queiram ir ao hospital de livre vontade. Os costumes tradicionais continuam a ditar lei e, primeiro, as pessoas vão ao feiticeiro. Depois, vão ao feiticeiro. Se não ficarem melhor, ainda voltam ao feiticeiro. Só em último caso vão ao hospital. Se não são bem recebidos, nunca mais lá voltam.
Por isso, tratar com arrogância um doente em Moçambique pode ser o mesmo que o condenar à morte. E isso é indesculpável.

segunda-feira, maio 29, 2006

Angola, 1999. Lágrimas de crocodilo

A última vez que regressei de Angola foi em Janeiro de 1999. Tinha feito uma viagem relâmpago, com o Renato Freitas camera-man. Na bagagem trouxemos as imagens do Cuíto cercado, na derradeira ofensiva da UNITA. Tínhamos “belos bonecos” da contra-ofensiva governamental, com imagens de combates tiradas à boleia de um dos blindados do governo. Numa dessas sequências, via-se de relance, mas via-se, um soldado da UNITA que se tinha rendido a ser interrogado e, logo a seguir, sumariamente fuzilado.
Essa sequência fechou a reportagem. Era um soco no estômago e a resposta a uma pergunta que já tinha feito inúmeras vezes e a que nunca me tinham respondido. Era por “aquilo” que não havia campos de prisioneiros de guerra… os únicos prisioneiros poupados eram os oficiais superiores, os que poderiam ter informações úteis quanto às tácticas do inimigo e saber dos pensamentos íntimos dos chefes. É verdade que nem todos os soldados rasos eram mortos. Alguns safavam-se, por algum prurido do inimigo, desde que passassem a combater contra o outro lado. Os angolanos sofreram coisas indizíveis, nessa guerra longa…
Enfim, tudo isto para vos dizer que soube, no dia seguinte à exibição da reportagem, que o Presidente da República tinha ficado muito incomodado com “aquilo” (eventualmente, verteu alguma lágrima) e que iria promover uma discussão pública para denunciar aqueles horrores. A informação tinha chegado por um dos assessores presidenciais que antes tinha trabalhado na SIC. Imagino que Sampaio tenha sido melhor aconselhado, mais tarde, porque nunca mais ouvi falar no assunto.

sábado, maio 27, 2006

Um pormenor da vida, no Iraque

Nunca estive no Iraque. Por duas vezes tentei entrar e fiquei na fronteira, no lado jordano. A concessão de vistos a jornalistas por parte do Iraque sempre foi obra do acaso e de políticas que favoreciam os nacionais das grandes potências mundiais ou os trabalhadores de empresas globalmente famosas e importantes. Nem a RTP, muito menos a SIC, alguma vez adquiriram esse estatuto e o nome de Portugal nem fazia estremecer a pálpebra do funcionário consular iraquiano... de modo que, com algum azar à mistura, nunca lá consegui entrar, tanto mais que, nas ocasiões em que o visto era garantido, porque a política era de portas abertas, as "estrelas da companhia" fizeram sempre valer as suas prerrogativas.
Enfim, nunca lá fui mas, claro, tenho acompanhado com interesse a evolução dos acontecimentos. O Iraque sempre tem sido notícia. Mas há coisas que, por mais jornais que se leiam ou mais televisão que se veja, há coisas que não nos apercebemos facilmente.
Como isto, por exemplo...

O primeiro conjunto de fotos diz respeito às actividades estudantis femininas, no campo desportivo, e data de 1963-1964... a outra foto diz também respeito a actividades estudantis femininas neste ano lectivo de 2006... As fotos são uma espécie de antes-e-depois da "libertação" propiciada pelos EUA. Não digo, com isto, que tudo estava bem no tempo de Saddam e que tudo vai mal, hoje. Acho que havia muita coisa mal, nos anos 60, 70, 80, 90, acho que o regime de Saddam foi um regime indecente sob muitos aspectos. Mas, realmente, acho que hoje tudo está bem pior, para a maioria dos iraquianos. E o pormenor revelado pela foto, é apenas isso mesmo... um pormenor.

Farmácias, só mais uma achega...

A nova lei das farmácias impede a manutenção do monopólio da propriedade das farmácias, até aqui privilégio dos farmacêuticos. Além disso, impede também que a propriedade da farmácia possa ser detida por médicos, laboratórios, distribuidores farmacêuticos, privados que prestem cuidados de saúde e subsistemas que comparticipem no preço dos medicamentos.
Gostei!

sexta-feira, maio 26, 2006

Farmácias

O governo acaba de anunciar o fim do monopólio da propriedade das farmácias. Finalmente!
Um a um, os privilégios corporativos salazaristas estão a chegar ao fim. Os argumentos de Sócrates não podiam ser mais consensuais. Por que diabo haviam os farmacêuticos de ter a exclusividade da propriedade das farmácias? Por acaso, as escolas têm de ser propriedade de professores? As clínicas têm de ser propriedade de médicos? Os jornais são dos jornalistas? A TAP é dos pilotos?

Costaleras do Amor (4)

Último passo desta procissão:

O capataz dá três pancadas fortes no alto da estrutura. A pausa durou poucos minutos. À pressa, as costaleras dão as últimas baforadas nos cigarros antes de se colocarem debaixo da parihuela. “Vamos calar a boquinha aí debaixo. Vamos escutar e calar!”, ordena o 2º capataz. Olhando para dentro pergunta: “A traseira está?”. A resposta vem do fundo, “a traseira está.” Nova pancada antes de a estrutura se erguer num salto. “Todas por igual. Ao céu”. O rádio leitor de CDs começa a tocar o andamento da banda que acompanhará a Virgem da Encarnação. Seguindo o andar arrastado das mulheres, Rafael Martin, de 44 anos, desempregado, segura o rádio como se levasse a música ao colo. A t-shirt branca com o rosto da imagem impressa molda-lhe a barriga. Não falta a um ensaio. “À parte destas [coisinhas], venho pela minha Encarnação”, acrescenta. Cumprimenta toda a gente em tom de festa, e não consegue conter as lágrimas de mãos coladas ao rosto quando contempla a imagem da Virgem. A estrutura avança até deparar com mais um carro estacionado. “Parem aí!”, à ordem do capataz mudam de direcção num ângulo de 90 graus. “Pouco a pouco a esquerda à frente, pouco a pouco a direita atrás!”. Ensaiam durante várias horas pelas ruas do bairro. Às vezes começam a meio da tarde, outras à noite com uma luz giratória de sinalização de cargas pesadas em cima do passo. Por tradição, promessa, ou apenas por curiosidade estas mulheres decidiram entrar na confraria do Amor por 12 euros/ano. Trazem os filhos aos ensaios, passam-nos debaixo do manto da imagem e põem-lhes o costal. Por vezes desentendem-se. “Todas por igual, valentes!”, diz o capataz. Há até quem veja a Igreja com maus olhos. “Isso está tudo podre. Há interesses económicos, políticos, e mais...”, desabafa Verónica Relaño, de 23 anos. Na t-shirt negra tem escrito Full Contact , e nas calças justas Kiss Me. “Rezo todas as noites mas não tenho porque confessar-me a um padre. Dá-me vergonha”.
Os candeeiros de rua acendem-se com o cair da noite. Passaram mais de três horas de cigarros fumados à pressa pelas descidas à parihuela, de garrafas de água esvaziadas, de piadas. Mas a garagem ainda está longe. “À saída qualquer uma é costalera!”, diz um ajudante do capataz. “Isso não pesa nada. Isso é uma brincadeira”, anima em seguida. “Já está aí o Domingo de Ramos. Já falta pouco para levarem a Mãe”.

quinta-feira, maio 25, 2006

Costaleras do Amor (3)

A 3ªestação desta via sacra:

Posta a parihuela na rua, as mulheres trazem do fundo da garagem vários tijolos de betão que vão dispondo no cimo da estrutura. Têm que levantar cerca de uma tonelada, o peso que terá o passo em procissão. Cada uma carrega mais de 30 quilos.
Avançam sob as ordens de um capataz, por chicotas, trajectos que raramente ultrapassam os 200 metros. O trabalho é árduo. Meia hora depois da saída o cansaço transparece no rosto das costaleras, as garrafas de água começam a passar de mão em mão. Talvez por isso a formação deste grupo de mulheres tivesse sido tão mal recebida pelas irmandades. “O mundo confrade é muito machista”, afirma o segundo capataz, José Delgado de 33 anos, técnico de ar condicionado. “Mas elas souberam criar um estilo único e conseguiram ser respeitadas”.A fundadora recorda o quanto foram aplaudidas na praça das Tendillas, a Passagem Oficial da Semana Santa em Córdova. “Fomos primeira página do El País e abertura do telejornal”, acrescenta com emoção. Suportou durante 13 anos o peso do passo da Virgem da Encarnação, graças ao pai que se comprometeu a pagar qualquer eventual estrago.
Vários confrades abandonaram a irmandade, e ouviam-se críticas das mulheres à porta de casa: “Vai mas é para casa esfregar os pratos”. Eram as que mais doíam porque o sentimento machista é por vezes responsabilidade do sexo feminino. “Afinal cada homem é educado por uma mulher!”, exclama Rafaela.

quarta-feira, maio 24, 2006

Congo, ano 2000. Gbadolite, casa chinesa

No alto de outra colina, nos arredores de Gbadolite, mais uma obra ao absurdo. É uma área toda murada. Um quadrado, com uma porta larga em cada lado. Cada porta está guarnecida por dois grandes leões de pedra.Lá dentro, é fresco. Caminhamos sobre estrados de teca, por entre um emaranhado vegetal que começou a tomar conta do local. Mas os pavilhões em madeira de cerejeira ainda lá estão, ligados uns aos outros por pontes pedonais feitas de bambu e pau-rosa. Madeira bordada, rendilhada, em relevo, ainda com as cores fortes ao gosto chinês, amarelo torrado, rosa escuro, vermelho vivo, verde claro, azul céu, as cores da loucura de quem tudo queria e tudo podia. A cidadela chinesa de Mobutu, cheia de lagos e cisnes e pavões. Os cisnes e pavões, o povo comeu-os. Os lagos e a piscina pertencem, agora, aos sapos.Mas ainda é possível adivinhar as farras que ali se desenrolaram. Ou se enrolaram… depende da imaginação de cada um.
O custo destes caprichos é difícil de adivinhar. Para erguer o Palácio Gbadolite foram operários portugueses, para a casa de campo foram operários italianos, para esta cidadela chinesa os escolhidos foram... artífices chineses. Mobutu não poupava.

terça-feira, maio 23, 2006

Costaleras do Amor (2)

2ªfatia do texto do Bruno Rascão:

Os ensaios para a Semana Santa começaram a seguir ao dia de Reis. “Mas foi pouco”, lamenta uma habitante do bairro, enquanto espera que as costaleras saiam da confraria para mais um ensaio. “Apanharam muitos dias de chuva”, esclarece. As mulheres começaram a chegar perto da hora marcada, às 21h de sexta-feira. Há quem esteja desde a fundação e quem se estreie este ano. A maioria tem mais de três anos debaixo da parihuela. Chegam a pé, sozinhas ou em pequenos grupos, subindo a praça do Cristo do Amor, iluminada pelos candeeiros de rua. “A minha filha chegou agora de Badajoz, neste carro que aqui estava”, diz uma senhora que passeia o seu cãozinho branco. “Trabalha lá num hospital, e veio para o ensaio. Tem 21 anos”. Perto das 22 horas chega numa scooter amarela outra das confrades. Um blusão preto protege-a da brisa da noite. Entra pela porta da confraria, com um ar apressado, até à sala onde se reúnem as mulheres antes dos ensaios. O ambiente é de boa disposição. No meio da névoa dos muitos cigarros que se fumam na sala, contam-se piadas, enrola-se o costal no chão, comentam-se pormenores sobre a saída de 9 de Abril, Domingo de Ramos. Num canto duas costaleras puxam uma faixa, enquanto outra a vai enrolando à volta da zona lombar, de forma a que fique muito justa. No total são 64, mas é raro que compareçam todas em tempo de ensaios. A maioria anda na casa dos 20 anos. Umas mais fortes outras aparentemente frágeis. Vestem roupa desportiva, camisolas do Barcelona ou de outros clubes, mas também jeans e camisolas largas. Algumas têm piercings, no lábio ou no nariz. Uma mistura heterogénea de mulheres, que por tradição, curiosidade, promessa, devoção, se encontram debaixo de uma trave que lhes assenta no pescoço durante muitas horas por ano.Aida Herdia, de 20 anos, começou a carregar passos aos 15, em equipas mistas, na Ciudad Real onde nasceu. Queria experimentar, “saber o que se sentia em penitência debaixo de uma imagem”. Está no exército desde Outubro de 2005, e foi recentemente transferida para Córdova. “Queria mudar de ares”, e estar mais perto da irmandade. Pertencer a confrarias significa, para ela, uma maneira de expressar a devoção e penitência a Deus, no quotidiano. “É a forma de levar a minha cruz”. Confessa que a música que mais mexe com ela é a das bandas da Semana Santa. Sempre marcada pelo ritmo dos tambores e pela melodia das cornetas, num andamento de inspiração militar.
(continua)

segunda-feira, maio 22, 2006

Congo, ano 2000. Gbadolite, La Chapelle

No séquito de Mobuto devia haver um padre católico. O ditador pretendia ser um homem religioso e, ao mesmo tempo, moderno. Rejeitou as feitiçarias e os deuses animistas. Juntou-se aos católicos e mandou erguer igrejas por todo o Zaire. A Igreja aproveitou essa liberdade de acção. Povoou o Zaire com missões católicas e começou a competir com a forte influência muçulmana. No Zaire até se criou um rito próprio para a celebração das missas católicas. O rito zairense, assim se chama, está reconhecido pelo Vaticano e, hoje, todos os missionários brancos em África o adoptam. O rito zairense transforma a solenidade da missa numa festa com danças e batuques. A celebração é longa. Cheguei a assistir a missas que duraram mais de três horas. De tal modo que a meio, o padre celebrante era rendido por outro. Em Gbadolite, claro, também há uma igreja. Chama-se simplesmente La Chapelle (a capela). La Chapelle fica num dos extremos da enorme propriedade onde Mobutu tinha a sua residência particular. La Chapelle é, de facto, uma catedral imensa, com uma abóbada que sobe a mais de 30 metros de altura, vitrais coloridos e uma imensa plateia com várias centenas de lugares. Ao centro, um altar. Num dos cantos da La Chapelle, uma escada desce para uma cave espaçosa onde está o mausoléu familiar. Apenas um corpo ali foi depositado, o da mãe de Mobutu. Os outros foram morrer longe, levados pelo vento da História.

domingo, maio 21, 2006

Os neo-cons de Dom Sebastião

Eis uma analogia muito interessante entre Dom Sebastião e George W.Bush (o artigo completo está aqui):

"Modern history is full of governments rushing into disastrous wars. However we have to go back to Portugal's 1578 invasion of Morocco for the closest analog to Bush invading Iraq. King Sebastian was three when he came to the throne. Educated by fanatic Jesuits, he grew up with a passion for a crusade against Morocco. Advisors inherited from his father opposed him. Portugal had a lot on its hands in Brazil and the East Indies. But the more they argued against it, the more he surrounded himself with mad monks who thought a crusade was a terrific idea.
Sebastian and 40,000 troops sailed away. Six, not 6,000, came back, none named Sebastian. The kingdom collapsed. In 1580 Spain marched in. Portugal literally disappeared from the map until 1640 when a nobles' revolt regained independence. The Jesuits and monks were Sebastian's neo-cons. Without them, no crusade. But he was king. He went to war, not them. If he wasn't crazy, he would have listened to dad's staff.
"Over-determined" is the historians' term for such phenomena. The neo-cons are Bush's monks. But he was President. If he wasn't as demented as Sebastian he wouldn't have listen to them."

Para quem não sabe inglês, a tradução:
A História Moderna está cheia de exemplos de governos que se metem em guerras desastrosas.Contudo, temos de regressar à invasão portuguesa de Marrocos em 1578 para encontrarmos uma analogia perfeita com a invasão americana do Iraque. O rei Sebastião tinha três anos quando subiu ao trono. Educado por Jesuítas fanáticos, cresceu com a ideia de combater numa cruzada contra Marrocos. Os conselheiros herdados do tempo do pai não concordavam com isso. Portugal já tinha muito com que se preocupar no Brazil e nas Índias Orientais. Mas quanto mais o assunto era discutido, mais o rei se rodeava de monges adeptos das cruzadas pela fé.
Sebastião partiu com 40 mil soldados. Apenas seis regressaram. Nenhum se chamava Sebastião. O reino colapsou. Em 1580 a Espanha anexou-o. Portugal desapareceu do mapa até 1640 quando a independência foi reconquistada numa revolta da nobreza. Os jesuítas e os monges eram os neo-cons de Sebastião. Se não fossem eles, não teria havido cruzada. Mas ele era o rei, a responsabilidade da guerra foi dele, não dos conselheiros. Se não fosse a sua loucura, teria dado ouvido aos conselheiros do pai. "Demasiado comprometido" é o termo que os historiadores utilizam para classificar este tipo de atitude. Os neo-cons são os monges de Bush. Mas ele é o presidente. Se Bush não fosse tão louco quanto Sebastião, não lhes teria dado ouvidos.

Costaleras do Amor (1)

Conheci o Bruno Rascão no aeroporto de Lisboa, a caminho de Dacar. Ele e o Pedro Rosa Mendes, mais o Carlos Aranha, foram os meus companheiros nas primeiras aventuras da guerra da Guiné.
O Bruno é um excelente repórter fotográfico, mas nem por isso conseguiu trabalhar em Portugal. Ou temos muitos repórteres excelentes ou a excelência não é factor decisivo no recrutamento de jornalistas em Portugal.
É assim que o Bruno está a viver em Espanha. E foi de lá que me enviou um email com um texto sobre uma das suas últimas reportagens, no caso sobre uma estranha tradição religiosa de Córdoba, em Espanha. As fotografias desse trabalho estão neste site (procurem em All Stories, Las Costaleras). O texto, com a devida vénia ao Bruno Rascão, vou passá-lo aqui. Fatiado, para evitar o cansaço de uma leitura mais longa que a aconselhada para um blog.
Aqui têm a primeira fatia...

Nas traseiras da igreja o capataz abre uma pequena garagem. Um buraco grande e sem luz. Javier Perez faz girar uma porta basculante. Lá dentro, está uma estrutura em ferro, de tom avermelhado, da qual saem quatro pés. Cá fora, mais de 40 mulheres, de diversas idades, aproximam-se com o costal na cabeça, tecido grosso dobrado em forma de saco. “Vamos a isto”, diz o capataz às costaleras: “Lá para dentro, e a rezar”.
Aquela estrutura, em forma de mesa, ocupa por inteiro a garagem. Chama-se mesa ou parihuela, objecto que o capataz há-de conduzir ao longo do bairro do Cerro, em Córdova; e as mulheres suster durante o ensaio de quase quatro horas numa tarde quente de Março. Dez metros quadrados que servirão de palco à Virgem da Encarnação no Domingo de Ramos. De modo informal a pequena multidão começa a murmurar as orações. Debaixo distribuem-se 30 mulheres, em grupos de cinco, ao longo de seis traves. Estão prontas a erguer a parihuela, que no dia de penitência, com a imagem em cima, se chama passo. Os primeiros costaleros eram profissionais, homens de faina que carregavam os produtos nos mercados grossistas. Utilizavam o costal, na época um saco de serapilheira posto na cabeça para amortecer o peso que carregavam às costas. A troco de um soldo saíam às ruas nas exuberantes procissões da Semana Santa andaluza, debaixo dos passos com imagens das paróquias. A Virgem da Encarnação não escapava à regra. Chegou ao Cerro em 1981, um bairro de operários de classe baixa, e passou a acompanhar o Cristo do Amor, que dá nome à irmandade. De perto seguiam-na, entre os nazarenos (penitentes com um capuz em cone a cobrir o rosto), um grupo de mulheres. Rafaela Vasquez, 47 anos, ex-empresária, era uma delas e o pai Hermano Maior, ou director da confraria. Por vontade da filha, deixou que formasse um grupo de costaleras, pioneiro em Espanha. O objectivo era substituir os profissionais. Em 1986, depois de três anos de ensaios e um troço do percurso no Domingo de Ramos de 1985, passaram a ser as portadoras do passo da Encarnação.
(continua)

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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