O José Milhazes publicou, no seu blog, uma história onde fala da presença de militares soviéticos a combater ao lado das tropas governamentais angolanas durante a guerra civil. Milhazes resume um livro que leu (e que eu adorava ler, também) intitulado “Tropas Especiais Russas em África” e menciona a participação de conselheiros militares soviéticos nos combates em Cuito Cuanavale, a “Estanilegrado angolana”.De todas as vezes que andei por Angola confesso que nunca vi nenhum soldado soviético em combate. No entanto, vi vestígios e ouvi vários testemunhos relativos à presença deles. Depois da queda do muro e da desintegração da URSS, houve até russos e ucranianos que foram contratados para combater ao lado da UNITA. Em 1999, na derradeira ofensiva de Savimbi contra a capital do Bié, a cidade do Cuito, os blindados da UNITA eram pilotados por brancos eslavos de nacionalidade incerta. Alguns morreram na batalha de Kunge, no planalto sobranceiro ao Cuito. Estive lá, vi os blindados destruídos, vi as campas onde os brancos foram enterrados e vi os restos das fardas que vestiam. E falei com quem os matou, simples soldados rasos, tipos sem manhas políticas nem qualquer interesse aparente em contar histórias aldrabadas.

Curiosamente, no livro de Alcides Sakala (que já referi aqui), “Memórias de Um Guerrilheiro”, não vi nenhuma menção à presença de mercenários russos nas hostes da UNITA. Nem todas as verdades são para serem reveladas… sabe-se lá porquê. Sakala menciona várias vezes a participação de pilotos brasileiros nos bombardeamentos a populações afectas à UNITA, mas nunca mencionou a presença de russos combatentes.Em 1998, conheci outros conselheiros militares que participaram activamente na guerra como combatentes, mas eram portugueses. Sim, militares portugueses enviados para Angola em missões de cooperação, supostamente para instrução militar, participaram muito activamente na guerra. Não vou referir nomes, por questões óbvias. Não seria bom para mim, nem para esses homens. Mas, pelo menos, posso dizer que eram oficiais, tenentes, capitães e majores, do (à época, extinto) Regimento de Comandos, que não se limitavam a treinar a tropa especial angolana. Esses militares portugueses tinham um estatuto especial, nitidamente. Andavam sempre de camuflado, tinham sempre uma kalashnikov debaixo do banco do carro, conduziam veículos do exército angolano e nunca eram mandados parar pela polícia.
Uma noite, um desses capitães deixou-nos um recado. Tínhamos um jantar combinado, mas ele teve de se ausentar repentinamente. Quando voltasse telefonaria. Telefonou 6 dias depois. Sobre o que tinha andado a fazer ou onde tinha ido, pediu-nos para não lhe fazermos perguntas, porque ele nada nos poderia dizer. Pareceu-me bastante cansado e stressado.






De modo que ainda lá está e, agora, depois desta vitória eleitoral, com legitimidade reforçada. Bush já não deve saber o que há-de fazer, só lhe falta tentar os métodos do amigo Putin.
Todas estas casas têm dono. A Câmara Municipal podia, e devia, responsabilizar esses proprietários pelo estado de degradação dos edifícios e, em caso de recusa ou impossibilidade deles repararem esse património, então ele deveria ser recuperado coercivamente e a propriedade passar, também coercivamente, para a câmara. É que, esse património, embora tenha dono, pertence à Humanidade desde há 20 anos…




Conheço vários casos em que pessoas negras foram rejeitadas para determinadas funções porque “seria mau para o negócio”. Ora, se isto não é racismo, não sei o que será. Revela o preconceito do empregador, provavelmente consequência do preconceito generalizado na população.






Estavam mais de 70 pessoas a ver televisão, esbugalhados, a olhar para um velho documentário da BBC. Às vezes riam-se muito, outras vezes comentavam entre si o sucedido na pantalha. Era uma experiência partilhada com muito entusiasmo, curiosidade, atenção e alegria. Sei que, hoje, desde que haja energia, as sessões de televisão repetem-se em Bili, no norte do Congo. Em Santo Tirso é que já não (excepto quando joga o fêquêpê).
A televisão, como entretenimento inodoro, faz sono. Mesmo as notícias não substituem a realidade. Não se limitem a conhecer o mundo por essa falsa janela.
Agora, transponham esta história que acabo de relatar para a actualidade. Uma outra potência invade um estado bastante mais fraco, sob o pretexto de ir livrar a população da opressão exercida pelos dirigentes políticos locais. Tudo acaba numa chacina inútil, em que ninguém se dá ao trabalho de contar as dezenas de milhar de mortos de um lado, mas sabe-se com exactidão que já morreram 2.263 marines do outro lado. Tudo isto, finalmente, apenas para controlar os “armazéns de marfim”…
Um dia destes andei de metropolitano, de novo. Aproveitei para um tour pelas novas linhas e estações (embora já estejam feitas há anos, para mim são novas). Foi bom, até que apareceu um cego tocador de sanfona, com uma caixa de esmola pendurada. O homem entrou na carruagem e tocou… tocou… tocou… volta e meia, entoava o refrão “Olhó ceguinho!! Ajuuudem o ceguinhoooo!...”. Insistiu durante uma boa parte do trajecto. Angariou alguns cêntimos e, depois, mudou de carruagem. Também saí… no corredor em direcção à superfície, havia outros tocadores de miséria. Uns sentados em banquinhos, outros no chão exibindo mazelas físicas. Tal e qual há 20 anos. Não mudou quase nada, afinal de contas.

