
Na foto, o Dr.Balsemão ri (talvez para não chorar...) rodeado de sobras do Expresso...

Ouvia o homem e "viajei" para... Baidoa, Somália, 1992.
O que quer isto dizer? Que o poder instituído está a fazer tudo para se perpetuar, claro. Kabila joga tudo o que tem, para derrotar Bemba. Bemba pertence à maior etnia congolesa (a mesma do antigo ditador Mobutu) e, por isso, tem suficiente apoio popular para amedrontar Kabila (que herdou o poder, depois do assassinato do pai, com apoio militar fornecido por Angola).
De que riam estes tipos? Hoje, passados 7 anos, já nem sei…
O Pedro Rosa Mendes já me tinha falado naquela viagem de comboio. Julgo que a fez em lua de mel… tinha-me falado com entusiasmo no comboio pachorrento que atravessava as montanhas, desde Quetta até Rawalpindi. 48 horas sem catering… a comida cozinhada em pequenas fogueiras acesas no chão das carruagens… as longas paragens nos apeadeiros no meio de nenhures, os túneis, o serpentear à beira dos precipícios, as seis rezas por dia… tudo isso fez-me apanhar esse comboio também. O Pedro chamou-lhe "o comboio de deus" e eu cheguei a pensar que iria fazer uma reportagem nesse comboio. Mas não fiz. Não me apeteceu.
Fiz boa parte da viagem sentado na borda da carruagem, com as pernas para fora. Foi ali que o tipo me encontrou. Wolf Boewig, franco-alemão, repórter fotográfico. No palavra-puxa-palavra descobrimos que tínhamos um amigo comum. Precisamente o Pedro Rosa Mendes, com quem o Wolf fez vários trabalhos de reportagem, de resto.
A foto está na parede da sala, o livro na estante. Nunca mais vi o Wolf, mas jamais esquecerei tanta capacidade de partilhar.
O paralelismo com o que se passou em 92, em Luanda, é mais do que evidente… Bemba, tal qual fez Savimbi então, também lançou acusações de fraude na contagem dos votos da 1ªvolta. Kabila, tal qual fez José Eduardo dos Santos, utiliza a força do Estado para se proteger…
O mar metia medo. O primeiro dia foi um tormento que, para mim, terminou quando deixei de resistir à agonia do enjoo. Prostrei-me no beliche e deixei-me ficar ali. Nos raros momentos de lucidez, apercebi-me que o temporal desabava sobre o veleiro de 14 metros. Houve momentos em que dei comigo suspenso no ar, entre o beliche e o tecto, quando o barco caía do alto das vagas. Havia barulhos tremendos e cheguei a pensar que o barquito se ia partir. Ressuscitei ao fim de três dias. Comi metade de uma bolacha Maria e senti-me reviver. Apercebi-me então que, de toda a tripulação, apenas três se tinham aguentado satisfatoriamente. O velho John, o skeeper (um verdadeiro lobo do mar), O Zé Santana e o Pedro Laginha. Eles aguentaram o barco em cima de água, mas contaram-me que houve um momento em que eles próprios tinham desistido. Fecharam o barco de modo a impedir ao máximo a entrada de água, recolheram totalmente as velas e deixaram o barco à deriva… contaram-me que o vento tinha chegado aos 120 km/hora e as vagas eram altas como prédios de 7 andares.
A alternativa era o avião da Força Aérea, um pequeno Aviocar, aparelho capaz de aterrar nos 500 metros da pista de terra batida. Mas sem vento… e, assim, o avião também não aterrava. O vento soprou durante 15 dias. Nunca choveu, nem nada. Não fez frio. Não houve nenhum temporal. Era só vento… mas o suficiente para deixar uma ilha isolada, uma população inteira (300 almas…) à espera. Os corvinos não estranhavam. No Inverno é bem pior, claro. Chegam a estar meses sem conseguirem sair da ilha. Vive-se ali um tempo longo, sem ampulhetas.
Há demasiado lixo em Luanda, apesar de se estar a fazer um esforço para o remover para a periferia. Há remoção de lixo do centro da cidade, é verdade. Também é verdade que é feito com imensas deficiências, sem equipamento adequado e, pior que tudo, a lixeira (a céu aberto) fica demasiado perto da cidade e ainda mais perto dos novos bairros periféricos para onde os aspirantes a burgueses se estão a mudar.
Mas persistem os esgotos a céu aberto, as valas de águas residuais, muitas casas de construção precária não têm instalações sanitárias e, assim, há uma multidão que defeca diariamente na via pública. Um ecossistema perfeito para o vírus da cólera…
Se bem se lembram, no início deste ano uma epidemia devastou Luanda e espalhou a doença por todo o país. Na última contagem de que tenho memória, falava-se em dois mil mortos e dezenas de milhar de doentes. O governo angolano começou por rejeitar ajuda, nomeadamente a portuguesa, dizendo com arrogância que tinha capacidade para resolver a situação… mas, em pouco tempo, estendeu a mão aos cheques da União Europeia (3 milhões de €, se não estou em erro…), da China, da Rússia e esmolou médicos às ONG internacionais.
A cólera é uma doença altamente contagiosa que se transmite através da água, manifestando-se por vómitos e diarreia, o que provoca desidratação grave e, por fim, a morte. Água suja é, portanto, caldo alimentador do vírus. E, por isso, impressionou-me ver, diariamente, centenas de mulheres e crianças a "lavar" roupa num esgoto a céu aberto (é a 4ªfotografia) que corre do Futungo para a Samba, a caminho do mar…
O interessante sobre este documento do SPLA é o carimbo que o autentica. Em tinta roxa, certifica-se que o documento que me autorizava a viajar foi passado pelo Sudan Relief and Rehabilitation Association, uma ONG sedeada em Nairobi, no Quénia, que alegadamente se dedicava às crianças órfãs da guerra civil sudanesa. De facto, a sede da SRRA era a “embaixada” do SPLA no Quénia. Era, ainda, através desta ONG que o SPLA administrava boa parte do dinheiro doado pelos seus amigos ou aliados para a sustentação da guerra.Foi fácil obter este documento, sem o qual não teria conseguido viajar. Foi fácil porque quem solicitou a autorização foi a Igreja Católica, através da Diocese de Rumbek, uma cidade importante no sul do Sudão, cujo Bispo, um italiano, vivia refugiado em Nairobi.
Às vezes, encontramos apoios onde menos se espera, não é?

A segunda foto é um recuerdo dessa viagem. À minha direita está Dorinda Cunha, a heroína dessa história que contei num documentário intitulado "Missão Impossível", exibido na SIC, trabalho que mereceu o prémio Jornalismo Contra a Indiferença atribuído pela AMI.
Mas não… falaram-me que Luanda já tem mais de 5 milhões de habitantes e, por isso, tornou-se num sítio caótico e perigoso. Do caos já aqui falei um pouco… da perigosidade, enfim, basta ver como ainda se vive na cidade: janelas gradeadas, portas de aço, guardas armados no interior dos quintais. Há casas que mais parecem jaulas.
É verdade que nada disso é novo. Em 1998, depois de um mês de hotel, decidi sugerir ao meu director que me deixasse alugar um apartamento… era três vezes mais barato para a empresa (no caso Impresa) e cem vezes mais agradável para mim. Aluguei um T3, num 2ºandar no bairro da Maianga. A nossa varanda era a única que não tinha grades. Todas as outras, até ao 5º piso, estavam defendidas por barras de ferro. Para entrar em casa tinha de abrir cinco portas, quatro de ferro e uma de madeira. Cheguei a pensar que, se um dia houvesse um incêndio no prédio, ninguém se salvaria na atrapalhação de ter de fugir através de cinco portas trancadas…
O medo da bandidagem vem de longe, como podem ver. E com milhões de habitantes a viver na maior indigência, não vejo como a situação poderá melhorar no futuro. A verdade é que a pobreza é uma boa desculpa para a criminalidade, embora os maiores criminosos angolanos não sejam pobres…
Nesse ano, lembro-me de uma tarde em que estava no bar do hotel e escutei uma conversa entre dois tipos que negociavam um “esquema” de ambos ganharem dinheiro.
Agora, nestas férias que fiz em Luanda, dei uma volta de barco pela baía… e, lá estavam eles, os navios acabados vendidos ao bom preço de quase novos. Uns afundados, outros semi-submersos, outros tombados de bordo, outros comidos pela ferrugem, todos sem préstimo nem valor.
São dezenas de navios que alguém pagou e pouco usou. Imagino que tenha sido o estado angolano… porque não acredito que algum privado tivesse embarcado naquilo. Mas aposto que todos aqueles navios pertencem a empresas estatais, empresas governadas por corruptos amealhadores de comissões e pouco interessados no bem comum.
A água da baía de Luanda é escura e viscosa. Doentia.
Não tenho 10 medidas milagrosas, como sugeres. Só encontro uma saída: a revolução. Voltar a partir tudo, para compor mais tarde. Nacionalizar tudo de novo e, enfim, redistribuir verdadeiramente. Mas sei que isso é... um sonho.
Quem visita o Forte de São Miguel, em Luanda, tem de se preparar para um choque. Parte das instalações estão, ainda, ocupadas por militares e outras instituições públicas angolanas e, portanto, não são visitáveis. Mas o pior são os maus-tratos... O que resta… são só paredes… e as ruínas de painéis de azulejos centenários… No edifício central, construído à volta de um poço, os painéis contavam a história de Angola, desde que os portugueses lá chegaram. Hoje, é impossível contar essa história através desses azulejos.
Apenas num deles (a terceira foto) se percebe ainda que se trata da cerimónia de baptismo da Rainha Nginga, heroína angolana da resistência contra os colonialistas.
Podiam ter deixado ficar os azulejos…
Gostava era de perceber como se faz a contabilidade de um negócio que funciona nesses moldes… como se faz, de modo a que o Fisco não dê pela marosca. E se é assim nos cabeleireiros, quem garante que não seja igual noutras actividades? O que impede qualquer comerciante de praticar o mesmo esquema com os seus empregados? Principalmente naquelas actividades em que é difícil medir os consumos...
É claro que Louçã não se referia a esta situação particular, ele parece mais preocupado com o número de desempregados de longa duração que já deixaram de receber subsídio e, portanto, desapareceram da lista do IEFP.
Deixo-vos com o retrato possível do pequeno senhor. Não tinha a máquina fotográfica comigo e pensando que não teria outra oportunidade, rabisquei em segundos a expressão de Nzenanga. Hoje, olhando para o rabisco, acho que ficou longe da realidade…

Os cangulos, esses, são todos iguais. De madeira e pesados. Os roboteiros (não descobri porque lhes chamam assim…) trabalham sem horário e só param quando não têm mais clientes. Estes homens (nunca vi uma mulher roboteira) passam o dia a empurrar os cangulos, sempre por pouco dinheiro. Não vale a pena aumentar a tarifa, porque a clientela não tem mesmo como pagar mais… além de que a concorrência existente nesta actividade impossibilita que os preços subam.
É que há sempre alguém disposto a fazer o frete por menos uns kuanzas. É a perfeição do sistema capitalista, da lei da oferta e procura. Irónico, não é?
Mas acontece com muita frequência, podem crer. Estive na cidade apenas duas semanas e vi isso acontecer mais do que uma vez. Isto é, vi aquela malta a fugir da polícia com a tralha às costas, uma vez no bairro Azul, outra na estrada que atravessa o bairro da Koreia. E se fugiam, por alguma coisa seria…
Os zungeiros compram os produtos nos armazéns dos chineses, a preços muito baixos, e procuram revender, depois, pelas ruas, procurando um mínimo de margem de lucro, apenas o suficiente para comer naquele dia e, no dia seguinte, voltar a comprar outra traquitana qualquer para revenderem de novo.
Quem tem a sorte de morar à beira de uma rua mais movimentada, monta banca mesmo na porta de casa.
É assim, um dia de cada vez…
Mesmo agora, em tempo de cacimbo, a chuva é rara em Luanda, apesar do céu ameaçador.
Não é tempo de praia e não há festas na cidade. Nem sequer é tempo de férias… as escolas fecham em Dezembro, não agora.
Mas era agora que eu tinha férias e lá fui a Luanda para matar saudades. Do que vi e senti, vou deixar aqui alguns relatos.
A primeira impressão foi de estupefacção… há oito anos que não ia a Angola. Depois da guerra ter terminado começaram a escrever nos jornais que Angola é uma terra de futuro, que a economia está em expansão, que os negócios vão de vento em popa. Assim, ao fim de oito anos, julgava que ia encontrar sinais novos dessa realidade nascente. Mas disso vi muito pouco. Dois ou três prédios altos em construção na Mutamba, a baixa da cidade, um viaduto rodoviário no cruzamento em frente ao aeroporto, outro na Samba, mais um (pedonal) no Prenda. Quase nada, no meio de milhões de barracas.
É em barracas que vivem os funcionários do estado e dos privados, é em barracas que vivem os milhões de desempregados da cidade. Quase todos vivem em barracas, alguns ainda habitam os prédios degradados da cidade colonial, alguns estão a conseguir mudar para as periferias onde já existem vários bairros novos de má construção e péssima planificação.
Bairros onde só existem casas e nenhum serviço de apoio, onde a farmácia mais próxima fica a 20 quilómetros de distância, ou a mercearia, ou a estação de serviço, ou a escola para os filhos. Conheço gente que já mora ali e que tem de sair de casa às cinco da manhã, para estar às oito no emprego, no centro da cidade.
Os engarrafamentos são monstros do lusco-fusco. Ao final do dia, fechados nos carros de portas trancadas e vidros corridos (e com medo dos ladrões) demora-se outras duas horas para atravessar o Rocha Pinto (um dos maiores bairros da lata de Luanda) e chegar à casa suburbana. Aquela “África” do gin às 5 da tarde… em Luanda, já quase não existe.