Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











terça-feira, junho 20, 2006

Nino. Alguma coisa correu mal...

Como foi que uma criança socialmente favorecida se transformou num ditador implacável?
Ou o relato do senhor Augusto Veiga da Cunha, no Correio da Manhã de ontem, não é fiel aos factos?
“…No final dos anos 40, quando estudava em Bissau, na Guiné natal, o seu companheiro de carteira era nada mais nada menos do que João Bernardo Vieira, o mesmo que durante a luta pela autodeterminação da Guiné-Bissau veio a ganhar a alcunha de guerra de ‘Nino’ – e que mais tarde chegaria a chefe de Estado, primeiro pela força das armas e, mais recentemente, em eleições legitimadas pela comunidade internacional. Um miúdo, na altura – mas um miúdo em quem era já possível encontrar o esboço do líder em que mais tarde viria a tornar-se”.

em Bissau, 1998

O relato passa a discurso directo: “Eu era de Nova Lamego, actualmente chamada Gabú, na região de Bafatá. O meu pai, que nascera em Amarante, trabalhava lá como farmacêutico desde os anos 30. E eu gostava de África. Passava parte do meu tempo em Portugal, mas quando estava na Guiné acompanhava sempre os negros. Dava-me muito bem com eles, não havia diferença entre nós. Foram os melhores anos das nossas vidas, como a minha mãe sempre dizia, e quando fui para a escola, ‘Nino’ Vieira ficava ao meu lado. Era um bom aluno, muito respeitador dos professores e dos colegas. Ficávamos nas filas da frente e os professores davam-nos mais atenção a nós do que aos outros rapazes. E ‘Nino’ já revelava uma certa personalidade. Um carácter forte, determinado, sem racismo nenhum. Quando me vim embora, ele, como outros, pediu-me várias vezes que não viesse, que ficasse ali a viver com eles.”

segunda-feira, junho 19, 2006

Ainda sobre os mais velhos

Em muitas sociedades indígenas, e mesmo em sociedades modernas mas pouco desenvolvidas em termos industriais, o papel dos velhos é da maior importância. Ninguém sabe mais do que eles. Pelo que tenho lido, mas também pelo que tenho assistido, a sobrevivência de muitos povos depende dos ensinamentos que os velhos transmitem. Talvez seja por isso que, em muitas dessas sociedades, a idade não tem importância. Tomei consciência disso mais do que uma vez. Por exemplo, quando estive com Dorinda Cunha, no sul do Sudão, a missionária serviu de intérprete nas entrevistas que fiz com a população de Marial Lou, a aldeia dinka onde Dorinda vivia e, numa dessas entrevistas, a dada altura perguntei à senhora com quem falávamos que idade ela tinha. Dorinda hesitou e não fez a pergunta. Virou-se para mim e disse: “Eles não sabem. Isso não tem importância nenhuma”.No sul do Sudão, importante era saber com alguns dias de antecedência quando ia chover, o tempo suficiente para preparar o chão e deitar-lhe as sementes, importante era, também, perceber a tempo quando algum animal estava doente de modo a evitar a contaminação da manada, importante era ter muitos filhos e saudáveis e saber cuidar deles e ensinar-lhes a conversar com os deuses, as marcações dos rituais, o manejar da AK-47. Tudo coisas que os velhos sabem melhor do que ninguém.
Só nas sociedades nómadas e nas industrializadas, os velhos se tornam empecilhos. Nos nómadas, porque não conseguem acompanhar o andamento do grupo. Nas industrializadas, porque convencionou-se que o tempo é dinheiro e, assim, como a maioria de nós não tem dinheiro, acabamos por não ter tempo para os nossos velhos. E porque pensamos que não temos nada para aprender com eles.

domingo, junho 18, 2006

Esta tarde, no Martim Moniz

“Custa 1 euro”, dizia ele, mostrando a capa. Vendia pouco, mas ele parecia mais preocupado em conversar com os “clientes”. Eu comprei. Nunca soube dizer que não aos meus instintos solidários. O que é uma chatice, principalmente quando o mês já vai longo… Mas o boletim nº34 do SOS Racismo vale o euro que o José Falcão me cobrou. O editorial interessou-me bastante. Fala em vários assuntos, o último dos quais aborda a questão das políticas relacionadas com a imigração. Sou português e branco, mas conheço o outro lado da questão. Sei bem como é difícil para um estrangeiro e negro encontrar emprego que não seja balconista de centro comercial ou nas várias serventias, que pode ser a lavar chão ou a carregar baldes de cimento. E é por isso que concordo com o editorialista do referido boletim, quando ele escreve que “para os imigrantes a aquisição da nacionalidade (portuguesa) é apenas uma forma de colmatar as muitas deficiências da cidadania, eles não têm particular interesse em ser portugueses, eles têm sim todo o interesse e necessidade em ser cidadãos de pleno direito”. Falcão lá andava, a vender ideais, esta tarde, no Martim Moniz.

sábado, junho 17, 2006

Homens Grandes (continuação do post anterior)

O nome de Néné Marcos Lopes nem sequer apareceu na ficha técnica, porque ele não queria. Quando Néné nos vendeu uma cópia das suas quatro cassetes cheias de guerra, fê-lo à revelia da Junta Militar e dos pequenos chefes que pululavam nas redondezas. Alguns tipos da Rádio Bombolom, a rádio da rebelião, não queriam que nós tivéssemos acesso aquelas imagens, nunca percebi porquê, e ameaçaram Néné de porrada e até de morte se ele nos vendesse aquele material. Suspeito que a razão se prendia com o negócio que aquelas imagens proporcionavam e, os tais pequenos chefes, quereriam meter algum ao bolso. De modo que a transacção foi feita com mil secretismos e Néné ficou com os originais… No que me diz respeito, com essas imagens e outras captadas pelo Renato Freitas e pelo Carlos Aranha, escrevi e montei uma reportagem de 45 minutos sobre a guerra civil, a que chamei “A Revolta dos Mais Velhos”. É um título deslocalizado, digamos assim… a expressão “mais velhos” é de Angola. Deveria ter sido “A Revolta dos Homem Grandi”, mas ninguém iria perceber…Os “homem grandi” na Guiné-Bissau são aqueles que, pela idade e conhecimentos adquiridos, têm o respeito da comunidade. Foram esses que, desde o primeiro minuto, fizeram a guerra contra Nino Vieira. Era quase comovente ver aquela tropa de cinquentões e sexagenários… e ouvi-los falar com a certeza da vitória. Eles, que tinham derrotado o exército português (na guerra colonial), iriam vencer os senegaleses.

sexta-feira, junho 16, 2006

Stringers

No jornalismo, principalmente em televisão, o termo stringer designa o repórter irregular, uma espécie de freelance. Os stringers são, hoje, bastante usados pelas grandes cadeias de televisão, em locais perigosos e onde os estrangeiros têm dificuldades acrescidas para trabalhar.Numa conversa menos polida, diria que o stringer é carne para canhão, é o tipo que vai lá custe o que custar, porque sem aquele boneco não ganha o dia.
No Iraque, por exemplo, a maioria dos jornalistas mortos ou feridos em reportagem têm sido stringers. Quase todos iraquianos, camera-men mais ou menos improvisados, que trabalham para a CNN, a BBC, a NBC, a CBS e todas as grandes networks que tenham dinheiro para lhes pagar.
O problema dos stringers é que são tipos sem deontologia profissional. São capazes de qualquer coisa para trazerem a tal história. Ética? Encolhem os ombros… São estes tipos quem, porventura, mais facilmente se conluiam com agências de informação e organizadores de espectáculos para encenações como esta, para a qual Sofocleto me chamou a atenção há uns dias.
Por outro lado, os stringers locais tem muito mais facilidade em estar em determinados locais e em perceber o que se passa. Em países de línguas mais estranhas, eles falam a língua, conseguem ler jornais e perceber o que se diz na rádio, coisas que os estrangeiros dificilmente conseguem.
Utilizei stringers duas vezes na vida, até hoje. A primeira vez foi na Guiné-Bissau. Rendo, aqui, homenagem a um homem chamado Néné Marcos Lopes, o tipo que filmou muitas das imagens gravadas durante combates ferozes do cerco de Bissau e que eu utilizei nas minhas reportagens. Néné era amigo do capitão Bubo Na Tchuto, um dos comandantes do cerco, que liderava um pelotão entrincheirado na zona do poilão de Brá e que susteve alguns dos ataques mais violentos da tropa senegalesa que tentava quebrar o cerco à cidade. Essa amizade era a condição que lhe permitia estar lá. Por outro lado, Bubo não se preocupava muito se Néné podia levar um tiro e morrer. O mesmo não se passava quanto a nós. Se algum de nós levasse um tiro, ele poderia ter problemas com outros chefes militares e isso ele evitava. Por outro lado, Néné ajudava nos combates, enquanto filmava. Levava recados, transportava munições, era quase um combatente, coisa que nós jamais seríamos.
Compilei quatro cassetes de 30 minutos cada, cheias de imagens de Néné Marcos Lopes. Paguei-lhe 1500 dólares, mais do que ele ganharia a trabalhar durante um ano, mas menos do que ele merecia, concerteza.

quinta-feira, junho 15, 2006

Tecnologia

Quando comecei a trabalhar em televisão, a emissão ainda era a preto-e-branco… As reportagens eram feitas em filme, o inefável 35 m/m inversível cor… um filme sem negativo, de revelação rápida. Mesmo assim, o apresentador do telejornal dava, sempre, notícias de ontem. Lembro-me de que uma das minhas primeiras reportagens foi sobre um pequeno incêndio deflagrado num edifício da Rua Castilho, em Lisboa. O incêndio foi ao final da tarde e a reportagem só foi exibida no dia seguinte à hora do jantar.
Depois, as coisas aceleraram. O vídeo mudou tudo. Trabalhamos muito com as Ikegami, uma câmara de vídeo japonesa grande e pesada que nem um trambolho. Mas era tecnologia de ponta, a meio da década de 80.
Entrar em directo era uma coisa do além e carecia de uma preparação de 48 horas. Havia que fazer uma visita técnica ao local, ver se havia linha de vista para o retransmissor de Monsanto ou da Arrábida, montar os feixes, ligar o carro de exteriores e rezar para que aquilo tudo funcionasse. Funcionava, mas não dava para improvisar. De modo que quando em 1998, já na SIC, fomos para a Guiné-Bissau, em plena guerra civil, e levamos um “toko”, nem queria acreditar. O que é um “toko”? É um equipamento portátil que permite ligação via-satélite entre quaisquer dois pontos no Mundo. Lá arrastámos aquilo até Bissalanca, local onde montámos a nossa base. Na altura, Bissau permanecia cercada e não se podia entrar ou sair da cidade. Ficámos numa casa de dois quartos, onde dormíamos e editávamos as reportagens. Na rua montámos a antena parabólica apontada para o céu. Do outro lado da rua, num barracão, estava o gerador. Em Lisboa, antes de partirmos, o engenheiro da empresa que tinha vendido aquilo à SIC foi lá explicar-nos como se ligava o equipamento, como se introduziam as coordenadas correctas para o satélite e o equipamento parecia estar em condições. Mas, ali em Bissau, teimava em não funcionar. De Carnaxide, diziam-nos que não chegava lá nada. Foi assim no primeiro dia. E foi assim no segundo dia. Telefonámos para o tal engenheiro que nos aconselhou a fazer o re-set, isto é, a desligar e voltar a ligar a aparelhagem. Às vezes funciona, dizia ele. Mas não daquela vez… Ao terceiro dia, olhei para a maquineta que voltava a não funcionar e, quando lhe ia assentar um pontapé, reparei num autocolante que dizia “em caso de mal funcionamento, ligue para este número, serviço de atendimento permanente”… Liguei. O número era de um telefone nos EUA. Atenderam-me e expliquei o que se passava. Do outro lado, o homem perguntou-me onde eu estava e para onde queria enviar as imagens. Depois, elaborou um check-up técnico: tecla LES; selection; 002; menu-enter; LES 002, enter; select 002, enter; exit…No fim disse “agora experimente lá, com as coordenadas que vocês tinham estavam a enviar imagens para uma estação terrena na América do Norte”. A verdade é que passou a funcionar na perfeição. E não foi preciso fazer re-set… O tal “toko”, hoje já nem existe. Foi ultrapassado pelo vídeo-phone.

quarta-feira, junho 14, 2006

Manipulação

Tratar os factos com imaginação é, não só uma possibilidade como, até, um dever dos jornalistas. Embrulhar bem a história, de modo a torná-la um produto apetecível, mais vendável, não significa, necessariamente, adulterar os factos. Inventar factos é que não vale… e, curiosamente, essa é uma das queixas de José Maria Carrilho, alegada causa que contribuiu para a sua derrota eleitoral. Confesso que ainda não tinha pensado muito neste assunto, mas a questão colocado por Sofocleto trouxe-me à memória histórias antigas que, de certo modo, se relacionam com esta questão da manipulação de factos e da mensagem jornalística. Sim, é verdade que muitas vezes os jornalistas tomam como boa a primeira informação que lhes permita fazer figura perante o chefe. Sim, é verdade que muitas vezes os chefes de redacção apenas estão preocupados com o impacto da manchete ou da abertura do noticiário e descuram a qualidade da notícia. Como julgava que ontem ia dar o Brasil na SIC, vi a abertura do Jornal da Noite com uma peça sobre o mau tempo em Famalicão, onde houve vento forte e chuva intensa, mas não aconteceu nada demais que justificasse essa abertura, a não ser o facto da SIC ter imagens fortes da intempérie, capazes de provocar alguma emoção aos telespectadores. Outra das queixas de Carrilho relaciona-se com a influência das agências de informação. Se as agências existem é para exercerem essa influência, disso não vale a pena ter dúvidas. Mas é difícil de medir essa influência e ainda mais difícil é provar a manipulação dos factos pela acção dessas agências. No DN de ontem, muito a propósito, vinha um artigo sobre as agências de comunicação… mas nos EUA.

terça-feira, junho 13, 2006

A primeira vítima

O que acho eu deste vídeo? A questão foi-me posta por Sofocleto, do Um Homem das Cidades… O que este vídeo demonstra é que na guerra a primeira vítima é a verdade, tal como já alguém disse. A única novidade, para mim, é o termo Pallywood para designar esta alegada palhaçada propagandística dos palestinianos. Tal como está, do modo como está editado, com a narração naquele tom convincente, o vídeo parece revelar diabólicas encenações manipuladoras da verdade. Talvez seja assim, talvez não. Nem sempre será, estou certo.

Um dia, em Mogadíscio, na Somália, entre outras fantochadas, deparei com uma encenação destas, mas toda ela (aparentemente) inventada pelo jornalista. A coisa passou-se assim… Havia dois locais possíveis para editar reportagens, em Mogadíscio. Ou na UER ou na Reuters. Eu (pela SIC) editava na Reuters, porque era mais barato e porque a SIC, sendo uma estação privada, não é membro da UER (uma associação de televisões públicas europeias). Mas, porque era mais barato, também a RTP montava na Reuters as reportagens dos seus enviados-especiais. Depois de algumas semanas a frequentar o Kilometer 7, assim chamávamos ao hotel onde estava a Reuters, tratava o editor irlandês como se o conhecesse há décadas. Um dia, antes de começarmos o trabalho, tivemos este diálogo:

Ele - A tua concorrência já cá esteve, hoje.

Eu – Ah, sim? E então, uma boa história?

Ele – Sim. Melhor que a tua, de certeza.

Eu – Porquê?

Ele – Queres ver?

E mostrou-me a peça já editada e que seria enviada por satélite para Lisboa dali a pouco. Era uma reportagem cheia de acção. A equipa de reportagem tinha sido apanhada num fogo cruzado, o carro estava danificado, uma bala tinha furado o radiador, o motorista tinha perdido o controlo e embatido num muro. A reportagem era feita à volta daquele cenário, com os repórteres de joelhos, abrigados do tiroteio pela carcaça do veículo. Muitos tiros, ta-ta-ta-tra-ra-ra-ra-ta-ta!!! Gritos. Fiquei derrotado. Naquele dia eram 10 a zero.

Depois, o irlandês contou-me aquela história de outra maneira. Os outros tipos tinham apenas tido um acidente, o carro tinha-se despistado e não havia modo de sair dali. O intrépido repórter magicou aquela cena, rastejou por ali e contou uma história que nunca aconteceu. Na montagem, meteu o som do tiroteio… et voilá!Muitos anos depois, no Sudão. A história que eu perseguia era uma denúncia feita por várias organizações da extrema-direita católica norte-americana, da existência de mercados de escravos negros em zonas controladas pelas milícias arabizadas, conhecidas por janjaweed (palavra árabe que significa “pistoleiro”, mas que em vários dialectos tribais do sul do Sudão significa “diabo a cavalo”). Tentei começar a reportagem pelo lado das vítimas. Falei com dezenas de pessoas que o SPLA me trazia. Quase todas mulheres, convenientemente. Nunca encontrei ninguém com quem pudesse ter uma conversa a sós, olhos nos olhos. Era sempre através de intérprete. Não consegui nunca ter a certeza de que ele transmitia as perguntas que eu fazia, nem nunca consegui perceber se a tradução das respostas era ou não manipulada. A verdade é que muitas pessoas davam respostas curtas, às vezes monossilábicas, e a tradução era sempre um arrazoado longo sobre violações e torturas. Naquelas condições, não quis continuar a reportagem. Embora seja solidário com a causa dos negros sudaneses.

segunda-feira, junho 12, 2006

Guiné Bissau, a guerra civil. O último massacre

A Guiné-Bissau não é uma Nação, ao contrário do que diz o hino nacional do país. “Ramos do mesmo tronco / olhos na mesma luz / esta é a força da nossa união / cantem o mar e a terra / a madrugada e o sol / que a nossa luta fecundou”. É mentira.
Salvo raríssimas excepções, de que o presidente interino Henrique Rosa foi exemplo raro, os dirigentes guineenses pouco ou nada se têm preocupado com a união dos povos da Guiné-Bissau. De facto, não são “ramos do mesmo tronco”. Muito do que se passou na guerra civil, só foi possível porque, realmente, o povo lhes interessa muito pouco.
O último tiro dessa guerra fraticida foi disparado em 7 de Maio de 1999. Quando já nada havia a fazer para salvar o regime, Nino e Ansumane ainda mandavam disparar.
O último obus caiu no pátio de uma escola dos missionários do PIME. O local estava apinhado de populares, que ali se tinham refugiado do tiroteio nas ruas de Bissau.
Aquela multidão de homens, mulheres e crianças ouviu o assobio do voo do obus, um som cada vez mais agudo. No último segundo devem ter adivinhado o que se ia passar.
Mas já não havia tempo… Estas fotos foram-me mostradas pelo padre João, que as tirou com a raiva de denunciar esta barbárie. Na altura, fiz uma reportagem à volta destas imagens. Quarenta morreram logo no local. O depauperado Hospital Simão Mendes recebeu mais de 280 feridos. Muitos morreram aí nos dias seguintes, devido à gravidade dos ferimentos e à míngua de tratamento médico capaz de debelar infecções oportunistas. Foi o último tiro daquela guerra. Um tiro demasiado cruel e inútil.

domingo, junho 11, 2006

Do meu caderno de notas, contributos para a História da Guiné-Bissau

Em Maio de 99, Buotha N`Mbatcha, 60 anos feitos, acabava de recuperar as divisas de coronel do exército da Guiné-Bissau, perdidas quando tinha sido acusado de conspirar contra Nino Vieira.
O coronel Buotha N`Mbatcha passou seis anos na cadeia, onde jura que foi torturado, foi condenado à morte e perdoado magnanimamente no derradeiro minuto. Até aqui, a história de Buotha N`Mbatcha não é muito diferente de milhares de outros guineenses enredados na trama política de Bissau.
Estes antecedentes levaram-no, claro, a alinhar na revolta de Ansumane Mane que culminou no derrube de Nino. No dia 7 de Maio de 1999, Nino caiu. Para evitar ser capturado, o ditador andou fugido pelas ruas de Bissau. Procurou esconder-se na casa do bispo, depois pediu abrigo no Centro Cultural francês. Tudo isto já foi aqui relatado, antes.
Nesse dia 7 de Maio de 99, os caminhos de Buotha N`Mbatcha e Nino Vieira voltaram a cruzar-se.
“Aderi à Junta Militar pela justiça, porque quero que todo o Mundo, principalmente o povo da Guiné-Bissau, saiba que Nino nunca falou verdade. Por isso quero justiça. Eu podia tê-lo morto no dia 7 de Maio. Fui eu que o fui buscar ao sítio onde ele estava e o levei para a embaixada. Tinha a minha pistola. Se quisesse vingança, tinha-o morto. Fui eu próprio. Peguei nele, não lhe fiz nada, levei-o para a embaixada. Espero apenas que se faça justiça e se conheça a verdade” (do meu caderno de notas).

sábado, junho 10, 2006

Congo, ano 2000. Meninos sem aniversário

Ainda sobre Jean Pierre Bemba
O quartel-general do MLC, em Gbadolite, estava guardado por crianças soldados.
Era um grupo de meia dúzia de miúdos, o mais novo andava pelos doze anos e pouco mais alto era que a kalashnikov que carregava nos braços.
O recrutamento de crianças para combater é velho como o Mundo. Mas, hoje, é uma prática condenada pelo Direito Internacional. E, no entanto, os senhores da guerra que continuam a incentivar essa prática nunca foram incomodados por esse facto.

menino-soldado do MLC, em Bondo

A organização católica PIME, que tem muitas missões em África, diz que “as meninas representam 40% dos 300 mil menores envolvidos em conflitos armados em todo o mundo. Estas centenas de milhares de meninas e meninos são obrigados a servir, a trabalhar como espiões, como escravos sexuais, e a morrer no campo de batalha”.

Em documentos da União Europeia, pode-se ler que “no último decénio, os conflitos armados custaram a vida a mais de 2 milhões de crianças, mutilaram 6 milhões, tornaram órfãs 1 milhão e deram lugar a cerca de 20 milhões de crianças deslocadas ou refugiadas. As estimativas actuais falam da existência de cerca de 300 000 meninos-soldados no mundo. Entende-se por meninos-soldados os rapazes e raparigas com menos de 18 anos que façam parte de um exército regular ou de um grupo armado, mesmo que não usem armas. A idade média de recrutamento das crianças-soldados situa-se em redor dos dez anos.”

O Tribunal Penal Internacional considera crime de guerra a participação activa de crianças com menos de 15 anos em hostilidades, bem como o seu recrutamento no exército.

Mas nada disto impediu que a comunidade internacional aceitasse Jean Pierre Bemba como parceiro válido e legítimo para discutir o futuro do Congo e agora, até, para ser candidato à presidência da república. Por outro lado, Bemba é apenas um entre muitos que utilizam desse modo os recursos humanos à sua disposição. Porquê condená-lo? Talvez porque não fosse má ideia começar por algum lado…

sexta-feira, junho 09, 2006

T.P.C.

Todas as noites, depois de chegar da escola, a Sara faz os trabalhos de casa que a professora prescreveu. Contas de somar e diminuir, leitura de textos curtos, preenchimento de espaços em branco em frases incompletas, coisas assim. Gosto de ver como ela progride. Já soletra melhor, com mais rapidez, já entende o texto de modo a conseguir resumi-lo no final. O cálculo mental também está mais agilizado.
Quando a professora deixar de passar trabalhos de casa, como irei fazer para perceber a progressão escolar da Sara? Obrigo-a a fazer mais trabalhos, além daqueles que ela já fez na escola?
Percebo a intenção da ministra, percebo a preocupação de tornar a escola mais igualitária e democrática. Mas acho que se devia começar pela obrigatoriedade do uso da bata escolar nas escolas públicas (o que não acontece na escola da Sara). O uso da bata esbate as diferenças sociais. As crianças ficam mais iguais entre si, mesmo se por baixo da bata umas vestem roupa de marca e outras roupa do supermercado. Essa talvez devesse ser a primeira medida.
Quanto ao resto das medidas anunciadas ultimamente, no âmbito do Plano de Enriquecimento Curricular do 1ºciclo, agrada-me a introdução das actividades desportivas e do ensino musical, embora note que existe uma contradição com as intenções democratizantes da ministra. É que se as novas actividades, tal como o inglês, não fizerem parte do currículo escolar, só alguns terão acesso a elas: os filhos dos mais ricos. Além de que não percebo como se podem obrigar as escolas a proporcionar actividades extracurriculares.

quinta-feira, junho 08, 2006

Paquistão, Peshawar, 2001. Hospitalidade

Em Peshawar, uma parte da cidade é ocupada por população afegã. A colónia tem até nome próprio, qualquer coisa que se pronuncia aproximadamente “cafahan coçon”… enfim, um emaranhado de ruelas labirínticas onde os refugiados recriaram um ambiente típico, onde é proibido filmar ou fotografar mulheres e onde a maioria das lojas vendem as famigeradas burkas.Mesmo sem nunca ter entrado no Afeganistão, ali podemos ter uma ideia muito real de como eles vivem. Falei com vários membros daquela comunidade, todos homens, claro. Alguns eram refugiados antigos, do tempo da guerra contra a URSS. Outros, tinham acabado de chegar. Mas a conversa de todos conduzia para a mesma conclusão: os estrangeiros nunca tinham levado nada de bom para o Afeganistão… e, embora seja difícil entender os hábitos medievais daquela gente, acho que eles têm razão nesse capítulo. Ao almoço fomos convidados para nos sentarmos à mesa, em casa de Haji Abdul Jabbar, um tipo que se portava como chefe da comunidade. Aquele almoço foi o modo dele nos explicar a tradição pashtun de receber quem vem por bem e nunca expulsar de casa um visitante amigo. Em última análise, é ao abrigo dessa tradição que Osama Bin Laden ainda hoje está entre eles.

quarta-feira, junho 07, 2006

Dignidade

Em muitos territórios africanos, os missionários católicos introduziram a necessidade do uso de roupa. Onde as pessoas andavam nuas ou quase, os missionários ensinaram o que era vergonha e decência e criaram mais um problema que, depois, não foram capazes de resolver. Hoje, esses povos andam tapados com trapos, indecentes e sujos. Perderam a dignidade que ostentavam com a exibição orgulhosa dos corpos vestidos de tatuagens e pinturas.
A foto em baixo é de Leni Riefensthal.

terça-feira, junho 06, 2006

Pedro Sousa Pereira

Se Mário Castrim ainda fosse vivo e ainda escrevesse crónicas de televisão, diria que “vendem a prata e ficam com a lata”. Esta frase foi escrita em 1992, quando a RTP permitiu, sem estrebuchar, o êxodo de dezenas de jornalistas para a SIC (com as consequências que depois se viram) e seria hoje aplicada à vontade que os jornalistas da SIC terão em sair dali para qualquer lado.
Vem isto a propósito da saída de Pedro Sousa Pereira da SIC para a Lusa. Bom, a agência noticiosa fica a ganhar um excelente repórter, um fantástico contador de histórias e, creio eu, um tipo íntegro.
Para quem não conhece o Pedro e gostaria de ficar a conhecer, vão à Feira do Livro e folheiem “Paralelo 75 ou o Segredo de Um Coração Traído”. A prosa é do Jorge Araújo, outro excelente repórter, e as ilustrações são do Pedro. É o terceiro livro desta dupla que, curiosamente, se conheceu em plena reportagem em Timor Leste. Pedro Sousa Pereira estava abandonado na SIC. Vivia uma espécie de exílio na sua própria redacção. Agora, os senhores directores vão poder dizer ao patrão que já conseguiram economizar mais mil e quinhentos euros por mês. O patrão vai ficar todo contente e os senhores directores talvez tenham um up grade na próxima renovação da frota automóvel. Que bom. É assim mesmo que se faz televisão.

segunda-feira, junho 05, 2006

Paquistão, Peshawar, 2001. Outra Heroína

Dost significa amigo, no idioma pushtun. É o nome de uma organização paquistanesa que tenta contrariar a pobreza extrema e o consumo de ópio e heroína. Recolhe os sem-abrigo, dá-lhes comida, banho e uma hipótese de auxílio médico. É uma gota de água num imenso oceano de miséria e dificuldades, mas a Dost faz o que pode.
A heroína desta história chama-se Parveen Khan. Sim, é uma mulher. Coisa rara no mundo islâmico, ver uma mulher à frente seja do que for, não é? Andei meses à procura de uma fotografia dela, para vos mostrar, mas não encontrei. Mas o que interessa é saber que ela existe e que tem uma obra para mostrar. E interessa, também, saber que precisa de ajuda, como não podia deixar de ser. Quem puder, quem quiser, pode procurar contactá-la através do link que coloquei logo no início deste texto.
A tarefa de Parveen Khan não tem fim. O ópio e a heroína, no Paquistão, são baratíssimos. Uma dose custa menos que uma garrafa de água mineral. Os paquistaneses fumam, injectam e snifam heroína e ópio. Em Peshawar, os drogados são uma multidão dispersa em pequenos grupos pelas ruas da cidade. Reúnem-se à volta de pequenas fogueiras, onde preparam os cachimbos ou o “caldo”.
A polícia raramente actua. Parveen Khan disse-me que há fortes suspeitas da existência de relações próximas entre a polícia, os políticos e os traficantes da droga que, quase toda, vem do Afeganistão.
Naquela altura, em que conheci Parveen Khan, havia problemas de abastecimento nas ruas de Peshawar. Por causa da invasão americana, dos bombardeamentos, as aldeias tinham ficado desertas e os campos de papoilas abandonados. Mas, hoje, tudo voltou ao normal. O trabalho agrícola, a indústria transformadora e a comercialização do produto. Os americanos não mudaram nada.

domingo, junho 04, 2006

Paquistão, Peshawar, 2001. Heroína

A camara estava no chão, o João Duarte de joelhos, debruçado, espreitava pelo view-finder o melhor enquadramento. Depois levantou a cabeça e disse-me: “acho que é a imagem mais forte em toda a minha vida!” Era a imagem de um homem barbudo, ainda jovem, deitado na via pública. O tipo tinha uma barba escura e a pele suja. Estava no meio de um grupo numeroso de consumidores de heroína, numa avenida de Peshawar, uma cidade paquistanesa junto à fronteira com o Afeganistão. E estava morto, também. Só dei por isso quando vi uma coisa mexer-se por entre os pelos da barba, junto à boca. Era uma mosca… e estranhei aquele sono tão profundo. Depois, reparei nos olhos semi-abertos. Na ausência de respiração. Na rigidez corporal. Aquela “viagem” tinha chegado ao fim.

sábado, junho 03, 2006

Uns tabefes em público

Descobri hoje, no Correio da Manhã, uma guerrinha de alecrim e manjerona entre um tipo que se considera "o máximo do jornalismo português" e o homem que, um dia, lhe deu a mão e o tirou do banco de suplentes. Na RTP, Rodriguinho lia notícias da secção desportiva... quem se lembra?
Hoje, tenta morder a mão que lhe deu de comer, porque julgará que jamais voltará a precisar dele. É a vida... Mas é sempre bom que estes atrevimentos venham a público, para que se conheçam melhor as pessoas.

sexta-feira, junho 02, 2006

A mão na Bolsa

Segundo uma nota de imprensa da corretora Lisbon Brokers, os investidores bolsistas fariam bem se investissem em acções da SIC… no entanto, ainda há bocadinho lia o último relatório da Media Monitor e a SIC continua a ser o terceiro canal nas preferências dos telespectadores, atrás da TVI e da RTP.
Portanto, a recomendação da corretora deve ser uma “questão de fé” num futuro bom desempenho da SIC…, “fé” que pretende contrariar o share medíocre da SIC de 24%... embora a Lisbon Brokers diga que “acredita que a Impresa irá conseguir reter parte dos telespectadores que serão conquistados ao longo do próximo mês” com a transmissão dos jogos do Mundial… aqui, a “questão de fé” alarga-se ao desempenho da selecção nacional, porque se a coisa lhes corre mal, a SIC pode dizer adeus às audiências…
Indisfarçável é que as audiências do canal continuam em queda. Em Maio do ano passado, o share da SIC era de 27,7%, hoje é de 24%... mas os corretores, ainda assim, reforçaram a recomendação de compra… deve ser porque não é com o dinheiro deles.

quinta-feira, junho 01, 2006

Ai Timor...

O que se passa em Timor é de indubitável interesse público em Portugal.
Não só porque lá vivem várias centenas de portugueses, não só porque os timorenses mantiveram laços de amizade com Portugal ao longo dos anos, não só porque o território foi colónia portuguesa e isso torna-nos, de certo modo, parte interessada em tudo quanto lá se passa, não só porque a causa da libertação de Timor do jugo indonésio foi a manifestação colectiva mais bonita que os portugueses levaram à cena nos últimos cinco séculos, mas por tudo isso Timor interessa-nos e preocupa-nos.
Assim, os órgãos de comunicação social têm feito notícia do que por lá se passa. Não só pelas razões que apontei, mas porque cenas de tiros e facadas, casas incendiadas e pilhagens, choros e gritos, mortos e feridos sempre serviram bem para vender papel e tempo de antena. Por mais sereno que seja o jornalismo feito, nestas situações a reportagem é sempre emocionante. E isso “agarra” o público. Agora, a verdade é que se não fosse o serviço público de rádio, televisão e agência noticiosa, não haveria notícias de Timor. É a RDP e a RTP, mas principalmente a LUSA quem estão a alimentar os noticiários dos outros.
Dizem-me que a SIC não tem lá ninguém… como se naquela redacção já não houvesse um repórter em condições, capaz de enfrentar aquele tipo de situação com frieza e raciocínio ágil. Será que os directores estarão desautorizados pela administração?... Sinceramente, não percebo.

quarta-feira, maio 31, 2006

A organização do Estado

Fui de manhã à Caixa dos Jornalistas entregar comprovativos de despesas de saúde do meu agregado familiar. Consultas no dentista, uma radiografia, coisas assim. Por causa da radiografia já lá tinha ido uma outra vez. O papel não tinha sido aceite, porque faltava o comprovativo do pedido médico. Como se alguém andasse a tirar radiografias por gostar de ver os seus ossos… Agora, aconteceu que um dos recibos do dentista foi rejeitado. Porque falta a especificação do tipo de tratamento e o número do dente tratado! Que interesse tem para o Estado saber se a cárie é no segundo molar inferior direito, se no canino superior esquerdo?
Tenho de voltar ao dentista, por causa da especificação-escrita-e-certificada-sem-qualquer-margem-para-dúvidas-do-dente-tratado e, depois, regressar uma vez mais ao guichet estatal onde, finalmente, me aceitarão o papel e o respectivo pedido de reembolso.
Percebo que o Estado tente evitar as burlas, mas assim.... Até porque, enquanto ando para trás e para a frente, não trabalho. E depois vão-me chamar absentista.

terça-feira, maio 30, 2006

Despedimento com justa causa

A pandemia da SIDA é um flagelo em Moçambique, como todos sabemos. Os índices de contaminação da população são altíssimos, dos mais altos do Mundo. Um dos principais problemas prende-se com a qualidade da assistência médica prestada à população. Só recentemente o governo começou a disponibilizar medicamentos retrovirais para o tratamento da SIDA. As duas últimas viagens que fiz a Moçambique foram dedicadas a reportagens sobre o tema. Por isso, conheci bem a realidade da assistência hospitalar em Maputo, na Beira, no Chimoio.
Sou testemunha das tremendas dificuldades existentes e do fantástico trabalho dos médicos.
Por isso, foi com horror que soube que, há dias, o director do Hospital Central da Beira tinha despedido cinco médicos, cooperantes chineses e indianos. O horror tem que ver com as razões do despedimento… esses médicos foram acusados de tratamento arrogante com os doentes, motivo que levou ao afastamento de muitos utentes.
O problema é bem mais grave do que possam pensar. É que já é difícil que as pessoas queiram ir ao hospital de livre vontade. Os costumes tradicionais continuam a ditar lei e, primeiro, as pessoas vão ao feiticeiro. Depois, vão ao feiticeiro. Se não ficarem melhor, ainda voltam ao feiticeiro. Só em último caso vão ao hospital. Se não são bem recebidos, nunca mais lá voltam.
Por isso, tratar com arrogância um doente em Moçambique pode ser o mesmo que o condenar à morte. E isso é indesculpável.

segunda-feira, maio 29, 2006

Angola, 1999. Lágrimas de crocodilo

A última vez que regressei de Angola foi em Janeiro de 1999. Tinha feito uma viagem relâmpago, com o Renato Freitas camera-man. Na bagagem trouxemos as imagens do Cuíto cercado, na derradeira ofensiva da UNITA. Tínhamos “belos bonecos” da contra-ofensiva governamental, com imagens de combates tiradas à boleia de um dos blindados do governo. Numa dessas sequências, via-se de relance, mas via-se, um soldado da UNITA que se tinha rendido a ser interrogado e, logo a seguir, sumariamente fuzilado.
Essa sequência fechou a reportagem. Era um soco no estômago e a resposta a uma pergunta que já tinha feito inúmeras vezes e a que nunca me tinham respondido. Era por “aquilo” que não havia campos de prisioneiros de guerra… os únicos prisioneiros poupados eram os oficiais superiores, os que poderiam ter informações úteis quanto às tácticas do inimigo e saber dos pensamentos íntimos dos chefes. É verdade que nem todos os soldados rasos eram mortos. Alguns safavam-se, por algum prurido do inimigo, desde que passassem a combater contra o outro lado. Os angolanos sofreram coisas indizíveis, nessa guerra longa…
Enfim, tudo isto para vos dizer que soube, no dia seguinte à exibição da reportagem, que o Presidente da República tinha ficado muito incomodado com “aquilo” (eventualmente, verteu alguma lágrima) e que iria promover uma discussão pública para denunciar aqueles horrores. A informação tinha chegado por um dos assessores presidenciais que antes tinha trabalhado na SIC. Imagino que Sampaio tenha sido melhor aconselhado, mais tarde, porque nunca mais ouvi falar no assunto.

sábado, maio 27, 2006

Um pormenor da vida, no Iraque

Nunca estive no Iraque. Por duas vezes tentei entrar e fiquei na fronteira, no lado jordano. A concessão de vistos a jornalistas por parte do Iraque sempre foi obra do acaso e de políticas que favoreciam os nacionais das grandes potências mundiais ou os trabalhadores de empresas globalmente famosas e importantes. Nem a RTP, muito menos a SIC, alguma vez adquiriram esse estatuto e o nome de Portugal nem fazia estremecer a pálpebra do funcionário consular iraquiano... de modo que, com algum azar à mistura, nunca lá consegui entrar, tanto mais que, nas ocasiões em que o visto era garantido, porque a política era de portas abertas, as "estrelas da companhia" fizeram sempre valer as suas prerrogativas.
Enfim, nunca lá fui mas, claro, tenho acompanhado com interesse a evolução dos acontecimentos. O Iraque sempre tem sido notícia. Mas há coisas que, por mais jornais que se leiam ou mais televisão que se veja, há coisas que não nos apercebemos facilmente.
Como isto, por exemplo...

O primeiro conjunto de fotos diz respeito às actividades estudantis femininas, no campo desportivo, e data de 1963-1964... a outra foto diz também respeito a actividades estudantis femininas neste ano lectivo de 2006... As fotos são uma espécie de antes-e-depois da "libertação" propiciada pelos EUA. Não digo, com isto, que tudo estava bem no tempo de Saddam e que tudo vai mal, hoje. Acho que havia muita coisa mal, nos anos 60, 70, 80, 90, acho que o regime de Saddam foi um regime indecente sob muitos aspectos. Mas, realmente, acho que hoje tudo está bem pior, para a maioria dos iraquianos. E o pormenor revelado pela foto, é apenas isso mesmo... um pormenor.

Farmácias, só mais uma achega...

A nova lei das farmácias impede a manutenção do monopólio da propriedade das farmácias, até aqui privilégio dos farmacêuticos. Além disso, impede também que a propriedade da farmácia possa ser detida por médicos, laboratórios, distribuidores farmacêuticos, privados que prestem cuidados de saúde e subsistemas que comparticipem no preço dos medicamentos.
Gostei!

sexta-feira, maio 26, 2006

Farmácias

O governo acaba de anunciar o fim do monopólio da propriedade das farmácias. Finalmente!
Um a um, os privilégios corporativos salazaristas estão a chegar ao fim. Os argumentos de Sócrates não podiam ser mais consensuais. Por que diabo haviam os farmacêuticos de ter a exclusividade da propriedade das farmácias? Por acaso, as escolas têm de ser propriedade de professores? As clínicas têm de ser propriedade de médicos? Os jornais são dos jornalistas? A TAP é dos pilotos?

Costaleras do Amor (4)

Último passo desta procissão:

O capataz dá três pancadas fortes no alto da estrutura. A pausa durou poucos minutos. À pressa, as costaleras dão as últimas baforadas nos cigarros antes de se colocarem debaixo da parihuela. “Vamos calar a boquinha aí debaixo. Vamos escutar e calar!”, ordena o 2º capataz. Olhando para dentro pergunta: “A traseira está?”. A resposta vem do fundo, “a traseira está.” Nova pancada antes de a estrutura se erguer num salto. “Todas por igual. Ao céu”. O rádio leitor de CDs começa a tocar o andamento da banda que acompanhará a Virgem da Encarnação. Seguindo o andar arrastado das mulheres, Rafael Martin, de 44 anos, desempregado, segura o rádio como se levasse a música ao colo. A t-shirt branca com o rosto da imagem impressa molda-lhe a barriga. Não falta a um ensaio. “À parte destas [coisinhas], venho pela minha Encarnação”, acrescenta. Cumprimenta toda a gente em tom de festa, e não consegue conter as lágrimas de mãos coladas ao rosto quando contempla a imagem da Virgem. A estrutura avança até deparar com mais um carro estacionado. “Parem aí!”, à ordem do capataz mudam de direcção num ângulo de 90 graus. “Pouco a pouco a esquerda à frente, pouco a pouco a direita atrás!”. Ensaiam durante várias horas pelas ruas do bairro. Às vezes começam a meio da tarde, outras à noite com uma luz giratória de sinalização de cargas pesadas em cima do passo. Por tradição, promessa, ou apenas por curiosidade estas mulheres decidiram entrar na confraria do Amor por 12 euros/ano. Trazem os filhos aos ensaios, passam-nos debaixo do manto da imagem e põem-lhes o costal. Por vezes desentendem-se. “Todas por igual, valentes!”, diz o capataz. Há até quem veja a Igreja com maus olhos. “Isso está tudo podre. Há interesses económicos, políticos, e mais...”, desabafa Verónica Relaño, de 23 anos. Na t-shirt negra tem escrito Full Contact , e nas calças justas Kiss Me. “Rezo todas as noites mas não tenho porque confessar-me a um padre. Dá-me vergonha”.
Os candeeiros de rua acendem-se com o cair da noite. Passaram mais de três horas de cigarros fumados à pressa pelas descidas à parihuela, de garrafas de água esvaziadas, de piadas. Mas a garagem ainda está longe. “À saída qualquer uma é costalera!”, diz um ajudante do capataz. “Isso não pesa nada. Isso é uma brincadeira”, anima em seguida. “Já está aí o Domingo de Ramos. Já falta pouco para levarem a Mãe”.

quinta-feira, maio 25, 2006

Costaleras do Amor (3)

A 3ªestação desta via sacra:

Posta a parihuela na rua, as mulheres trazem do fundo da garagem vários tijolos de betão que vão dispondo no cimo da estrutura. Têm que levantar cerca de uma tonelada, o peso que terá o passo em procissão. Cada uma carrega mais de 30 quilos.
Avançam sob as ordens de um capataz, por chicotas, trajectos que raramente ultrapassam os 200 metros. O trabalho é árduo. Meia hora depois da saída o cansaço transparece no rosto das costaleras, as garrafas de água começam a passar de mão em mão. Talvez por isso a formação deste grupo de mulheres tivesse sido tão mal recebida pelas irmandades. “O mundo confrade é muito machista”, afirma o segundo capataz, José Delgado de 33 anos, técnico de ar condicionado. “Mas elas souberam criar um estilo único e conseguiram ser respeitadas”.A fundadora recorda o quanto foram aplaudidas na praça das Tendillas, a Passagem Oficial da Semana Santa em Córdova. “Fomos primeira página do El País e abertura do telejornal”, acrescenta com emoção. Suportou durante 13 anos o peso do passo da Virgem da Encarnação, graças ao pai que se comprometeu a pagar qualquer eventual estrago.
Vários confrades abandonaram a irmandade, e ouviam-se críticas das mulheres à porta de casa: “Vai mas é para casa esfregar os pratos”. Eram as que mais doíam porque o sentimento machista é por vezes responsabilidade do sexo feminino. “Afinal cada homem é educado por uma mulher!”, exclama Rafaela.

quarta-feira, maio 24, 2006

Congo, ano 2000. Gbadolite, casa chinesa

No alto de outra colina, nos arredores de Gbadolite, mais uma obra ao absurdo. É uma área toda murada. Um quadrado, com uma porta larga em cada lado. Cada porta está guarnecida por dois grandes leões de pedra.Lá dentro, é fresco. Caminhamos sobre estrados de teca, por entre um emaranhado vegetal que começou a tomar conta do local. Mas os pavilhões em madeira de cerejeira ainda lá estão, ligados uns aos outros por pontes pedonais feitas de bambu e pau-rosa. Madeira bordada, rendilhada, em relevo, ainda com as cores fortes ao gosto chinês, amarelo torrado, rosa escuro, vermelho vivo, verde claro, azul céu, as cores da loucura de quem tudo queria e tudo podia. A cidadela chinesa de Mobutu, cheia de lagos e cisnes e pavões. Os cisnes e pavões, o povo comeu-os. Os lagos e a piscina pertencem, agora, aos sapos.Mas ainda é possível adivinhar as farras que ali se desenrolaram. Ou se enrolaram… depende da imaginação de cada um.
O custo destes caprichos é difícil de adivinhar. Para erguer o Palácio Gbadolite foram operários portugueses, para a casa de campo foram operários italianos, para esta cidadela chinesa os escolhidos foram... artífices chineses. Mobutu não poupava.

terça-feira, maio 23, 2006

Costaleras do Amor (2)

2ªfatia do texto do Bruno Rascão:

Os ensaios para a Semana Santa começaram a seguir ao dia de Reis. “Mas foi pouco”, lamenta uma habitante do bairro, enquanto espera que as costaleras saiam da confraria para mais um ensaio. “Apanharam muitos dias de chuva”, esclarece. As mulheres começaram a chegar perto da hora marcada, às 21h de sexta-feira. Há quem esteja desde a fundação e quem se estreie este ano. A maioria tem mais de três anos debaixo da parihuela. Chegam a pé, sozinhas ou em pequenos grupos, subindo a praça do Cristo do Amor, iluminada pelos candeeiros de rua. “A minha filha chegou agora de Badajoz, neste carro que aqui estava”, diz uma senhora que passeia o seu cãozinho branco. “Trabalha lá num hospital, e veio para o ensaio. Tem 21 anos”. Perto das 22 horas chega numa scooter amarela outra das confrades. Um blusão preto protege-a da brisa da noite. Entra pela porta da confraria, com um ar apressado, até à sala onde se reúnem as mulheres antes dos ensaios. O ambiente é de boa disposição. No meio da névoa dos muitos cigarros que se fumam na sala, contam-se piadas, enrola-se o costal no chão, comentam-se pormenores sobre a saída de 9 de Abril, Domingo de Ramos. Num canto duas costaleras puxam uma faixa, enquanto outra a vai enrolando à volta da zona lombar, de forma a que fique muito justa. No total são 64, mas é raro que compareçam todas em tempo de ensaios. A maioria anda na casa dos 20 anos. Umas mais fortes outras aparentemente frágeis. Vestem roupa desportiva, camisolas do Barcelona ou de outros clubes, mas também jeans e camisolas largas. Algumas têm piercings, no lábio ou no nariz. Uma mistura heterogénea de mulheres, que por tradição, curiosidade, promessa, devoção, se encontram debaixo de uma trave que lhes assenta no pescoço durante muitas horas por ano.Aida Herdia, de 20 anos, começou a carregar passos aos 15, em equipas mistas, na Ciudad Real onde nasceu. Queria experimentar, “saber o que se sentia em penitência debaixo de uma imagem”. Está no exército desde Outubro de 2005, e foi recentemente transferida para Córdova. “Queria mudar de ares”, e estar mais perto da irmandade. Pertencer a confrarias significa, para ela, uma maneira de expressar a devoção e penitência a Deus, no quotidiano. “É a forma de levar a minha cruz”. Confessa que a música que mais mexe com ela é a das bandas da Semana Santa. Sempre marcada pelo ritmo dos tambores e pela melodia das cornetas, num andamento de inspiração militar.
(continua)

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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