Uma vez até tentei retratar um tipo…
Estivemos duas semanas imobilizados em Gbadolite. Esperávamos autorização de Jean Pierre Bemba para seguirmos para Bondo, onde queríamos fazer parte de uma reportagem sobre missionário portugueses em cenários de guerra (de que aqui já escrevi bastante).
Fomos alojados pelo MLC num bloco de apartamentos onde, segundo percebi, costumavam ficar os oficiais do grupo rebelde que iam a Gbadolite “a despacho”, receber as instruções do chefe. Não éramos os únicos clientes. Estavam lá, também, uma senhora, comerciante de pedras preciosas, dois russos ou ucranianos, tripulantes do avião de Bemba e um outro tipo que não percebi o que fazia na vida. Mas, de todos, nós éramos os únicos com direito a almoçar na mesa do Estado-Maior de Bemba. O próprio Bemba nunca apareceu mas, enfim, a comida era razoável.
Um dia, depois do almoço, vimos entrar um anão no edifício, para uma reunião com Kamitato, um dos secretários de Bemba.Via-se que era um tipo importante, pelo modo como os outros o tratavam. Pensei que seria por ser anão… que houvesse alguma crença local relacionada com esta insuficiência física, mas não. O anão era mesmo “homem grande”. Chamava-se Nzenanga Mobutu e era, tal como o nome denuncia, familiar próximo do antigo ditador zairense. Era o seu irmão mais novo.
Deixo-vos com o retrato possível do pequeno senhor. Não tinha a máquina fotográfica comigo e pensando que não teria outra oportunidade, rabisquei em segundos a expressão de Nzenanga. Hoje, olhando para o rabisco, acho que ficou longe da realidade…

Os cangulos, esses, são todos iguais. De madeira e pesados. Os roboteiros (não descobri porque lhes chamam assim…) trabalham sem horário e só param quando não têm mais clientes. Estes homens (nunca vi uma mulher roboteira) passam o dia a empurrar os cangulos, sempre por pouco dinheiro. Não vale a pena aumentar a tarifa, porque a clientela não tem mesmo como pagar mais… além de que a concorrência existente nesta actividade impossibilita que os preços subam.
É que há sempre alguém disposto a fazer o frete por menos uns kuanzas. É a perfeição do sistema capitalista, da lei da oferta e procura. Irónico, não é?
Mas acontece com muita frequência, podem crer. Estive na cidade apenas duas semanas e vi isso acontecer mais do que uma vez. Isto é, vi aquela malta a fugir da polícia com a tralha às costas, uma vez no bairro Azul, outra na estrada que atravessa o bairro da Koreia. E se fugiam, por alguma coisa seria…
Os zungeiros compram os produtos nos armazéns dos chineses, a preços muito baixos, e procuram revender, depois, pelas ruas, procurando um mínimo de margem de lucro, apenas o suficiente para comer naquele dia e, no dia seguinte, voltar a comprar outra traquitana qualquer para revenderem de novo.
Quem tem a sorte de morar à beira de uma rua mais movimentada, monta banca mesmo na porta de casa.
É assim, um dia de cada vez…
Mesmo agora, em tempo de cacimbo, a chuva é rara em Luanda, apesar do céu ameaçador.
A primeira impressão foi de estupefacção… há oito anos que não ia a Angola. Depois da guerra ter terminado começaram a escrever nos jornais que Angola é uma terra de futuro, que a economia está em expansão, que os negócios vão de vento em popa. Assim, ao fim de oito anos, julgava que ia encontrar sinais novos dessa realidade nascente. Mas disso vi muito pouco. Dois ou três prédios altos em construção na Mutamba, a baixa da cidade, um viaduto rodoviário no cruzamento em frente ao aeroporto, outro na Samba, mais um (pedonal) no Prenda. Quase nada, no meio de milhões de barracas.
É em barracas que vivem os funcionários do estado e dos privados, é em barracas que vivem os milhões de desempregados da cidade. Quase todos vivem em barracas, alguns ainda habitam os prédios degradados da cidade colonial, alguns estão a conseguir mudar para as periferias onde já existem vários bairros novos de má construção e péssima planificação.
Bairros onde só existem casas e nenhum serviço de apoio, onde a farmácia mais próxima fica a 20 quilómetros de distância, ou a mercearia, ou a estação de serviço, ou a escola para os filhos. Conheço gente que já mora ali e que tem de sair de casa às cinco da manhã, para estar às oito no emprego, no centro da cidade.
Os engarrafamentos são monstros do lusco-fusco. Ao final do dia, fechados nos carros de portas trancadas e vidros corridos (e com medo dos ladrões) demora-se outras duas horas para atravessar o Rocha Pinto (um dos maiores bairros da lata de Luanda) e chegar à casa suburbana. Aquela “África” do gin às 5 da tarde… em Luanda, já quase não existe.
Também acho que os moradores do centro histórico poderiam fazer alguma pressão no município para que alguma coisa fosse feito com urgência.
No mínimo, limpar as casas do lixo acumulado e dos escombros de madeira no interior.Afinal de contas, estamos a falar de um centro histórico classificado como Património da Humanidade pela UNESCO…

Se somarmos o lixo aos barrotes de madeira apodrecida que sustentaram telhados e que hoje estão caídos, temos ali, em cada uma daquelas casas abandonadas, um óptimo alimentador de incêndios.
É difícil dizer o que senti quando vi aquela cidade esculpida na pedra pelos homens, vento e água. Como se pode fazer uma coisa tão espantosa como aquela?
Dizem os canhenhos que chegaram a viver ali 50 mil pessoas. A cidade existe desde o século V a.C., mas há ali perto vestígios de ocupação humana da Idade da Pedra. Hoje é um deserto, mas lindo de morrer.
Dizem os mesmos canhenhos que a desertificação humana ficou a dever-se ao desvio das caravanas de comerciantes que passaram a optar por outra rota e deixaram de passar por ali. A mim parece-me que terá havido outro motivo, que estará ligado com mudanças climáticas ou, pelo menos, com o desaparecimento de água. Petra foi um sítio com muita água, basta olhar para aquelas pedras… e, hoje, não tem uma gota.
Roma foi um grande Império, de facto. Petra é a evidência do génio que construiu esse Império e a prova que nada dura para sempre. Tal como tudo que existe, também os Impérios começam a morrer logo no dia em que nascem.
No final do dia, descansámos da canseira de calcorrear Petra, com um narguilé à moda antiga… foi perfeito.
O que Zanzibar sempre quis foi ser independente, mas as suas riquezas sempre atraíram os gananciosos. Foi por isso que os portugueses também por lá andaram aos tiros de canhão. A ilha foi um dos centros de disputa entre Portugal e Oman, entre os séculos XVI e XVIII, até que Portugal foi corrido de vez e outros se instalaram.
Hoje, Zanzibar pouco mais é que um excelente resort turístico. Very tipical, povo simpático q.b., arquitectura oriental, canhões portugueses e condução automóvel pela esquerda.
... lembro-me de ter ficado fascinado com as portas das casas. As portas, feitas à mão, lindíssimas.
Também é interessante ir para as roças e entrar mato dentro, sentir o cheiro das árvores da baunilha ou da canela… e tentar perceber que aquilo, as especiarias, em tempos idos, foi a mola propulsora para o expansionismo mercantilista branco europeu, isto é, o capitalismo.
Anos antes tinha estado
Agora, Malindi é a prova de que há homens que colocam o dever e a busca da riqueza acima de tudo. É que Malindi é o paraíso… Dom Vasco tinha ali tudo o que um homem poderia querer. O rei local recebeu-o de braços abertos e, de resto, foi aliado dos portugueses durante quase um século. Dom Vasco, representante do rei de Portugal, homem poderoso, em Malindi deve ter saciado todas as fomes que o inquietavam (menos a tal ânsia pelo poder) e, ainda assim, foi capaz de abandonar aquele paraíso… Dom Carlos teria ficado, disso tenho a certeza.





Será que nos enganámos todos, quando desejámos tanto a independência de Timor? Foram razões do coração e não da razão que, dessa vez, influenciaram toda a comunidade internacional? Outro australiano, Don Watson, conselheiro de um antigo primeiro-ministro da Austrália, disse que considerava "ser preferível viver debaixo de uma ocupação impiedosa do que num Estado falhado”, referindo-se a Timor.
Muzungo só gostava de apanhar peixe-tigre. Depois de morto, o bicho, por vezes maior que a canoa de Muzungo, tinha de ser rebocado para a aldeia, onde era aberto e limpo para poder secar ao sol. Chamam-lhe “cabalao”, quando está seco…
O rio também tem crocodilos, que também comem peixe. Crocodilos e homens disputam o mesmo prato e é por isso, acho eu, que não se dão bem. Dizem os homens que o crocodilo é uma reincarnação de um espírito maligno. Não sei o que dirão os crocodilos…
Os homens vão para o rio de manhã cedo, ainda quando tudo está escondido pelo nevoeiro. Um nevoeiro espesso, branco, que parece fumo a sair da água. A essa hora, os crocodilos dormem.


A escola pública onde a minha filha estuda fecha as portas na próxima 2ªfeira. Isto é, as aulas já acabaram há umas semanas, mas a empresa que assegurava a Ocupação dos Tempos Livres dos miúdos também vai de férias. Assim, a escola fecha. Assim, 
Cresceram analfabetos, mas num ápice conseguem desmontar e montar uma kalashnikov. São fiéis à tribo e aos seus homens importantes.
Ao todo, há 33 candidatos presidenciais e 9.500 candidatos a deputados… os boletins de voto têm 8 páginas. A maioria dos 25 milhões de eleitores é analfabeta e vê o Mundo à dimensão da tribo… o que se poderá esperar destas eleições, senão um imenso logro e uma tremenda confusão?
Lenin Oil, Pedro Rosa Mendes e
Para se chegar ao abismo da Tundavala, é preciso fazer cerca de 15 quilómetros por estradas de terra batida desde a cidade do Lubango. Acho que não há quem não os faça. Ir ao Lubango e não ir à Tundavala, é pior que ir a Roma e não ver o Papa.
Só lá estive uma vez, em 1986. Fui ao Lubango com o Paulo Dentinho. Lá fizemos parte de três episódios da série “Os Que Não Voltaram”, que a RTP exibiu no ano seguinte, se a memória não me falha.
De modo que, quando fomos levados à Tundavala por um dos portugueses que viviam no Lubango (um dos tais que não voltaram), ele chamou-nos a atenção, disfarçadamente, para o chão. Era um terreno arenoso, de areia clara. Enterrou a biqueira do sapato e, lentamente, trouxe à superfície uma cápsula de bala de kalashnikov. Durante o resto do tempo que passámos ali, eu e o Paulo dedicámo-nos a desenterrar mais cápsulas, disfarçadamente. Eram muitas. Eram a evidência dos fuzilamentos que se fizeram ali, à beira daquele precipício. Já nos tinham dito que, lá em baixo, no fundo da ravina com mais de mil metros, estavam muitos corpos de vítimas da violência política. Tínhamos duvidado mas, a partir daquele dia, passámos a acreditar.
