Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











quarta-feira, outubro 04, 2006

Pão quente

Já escrevi sobre Renato Kizito aqui e, também, sobre Nairobi. Mas o velho missionário tem uma obra vasta. Hoje, vou falar-vos do Kivuli Center, um abrigo para crianças de rua. É lá onde Kizito mora, num quarto com vista sobre o pátio onde os miúdos brincam no intervalo das aulas. Dezenas de crianças encontram ali uma casa. Não encontram uma família… embora Kizito seja pai e mãe daquela malta.

Renato kizito

Os miúdos têm roupa decente para vestir, têm educação escolar e religiosa, alguns ainda têm a sorte de aprender uma profissão às custas de patrocínios que Kizito procura obter incessantemente. A falta de dinheiro é a maior aflição do missionário. Dar de comer a dezenas de rapazes, vesti-los e calçá-los, manter o edifício de pé e com um mínimo de goteiras possível, custa uma fortuna.


Um dia, Kizito teve uma ideia brilhante. Engatou um amigo de infância, padeiro de profissão, a ir passar uns meses a Nairobi. Já reformado, tempo não faltava ao velho padeiro. Kizito teve o cuidado de o prevenir sobre as condições em Riruta, o bairro degradado onde vive. Mas o amigo foi.
O padeiro italiano ensinou os miúdos mais velhos a fazer pão. Belos cacetes de pão italiano que passaram a ser vendidos à porta do Centro, na rua enlameada. O negócio foi um sucesso. O problema, então, passou a ser como garantir os fornecimentos de farinha e fermento, de modo a não falhar na produção.


Agora, já sabem. Se forem a Nairobi e se vos apetecer pão quentinho e estaladiço, têm de ir a Riruta, um dos imensos bairros de lata de Nairobi. Os carros dificilmente entram nas ruelas do bairro, mas não há que enganar. Terão de caminhar e… seguir o cheiro a pão fresco. Garanto-vos que será uma experiência e tanto.

terça-feira, outubro 03, 2006

Capitalismo medíocre

Em vez de despedir, reduzir os salários de todos os trabalhadores, é o que propõe a administração do jornal Público. O jornal não dá lucro e o homem mais rico de Portugal não parece disposto a continuar a ser bom samaritano…
Mais uma vez, fica à mostra a total ausência de percepção do papel social de um jornal. Os patrões da comunicação social apenas pensam no lucro… quando um jornal, uma revista, um canal de rádio ou televisão têm de ser encarados muito para além do negócio da venda de papel ou de espaço publicitário… implantar um órgão de comunicação social devia obrigar a um compromisso social. Um jornal não é uma fábrica de aglomerados, sr.Belmiro…

Ainda assim, a proposta de reduzir salários, segundo o que li na Lusa, parece-me ser o mal menor… mas preferia ter lido que o empresário e o director do jornal tinham acordado numa nova estratégia expansionista, que tinham decidido partir à conquista dos milhões de pessoas que, todos os dias, olham para o jornal no escaparate dos quiosques e não o compram…
O Público não vende o suficiente, parece… mas é, de facto, o jornal de referência para muitos de nós. É verdade que isso acontece numa lógica de exclusão de partes… não havendo melhor, contentamo-nos com aquilo… o que só reforça a ideia de que o Público tem muito caminho para andar, sr.Belmiro.

Por este andar, o jornal corre o risco de passar a ser feito pelos amiguinhos do director e pelos afilhados do patrão, os únicos que serão protegidos nesta fase de escolher os dispensáveis. Nunca foi o melhor critério de selecção de recursos humanos, mas é o mais usado...

segunda-feira, outubro 02, 2006

Bomba Alta

A fotografia é de um sítio que se chama Bomba Alta, um nome curioso para um centro médico dedicado a vítimas de minas terrestres. Fica nos arredores do Huambo, uma cidade que já foi o “coração” de Angola.
Em 1997 andei por Angola a filmar uma grande reportagem a que chamei “Sementeira do Diabo”. Contei histórias de vítimas de minas terrestres, as “sementes do diabo” como também são chamadas.
Na Bomba Alta havia um técnico de próteses alemão. Ele falava português muito bem, apenas com um sotaque engraçado. Falou-me numa coisa tremenda… disse que as minas anti-pessoal matavam maioritariamente crianças. Explicou-me que quando um adulto pisa uma mina fica sem uma perna, ou sem as duas, mas sobrevive. Uma criança, de tamanho menor, quando pisa uma mina fica cortada ao meio. Eram raras as crianças que sobreviviam.

domingo, outubro 01, 2006

O elefante

Ao contrário do que muitos pensam de mim, o Fred não tem nada contra o Dr.Balsemão ou o Expresso nem nunca trabalhou na SIC. Portanto, nunca foi despedido da Impresa, embora já tenha passado pelos tratos de polé de outros impresários do género. O que o Fred tem é boa memória… e, se calhar, é por isso que continua desempregado.
Na foto, o Dr.Balsemão ri (talvez para não chorar...) rodeado de sobras do Expresso...

sábado, setembro 30, 2006

A bolacha

Vim agora de uma aula de Políticas de Cooperação, onde ouvi o professor perorar as razões porque os excedentes alimentícios da Europa e da América do Norte não podem ser doados aos países pobres de África. Isso iria criar ainda maior dependência desses povos, fomentar a preguiça, distorcer os mercados internacionais, blá blá blá.Ouvia o homem e "viajei" para... Baidoa, Somália, 1992.
Eram três e estavam sentados no chão, virados uns para os outros. Os três eram daqueles meninos de ventre inchado e pernas fininhas. O mais velho teria 5 anos de idade, não mais que isso. Era ele quem segurava a bolacha. Os outros dois olhavam-no esbugalhados, suspensos em cada gesto das mãozinhas ossudas. Com a esquerda, partia a bolacha em pedacinhos muito pequeninos e, à vez, metia na boca dos parceiros e na sua própria, também, um pedacinho de bolacha. Gestos repetidos, meticulosamente. A bolacha durou uma rodada, outra rodada, ainda vi uma terceira. Era tudo muito lento, como se aquela bolacha tivesse de durar muito tempo. Não vi a bolacha chegar ao fim. Não fui capaz.
Políticas...

sexta-feira, setembro 29, 2006

Como ninguém escreve notícias sobre isto, escrevo eu. Mais um "Congo post"

Os partidos que apoiam a candidatura de Joseph Kabila para a presidência do Congo decidiram unir-se também para a formação do novo governo do país. Kabila terá que disputar uma segunda volta das eleições, no próximo dia 29 de Outubro, com Jean Pierre Bemba, mas, seja lá quem for o presidente eleito, o primeiro-ministro sairá da coligação que apoiou Kabila.O que quer isto dizer? Que o poder instituído está a fazer tudo para se perpetuar, claro. Kabila joga tudo o que tem, para derrotar Bemba. Bemba pertence à maior etnia congolesa (a mesma do antigo ditador Mobutu) e, por isso, tem suficiente apoio popular para amedrontar Kabila (que herdou o poder, depois do assassinato do pai, com apoio militar fornecido por Angola).
A união de todos os partidos que apoiam Kabila consegue um total de 257 deputados, numa assembleia de 500 lugares. Isto é, Bemba terá 243… por exclusão de partes.
Entretanto, decorre já a campanha para as eleições regionais… cuja votação decorrerá em simultâneo com a 2ªvolta das presidenciais, em 29 de Outubro.
Esta “chuva” de eleições no Congo é uma imposição internacional. Para que se realizem com um mínimo de segurança, estão no país perto de 20 mil soldados estrangeiros (alguns portugueses) sob mandato da ONU. Ninguém duvida que só assim os actos eleitorais puderam ser preparados e realizados. Mas a dúvida é o que vai acontecer depois… depois dos “capacetes azuis” voltarem para casa. É que este jogo democrático, se não for aceite plenamente, acaba por não resultar.

quarta-feira, setembro 27, 2006

Flagrante delito

De que riam estes tipos? Hoje, passados 7 anos, já nem sei…
Ele tinha razões para rir. Sabia que ia vencer as eleições, as primeiras verdadeiramente livres na Guiné-Bissau. Ele ia concretizar um sonho impossível de realizar, mesmo numa república das bananas… e estava prestes a transformar-se num logro político. Koumba Iala revelou-se politicamente incompetente e fez da guerra civil, que derrubou Nino Vieira, uma oportunidade perdida…
E eu, de que ria? Lembro-me que acreditava naquele tipo. Tinha que acreditar, quando via as multidões convencidas, porque pensava que não era possível tanta gente estar enganada. Eu queria mesmo que Koumba tivesse dado certo. Pelos guineenses… porque não é justo um povo ter de viver assim, como eles vivem.
Foi uma merda de um engano...

segunda-feira, setembro 25, 2006

O Comboio de Deus

Gosto de ler livros assim: meticulosos, descritivos, verdadeiros. Livros que me levam a ver, realmente, lugares que nunca visitei e a conhecer pessoas com quem nunca estive. O livro que vos mostro aqui é um desses… é um livro de viagens do autor através de quatro países muçulmanos: Indonésia, Irão, Paquistão e Malásia. Muçulmanos mas não árabes. Uma viagem onde descobrimos pessoas concretas, com problemas verdadeiros e sonhos comuns. Sendo que são todos muçulmanos. Ao conhecermos estas pessoas, aprendemos o que eles pensam sobre a vida e, claro, sobre a religião. Beyond Belief não será a obra prima de Naipaul… mas é um livro muito interessante. Não sei se está traduzido em português.

O Pedro Rosa Mendes já me tinha falado naquela viagem de comboio. Julgo que a fez em lua de mel… tinha-me falado com entusiasmo no comboio pachorrento que atravessava as montanhas, desde Quetta até Rawalpindi. 48 horas sem catering… a comida cozinhada em pequenas fogueiras acesas no chão das carruagens… as longas paragens nos apeadeiros no meio de nenhures, os túneis, o serpentear à beira dos precipícios, as seis rezas por dia… tudo isso fez-me apanhar esse comboio também. O Pedro chamou-lhe "o comboio de deus" e eu cheguei a pensar que iria fazer uma reportagem nesse comboio. Mas não fiz. Não me apeteceu.

Fiz boa parte da viagem sentado na borda da carruagem, com as pernas para fora. Foi ali que o tipo me encontrou. Wolf Boewig, franco-alemão, repórter fotográfico. No palavra-puxa-palavra descobrimos que tínhamos um amigo comum. Precisamente o Pedro Rosa Mendes, com quem o Wolf fez vários trabalhos de reportagem, de resto.
Foi nesses longos dois dias que falamos de Naipaul. Eu já tinha lido um outro livro dele, A Curva do Rio, um retrato fabuloso da história recente pós-colonial do Uganda. Umas semanas depois de ter regressado do Paquistão, Wolf enviou-me pelo correio o Beyond Belief, com a desculpa de que tinha dois livros e, portanto, dispensava-me um deles. Dentro do livro, uma fotografia tirada num campo de refugiados birmaneses na Tailândia.

A foto está na parede da sala, o livro na estante. Nunca mais vi o Wolf, mas jamais esquecerei tanta capacidade de partilhar.

sábado, setembro 23, 2006

Eleições no Congo (sei que ninguém liga a isto, mas a mim interessa-me...)

O que se passou em Angola, em Outubro de 92, parece ir repetir-se agora em Kinshasa.
A segunda volta das eleições pode nunca chegar a realizar-se… ontem, um incêndio destruiu a sede da campanha do principal rival do presidente Kabila e, logo, os apoiantes de Bemba acusaram os apoiantes do presidente da autoria do atentado.
Se foi atentado, é certo que foram os tipos de Kabila… apesar de ter vencido na primeira volta, com 48% dos votos, Kabila preferiria, estou certo, não ter de arriscar uma segunda volta. O risco de perder é real… é mais que garantido que a maioria dos que combateram o regime dinástico dos kabilas irão, agora, votar contra ele…O paralelismo com o que se passou em 92, em Luanda, é mais do que evidente… Bemba, tal qual fez Savimbi então, também lançou acusações de fraude na contagem dos votos da 1ªvolta. Kabila, tal qual fez José Eduardo dos Santos, utiliza a força do Estado para se proteger…
A 1ªvolta decorreu em 30 de Julho. Depois dos resultados terem sido divulgados, em 20 de Agosto, já morreram 23 pessoas (pelo menos) vítimas da violência política. Ainda assim, o processo eleitoral parece que se mantém e a 2ªvolta deverá realizar-se agora, em 29 de Outubro.
A comunidade internacional, como sempre, só quer que as eleições se realizem com um mínimo de dignidade. O que interessa, acima de tudo, é que dali saia um poder com alguma legitimidade, nem que seja só aparente…
Tenho a certeza, pelo que já vi em processos idênticos, que a batota é forte e aproveita a todos. Mas, no final, as aparências terão de ser mantidas e haverá um porta-voz dos observadores internacionais a proclamar a “transparência” do processo e a “liberdade” com que os votantes exercitaram a função…

nota: gosto especialmente desta foto, que tirei num comício em Bissau, nas primeiras eleições depois da guerra civil.

quinta-feira, setembro 21, 2006

Outro furacão

Em 1997 propus ao Director-Geral da SIC a realização de um documentário sobre a travessia do Oceano Atlântico à vela. A oportunidade de atravessar o Atlântico tinha surgido através de um anúncio colocado num expositor da Associação Nacional de Cruzeiros. Tinha entrado em contacto com o dono do veleiro, havia ainda três vagas, para uma tripulação de sete. Tínhamos apenas de comparticipar em pequenas despesas no aprovisionamento. A minha ideia era fazer um documentário-aventura sobre a travessia. A coisa iria passar-se em pleno Inverno…
Largámos de Lagos em meados de Novembro… já com alguns dias de atraso em relação ao calendário previsto. A meteorologia não era nada favorável. Havia frentes sucessivas que vinham de sul para norte, chovia a potes, tudo desaconselhava a saída para o mar. Mas o calendário pressionava-nos. Quase toda a tripulação era gente que tinha tirado férias para embarcar naquela aventura. Tinham um mês de férias. Poderiam faltar, talvez, mais uns dias além disso. Mas não era possível esperar indefinidamente, sob pena de ficarmos sem metade dos tripulantes. De modo que, ao fim de cinco dias de espera, o skeeper deu ordem de largada. E lá fomos enfrentar a borrasca. O mar metia medo. O primeiro dia foi um tormento que, para mim, terminou quando deixei de resistir à agonia do enjoo. Prostrei-me no beliche e deixei-me ficar ali. Nos raros momentos de lucidez, apercebi-me que o temporal desabava sobre o veleiro de 14 metros. Houve momentos em que dei comigo suspenso no ar, entre o beliche e o tecto, quando o barco caía do alto das vagas. Havia barulhos tremendos e cheguei a pensar que o barquito se ia partir. Ressuscitei ao fim de três dias. Comi metade de uma bolacha Maria e senti-me reviver. Apercebi-me então que, de toda a tripulação, apenas três se tinham aguentado satisfatoriamente. O velho John, o skeeper (um verdadeiro lobo do mar), O Zé Santana e o Pedro Laginha. Eles aguentaram o barco em cima de água, mas contaram-me que houve um momento em que eles próprios tinham desistido. Fecharam o barco de modo a impedir ao máximo a entrada de água, recolheram totalmente as velas e deixaram o barco à deriva… contaram-me que o vento tinha chegado aos 120 km/hora e as vagas eram altas como prédios de 7 andares.
Depois do furacão passar, o resto da viagem foi maravilhosa. Demorámos 26 dias a chegar à Martinica, nas Caraíbas.
O documentário? Dei-lhe o título “Navegar”… tinha 40 minutos, em duas partes. Era lindo de se ver. Por várias razões, foi uma história contada com amor. Mas o Rangel considerou que “não fazia o género da SIC” e meteu-o numa gaveta. Em 2001 ou 2002, a Cândida Pinto (quando foi directora da SIC-Notícias) quis exibi-lo na programação de Verão… mas o arquivo não foi capaz de encontrar a 2ªparte… perderam a cassete… acreditam nisto?

quarta-feira, setembro 20, 2006

O furacão

O furacão passou ao lado e, ao contrário do que se temia, poucos estragos fez nos Açores.
Ainda bem, claro. Esta história do furacão trouxe-me à memória a minha primeira ida aos Açores, em 1985 ou 1986, já não me lembro bem. Fomos lá filmar alguns episódios de uma série documental que fiz, na RTP, a meias com o Paulo Dentinho: Linhas de Pesca. Histórias de pescadores. Toda a série foi filmada pelo António Hipólito que, na altura, fazia também uma outra série documental chamada “O Mar e a Terra”. A equipa técnica era comum às duas séries, os temas intersectavam-se, acabamos por colaborar com o Hipólito nos trabalhos de “O Mar e a Terra” e, em troca, ele formou-nos (a mim e ao Paulo) no mergulho com escafandro. Foram anos de ouro para mim, vividos ao ar livre, quase sempre no mar.


Estávamos, então, no Corvo. Era suposto ficarmos lá 15 dias em filmagens. Correu tudo bem, até ao 14º dia. Aí começou a ventar. O céu continuava azul, a água do mar sempre quente, mas o vento endiabrou-se. A Ilha não tem cais acostável e, portanto, com mar picado, o barquito que faz as ligações do Corvo com a Ilha das Flores deixou de ir. A alternativa era o avião da Força Aérea, um pequeno Aviocar, aparelho capaz de aterrar nos 500 metros da pista de terra batida. Mas sem vento… e, assim, o avião também não aterrava. O vento soprou durante 15 dias. Nunca choveu, nem nada. Não fez frio. Não houve nenhum temporal. Era só vento… mas o suficiente para deixar uma ilha isolada, uma população inteira (300 almas…) à espera. Os corvinos não estranhavam. No Inverno é bem pior, claro. Chegam a estar meses sem conseguirem sair da ilha. Vive-se ali um tempo longo, sem ampulhetas.
De modo que, agora, imagino que lá devem continuar, resignados, fechados naquele pedaço de terra, a ver o furacão passar-lhes ao lado.

terça-feira, setembro 19, 2006

Luanda revisitada (não aconselhável a narizes mais sensíveis)

Quando a estação das chuvas recomeçar (e já não falta muito…) a cólera regressará, também, a Angola. Tudo irá acontecer, de novo, em Luanda e, rapidamente, a doença se espalhará pelo país. Isto não é nenhuma maldição, apenas uma previsão lógica pelo que constatei agora.Há demasiado lixo em Luanda, apesar de se estar a fazer um esforço para o remover para a periferia. Há remoção de lixo do centro da cidade, é verdade. Também é verdade que é feito com imensas deficiências, sem equipamento adequado e, pior que tudo, a lixeira (a céu aberto) fica demasiado perto da cidade e ainda mais perto dos novos bairros periféricos para onde os aspirantes a burgueses se estão a mudar.

Mas persistem os esgotos a céu aberto, as valas de águas residuais, muitas casas de construção precária não têm instalações sanitárias e, assim, há uma multidão que defeca diariamente na via pública. Um ecossistema perfeito para o vírus da cólera…Se bem se lembram, no início deste ano uma epidemia devastou Luanda e espalhou a doença por todo o país. Na última contagem de que tenho memória, falava-se em dois mil mortos e dezenas de milhar de doentes. O governo angolano começou por rejeitar ajuda, nomeadamente a portuguesa, dizendo com arrogância que tinha capacidade para resolver a situação… mas, em pouco tempo, estendeu a mão aos cheques da União Europeia (3 milhões de €, se não estou em erro…), da China, da Rússia e esmolou médicos às ONG internacionais.A cólera é uma doença altamente contagiosa que se transmite através da água, manifestando-se por vómitos e diarreia, o que provoca desidratação grave e, por fim, a morte. Água suja é, portanto, caldo alimentador do vírus. E, por isso, impressionou-me ver, diariamente, centenas de mulheres e crianças a "lavar" roupa num esgoto a céu aberto (é a 4ªfotografia) que corre do Futungo para a Samba, a caminho do mar…

segunda-feira, setembro 18, 2006

As aparências iludem

Até pode parecer que ando a organizar a papelada da minha vida, mas não. Acontece que, volta e meia, remexo nas coisas e “descubro” velhos episódios…
Agora, encontrei o passepartout que o SPLA emitiu quando fui ao Sudão pela 2ª vez.
Estava num dossier, no meio de papelada diversa onde predominam documentos relacionados com a minha saída da SIC em 2003. Essa é uma outra história que vos contarei um dia destes…

O interessante sobre este documento do SPLA é o carimbo que o autentica. Em tinta roxa, certifica-se que o documento que me autorizava a viajar foi passado pelo Sudan Relief and Rehabilitation Association, uma ONG sedeada em Nairobi, no Quénia, que alegadamente se dedicava às crianças órfãs da guerra civil sudanesa. De facto, a sede da SRRA era a “embaixada” do SPLA no Quénia. Era, ainda, através desta ONG que o SPLA administrava boa parte do dinheiro doado pelos seus amigos ou aliados para a sustentação da guerra.Foi fácil obter este documento, sem o qual não teria conseguido viajar. Foi fácil porque quem solicitou a autorização foi a Igreja Católica, através da Diocese de Rumbek, uma cidade importante no sul do Sudão, cujo Bispo, um italiano, vivia refugiado em Nairobi.
Às vezes, encontramos apoios onde menos se espera, não é?

A segunda foto é um recuerdo dessa viagem. À minha direita está Dorinda Cunha, a heroína dessa história que contei num documentário intitulado "Missão Impossível", exibido na SIC, trabalho que mereceu o prémio Jornalismo Contra a Indiferença atribuído pela AMI.

sexta-feira, setembro 15, 2006

Luanda revisitada. Enjaulados

Quase cinco anos depois da guerra ter terminado (Savimbi foi morto em Fevereiro de 2002), contava encontrar menos população em Luanda. Isto é, julgava que tinham implementado algum programa para levar os milhões de refugiados que se abrigaram na capital de volta para as suas terras de origem. Acreditava que o estado angolano teria preparado alguns incentivos para tornar esse retorno viável, tipo dar terra arável e alfaias às famílias de agricultores, sementes, algum gado, mesmo até algum dinheiro para que as pessoas pudessem reiniciar os modos de vida perdidos pela guerra.

Mas não… falaram-me que Luanda já tem mais de 5 milhões de habitantes e, por isso, tornou-se num sítio caótico e perigoso. Do caos já aqui falei um pouco… da perigosidade, enfim, basta ver como ainda se vive na cidade: janelas gradeadas, portas de aço, guardas armados no interior dos quintais. Há casas que mais parecem jaulas.

É verdade que nada disso é novo. Em 1998, depois de um mês de hotel, decidi sugerir ao meu director que me deixasse alugar um apartamento… era três vezes mais barato para a empresa (no caso Impresa) e cem vezes mais agradável para mim. Aluguei um T3, num 2ºandar no bairro da Maianga. A nossa varanda era a única que não tinha grades. Todas as outras, até ao 5º piso, estavam defendidas por barras de ferro. Para entrar em casa tinha de abrir cinco portas, quatro de ferro e uma de madeira. Cheguei a pensar que, se um dia houvesse um incêndio no prédio, ninguém se salvaria na atrapalhação de ter de fugir através de cinco portas trancadas… O medo da bandidagem vem de longe, como podem ver. E com milhões de habitantes a viver na maior indigência, não vejo como a situação poderá melhorar no futuro. A verdade é que a pobreza é uma boa desculpa para a criminalidade, embora os maiores criminosos angolanos não sejam pobres…
O pior é que nada mudou substancialmente. Até parece que a guerra não acabou.

quarta-feira, setembro 13, 2006

Luanda revisitada. Baía cloaca

Em 1997 fiquei um mês e tal alojado no Hotel Meridien Presidente, em Luanda. É o edifício mais alto de Luanda, mesmo em frente ao porto, com vistas sobre a baía, o mar e a cidade que seriam deslumbrantes se aquilo fosse bonito de se ver. Só que não é… para além dos musseques, do pó no ar, a baía de Luanda está tão poluída e maltratada que olhar para aquilo mete nojo.

Nesse ano, lembro-me de uma tarde em que estava no bar do hotel e escutei uma conversa entre dois tipos que negociavam um “esquema” de ambos ganharem dinheiro.
Um era angolano e o outro estrangeiro, branco, com sotaque de inglês. O branco tinha navios velhos para vender ao preço de quase novos, o preto ia encarregar-se de falcatruar as papeladas e encontrar quem comprasse os navios. Acabei por não perceber de que tipo de navios falavam eles, se seriam barcos de pesca ou cargueiros, graneleiros ou porta-contentores, mas para o caso pouco importa.Agora, nestas férias que fiz em Luanda, dei uma volta de barco pela baía… e, lá estavam eles, os navios acabados vendidos ao bom preço de quase novos. Uns afundados, outros semi-submersos, outros tombados de bordo, outros comidos pela ferrugem, todos sem préstimo nem valor. São dezenas de navios que alguém pagou e pouco usou. Imagino que tenha sido o estado angolano… porque não acredito que algum privado tivesse embarcado naquilo. Mas aposto que todos aqueles navios pertencem a empresas estatais, empresas governadas por corruptos amealhadores de comissões e pouco interessados no bem comum.
Luanda liquefaz-se na baía. As escorrências da cidade descem, lenta mas livremente, e desaguam ali. Os líquidos pútridos misturam-se com os óleos e a ferrugem dos naufrágios... branco e imaculado, só o yacht presidencial amarrado na base naval. Ah!, mas cuidado! Não podes fotografar!, avisaram-me.

A água da baía de Luanda é escura e viscosa. Doentia.

segunda-feira, setembro 11, 2006

Medo de sonhar

Havia um miúdo, naquela reportagem da Cândida Pinto, que dizia que sonhar era difícil… E, realmente, é muito difícil. Sonhar é visualizar um desejo. É sentir-lhe a forma, o peso, as cores e, até, sentir-lhe o cheiro. É, ainda, imaginar um mundo perfeito e querer realizar essa utopia.
É, pois, muito difícil sonhar, tal como pedes, querida Isabela: “Hora da redacção: "vamos sonhar": o actual governo angolano desaparecia num ápice, não interessa para onde, todos raptados por extraterrestres, e nunca mais voltariam…”. Sonhar assim é até perigoso… e, sinceramente acho que, desde Fernando Pessoa, mais ninguém disse ter “todos os sonhos do Mundo”.
Dom Hélder da Câmara é que dizia que quando dava pão a um pobre, chamavam-lhe santo, mas que quando reclamava pelas condições de vida injustas impostas pela sociedade, chamavam-lhe comunista. É assim…Não tenho 10 medidas milagrosas, como sugeres. Só encontro uma saída: a revolução. Voltar a partir tudo, para compor mais tarde. Nacionalizar tudo de novo e, enfim, redistribuir verdadeiramente. Mas sei que isso é... um sonho.

7

Acabo de votar para a eleição das 7 Maravilhas do Mundo.
Se não sabem do que se trata, leiam o Diário de Notícias ou vejam este site.

sábado, setembro 09, 2006

Luanda revisitada. Nginga

Pediu-me 200 kuanzas (ou 2 €) de entrada. Aceitou o dinheiro, escreveu qualquer coisa numa folha e perguntou-me se trazia máquina fotográfica. Informou que podia fotografar tudo o que quisesse, inclusivé as paisagens da cidade, menos a parte onde está situado o palácio presidencial. Zédú não gosta de ser fotografado... Não me deu bilhete de entrada.
Quem visita o Forte de São Miguel, em Luanda, tem de se preparar para um choque. Parte das instalações estão, ainda, ocupadas por militares e outras instituições públicas angolanas e, portanto, não são visitáveis. Mas o pior são os maus-tratos... O que resta… são só paredes… e as ruínas de painéis de azulejos centenários… No edifício central, construído à volta de um poço, os painéis contavam a história de Angola, desde que os portugueses lá chegaram. Hoje, é impossível contar essa história através desses azulejos.

Apenas num deles (a terceira foto) se percebe ainda que se trata da cerimónia de baptismo da Rainha Nginga, heroína angolana da resistência contra os colonialistas.
Nginga Nbandi viveu no século XVII e juntou o seu reino ao do Rei do Congo, com quem casou, com a condição de que quem mandava no reino era ela e não ele. Parece que Nginga tinha mau feitio… enfim, reza a História (e a tradição) que foi ela quem comandou um poderoso exército africano que derrotou as tropas do governador português de Angola, João Corrêa de Souza, em 1621. Mais tarde acabou por se submeter e foi mesmo baptizada com o nome Ana de Souza…

Podiam ter deixado ficar os azulejos…

sexta-feira, setembro 08, 2006

Economia paralela

Li hoje no Público que Louçã lançou “um vigoroso desafio ao Conselho Económico e Social para que faça um estudo rigoroso sobre o número exacto de desempregados em Portugal”. A dúvida do deputado parece-me legítima, porque tenho a certeza que há muito mais desempregados do que os que constam nas estatísticas oficiais.
Porque digo isto? Porque apercebi-me, agora, que há várias profissões que, na maioria dos casos, estão preenchidas por trabalhadores “fantasmas”. Por exemplo, se as senhoras julgam que todas as cabeleireiras, manicuras e esteticistas que trabalham no estabelecimento onde costumam ir pentear a popa ou depilar as pernocas estão, de facto, empregadas, desenganem-se. Muitas dessas pessoas trabalham sem salário (ganham percentagem sobre a receita que produzem) e, portanto, não descontam para a Segurança Social. São trabalhadores sem direitos e o estado não vê um tostão dos impostos que deveria cobrar.

Gostava era de perceber como se faz a contabilidade de um negócio que funciona nesses moldes… como se faz, de modo a que o Fisco não dê pela marosca. E se é assim nos cabeleireiros, quem garante que não seja igual noutras actividades? O que impede qualquer comerciante de praticar o mesmo esquema com os seus empregados? Principalmente naquelas actividades em que é difícil medir os consumos...
É claro que Louçã não se referia a esta situação particular, ele parece mais preocupado com o número de desempregados de longa duração que já deixaram de receber subsídio e, portanto, desapareceram da lista do IEFP.

quinta-feira, setembro 07, 2006

Nzenanga Mobutu

No início da década de 70 (do século passado...), tive um professor de Português, o Dr.Lufinha, que me fez a vida negra e que, olhando para o mísero estado dos meus livros, completamente rabiscados com desenhos, predisse que eu haveria de ser cartoonista. Como se sabe, enganou-se. Embora seja verdade que sinto uma certa veia para o rabisco…
Uma vez até tentei retratar um tipo…
Estivemos duas semanas imobilizados em Gbadolite. Esperávamos autorização de Jean Pierre Bemba para seguirmos para Bondo, onde queríamos fazer parte de uma reportagem sobre missionário portugueses em cenários de guerra (de que aqui já escrevi bastante).
Fomos alojados pelo MLC num bloco de apartamentos onde, segundo percebi, costumavam ficar os oficiais do grupo rebelde que iam a Gbadolite “a despacho”, receber as instruções do chefe. Não éramos os únicos clientes. Estavam lá, também, uma senhora, comerciante de pedras preciosas, dois russos ou ucranianos, tripulantes do avião de Bemba e um outro tipo que não percebi o que fazia na vida. Mas, de todos, nós éramos os únicos com direito a almoçar na mesa do Estado-Maior de Bemba. O próprio Bemba nunca apareceu mas, enfim, a comida era razoável.
Um dia, depois do almoço, vimos entrar um anão no edifício, para uma reunião com Kamitato, um dos secretários de Bemba.Via-se que era um tipo importante, pelo modo como os outros o tratavam. Pensei que seria por ser anão… que houvesse alguma crença local relacionada com esta insuficiência física, mas não. O anão era mesmo “homem grande”. Chamava-se Nzenanga Mobutu e era, tal como o nome denuncia, familiar próximo do antigo ditador zairense. Era o seu irmão mais novo.Deixo-vos com o retrato possível do pequeno senhor. Não tinha a máquina fotográfica comigo e pensando que não teria outra oportunidade, rabisquei em segundos a expressão de Nzenanga. Hoje, olhando para o rabisco, acho que ficou longe da realidade…

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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