Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











terça-feira, julho 18, 2006

Mandela

Nelson Mandela faz hoje 88 anos. Nunca conheci pessoalmente este “mais velho”, mas tive o privilégio de ter assistido ao vivo a uma palestra dele e, assim, ter recebido uma lição de cidadania, de respeito pelos outros e de genuíno interesse pelo bem-estar da Humanidade.Foi em Durban, precisamente em Julho de 2000, no último dia da XIII Conferência Internacional sobre Sida. Mandela foi ali, para dizer ao Mundo quanto o envergonhava a “postura negocial” das multinacionais farmacêuticas que não estavam dispostas a libertar as patentes de fabrico dos medicamentos essenciais para a luta contra a pandemia e, talvez mais ainda, quanto o envergonhava a actuação do governo sul-africano e do seu líder, afinal de contas o homem que lhe sucedeu na chefia do estado, Thabo Mbeki.
Mbeki ainda hoje recusa-se a deixar que a pandemia, na África do Sul, seja tratada com medicamentos anti-retrovirais e parece acreditar que se trata de uma doença curável e provocada por interesses financeiros das multinacionais farmacêuticas. Ele parece acreditar nessa cabala e, com isso, tem deixado morrer milhares de homens, mulheres e crianças contaminados pelo vírus.
Por isso, ver e ouvir Mandela, ali, nestas circunstâncias, foi um momento tão precioso. Não só pelas palavras de solidariedade, não só pela compreensão e humanidade reveladas, mas pela coragem política de ter dito que tanto as multinacionais como Mbeki estavam enganados e que era preciso que o Mundo tudo fizesse para os convencer. E que ele iria ajudar…

segunda-feira, julho 17, 2006

Médio Oriente.O microfone aberto

Porque foi que, entre 1975 e 1990, o Líbano teve uma guerra civil devastadora? Porque Israel precisava de criar uma zona tampão junto à sua fronteira e, para isso, fomentou a criação de um exército cristão maronita no sul do país. Parece-me que a actual crise, vai terminar quando for possível por em prática uma solução desse tipo, isto é, criar uma zona de segurança para Israel que mantenha fisicamente longe os activistas do Hezbollah.Talvez agora não seja possível ressuscitar o exército cristão maronita, mas pode ser que as Nações Unidas ou os EUA façam uma coisa parecida, ou seja, enviem para a zona um exército qualquer que garanta a segurança e a separação dos inimigos. Uma força de interposição.
O que já é evidente é que nem o Hezbollah, nem Israel, respeitam a soberania libanesa ou as instituições do estado. O Líbano é uma espécie de terra de ninguém, onde agora mandam uns, depois mandarão outros, mas nunca libaneses… Segundo li, numa crónica publicada na página electrónica da BBC News, o presidente dos EUA acredita que os verdadeiros responsáveis pelos actos do Hezbollah são dirigenes da Síria. À mesa da cimeira do G-8, Bush terá dito (quando julgava que o microfone estava fechado) que "What they ( referindo-se provavelmente à ONU) need to do is to get Syria to get Hezbollah to stop doing this shit and it's over." (o que eles precisam é de fazer com que a Síria faça o Hezbollah parar com esta merda e pronto).
A diplomacia ao mais alto nível.

Médio Oriente. Loucos

Nesta confusão do Médio Oriente, já pouco importa quem disparou o primeiro tiro. A questão está em descobrir um modo de parar com a loucura… e, pelo que se tem visto, pode não haver maneira de o fazer. De todos os acontecimentos recentes, desde os raptos de soldados israelitas até às retaliações mútuas, há um pormenor relevante: o armamento do Hezbollah é surpreendente. Porque a mim me surpreende que um partido político (?) possa dispor de armamento e isso seja tolerado pelo governo do Líbano, quando seria certo que esse armamento se destinava a agredir outro estado. Mas o que acho verdadeiramente surpreendente é a dimensão do arsenal do Hezbollah… mísseis de curto e médio alcance de fabrico iraniano, aparentemente os Fajr-3 (alcance de 45 km) e os Fajr-5 (alcance 75 km) e, provavelmente, também o Zelzal-2 (200 km de alcance), para além da arma mais tradicional, o mundialmente famoso Katyushas de fabrico russo (25 km de alcance). Parece-me que, primeiro, Israel foi surpreendido por esta capacidade de fogo do Hezbollah e, segundo, que existe aqui um óbvio “dedinho” do Irão e, talvez, da Síria, de modo a tirarem dividendos seguros de uma situação de conflito como a que já está em curso.Israel não quis Arafat como interlocutor político. Talvez os israelitas julgassem que com outro dirigente palestiniano poderiam manobrar mais facilmente. Mas esqueceram-se que Arafat queria, essencialmente, construir um estado. Os que o substituiram talvez só queiram destruir. Os generais desta guerra parecem procurar uma batalha definitiva para esta luta... como se fosse possível escolher entre glória ou morte. Loucos.

sexta-feira, julho 14, 2006

Moscovo, 1985. Exploração de mão-de-obra

Começa hoje, em São Petersburgo, a Cimeira do G-8, os tais senhores que mandam no Mundo.
O camarada Milhazes (no texto São Petersburgo em "estado de sítio") dá conta dos preparativos e cuidados tomados para que nada perturbe o pensamento dos poderosos. Ali vai ser difícil alguém realizar grandes manifestações anti-globalização. O espaço aéreo fechado, os portos marítimos bloqueados, as estradas controladas, as fachadas das casas pintadas, as putas afastadas.
Esta coisa das putas sempre foi um trauma para os mandantes russos, já desde os tempos da defunta União Soviética. Teimavam em existir, contrariando a propaganda do regime, segundo a qual, no reino dos sovietes, não havia desemprego, pedintes nem prostituição.

Moscovo, Hotel Cosmos em 1985

Em 1985, quando passei umas semanas em Moscovo, não vi pedintes mas vi muitas prostitutas. Funcionavam de um modo muito organizado, que incluía acesso fácil aos melhores hotéis e restaurantes da cidade.
Era notório que o esquema abrangia os porteiros e a polícia. Beneficiavam todos das quecas profissionais das senhoras. A única coisa que posso dizer quanto a isso é que, ao menos, pareceu-me que os rendimentos eram distribuídos por bastantes pessoas. Não sei se de um modo equitativo.... afinal de contas, só elas é que davam o corpinho ao manifesto.

quinta-feira, julho 13, 2006

Angola, Cuíto. O orfanato

Das várias vezes que estive no Cuíto, visitei sempre o orfanato da cidade. Se procurava tema de reportagem, aquele era dos fáceis de fazer. Para onde quer que virássemos a objectiva da betacam, havia sempre um “bom boneco” no enquadramento. Era um edifício de rés-do-chão e primeiro andar. Deve ter sido em tempos uma escola, pela traça do prédio. Mas acabou em orfanato, dadas as circunstâncias da guerra. Viviam dentro daquelas paredes dezenas de crianças, de todas as idades. Havia bebés e adolescentes, rapazes e raparigas. Muitos eram deficientes. Físicos e mentais, consoante o estrago feito pela mina ou pelo susto. O edifício era uma ruína difícil de descrever. Podem ver, nas fotos, as paredes esburacadas pelos obuses, remendadas à pressa com tijolo e pouco cimento. No recreio, permanecia espetado no chão o esqueleto de um baloiço.Aqueles miúdos eram sobreviventes. Estavam vivos, depois de todos os outros terem morrido. Escaparam a bombas e minas, a violações e abandonos. A casa era gerida por três senhoras, que diariamente praticavam vários milagres. Era o da multiplicação dos grãos de milho e da farinha de mandioca. Era o milagre dos andrajos para tapar os corpos vivos e o da força para cavar novas sepulturas. Era o milagre da lenha para cozinhar para tanta fome. O Cuíto é uma terra de milagres, disso não tenho dúvidas.

quarta-feira, julho 12, 2006

Congo, Bambilo. Mãe muito velha

Todos os dias, Claudino atravessava a aldeia para chegar à última casa. Era uma habitação redonda, de pau a pique e telhado de palha. Uma casa muito pobre, a precisar de reforma. Vivia ali uma família. Duas irmãs e o filho de uma delas. As velhotas eram mesmo muito velhas, centenárias, o próprio filho já não era um jovem. Era a família mais pobre da comunidade. O homem tinha ficado aleijado há anos e era incapaz de fazer o que quer que fosse para procurar sustento para si e para as duas mulheres. Elas, eram uma imagem terrível. Cegas, muito magras, mal se mexiam.Claudino atravessava a aldeia, todos os dias, para passar umas horas com as velhotas. Pelo caminho, roubava sempre qualquer coisa. Um cacho de bananas, um ananás, uma raiz de mandioca, qualquer coisa que lhes pudesse servir de alimento.
Arrastava as velhas para fora da palhota, para que elas pudessem respirar ar fresco e apanhar um pouco de sol e vento. E ficava ali a conversar com elas. Falavam kizande, nunca percebi uma palavra do que diziam. Mas acho que lhes contava histórias alegres, porque elas riam.

terça-feira, julho 11, 2006

Angola, 1997. No Bailundo

Estive uma vez no Bailundo. Foi em 1997, quando Kofi Annan foi a Angola e viajou até ao Bailundo para conversar com Jonas Savimbi. O que os dois homens disseram um ao outro não sei ao certo, mas estou convencido que Savimbi desperdiçou a última oportunidade de vir a partilhar o poder com José Eduardo dos Santos. Acho que Savimbi não queria partilhar coisa nenhuma, acho que ele considerava ter o direito de exercer todo o poder e não apenas parte. Acho que José Eduardo dos Santos pensava da mesmíssima maneira e, assim, a viagem de Kofi Annan só poderia ser um fracasso político como foi, de resto.Gostei muito daquelas horas passadas no Bailundo. Foi interessante verificar como Kofi Annan tratava Savimbi em público, como se o angolano fosse a pessoa mais importante do Mundo. De certo modo, até era. Pelo menos, naquele momento e naquele lugar, era, de facto. Foi igualmente interessante ver como o povo do Bailundo temia aquele chefe. Nunca antes tinha estado com gente tão silenciosa e de olhos tão em baixo. Foi muito interessante, também, apreciar a arrogância de Savimbi quando, depois de terminada a reunião, foi à varanda do 1º piso mostrar Kofi Annan ao povo e discursou em umbundo. Nem uma palavra em português ou inglês, nem mesmo por cortesia com o convidado ou os vários jornalistas estrangeiros que ali estavam ou, até, pelos jornalistas angolanos que não falassem aquele dialecto.Mas também sei que a tradição ainda é um valor real para os povos que vivem longe das influências globalizantes do Mundo moderno e, por isso, percebo que não se possa confundir a obediência revelada por aquelas pessoas apenas com temor. O respeito pelas hierarquias, o respeito pela idade ou pela fama do outro, elementos da cultura tradicional dos povos bantu, ajudam a uma certa passividade perante o chefe. É um modo de se evitarem conflitos, que funciona desde que não seja o próprio chefe a causá-los.

segunda-feira, julho 10, 2006

Futebol


É assim, em câmara lenta, que também eu gosto mais de ver futebol.

domingo, julho 09, 2006

1998, fronteira Angola-Congo. O Mercedes Benz

A primeira vez que entrei no Congo, foi por aquela ponte. Do lado de lá é Angola. Atravessei a ponte dentro de um Mercedes Benz sem chapa de matrícula, conduzido por um soldado do exército angolano que, à falta de chave de ignição, usava uma ligação directa para por o motor em funcionamento. A caixa de velocidades tinha as habituais 5 mudanças, mas o soldado só usava as duas primeiras. Hábitos estranhos. No lado congolês, em Matadi, havia uma barreira da polícia para fiscalizar veículos e identidades, mas o soldado angolano fez questão de acelerar e furar a barreira, enquanto gritava pela janela. A excursão tinha um único objectivo: mostrar-nos quem mandava ali.
O exército angolano tinha uma base militar em Matadi, no Congo. Dali controlavam boa parte da fronteira e impediam, assim, que a UNITA continuasse a utilizar o Congo como santuário protector. Foi uma táctica inteligente dos generais angolanos que, deste modo, levaram a frente de batalha para fora do território angolano. Em 1998, a UNITA, apesar de ainda controlar a maior parte do território angolano, já não conseguia sair do mato e começava a ter problemas logísticos significativos. Em todo o território angolano, naquela época, a UNITA já só mantinha os bastiões históricos da Jamba, nas Terras do Fim do Mundo e, no Planalto, as localidades do Andulo e Bailundo e pouco mais.
O condutor do Mercedes Benz chamava-se a si mesmo “o soldado inteligente”. Via-se que gostava do poder que aquele volante significava. Reconheci naquele homem, a mesma ganância que já tinha visto (e voltei a ver, até hoje) em directores e adjuntos que, noutras latitudes, fazem coisas aparentadas, apenas porque também gostam do volante do Mercedes Benz que o patrão lhes põe nas mãos.

sábado, julho 08, 2006

Tcheka

“Amizadi fingidu duem
Amizadi fingidu ta due
Di algem ki sta pa mi
Ah! Coraçon fridu…”

Parece uma missa em latim, mas é um bocadinho de uma canção do Tcheka que ouvi, ontem à noite, num concerto na Torre de Belém.
Para quem gosta de blues, foi um momento precioso. Tcheka pertence a um grupo de jovens talentos musicais emergente em Cabo Verde. Com ele, não é só a voz, é também a guitarra e a alma que sobem ao palco.

A primeira vez que o ouvi foi na Cidade da Praia, em Março ou Abril de 2003, na minha última noite, depois de lá ter passado um mês numa acção de formação para jornalistas da televisão caboverdeana. Nessa noite, Tcheka era o “artista convidado” no concerto de outro miúdo, Vadu. Não sei de qual gosto mais.

sexta-feira, julho 07, 2006

Congo. De Land Rover

Durante esta estadia com os missionários portugueses no Alto Congo, fizemos duas viagens de carro. Uma de Bondo para Bambilo: 100 km, em 12 horas. A outra, de Bambilo para Zémio, na República Centro Africana: 200 km, em 48 horas. A velocidade de cruzeiro do velho Land Rover era de 5 a 10 km por hora. Dependia da picada e, principalmente, dependia das pontes que tivéssemos de atravessar. Era muito frequente encontrar árvores caídas a cortar o caminho. Árvores grandes, que morriam de velhice. Toneladas de madeira que tínhamos de cortar em pedaços suficientemente leves para poderem ser arrastados para a berma. Nas pontes, havia problemas de sustentabilidade… ou seja, as pontes eram de madeira, simples troncos deitados a unirem as margens dos rios, às vezes com uma face aparada. Apodreciam rapidamente e era necessário verificar se estariam em condições para aguentarem com o peso do carro. Como frequentemente não estavam, lá íamos nós de machado e serrote em punho cortar umas árvores para refazermos a ponte. Como o norte do Congo é uma imensa rede hidrográfica, de 20 em 20 km havia uma ponte para reparar…

quinta-feira, julho 06, 2006

Congo, Bambilo. Feijoada à brasileira

Já mencionei várias vezes o nome do Odacir Júnior, um dos companheiros de trabalho da SIC. Trabalhámos juntos várias vezes, ao longo dos 11 anos em que estive na SIC, mas só já no final descobri o seu grande talento. Não quero com isto dizer que ele não é um bom profissional, porque é. O Oda tem a vantagem de fazer o que gosta e, portanto, faz quase sempre bem. Além disso é corajoso e sofredor, ou seja, tem o perfil para ser recrutado para missões de sacrifício, onde se come mal e se dorme pior. Estivemos juntos no Sudão, no Congo, na Guiné-Bissau em reportagem e ele trabalhou muitas vezes para o “Casos de Polícia”, programa que apresentei e coordenei durante os três primeiros anos. Sei, sem sombra para dúvidas, que é um bom repórter.
Mas qual é, então, o grande talento do Oda, perguntarão… se olharem para a foto, saberão a resposta.Em Bambilo, em casa do missionário Claudino, o problema não eram só as aranhas, os mosquitos e o calor. Comia-se francamente mal. Peixe bagre seco… um bocado de farinha de mandioca ou de milho ou, em dias mais felizes, um pouco de arroz. O pior era que aquilo que se jantava, repetia-se ao pequeno-almoço na manhã seguinte e acabava-se de comer ao almoço desse dia. Comida fresca, feita de novo, só ao jantar. E, de noite, as baratas davam uma ajudinha para acabar com o farnel. Algumas empanturravam-se de tal modo que já não eram capazes de sair do tacho e acabavam por morrer, ali mesmo, no meio do arroz do pequeno-almoço. Era sempre uma visão feliz, olhar para aquele tacho, às 7 da manhã…
Um dia, o Odacir disse não. Naquele dia, ele iria cozinhar um almoço diferente. Foi ao mercado e comprou um saco de feijão, pôs de molho e cozinhou-o passado umas horas. Sim, era feijão com feijão, uma cebolita e um tomatito. Sem sal. Talvez com umas folhas de liamba para dar sabor… mas foi um sucesso. Em Bambilo, o Claudino nunca comeu melhor.

quarta-feira, julho 05, 2006

Guiné-Bissau. Mentira, arma de guerra

Durante a guerra, os estúdios da RTP África em Bissau eram utilizados pelos membros do governo guineense como se fossem propriedade do Estado. Entravam, usavam e abusavam, do telefone, do tempo de antena e das instalações sanitárias. Aquilo era território conquistado. Naqueles tempos, o delegado da RTP fazia malabarismos para manter a delegação em funcionamento. Sem aquelas instalações operacionais, não teria sido possível cobrir a guerra do modo como foi feito, pelo menos nos primeiros meses do conflito. Mais tarde, já foi possível transportar equipamento para Bissau que permitiu, pelo menos à SIC, prescindir da colaboração da RTP.
Nino também acreditava que beneficiava com a operacionalidade da RTP. Isto é, era pela RTP que ele e outros dignitários do regime tentavam passar a sua mensagem, tanto para os guineenses fora do país como para outros governos e a opinião pública internacional.
O momento que esta foto documenta é de uma conferência de imprensa dada em finais de Julho de 98 pelo tenente-coronel Afonso Té, naquele tempo Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas (umas FA`s que não existiam, na realidade).
O que a foto mais me lembra são as mentiras que Afonso Té disse naquele dia. Convocou a conferência de imprensa para os estúdios da RTP África, para anunciar que as tropas do regime tinham quebrado o cerco de Bissau e que estavam à beira de tomar Brá e o aeroporto. Naquele dia, essa mentira passou. Mas no dia seguinte, quando foi possível verificar a situação real, foi desmentida pelo menos na SIC e no Público.

terça-feira, julho 04, 2006

Congo, ano 2000. Bambilo

Um velho, às vezes, não tem mais de 50 anos. Mas são 50 anos de malária, guerras e fome. Nunca se consegue sobreviver muito tempo a uma conjuntura dessas. Se o mosquito não os mata, é o escorbuto ou a lepra que os consome por fora até ao osso. Se não for a bala é a fome. Vidas inteiras a comer raízes e porrada. Uma brutalidade que nenhum de nós sabe avaliar. Uma brutalidade que ninguém sabe descrever. Chegar a velho é, assim, sinal de grande sorte. Como se tivessem sido escolhidos por Deus.Claudino dedica-se essencialmente aos velhos, à escola e ao posto médico. A escola vai melhor. Cinco palhotas, uma para cada classe e mais uma para sala de reunião de professores que o próprio Claudino formou. Não há livros nem sebentas. A biblioteca é constituída por revistas missionárias já muito antigas, mas sempre fascinantes, porque têm fotografias que são como janelas para um mundo muito diferente.
No posto médico, os medicamentos eram poucos. São trazidos por comerciantes que fazem a pé o percurso desde Bondo até Zémio, na República Centro Africana. Para lá, carregam nas costas carne fumada de elefante, búfalo ou chimpanzé, que vendem nos mercados do lado de lá da fronteira. Para cá, carregam medicamentos, munições para AK-47 ou caçadeiras de chumbo grosso e roupa. Os comerciantes demoram uma semana a ir e outra para voltar. Palmilham centenas de quilómetros e muitos morrem no caminho, vítimas de doença ou de assaltantes. Por isso, os produtos que trazem são caros. Por isso, havia poucos medicamentos no posto médico de Bambilo. Só a caixa dos preservativos estava cheia. “Não gostam de os usar”, disse Claudino.

segunda-feira, julho 03, 2006

Somália 92. Do inferno para o paraíso

Os últimos dias em Mogadíscio foram de grande sobressalto. Tínhamos a sensação de que estávamos a arriscar demasiado. Julgo que esse sentimento foi fortemente influenciado pelo que sucedeu a um companheiro de trabalho holandês, um camera-man da RTL que quebrou psicologicamente. Um dia, resolveu não sair mais para a rua e deixou de conseguir trabalhar. Também nós já fazíamos riscos na parede do quarto…
Aquilo que aconteceu há dias a Martin Adler, tinha acontecido por aqueles dias a um funcionário de uma ONG que, ao recusar um aumento salarial aos seus guarda-costas, foi sumariamente fuzilado à porta de casa. De modo que quando recebemos luz verde para retirar dali, foi um alívio. O drama era sair. A única maneira era apanhar um avião. Ir para a pista e esperar que aparecesse algum avião, civil ou militar, que nos desse uma boleia para qualquer lado do Mundo. Naquela altura, o aeródromo central de Mogadíscio era um local movimentado. A Somália concentrava todas as atenções, políticas e humanitárias, de modo que chegavam a toda a hora aviões carregados com sacas de alimentos e que saíam vazios.

Foi isso que fizemos, com uma particularidade. Não queríamos ir para qualquer lado. Eu queria ir para Mombassa… depois daquele inferno, só queria meter a cabeça debaixo de água no Índico. Demo-nos ao luxo de recusar boleias para Dar-es-Salam, Nairobi, Entebbe. De repente, aterrou um monstro branco com asas enormes. Quando o piloto saiu, perguntei-lhe para onde iria regressar, depois de descarregar os sacos de farinha de milho. O russo tirou uma garrafinha de bolso, abriu-a e inspirou o perfume do whisky. Depois, tomou um trago. Por fim, respondeu-me: Mombassa.
Foi assim que viajamos, eu e o Domingos Mascarenhas, no maior avião do Mundo. O Antonov 225. Com uma tripulação russa que parecia acabadinha de sair de uma história de banda desenhada de Hugo Pratt.
Eram todos estranhos, emporcalhados, arrotavam a whisky e peidavam-se olimpicamente. Mas levaram-nos pelo céu e aterraram suavemente em Mombassa, onde preenchi o meu imaginário com novos sonhos.

sábado, julho 01, 2006

Guiné-Bissau. O bicho feio

Saltinho é o nome de uma queda de água no rio Corubal, no sul da Guiné-Bissau, junto à aldeia de Mampatá, relativamente perto de Bambadinca e Xitole, povoações de média dimensão.
Na curva do rio, a seguir à ponte, existe um clube de caçadores, com quartos e restaurante. Aquelas instalações começaram por ser dos militares portugueses, durante a guerra colonial. Estava ali uma companhia de caçadores, precisamente. Guardavam a única ponte jamais construída em todo o território guineense, o que fazia da estrutura um provável alvo militar. A ponte, de facto, facilita bastante as ligações rodoviárias do sul com o resto do país. No entanto, acho que o PAIGC nunca atacou a ponte do Saltinho. Ainda hoje lá está.As instalações militares, depois da independência, passaram a clube civil. Chamaram-lhe clube de caçadores, talvez para manter a designação. Sempre que fui à Guiné, procurei ter tempo para passar no Saltinho. Do lado de cima da queda de água dizem que há crocodilos e hipopótamos. Não sei, nunca vi. O “bicho” mais horrível que vi, no Saltinho, foi o rabo do Odacir Júnior, numa tarde de paródia.

sexta-feira, junho 30, 2006

O segundo stringer

O outro stringer foi em Angola, no Cuito. A UNITA tinha atacado e cercado a cidade durante 23 dias. Foi o último dos ataques da UNITA no Planalto Central. Depois de falhado o cerco, Savimbi parece ter perdido também a alma…Entrei no Cuito em Janeiro de 1999 com o Renato Freitas. Fomos os primeiros jornalistas a lá chegar. Connosco, à boleia, foi também uma jornalista do Expresso.
A cidade estava um caos. Em 12 de Dezembro de 98, os últimos funcionários civis tinham sido retirados para Luanda. Nem médicos ficaram. Em 16 de Dezembro, a cidade começou a ser bombardeada. Onde quer que as bombas caíssem, morriam pessoas. Havia mais de 300 mil pessoas refugiadas no perímetro urbano. Tinham fugido à frente do avanço da UNITA e ali julgavam-se mais protegidas. Escutei muitos relatos tipo “eram oito, só escapou um”, vi muitas valas comuns abertas logo ali, no local onde os mortos estavam caídos. Por isso, havia gente enterrada na porta das escolas, no quintal das casas, onde quer que fosse.
Chegámos lá no dia seguinte ao cerco ter sido quebrado. Havia combates a 10 quilómetros de distância. Não nos deixaram lá ir. Mas havia um tipo que tinha maneira de apanhar uma boleia até à frente de batalha. Era primo de um comandante militar e vivia ali, era conhecido por todos. Chamava-se Carlos Alberto Miguel e tinha uma pequena handy-cam. Por mil e poucos dólares, ele lá foi. Andou dois dias em cima de um blindado e filmou combates de artilharia, casas a arder, cadáveres na beira das estradas e até um fuzilamento sumário de um prisioneiro.Nós ficámos na cidade, filmámos cenas de outro tipo de violência. Tudo junto, deu um documentário esmagador (intitulado Cuíto, simplesmente, exibido no programa da Margarida Marante), que o José Alberto Carvalho anunciou, no Jornal da Noite, como sendo “a reportagem mais violenta da história da televisão portuguesa”.

quarta-feira, junho 28, 2006

Novidades

Sabiam que existe um novo motor de busca? É europeu e tem uma identificação algo curiosa e que vai fazer sorrir muita gente: http://www.accoona.eu/
Já lá fui e encontrei logo uma notícia relacionada com um dos temas que tenho abordado aqui no blog: a provável existência de uma nova sub-espécie de gorila ou chimpanzé nas florestas do norte do Congo, nas regiões de Bili e Bondo. Quem me lê, sabe que participei numa expedição científica que pretendia deslindar esse mistério, alimentado por testemunhos de quem jura ter visto o animal e vestígios deixados por ele, tais como pegadas, fezes e camas.

o grupo expedicionário, no acampamento, na floresta Makulungo, Bili

Pois, ao ir ao http://www.accoona.eu/ descobri isto

Congo, ano 2000. Claudino

Em Bondo, encontrei outro missionário português. Vivia em Bambilo, a um dia de distância, se a viagem fosse feita de carro ou a cinco dias de caminho, se o percurso fosse feito a pé. Claudino Gomes foi a Bondo para participar na reunião a que já me referi antes e para nos conhecer, também.De todos os missionários que conheci, até hoje, Claudino é o que mais me impressionou. Tenho tido muita dificuldade em falar dele, porque temo ir cometer alguma injustiça em relação a outros. É que eu acho que Claudino deve estar muito próximo da santidade. É que, com ele, a vida não é só abnegação, compromisso, dádiva, sofrimento e rezas. È que ele ri muito. Tem quase sempre um sorriso na cara. Gosta de tocar nas pessoas, abraça-as, pega-lhes ao colo, beija-as. Acho que ele tem um amor genuíno pelas pessoas com quem vive e a quem tenta minorar as dificuldades do quotidiano.
Vou tentar falar dele, nos próximos dias.

terça-feira, junho 27, 2006

Sudão, petróleo vermelho de sangue

Denudado, questionou-me assim, na caixa de comentário do texto de ontem: Carlos, tem a certeza de que os negócios do petróleo sudanês estão em mãos americanas? Eu não tenho a certeza, mas parece-me que não, pelo menos na sua maior parte. Se bem me recordo de uma notícia ouvida há tempos na BBC, o petróleo sudanês está, sobretudo, em mãos indianas. Os chineses parecem ter igualmente alguns interesses petrolíferos no Sudão, o que também não é de admirar.
Bom, escrevo de memória e, portanto, corro o risco de ser pouco rigoroso. Depois de ter sido interpelado por esta presumível imprecisão, fui verificar. Inseri duas palavras no motor de busca do Google: “Sudan oil”. Apareceu-me uma chuva de textos e uma catadupa de nomes de empresas petrolíferas, a saber:
1- ONGC Videsh, da Índia
2- CNPC, da China
3- Talisman Energy Inc., do Canadá
4- Petronas, da Malásia
5- Gulf Petroleum, do Qatar
6- IPC, da Suécia
7- OMV, da Áustria
8- Total/Fina/Elf, consórcio europeu
9- Royal Dutch, da Holanda
10- Shell, dos EUA
11- Chevron Oil Co., dos EUA
12- Arakis Energy Co., do Canadá

Ora, sabia que a Chevron e a Shell estavam no Sudão desde a década de 70, mais ou menos quando se reiniciou a guerra civil entre os do norte (arabizados) e os do sul (negros). E sabia que as empresas ocidentais tinham sido bastante criticadas pela opinião pública, devido a essa colaboração com o regime sudanês. Boa parte das receitas da exploração desse petróleo foi encaminhada para a compra de armas, o que significa que também as empresas de armamento ocidentais lucraram com a situação.

Aprendi, agora, que boa parte dos interesses ocidentais na exploração petrolífera no Sudão foi, realmente, adquirida pela CNPC da China.
O súbito desenvolvimento industrial chinês transformou uma sociedade rural num imenso consumidor de recursos naturais e, assim, a China virou-se para África, o continente onde esses recursos e a corrupção existem ainda em abundância.
A China e o Sudão são, hoje, fortes aliados comerciais e políticos. O Sudão é, de resto, beneficiário do maior investimento externo chinês, maior mesmo que o que está a ser realizado em Angola. Depois da Guerra Fria, África volta a estar no centro da disputa entre duas super-potências, desta vez com a China a substituir a extinta URSS no confronto com os EUA.
A China é o principal fornecedor de armas do Sudão (alguns exemplos estão patentes nas fotos deste texto). Há meia dúzia de anos atrás, o Sudão não tinha nenhum batalhão de blindados ou sequer mecanizado, não tinha aviação nem artilharia de longo alcance. Hoje, as forças armadas sudanesas dispõem de tanques, caças bombardeiros, helicópteros, lança mísseis e sei lá o que mais, tudo Made in China, como as t-shirts da Zara…

segunda-feira, junho 26, 2006

Sudão, o velhaco Omar

A primeira vez que entrei no Sudão foi, como já disse aqui antes, num voo clandestino entre a localidade queniana Lokichokio e uma pista improvisada algures nas Montanhas Nuba.
O voo era clandestino, porque estava proibido pelo governo sudanês que, já há anos, tinha o espaço aéreo fechado inclusivamente para voos humanitários.
Já naquela altura, em 1999, o governo sudanês proibira todas as agências humanitárias, mas todas mesmo, de actuarem nas Montanhas Nuba. Um governo que age assim, não se importa que o povo morra de fome, doença ou violência. A proibição decretada agora, para a região do Darfur, não é novidade, portanto. O pretexto de que as Nações Unidas transportaram um líder rebelde e que, com isso, teriam violado a soberania sudanesa, é mais uma vergonhosa chantagem de um governo que apenas pretende manipular politicamente os factos e usar as necessidades prementes do povo como moeda de troca.
É nojento que a ONU tenha de negociar com bandidos deste calibre e é nojento que a comunidade internacional reconheça a um governo destes qualquer tipo de legitimidade institucional.
Há no Darfur, segundo estimativas da ONU, mais de 2 milhões de refugiados, extremamente dependentes da ajuda humanitária. Podemos somar mais 1 milhão de Nubas e mais algumas largas centenas de milhar no sul do Sudão, e temos a maior crise humanitária em curso no Mundo a ser manipulada cinicamente por um poder enriquecido pelas expropriações dos territórios tradicionalmente pertença das comunidades tribais negras e pelos negócios do petróleo, nas mãos das empresas petrolíferas norte-americanas.
Porque será que impedir a ajuda humanitária a populações carentes não é crime? A decisão do velhaco Omar el Bashir provoca centenas de mortes por dia.

domingo, junho 25, 2006

Para memória futura

Em 7 de Outubro próximo, em Bayeux, França, vai ser inaugurado um memorial a todos os jornalistas mortos no desempenho das suas funções. O nome de Martin Adler constará, infelizmente, desse rol de horror e estupidez.
O memorial será composto por um passeio com pedras brancas, onde vão figurar os nomes dos jornalistas que, desde 1944, foram mortos um pouco por todo o mundo. A recolha da informação está a ser feita pela organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF). Para que seja prestado um tributo ao maior número possível de jornalistas, a RSF apela a quem tiver informações sobre jornalistas mortos (nome, local de trabalho, data e local onde ocorreu a morte) para que as envie para o e-mail memorial@rsf.org. Os dados recebidos serão confirmados antes dos nomes serem inscritos nas pedras do memorial.

sábado, junho 24, 2006

Congo, ano 2000. Philippe

Já vos contei que Alfredo Neres é um homem de fibra. Penso mesmo, de resto, que a maioria das pessoas que o rodeavam eram tipos corajosos. Ter coragem era condição sine qua non para se estar ali. Eram, todos eles, tipos esforçados e dedicados à causa. Mas nunca tive a noção exacta do que era aquela causa, até ter falado com o chefe daquele posto missionário, Philippe Nkiere Kena, um congolês do sul, nascido numa aldeia perto da fronteira com Angola.Philippe era bispo, um príncipe da Igreja Católica. E portava-se como tal. Penso que enfrentava as adversidades e as armas de fogo com uma serenidade só possível quando se tem a certeza de que os outros nos temem, mesmo aqueles que empunham as tais armas de fogo.
Fiz-lhe uma pequena entrevista, que já não me lembro se incluí no documentário realizado para a SIC, mas que publiquei na revista dos missionários Combonianos, a Além Mar. Foi uma conversa curta e, portanto, lê-se em dois minutos… lembrei-me, agora, que esta entrevista que vos convido a ler, serve de resposta a uma questão que me colocaram no passado dia 4 de Fevereiro, num comentário a um texto: "Estes homens e mulheres estão espalhados por toda a África. A igreja católica tem desempenhado um papel útil, em África, a meu ver, em tempos ferozes...Quero lá saber se vêem na Senhora de Fátima uma entidade animista, o que era bom é que ela servisse para de alguma forma unir povos. Tens tido imenso contacto com estes missionários, por todo o lado, já percebi. Gostava de saber a tua opinião sobre isto; sobre o papel que poderiam desempenhar numa espécie de pedagogia da união, se é que isso faz algum sentido." Pois, a resposta está, realmente, na entrevista que podem ler nos arquivos da Além Mar.
Philippe Nkiere Kena tem uma grande dimensão humana. A igreja reparou nisso, obviamente, e já tratou de o promover. Se, um dia, houver um papa negro há-de ser alguém como este Philippe.

sexta-feira, junho 23, 2006

Congo, ano 2000. O lar em Bondo

A maioria das pessoas tem um medo de morte de aranhas e outros bichos rastejantes. A casa em Bondo era uma espécie de santuário de aranhas e térmitas. Havias duas espécies de aranhas, qualquer delas grandes… assim, do tamanho de metade da mão de um homem. Bastante grandes, para aranhas…Uma das espécies, a mais abundante por sinal, pareceu-me aparentada com tarântulas. Eram umas aranhas felpudas, escuras, com abdómem inchado e, algumas, carregavam ovos no dorso. Não me pareceu que vivessem em teias, preferiam antes os cantos mais escuros e frescos da casa, especialmente atrás das portas. Morria de medo daquilo e, sempre que me deitava, olhava primeiro para debaixo da cama, porque achava que se elas se deitassem comigo me poderiam morder… mas nunca me fizeram mal. De resto, os missionários disseram-nos que faziam questão em não lhes tocar. Eram uma espécie de vacas sagradas, porque comiam os mosquitos, esses sim, muito mais perigosos por causa da malária.
Quando me deitava, à noite, punha os sapatos em cima da cama, por cima do lençol, porque tinha medo que se ficassem no chão alguma aranha poderia considerá-los uma boa residência e, de manhã, ao enfiar o pé… a bicada mortal! Além disso, tentava prender o mosquiteiro por debaixo do colchão, de modo a proteger-me melhor de alguma aranha que quisesse escalar a cama.
Enfim, um tormento. Levei muitos dias a habituar-me aquela convivência.

quinta-feira, junho 22, 2006

Congo, ano 2000. A vida em Bondo

Os missionários dispensaram-nos uma das suas casas, num dos bairros periféricos de Bondo. Não era uma mansão, como se vê pela foto, mas tinha o conforto mínimo: cama com mosquiteiro e um balde furado para servir de duche. Quanto à água, era preciso ir buscá-la a um poço ali perto. Foram umas semanas divertidas. Quando não estávamos a filmar, ficávamos por casa. A miudagem do bairro depressa dava pela nossa presença e o descanso virava algazarra. Os miúdos nunca se cansavam de brincar connosco. Às vezes pediam coisas, mas nunca insistiam muito. E o que eles mais pediam era precisamente aquilo que mais falta me fazia: papel de escrever e lápis… A porta não tinha fechadura, mas nunca desapareceu nada.As refeições eram na missão católica, com todos os outros padres. Em Bondo há, também, uma casa de madres missionárias, todas africanas curiosamente, mas homens e mulheres não se misturam, conforme manda a tradição. Excepto em ocasiões especiais… como foi o caso de uma reunião que se realizou em Bondo, por aqueles dias, com dezenas de convidados vindos de vários lugares do norte do Congo, onde eles discutiram os problemas das comunidades a que pertenciam e delinearam tácticas de actuação. Quando havia muitos convidados, as freiras viravam donas-de-casa e dedicavam-se a cozinhar… Nunca passamos fome, mas comemos mal muitas vezes. A comida era assegurada por um dos acólitos, um branco italiano que vivia ali em regime de voluntariado e que se dedicava a caçar e a organizar a pesca, de modo a garantir o sustento de um numeroso grupo de padres e freiras. Às vezes, o homem não caçava nada. Macaco era quase garantido… e, um dia, até uma águia foi parar à panela para uma bela canja… a pesca também dependia da sorte da faina e, naqueles dias, em plena época seca, o rio corria com pouca água e o peixe escasseava. A faina era realizada por uma família de pescadores locais, a quem os padres forneciam os apetrechos a troco de uma percentagem do pescado. Só que, às vezes, o peixe era tão pouco que os pescadores ficavam com tudo e ainda passavam mal. A penúria alimentar da população era evidente na escassez de alimentos postos à venda no mercado. Dezenas de bancas vazias, algumas com uns peixes do rio, volta e meia aparecia alguém com uma gazela morta a tiro ou um macaco caçado com arco e flecha, umas senhoras vendiam vegetais e era tudo para uma população de milhares de pessoas. Uma pobreza danada numa terra cheia de ouro e diamantes.

quarta-feira, junho 21, 2006

Congo, ano 2000. Bondo

Ao final da tarde, Bemba voltou para o seu avião e levantou voo de regresso a Gbadolite. Só então, Neres e os miúdos da escola puderam respirar de alívio. Fiquei ali, com o Odacir Júnior. Bondo é uma pequena cidade no norte do Congo, na Província Equatorial. A localidade teve o seu auge nos anos 50, quando foi um dos principais entrepostos comerciais da região. Foi ali que se estabeleceram três principais comunidades. Os belgas eram os donos da terra, exploraram grandes fazendas de café. Os gregos e os portugueses dedicavam-se ao comércio. Os locais trabalhavam para os brancos… claro. Julgo que Bondo chegou a ter largas centenas de brancos residentes. Também foi ali que a Igreja Católica estabeleceu um grande centro missionário. Pela dimensão das instalações e pelo número de celas (quartos), acredito que Bondo deve ter tido dezenas de missionários que, a partir dali, pregavam a fé pelas aldeias vizinhas. Cinquenta anos depois, Bondo ainda revela esses sinais da antiga importância social e administrativa. Ao longo das duas ruas principais, as antigas lojas de gregos e portugueses ainda lá estão, embora já sem gregos nem portugueses e, também, sem nada que se possa comprar ou vender, excepto numa onde se compra ouro e diamantes. É, de resto, a única loja que permanece aberta, no largo do mercado. De todas as antigas lojas de portugueses, há uma que ainda exibe um velho letreiro publicitário metálico, pintado com as letras “Casa Nogueira”. A ferrugem vai acabar por dissolvê-lo, mas no ano 2000 ainda lá estava. Em frente ao mercado, a catedral. Construída nesses anos 50, feita de tijolo cozido ao sol, é uma construção imensa para os padrões locais. Quando lá estive, não tinha telhado. Mas sei que já o reconstruíram, entretanto. Preferia ter encontrado um hospital em condições, confesso. O hospital de Bondo, que também é gerido pelos missionários, estava limpo. Limpo de pó e limpo de equipamentos, de pessoal médico, de medicamentos. Apenas as paredes tinham resistido às consecutivas pilhagens proporcionadas pelos avanços e recuos dos exércitos em conflito na guerra civil. Ainda assim, era ali que havia algum apoio para a população, nomeadamente para parturientes e doentes com malária. Mete raiva pensar que as sociedades desenvolvidas desperdiçam tanto e que, ali, em locais como aquele, a única coisa que se desperdiça é boa vontade e sorrisos.

terça-feira, junho 20, 2006

Nino. Alguma coisa correu mal...

Como foi que uma criança socialmente favorecida se transformou num ditador implacável?
Ou o relato do senhor Augusto Veiga da Cunha, no Correio da Manhã de ontem, não é fiel aos factos?
“…No final dos anos 40, quando estudava em Bissau, na Guiné natal, o seu companheiro de carteira era nada mais nada menos do que João Bernardo Vieira, o mesmo que durante a luta pela autodeterminação da Guiné-Bissau veio a ganhar a alcunha de guerra de ‘Nino’ – e que mais tarde chegaria a chefe de Estado, primeiro pela força das armas e, mais recentemente, em eleições legitimadas pela comunidade internacional. Um miúdo, na altura – mas um miúdo em quem era já possível encontrar o esboço do líder em que mais tarde viria a tornar-se”.

em Bissau, 1998

O relato passa a discurso directo: “Eu era de Nova Lamego, actualmente chamada Gabú, na região de Bafatá. O meu pai, que nascera em Amarante, trabalhava lá como farmacêutico desde os anos 30. E eu gostava de África. Passava parte do meu tempo em Portugal, mas quando estava na Guiné acompanhava sempre os negros. Dava-me muito bem com eles, não havia diferença entre nós. Foram os melhores anos das nossas vidas, como a minha mãe sempre dizia, e quando fui para a escola, ‘Nino’ Vieira ficava ao meu lado. Era um bom aluno, muito respeitador dos professores e dos colegas. Ficávamos nas filas da frente e os professores davam-nos mais atenção a nós do que aos outros rapazes. E ‘Nino’ já revelava uma certa personalidade. Um carácter forte, determinado, sem racismo nenhum. Quando me vim embora, ele, como outros, pediu-me várias vezes que não viesse, que ficasse ali a viver com eles.”

segunda-feira, junho 19, 2006

Ainda sobre os mais velhos

Em muitas sociedades indígenas, e mesmo em sociedades modernas mas pouco desenvolvidas em termos industriais, o papel dos velhos é da maior importância. Ninguém sabe mais do que eles. Pelo que tenho lido, mas também pelo que tenho assistido, a sobrevivência de muitos povos depende dos ensinamentos que os velhos transmitem. Talvez seja por isso que, em muitas dessas sociedades, a idade não tem importância. Tomei consciência disso mais do que uma vez. Por exemplo, quando estive com Dorinda Cunha, no sul do Sudão, a missionária serviu de intérprete nas entrevistas que fiz com a população de Marial Lou, a aldeia dinka onde Dorinda vivia e, numa dessas entrevistas, a dada altura perguntei à senhora com quem falávamos que idade ela tinha. Dorinda hesitou e não fez a pergunta. Virou-se para mim e disse: “Eles não sabem. Isso não tem importância nenhuma”.No sul do Sudão, importante era saber com alguns dias de antecedência quando ia chover, o tempo suficiente para preparar o chão e deitar-lhe as sementes, importante era, também, perceber a tempo quando algum animal estava doente de modo a evitar a contaminação da manada, importante era ter muitos filhos e saudáveis e saber cuidar deles e ensinar-lhes a conversar com os deuses, as marcações dos rituais, o manejar da AK-47. Tudo coisas que os velhos sabem melhor do que ninguém.
Só nas sociedades nómadas e nas industrializadas, os velhos se tornam empecilhos. Nos nómadas, porque não conseguem acompanhar o andamento do grupo. Nas industrializadas, porque convencionou-se que o tempo é dinheiro e, assim, como a maioria de nós não tem dinheiro, acabamos por não ter tempo para os nossos velhos. E porque pensamos que não temos nada para aprender com eles.

domingo, junho 18, 2006

Esta tarde, no Martim Moniz

“Custa 1 euro”, dizia ele, mostrando a capa. Vendia pouco, mas ele parecia mais preocupado em conversar com os “clientes”. Eu comprei. Nunca soube dizer que não aos meus instintos solidários. O que é uma chatice, principalmente quando o mês já vai longo… Mas o boletim nº34 do SOS Racismo vale o euro que o José Falcão me cobrou. O editorial interessou-me bastante. Fala em vários assuntos, o último dos quais aborda a questão das políticas relacionadas com a imigração. Sou português e branco, mas conheço o outro lado da questão. Sei bem como é difícil para um estrangeiro e negro encontrar emprego que não seja balconista de centro comercial ou nas várias serventias, que pode ser a lavar chão ou a carregar baldes de cimento. E é por isso que concordo com o editorialista do referido boletim, quando ele escreve que “para os imigrantes a aquisição da nacionalidade (portuguesa) é apenas uma forma de colmatar as muitas deficiências da cidadania, eles não têm particular interesse em ser portugueses, eles têm sim todo o interesse e necessidade em ser cidadãos de pleno direito”. Falcão lá andava, a vender ideais, esta tarde, no Martim Moniz.

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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