Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











quinta-feira, outubro 19, 2006

Porque não se aguenta com tamanha estupidez, vamos lá fazer alguma coisa por estas desgraçadas que tiveram o azar de nascer numa sociedade horrível

Parisa, Iran, Khayrieh, Shamameh, Kobra, Soghra e Fatemeh são sete iranianas condenadas à morte por lapidação, acusadas de adultério!

foto de Doug Beasley

A Amnistia Internacional está a tentar travar a execução.

quarta-feira, outubro 18, 2006

Os pândegos

As 50 maiores apreensões de marfim da última década foram de marfim proveniente de Angola. O marfim em questão foi apreendido em 12 países, em diferentes acções policiais, e consta de um relatório recentemente publicado pelo WWF (Fundo Mundial da Vida Animal).
Pela lei angolana, nada impede a comercialização de marfim de elefante, malgrado tratar-se de um animal protegido por convénios internacionais. É assim que é relativamente fácil encontrar peças de marfim à venda nos mercados de artesanato em Luanda, principalmente em Benfica e na Ilha ou nas lojas dos hotéis da capital angolana.

Elefantes em estado selvagem existem, ainda, em 37 países africanos e Angola é o único que não assinou a convenção CITES (Convention on International Trade in Endangered Species).
Antes da guerra civil, segundo dados do WWF, havia mais de 10 mil elefantes no território angolano. Hoje, ninguém sabe bem, mas o WWF contou 246… durante muitos anos, a UNITA foi acusada de devastar as reservas de animais selvagens por necessitar de alimentar as suas tropas de guerrilha e para traficar o marfim dos elefantes. Dizem, (quem se lembra?) que o avião que se despenhou na Jamba com João Soares (filho de Mário Soares) caiu porque estava sobrecarregado com dentes de elefante que a UNITA traficava para a África do Sul. Não sei se é verdade… sei que vários generais das FAA (Forças Armadas de Angola) iam aos fins-de-semana de Luanda para a Kissama realizar safaris de helicóptero, com metralhadoras pesadas, com que chacinavam tudo o que mexesse… uns autênticos pândegos.

Acabo de arranjar casa em Paris

É o que vale ter amigos emigrados.

terça-feira, outubro 17, 2006

Onde é que já ouvi isto?...

Quando sou eu a dizer, ninguém parece ligar. Mas, agora, que uns peritos norte-americanos disseram o mesmo, espero que os medíocres empresários nacionais da comunicação reflictam sobre o que andam a fazer.Vem tudo na edição de hoje do DN, na secção media, onde num artigo sobre “os nove truques que fazem vender jornais”, pode-se ler, às tantas, que o idolatrado lucro tem dois caminhos para lá se chegar, “cortar custos ou aumentar investimento. Tem-se cortado, cortado, cortado, mas não se tem investido para aumentar receitas, alertam os especialistas, acrescentando que é tempo de investir em pessoas, papel, produtos, promoções e produção. Os custos irão crescer, mas não se pode manter margens para sempre, agindo como canibais."
A mim despediram-me quando disse rigorosamente o mesmo, em Janeiro de 2003.

domingo, outubro 15, 2006

A Vanda e Muhammad Yunus

Raramente escrevo aqui sobre assuntos que são notícia estafada pelos jornais, rádios e televisões no Mundo inteiro… mas como dizer não a uma irmã que nos trata por maninho?

“Maninho,
Como sabes o Prémio Nobel da Paz foi atribuído ao Prof. Yunus e ao banco Grameen. Sugiro que faças um pequeno texto sobre o tema para o teu Blog ... Ficava lá bem, as Instituições de Microcrédito estão presentes em todo o mundo, da Noruega a Timor, mas com especial incidência nos ditos Países em Desenvolvimento, e em todos os PALOP.
Como sabes estudei muito este assunto (relacionando o mesmo com o Desenvolvimento Rural) e envio-te uma fotografia para a ilustração.
Aqui fica a sugestão,
beijos e abraços,
Vanda”
Esta foto de Timor faz parte do espólio dos afectos desta minha irmã que, um dia, para lá foi ensinar português e por lá deixou a alma… a causa de Timor foi, de resto, a mais bela causa colectiva que os portugueses foram capazes de levar a bom porto.
O Professor Yunus é, pois, um homem especial. Tão especial que vai utilizar o dinheiro do prémio para construir um hospital oftalmológico e uma empresa para fornecer alimentos a pessoas pobres no Bangladesh.

sábado, outubro 14, 2006

Reencontro

Nem queria acreditar, quando abri esta mensagem que estava na minha caixa de correio electrónico…

"dear carlos,

just got a link to your blog of a friend of mine from the states. i wanted to say "hallo".how is life, what are you up for these days?

only the best,
wolf"

foto de Wolf Boewig

Lembram-se deste post? Alguém que o leu, algures no Mundo, serviu de ponte para este “reencontro”. Mesmo virtual, não deixa de ser comovente.
Se quiserem conhecer o trabalho deste fotógrafo, o link também vinha na mensagem.

sexta-feira, outubro 13, 2006

na página 11

da Revista Além Mar deste mês, sou eu que escrevo. Entrem no sítio, à esquerda do ecrã cliquem na secção ContraPonto.

quinta-feira, outubro 12, 2006

Óleo de palma

Primeiro, os miúdos da aldeia são enviados para o mato escalar as palmeiras. Lá no alto, com as catanas cortam os cachos de frutos das palmeiras, uma espécie de nozes de casca dura.
Depois, é necessário descascar as nozes. Usam pedras. Uma grande e lisa, para servir de apoio e outra menor, como martelo.Só depois os frutos são colocados numa mó para serem esmagados. Tudo à força de braço... Depois de esmagado, tudo aquilo é fervido dentro de um bidão colocado sobre uma fogueira. Esta é a fase mais difícil de suportar, por causa do cheiro gordoroso, nauseabundo, que exala da fervura...

Dessa fervura escorre um óleo avermelhado que, juntamente com a água da fervura, é então separado dos resíduos sólidos. Depois, finalmente, basta tentar separar o óleo da água, aproveitando o facto de serem líquidos de densidades muito diferentes. Quanto menos água o óleo tiver, melhor.


É assim que se produz óleo de palma, um tempero culinário utilizado em muitos países africanos, tanto em pratos de peixe como de carne. Eu gosto.

domingo, outubro 08, 2006

Bombolón

Ouvi-os “falar” em diversas ocasiões, na Guiné-Bissau e no Congo. Sei que existem em muitos outros países africanos e, segundo julgo, até na Ásia. Nesta era de comunicação e de informação, é paradoxal que seres humanos ainda comuniquem entre si desta maneira: tocando tambores.
Na Guiné-Bissau chamam-lhes bombolón. Havia, em Bissau, uma rádio privada que se chamava Rádio Bombolón que desempenhou um papel essencial de apoio às populações durante a guerra civil. A rádio é, de facto, em muitos países africanos, o bombolón dos tempos modernos.

na Guiné-Bissau

No Congo, na aldeia de Bambilo, onde vivia o missionário Claudino Gomes, era através do tambor que se chamavam os fiéis para a celebração da missa. Às seis da manhã, na penumbra húmida da floresta, o som propagava-se quase sem interferências e ouvia-se em todos os recantos da aldeia.
O curioso é que o som destes tambores imita bem o som da voz humana. Chamar-lhes tambores também não deve ser o termo mais correcto. De facto, não são bem tambores, mas antes cilindros ocos de madeira, como as caixas de ressonância dos instrumentos de corda. Pelo que pude perceber, os troncos são escavados de modo a que a parede tenha diferentes espessuras e, portanto, a percussão exercida resulte em diferentes sons e tons, mais ou menos cavos, mas espantosamente semelhantes ao falar humano.
Lembro-me do Claudino me traduzir o que dizia o tambor… em dialecto kizande…
… zaamm – bé – bem – gá – ná – dá –kôo… Nzambe benga na ndako… Deus chama-te a casa… se a memória não me falha.

no Congo

Naquelas aldeias do nordeste do Congo, os tambores falantes são diariamente utilizados para as comunidades comunicarem entre si as novidades. Quando algum caçador mata um animal grande e há carne fresca para vender, quando algum pescador apanha um peixe-tigre, quando alguém encontra um diamante no rio, quando há visitas nalguma aldeia da região, coisas assim.

sábado, outubro 07, 2006

O reptilário (em festa)

Há 14 anos atrás, a SIC dava-se a conhecer, com a Alberta Marques Fernandes (a apresentar um noticiário intercalar a meio da tarde), com uma reportagem da Cândida Pinto sobre o deflagrar dos conflitos em Luanda e, pouco depois, na estreia do célebre programa Praça Pública, com uma reportagem minha e do Carlos Aranha sobre a seca no Alentejo. Mais tarde, o José Alberto Carvalho, no Jornal da Noite…
Hoje, nenhum destes protagonistas está lá. Não estamos lá, nem (logicamente) fomos convidados para a festa pimba com que a SIC pretendeu maravilhar o povoléu. Nem nós, nem qualquer um dos outros de quem o patrão se livrou nos últimos 4 anos.

A verdade, de qualquer modo, é que os trabalhadores já há muito que deixaram de participar nestes festejos da empresa. Deixaram de ter motivos, ou vontade, para tal. Cansaram-se do Bolo Rei e do Moet Chandon. O patrão, hoje, só conta com as "estrelas"... e, mesmo essas, pelo menos uma boa parte, apenas por dever de ofício.
O ambiente de trabalho, na SIC, está um deserto.

quinta-feira, outubro 05, 2006

Um tipo diz que o Papa João Paulo I foi assassinado. E escreveu um livro.

O livro foi apresentado hoje, na FNAC do Colombo. Não teve muita gente, o autor deve ter assinado uma dúzia de exemplares, por aí. Assinou o meu. Para um livro que está a vender como pãezinhos quentes (nº2 no ranking da FNAC), achei meio estranho. Talvez a editora Saída de Emergência (também desconhecia…) não se tenha aplicado o bastante na divulgação do evento…

Agora, talvez queiram saber porque falo neste livro… primeiro, porque acho extraordinário que este livro, que é apresentado como obra de ficção, chame todos os bois pelo nome próprio. Isto é, Albino Luciani é o Papa João Paulo I, Paul Marcinkus é o arcebispo norte-americano que dirigia o Banco do Vaticano, Roberto Calvi é o banqueiro italiano conhecido como o “Banqueiro de Deus” e que foi encontrado enforcado debaixo de uma ponte em Londres, depois da morte do Papa, Lúcia dos Santos é a “nossa” irmã Lúcia, entre outros personagens que participam na história.
Este livro, portanto, antes de tudo o mais, é um acto de coragem. Depois, porque me apetece. Vou ler o livro e depois vos direi o que penso da trama.

Ecos das Terras do Fim do Mundo

Menongue, 04/10 - O vice-governador da província do Kuando Kubango para a Organização e Serviços Comunitários, Francisco Manjolo, apelou terça-feira, em Menongue, a população a manter-se vigilante durante o processo eleitoral.

A agência Angola Press fazia, assim, eco das preocupações do vice das Terras do Fim do Mundo. Esta notícia provocou-me dúvidas de todo o género. A vigília do povo, naquela parte do Mundo, destina-se prioritariamente à busca diária de alimentos e a evitar pisar as minas semeadas pelos campos… O vice quer o povo vigilante, falou (segundo o eco) em educação cívica, dedicação, imparcialidade, exemplo, transparência, respeito e competência… enfim, tudo aquilo que, aposto, ele não tem mas exige aos outros.

Em 1998 estive no Menongue. Uma terreola pobre perdida na planície e, naquela época, praticamente isolada do resto do Mundo. Cheguei lá em cima de um camião do PAM (Programa Alimentar Mundial, agência da ONU), escoltado por blindados pintados de branco (UNAVEM II)… O camião arrastou-se a 20 quilómetros por hora e sofreu sérias avarias mecânicas por duas vezes. Todas as pontes existentes entre Huambo e Menongue já tinham morrido em combate… o que fazia com que aquela viagem só fosse possível no cacimbo, quando não chove. Foram três dias muito penosos e duas noites de muito frio, a dormir debaixo do camião, alumiado por fogueiras e aquecido pelo whisky que a generosidade do motorista fez com que chegasse para nós também. Como faz frio naquele ermo em Agosto…
Pelo caminho fomos constantemente espiados por homens armados, maltrapilhos de kalashnikov à bandoleira. Sem a escolta das Nações Unidas jamais teríamos chegado ao destino. O Kuando-Kubango era, de facto, terra da UNITA. As povoações da província ou estavam destruídas e completamente abandonadas ou viviam cercadas e abastecidas por avião desde Luanda. Era o caso de Menongue.
Para sair de lá, foi preciso pedir boleia a um piloto cubano de um avião-tanque. Nunca tinha voado numa coisa assim: um Boeing 727 que do cockpit para trás era apenas um imenso tanque de combustível. Era assim que o governo angolano abastecia as tropas e as populações dispersas pelo país. Angola era uma espécie de arquipélago, cada cidade uma ilha rodeada de mato…
De Menongue tenho memória da indigência colectiva e da prepotência da autoridade local. Adivinho que, hoje, pouco tenha mudado. Ninguém muda assim tanto em tão pouco tempo.

quarta-feira, outubro 04, 2006

Pão quente

Já escrevi sobre Renato Kizito aqui e, também, sobre Nairobi. Mas o velho missionário tem uma obra vasta. Hoje, vou falar-vos do Kivuli Center, um abrigo para crianças de rua. É lá onde Kizito mora, num quarto com vista sobre o pátio onde os miúdos brincam no intervalo das aulas. Dezenas de crianças encontram ali uma casa. Não encontram uma família… embora Kizito seja pai e mãe daquela malta.

Renato kizito

Os miúdos têm roupa decente para vestir, têm educação escolar e religiosa, alguns ainda têm a sorte de aprender uma profissão às custas de patrocínios que Kizito procura obter incessantemente. A falta de dinheiro é a maior aflição do missionário. Dar de comer a dezenas de rapazes, vesti-los e calçá-los, manter o edifício de pé e com um mínimo de goteiras possível, custa uma fortuna.


Um dia, Kizito teve uma ideia brilhante. Engatou um amigo de infância, padeiro de profissão, a ir passar uns meses a Nairobi. Já reformado, tempo não faltava ao velho padeiro. Kizito teve o cuidado de o prevenir sobre as condições em Riruta, o bairro degradado onde vive. Mas o amigo foi.
O padeiro italiano ensinou os miúdos mais velhos a fazer pão. Belos cacetes de pão italiano que passaram a ser vendidos à porta do Centro, na rua enlameada. O negócio foi um sucesso. O problema, então, passou a ser como garantir os fornecimentos de farinha e fermento, de modo a não falhar na produção.


Agora, já sabem. Se forem a Nairobi e se vos apetecer pão quentinho e estaladiço, têm de ir a Riruta, um dos imensos bairros de lata de Nairobi. Os carros dificilmente entram nas ruelas do bairro, mas não há que enganar. Terão de caminhar e… seguir o cheiro a pão fresco. Garanto-vos que será uma experiência e tanto.

terça-feira, outubro 03, 2006

Capitalismo medíocre

Em vez de despedir, reduzir os salários de todos os trabalhadores, é o que propõe a administração do jornal Público. O jornal não dá lucro e o homem mais rico de Portugal não parece disposto a continuar a ser bom samaritano…
Mais uma vez, fica à mostra a total ausência de percepção do papel social de um jornal. Os patrões da comunicação social apenas pensam no lucro… quando um jornal, uma revista, um canal de rádio ou televisão têm de ser encarados muito para além do negócio da venda de papel ou de espaço publicitário… implantar um órgão de comunicação social devia obrigar a um compromisso social. Um jornal não é uma fábrica de aglomerados, sr.Belmiro…

Ainda assim, a proposta de reduzir salários, segundo o que li na Lusa, parece-me ser o mal menor… mas preferia ter lido que o empresário e o director do jornal tinham acordado numa nova estratégia expansionista, que tinham decidido partir à conquista dos milhões de pessoas que, todos os dias, olham para o jornal no escaparate dos quiosques e não o compram…
O Público não vende o suficiente, parece… mas é, de facto, o jornal de referência para muitos de nós. É verdade que isso acontece numa lógica de exclusão de partes… não havendo melhor, contentamo-nos com aquilo… o que só reforça a ideia de que o Público tem muito caminho para andar, sr.Belmiro.

Por este andar, o jornal corre o risco de passar a ser feito pelos amiguinhos do director e pelos afilhados do patrão, os únicos que serão protegidos nesta fase de escolher os dispensáveis. Nunca foi o melhor critério de selecção de recursos humanos, mas é o mais usado...

segunda-feira, outubro 02, 2006

Bomba Alta

A fotografia é de um sítio que se chama Bomba Alta, um nome curioso para um centro médico dedicado a vítimas de minas terrestres. Fica nos arredores do Huambo, uma cidade que já foi o “coração” de Angola.
Em 1997 andei por Angola a filmar uma grande reportagem a que chamei “Sementeira do Diabo”. Contei histórias de vítimas de minas terrestres, as “sementes do diabo” como também são chamadas.
Na Bomba Alta havia um técnico de próteses alemão. Ele falava português muito bem, apenas com um sotaque engraçado. Falou-me numa coisa tremenda… disse que as minas anti-pessoal matavam maioritariamente crianças. Explicou-me que quando um adulto pisa uma mina fica sem uma perna, ou sem as duas, mas sobrevive. Uma criança, de tamanho menor, quando pisa uma mina fica cortada ao meio. Eram raras as crianças que sobreviviam.

domingo, outubro 01, 2006

O elefante

Ao contrário do que muitos pensam de mim, o Fred não tem nada contra o Dr.Balsemão ou o Expresso nem nunca trabalhou na SIC. Portanto, nunca foi despedido da Impresa, embora já tenha passado pelos tratos de polé de outros impresários do género. O que o Fred tem é boa memória… e, se calhar, é por isso que continua desempregado.
Na foto, o Dr.Balsemão ri (talvez para não chorar...) rodeado de sobras do Expresso...

sábado, setembro 30, 2006

A bolacha

Vim agora de uma aula de Políticas de Cooperação, onde ouvi o professor perorar as razões porque os excedentes alimentícios da Europa e da América do Norte não podem ser doados aos países pobres de África. Isso iria criar ainda maior dependência desses povos, fomentar a preguiça, distorcer os mercados internacionais, blá blá blá.Ouvia o homem e "viajei" para... Baidoa, Somália, 1992.
Eram três e estavam sentados no chão, virados uns para os outros. Os três eram daqueles meninos de ventre inchado e pernas fininhas. O mais velho teria 5 anos de idade, não mais que isso. Era ele quem segurava a bolacha. Os outros dois olhavam-no esbugalhados, suspensos em cada gesto das mãozinhas ossudas. Com a esquerda, partia a bolacha em pedacinhos muito pequeninos e, à vez, metia na boca dos parceiros e na sua própria, também, um pedacinho de bolacha. Gestos repetidos, meticulosamente. A bolacha durou uma rodada, outra rodada, ainda vi uma terceira. Era tudo muito lento, como se aquela bolacha tivesse de durar muito tempo. Não vi a bolacha chegar ao fim. Não fui capaz.
Políticas...

sexta-feira, setembro 29, 2006

Como ninguém escreve notícias sobre isto, escrevo eu. Mais um "Congo post"

Os partidos que apoiam a candidatura de Joseph Kabila para a presidência do Congo decidiram unir-se também para a formação do novo governo do país. Kabila terá que disputar uma segunda volta das eleições, no próximo dia 29 de Outubro, com Jean Pierre Bemba, mas, seja lá quem for o presidente eleito, o primeiro-ministro sairá da coligação que apoiou Kabila.O que quer isto dizer? Que o poder instituído está a fazer tudo para se perpetuar, claro. Kabila joga tudo o que tem, para derrotar Bemba. Bemba pertence à maior etnia congolesa (a mesma do antigo ditador Mobutu) e, por isso, tem suficiente apoio popular para amedrontar Kabila (que herdou o poder, depois do assassinato do pai, com apoio militar fornecido por Angola).
A união de todos os partidos que apoiam Kabila consegue um total de 257 deputados, numa assembleia de 500 lugares. Isto é, Bemba terá 243… por exclusão de partes.
Entretanto, decorre já a campanha para as eleições regionais… cuja votação decorrerá em simultâneo com a 2ªvolta das presidenciais, em 29 de Outubro.
Esta “chuva” de eleições no Congo é uma imposição internacional. Para que se realizem com um mínimo de segurança, estão no país perto de 20 mil soldados estrangeiros (alguns portugueses) sob mandato da ONU. Ninguém duvida que só assim os actos eleitorais puderam ser preparados e realizados. Mas a dúvida é o que vai acontecer depois… depois dos “capacetes azuis” voltarem para casa. É que este jogo democrático, se não for aceite plenamente, acaba por não resultar.

quarta-feira, setembro 27, 2006

Flagrante delito

De que riam estes tipos? Hoje, passados 7 anos, já nem sei…
Ele tinha razões para rir. Sabia que ia vencer as eleições, as primeiras verdadeiramente livres na Guiné-Bissau. Ele ia concretizar um sonho impossível de realizar, mesmo numa república das bananas… e estava prestes a transformar-se num logro político. Koumba Iala revelou-se politicamente incompetente e fez da guerra civil, que derrubou Nino Vieira, uma oportunidade perdida…
E eu, de que ria? Lembro-me que acreditava naquele tipo. Tinha que acreditar, quando via as multidões convencidas, porque pensava que não era possível tanta gente estar enganada. Eu queria mesmo que Koumba tivesse dado certo. Pelos guineenses… porque não é justo um povo ter de viver assim, como eles vivem.
Foi uma merda de um engano...

segunda-feira, setembro 25, 2006

O Comboio de Deus

Gosto de ler livros assim: meticulosos, descritivos, verdadeiros. Livros que me levam a ver, realmente, lugares que nunca visitei e a conhecer pessoas com quem nunca estive. O livro que vos mostro aqui é um desses… é um livro de viagens do autor através de quatro países muçulmanos: Indonésia, Irão, Paquistão e Malásia. Muçulmanos mas não árabes. Uma viagem onde descobrimos pessoas concretas, com problemas verdadeiros e sonhos comuns. Sendo que são todos muçulmanos. Ao conhecermos estas pessoas, aprendemos o que eles pensam sobre a vida e, claro, sobre a religião. Beyond Belief não será a obra prima de Naipaul… mas é um livro muito interessante. Não sei se está traduzido em português.

O Pedro Rosa Mendes já me tinha falado naquela viagem de comboio. Julgo que a fez em lua de mel… tinha-me falado com entusiasmo no comboio pachorrento que atravessava as montanhas, desde Quetta até Rawalpindi. 48 horas sem catering… a comida cozinhada em pequenas fogueiras acesas no chão das carruagens… as longas paragens nos apeadeiros no meio de nenhures, os túneis, o serpentear à beira dos precipícios, as seis rezas por dia… tudo isso fez-me apanhar esse comboio também. O Pedro chamou-lhe "o comboio de deus" e eu cheguei a pensar que iria fazer uma reportagem nesse comboio. Mas não fiz. Não me apeteceu.

Fiz boa parte da viagem sentado na borda da carruagem, com as pernas para fora. Foi ali que o tipo me encontrou. Wolf Boewig, franco-alemão, repórter fotográfico. No palavra-puxa-palavra descobrimos que tínhamos um amigo comum. Precisamente o Pedro Rosa Mendes, com quem o Wolf fez vários trabalhos de reportagem, de resto.
Foi nesses longos dois dias que falamos de Naipaul. Eu já tinha lido um outro livro dele, A Curva do Rio, um retrato fabuloso da história recente pós-colonial do Uganda. Umas semanas depois de ter regressado do Paquistão, Wolf enviou-me pelo correio o Beyond Belief, com a desculpa de que tinha dois livros e, portanto, dispensava-me um deles. Dentro do livro, uma fotografia tirada num campo de refugiados birmaneses na Tailândia.

A foto está na parede da sala, o livro na estante. Nunca mais vi o Wolf, mas jamais esquecerei tanta capacidade de partilhar.

sábado, setembro 23, 2006

Eleições no Congo (sei que ninguém liga a isto, mas a mim interessa-me...)

O que se passou em Angola, em Outubro de 92, parece ir repetir-se agora em Kinshasa.
A segunda volta das eleições pode nunca chegar a realizar-se… ontem, um incêndio destruiu a sede da campanha do principal rival do presidente Kabila e, logo, os apoiantes de Bemba acusaram os apoiantes do presidente da autoria do atentado.
Se foi atentado, é certo que foram os tipos de Kabila… apesar de ter vencido na primeira volta, com 48% dos votos, Kabila preferiria, estou certo, não ter de arriscar uma segunda volta. O risco de perder é real… é mais que garantido que a maioria dos que combateram o regime dinástico dos kabilas irão, agora, votar contra ele…O paralelismo com o que se passou em 92, em Luanda, é mais do que evidente… Bemba, tal qual fez Savimbi então, também lançou acusações de fraude na contagem dos votos da 1ªvolta. Kabila, tal qual fez José Eduardo dos Santos, utiliza a força do Estado para se proteger…
A 1ªvolta decorreu em 30 de Julho. Depois dos resultados terem sido divulgados, em 20 de Agosto, já morreram 23 pessoas (pelo menos) vítimas da violência política. Ainda assim, o processo eleitoral parece que se mantém e a 2ªvolta deverá realizar-se agora, em 29 de Outubro.
A comunidade internacional, como sempre, só quer que as eleições se realizem com um mínimo de dignidade. O que interessa, acima de tudo, é que dali saia um poder com alguma legitimidade, nem que seja só aparente…
Tenho a certeza, pelo que já vi em processos idênticos, que a batota é forte e aproveita a todos. Mas, no final, as aparências terão de ser mantidas e haverá um porta-voz dos observadores internacionais a proclamar a “transparência” do processo e a “liberdade” com que os votantes exercitaram a função…

nota: gosto especialmente desta foto, que tirei num comício em Bissau, nas primeiras eleições depois da guerra civil.

quinta-feira, setembro 21, 2006

Outro furacão

Em 1997 propus ao Director-Geral da SIC a realização de um documentário sobre a travessia do Oceano Atlântico à vela. A oportunidade de atravessar o Atlântico tinha surgido através de um anúncio colocado num expositor da Associação Nacional de Cruzeiros. Tinha entrado em contacto com o dono do veleiro, havia ainda três vagas, para uma tripulação de sete. Tínhamos apenas de comparticipar em pequenas despesas no aprovisionamento. A minha ideia era fazer um documentário-aventura sobre a travessia. A coisa iria passar-se em pleno Inverno…
Largámos de Lagos em meados de Novembro… já com alguns dias de atraso em relação ao calendário previsto. A meteorologia não era nada favorável. Havia frentes sucessivas que vinham de sul para norte, chovia a potes, tudo desaconselhava a saída para o mar. Mas o calendário pressionava-nos. Quase toda a tripulação era gente que tinha tirado férias para embarcar naquela aventura. Tinham um mês de férias. Poderiam faltar, talvez, mais uns dias além disso. Mas não era possível esperar indefinidamente, sob pena de ficarmos sem metade dos tripulantes. De modo que, ao fim de cinco dias de espera, o skeeper deu ordem de largada. E lá fomos enfrentar a borrasca. O mar metia medo. O primeiro dia foi um tormento que, para mim, terminou quando deixei de resistir à agonia do enjoo. Prostrei-me no beliche e deixei-me ficar ali. Nos raros momentos de lucidez, apercebi-me que o temporal desabava sobre o veleiro de 14 metros. Houve momentos em que dei comigo suspenso no ar, entre o beliche e o tecto, quando o barco caía do alto das vagas. Havia barulhos tremendos e cheguei a pensar que o barquito se ia partir. Ressuscitei ao fim de três dias. Comi metade de uma bolacha Maria e senti-me reviver. Apercebi-me então que, de toda a tripulação, apenas três se tinham aguentado satisfatoriamente. O velho John, o skeeper (um verdadeiro lobo do mar), O Zé Santana e o Pedro Laginha. Eles aguentaram o barco em cima de água, mas contaram-me que houve um momento em que eles próprios tinham desistido. Fecharam o barco de modo a impedir ao máximo a entrada de água, recolheram totalmente as velas e deixaram o barco à deriva… contaram-me que o vento tinha chegado aos 120 km/hora e as vagas eram altas como prédios de 7 andares.
Depois do furacão passar, o resto da viagem foi maravilhosa. Demorámos 26 dias a chegar à Martinica, nas Caraíbas.
O documentário? Dei-lhe o título “Navegar”… tinha 40 minutos, em duas partes. Era lindo de se ver. Por várias razões, foi uma história contada com amor. Mas o Rangel considerou que “não fazia o género da SIC” e meteu-o numa gaveta. Em 2001 ou 2002, a Cândida Pinto (quando foi directora da SIC-Notícias) quis exibi-lo na programação de Verão… mas o arquivo não foi capaz de encontrar a 2ªparte… perderam a cassete… acreditam nisto?

quarta-feira, setembro 20, 2006

O furacão

O furacão passou ao lado e, ao contrário do que se temia, poucos estragos fez nos Açores.
Ainda bem, claro. Esta história do furacão trouxe-me à memória a minha primeira ida aos Açores, em 1985 ou 1986, já não me lembro bem. Fomos lá filmar alguns episódios de uma série documental que fiz, na RTP, a meias com o Paulo Dentinho: Linhas de Pesca. Histórias de pescadores. Toda a série foi filmada pelo António Hipólito que, na altura, fazia também uma outra série documental chamada “O Mar e a Terra”. A equipa técnica era comum às duas séries, os temas intersectavam-se, acabamos por colaborar com o Hipólito nos trabalhos de “O Mar e a Terra” e, em troca, ele formou-nos (a mim e ao Paulo) no mergulho com escafandro. Foram anos de ouro para mim, vividos ao ar livre, quase sempre no mar.


Estávamos, então, no Corvo. Era suposto ficarmos lá 15 dias em filmagens. Correu tudo bem, até ao 14º dia. Aí começou a ventar. O céu continuava azul, a água do mar sempre quente, mas o vento endiabrou-se. A Ilha não tem cais acostável e, portanto, com mar picado, o barquito que faz as ligações do Corvo com a Ilha das Flores deixou de ir. A alternativa era o avião da Força Aérea, um pequeno Aviocar, aparelho capaz de aterrar nos 500 metros da pista de terra batida. Mas sem vento… e, assim, o avião também não aterrava. O vento soprou durante 15 dias. Nunca choveu, nem nada. Não fez frio. Não houve nenhum temporal. Era só vento… mas o suficiente para deixar uma ilha isolada, uma população inteira (300 almas…) à espera. Os corvinos não estranhavam. No Inverno é bem pior, claro. Chegam a estar meses sem conseguirem sair da ilha. Vive-se ali um tempo longo, sem ampulhetas.
De modo que, agora, imagino que lá devem continuar, resignados, fechados naquele pedaço de terra, a ver o furacão passar-lhes ao lado.

terça-feira, setembro 19, 2006

Luanda revisitada (não aconselhável a narizes mais sensíveis)

Quando a estação das chuvas recomeçar (e já não falta muito…) a cólera regressará, também, a Angola. Tudo irá acontecer, de novo, em Luanda e, rapidamente, a doença se espalhará pelo país. Isto não é nenhuma maldição, apenas uma previsão lógica pelo que constatei agora.Há demasiado lixo em Luanda, apesar de se estar a fazer um esforço para o remover para a periferia. Há remoção de lixo do centro da cidade, é verdade. Também é verdade que é feito com imensas deficiências, sem equipamento adequado e, pior que tudo, a lixeira (a céu aberto) fica demasiado perto da cidade e ainda mais perto dos novos bairros periféricos para onde os aspirantes a burgueses se estão a mudar.

Mas persistem os esgotos a céu aberto, as valas de águas residuais, muitas casas de construção precária não têm instalações sanitárias e, assim, há uma multidão que defeca diariamente na via pública. Um ecossistema perfeito para o vírus da cólera…Se bem se lembram, no início deste ano uma epidemia devastou Luanda e espalhou a doença por todo o país. Na última contagem de que tenho memória, falava-se em dois mil mortos e dezenas de milhar de doentes. O governo angolano começou por rejeitar ajuda, nomeadamente a portuguesa, dizendo com arrogância que tinha capacidade para resolver a situação… mas, em pouco tempo, estendeu a mão aos cheques da União Europeia (3 milhões de €, se não estou em erro…), da China, da Rússia e esmolou médicos às ONG internacionais.A cólera é uma doença altamente contagiosa que se transmite através da água, manifestando-se por vómitos e diarreia, o que provoca desidratação grave e, por fim, a morte. Água suja é, portanto, caldo alimentador do vírus. E, por isso, impressionou-me ver, diariamente, centenas de mulheres e crianças a "lavar" roupa num esgoto a céu aberto (é a 4ªfotografia) que corre do Futungo para a Samba, a caminho do mar…

segunda-feira, setembro 18, 2006

As aparências iludem

Até pode parecer que ando a organizar a papelada da minha vida, mas não. Acontece que, volta e meia, remexo nas coisas e “descubro” velhos episódios…
Agora, encontrei o passepartout que o SPLA emitiu quando fui ao Sudão pela 2ª vez.
Estava num dossier, no meio de papelada diversa onde predominam documentos relacionados com a minha saída da SIC em 2003. Essa é uma outra história que vos contarei um dia destes…

O interessante sobre este documento do SPLA é o carimbo que o autentica. Em tinta roxa, certifica-se que o documento que me autorizava a viajar foi passado pelo Sudan Relief and Rehabilitation Association, uma ONG sedeada em Nairobi, no Quénia, que alegadamente se dedicava às crianças órfãs da guerra civil sudanesa. De facto, a sede da SRRA era a “embaixada” do SPLA no Quénia. Era, ainda, através desta ONG que o SPLA administrava boa parte do dinheiro doado pelos seus amigos ou aliados para a sustentação da guerra.Foi fácil obter este documento, sem o qual não teria conseguido viajar. Foi fácil porque quem solicitou a autorização foi a Igreja Católica, através da Diocese de Rumbek, uma cidade importante no sul do Sudão, cujo Bispo, um italiano, vivia refugiado em Nairobi.
Às vezes, encontramos apoios onde menos se espera, não é?

A segunda foto é um recuerdo dessa viagem. À minha direita está Dorinda Cunha, a heroína dessa história que contei num documentário intitulado "Missão Impossível", exibido na SIC, trabalho que mereceu o prémio Jornalismo Contra a Indiferença atribuído pela AMI.

sexta-feira, setembro 15, 2006

Luanda revisitada. Enjaulados

Quase cinco anos depois da guerra ter terminado (Savimbi foi morto em Fevereiro de 2002), contava encontrar menos população em Luanda. Isto é, julgava que tinham implementado algum programa para levar os milhões de refugiados que se abrigaram na capital de volta para as suas terras de origem. Acreditava que o estado angolano teria preparado alguns incentivos para tornar esse retorno viável, tipo dar terra arável e alfaias às famílias de agricultores, sementes, algum gado, mesmo até algum dinheiro para que as pessoas pudessem reiniciar os modos de vida perdidos pela guerra.

Mas não… falaram-me que Luanda já tem mais de 5 milhões de habitantes e, por isso, tornou-se num sítio caótico e perigoso. Do caos já aqui falei um pouco… da perigosidade, enfim, basta ver como ainda se vive na cidade: janelas gradeadas, portas de aço, guardas armados no interior dos quintais. Há casas que mais parecem jaulas.

É verdade que nada disso é novo. Em 1998, depois de um mês de hotel, decidi sugerir ao meu director que me deixasse alugar um apartamento… era três vezes mais barato para a empresa (no caso Impresa) e cem vezes mais agradável para mim. Aluguei um T3, num 2ºandar no bairro da Maianga. A nossa varanda era a única que não tinha grades. Todas as outras, até ao 5º piso, estavam defendidas por barras de ferro. Para entrar em casa tinha de abrir cinco portas, quatro de ferro e uma de madeira. Cheguei a pensar que, se um dia houvesse um incêndio no prédio, ninguém se salvaria na atrapalhação de ter de fugir através de cinco portas trancadas… O medo da bandidagem vem de longe, como podem ver. E com milhões de habitantes a viver na maior indigência, não vejo como a situação poderá melhorar no futuro. A verdade é que a pobreza é uma boa desculpa para a criminalidade, embora os maiores criminosos angolanos não sejam pobres…
O pior é que nada mudou substancialmente. Até parece que a guerra não acabou.

quarta-feira, setembro 13, 2006

Luanda revisitada. Baía cloaca

Em 1997 fiquei um mês e tal alojado no Hotel Meridien Presidente, em Luanda. É o edifício mais alto de Luanda, mesmo em frente ao porto, com vistas sobre a baía, o mar e a cidade que seriam deslumbrantes se aquilo fosse bonito de se ver. Só que não é… para além dos musseques, do pó no ar, a baía de Luanda está tão poluída e maltratada que olhar para aquilo mete nojo.

Nesse ano, lembro-me de uma tarde em que estava no bar do hotel e escutei uma conversa entre dois tipos que negociavam um “esquema” de ambos ganharem dinheiro.
Um era angolano e o outro estrangeiro, branco, com sotaque de inglês. O branco tinha navios velhos para vender ao preço de quase novos, o preto ia encarregar-se de falcatruar as papeladas e encontrar quem comprasse os navios. Acabei por não perceber de que tipo de navios falavam eles, se seriam barcos de pesca ou cargueiros, graneleiros ou porta-contentores, mas para o caso pouco importa.Agora, nestas férias que fiz em Luanda, dei uma volta de barco pela baía… e, lá estavam eles, os navios acabados vendidos ao bom preço de quase novos. Uns afundados, outros semi-submersos, outros tombados de bordo, outros comidos pela ferrugem, todos sem préstimo nem valor. São dezenas de navios que alguém pagou e pouco usou. Imagino que tenha sido o estado angolano… porque não acredito que algum privado tivesse embarcado naquilo. Mas aposto que todos aqueles navios pertencem a empresas estatais, empresas governadas por corruptos amealhadores de comissões e pouco interessados no bem comum.
Luanda liquefaz-se na baía. As escorrências da cidade descem, lenta mas livremente, e desaguam ali. Os líquidos pútridos misturam-se com os óleos e a ferrugem dos naufrágios... branco e imaculado, só o yacht presidencial amarrado na base naval. Ah!, mas cuidado! Não podes fotografar!, avisaram-me.

A água da baía de Luanda é escura e viscosa. Doentia.

segunda-feira, setembro 11, 2006

Medo de sonhar

Havia um miúdo, naquela reportagem da Cândida Pinto, que dizia que sonhar era difícil… E, realmente, é muito difícil. Sonhar é visualizar um desejo. É sentir-lhe a forma, o peso, as cores e, até, sentir-lhe o cheiro. É, ainda, imaginar um mundo perfeito e querer realizar essa utopia.
É, pois, muito difícil sonhar, tal como pedes, querida Isabela: “Hora da redacção: "vamos sonhar": o actual governo angolano desaparecia num ápice, não interessa para onde, todos raptados por extraterrestres, e nunca mais voltariam…”. Sonhar assim é até perigoso… e, sinceramente acho que, desde Fernando Pessoa, mais ninguém disse ter “todos os sonhos do Mundo”.
Dom Hélder da Câmara é que dizia que quando dava pão a um pobre, chamavam-lhe santo, mas que quando reclamava pelas condições de vida injustas impostas pela sociedade, chamavam-lhe comunista. É assim…Não tenho 10 medidas milagrosas, como sugeres. Só encontro uma saída: a revolução. Voltar a partir tudo, para compor mais tarde. Nacionalizar tudo de novo e, enfim, redistribuir verdadeiramente. Mas sei que isso é... um sonho.

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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