Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











sexta-feira, janeiro 19, 2007

Edmundo Pedro


Ontem estive na apresentação do livro de Edmundo Pedro, o primeiro volume da biografia de uma vida exaltante. Fui levado pela mão de amigos que conhecem o Edmundo de há muito.
Vou ler este testemunho de alguém que sempre teimou em ser cidadão inteiro.
Acho que vou aprender muito.

quarta-feira, janeiro 17, 2007

Há os bons e os maus

Vista de fora, a Tunísia vive sob uma espécie de ditadura suave (se é que tal coisa existe…), onde alguns partidos políticos são tolerados desde que não perturbem o sono ao presidente Zine El Abidine Ben Ali que, como é bom de ver, chegou ao poder através de um golpe de estado.
O país tem petróleo mas vive à porta do Sahara e, para além de tâmaras, pouco mais se consegue tirar da terra. A riqueza é muito mal distribuída e a pobreza é grande e seria maior, muito maior, se não fosse o turismo. A Tunísia é um destino barato para os europeus. Fica perto, a duas ou três horas de voo da maioria das capitais europeias, é suficientemente exótico, tem muitos monumentos históricos (principalmente romanos) e as praias não são más. Todos os verões, os turistas reanimam a economia dos tunisinos, desde os vendedores de tapetes aos aldrabões que vendem falsas moedas romanas nas ruínas de Cartago.
Dir-se-ia que é um país de paz. Mas, volta e meia, a polícia política de Ben Ali descobre um grupo de alegados terroristas, sócios da Al Qaeda, e mata os que resistem à prisão. É assim que, nos últimos tempos, vários tiroteios têm abalado a pacatez da vida dos tunisinos. De vez em quando, também ocorrem atentados bombistas, como o que fez explodir a velha sinagoga sefardita de Djerba. Na Tunísia existem, de resto, vários locais sagrados para os judeus.
O último grupo desmantelado, um grupo fundamentalista sunita, parece que tinha armazenado explosivos em grande quantidade, mapas com a localização de embaixadas em Tunis e nomes de vários diplomatas, hipotéticos futuros alvos da acção armada deste grupo considerado próximo dos fundamentalistas islâmicos argelinos.
Não sei até que ponto estes alegados fundamentalistas são, realmente, um perigo para a estabilidade da região. Na Tunísia não há liberdade de imprensa e as notícias que saem do país são só as aprovadas pela censura oficial. Só por uma vez estive na Tunísia em trabalho, foi em 1991, durante a I Guerra do Golfo. O Norte de África era, então, considerado a terceira frente de batalha e temia-se que os movimentos fundamentalistas, na época alegadamente aliados de Saddam Hussein, tentassem derrubar os regimes do Magreb, nomeadamente em Marrocos e na Tunísia. Por lá andei, durante uns dois meses, a filmar manifestações anti-ocidentais e a entrevistar líderes fundamentalistas. Em Tunis, consegui chegar à fala com o líder do An-Nahdha, um partido político islamista. Era um tipo gordo, borrado de medo de vir a ser preso. Não me pareceu que fosse um grande perigo, mas quem vê caras não vê corações.
Agora, que volto a ler notícias sobre a repressão que se abate sobre os oposicionistas tunisinos, pergunto-me se a manutenção desta situação algo instável não será uma forma do regime autocrático de Ben Ali conseguir apoios no ocidente, nomeadamente na Europa. Deste modo, os ocidentais vão desculpando a falta de liberdades na Tunísia, a manutenção sem prazo da ditadura, sempre sob a desculpa de que o perigo islâmico espreita e que, do mal o menos, o Ben Ali não nos chateia.

terça-feira, janeiro 16, 2007

A morte esperada de Fidel Castro

Segundo o que ouvi esta manhã, na rádio TSF, Fidel Castro está agonizante. A TSF, que cita a Lusa, que por sua vez cita o jornal espanhol El País, fala em infecção generalizada e em doença de mortalidade elevada.

Desde que Fidel adoeceu, muito se tem falado do mal que padece. Para mim, acho que é apenas velhice. O homem tem 80 anos e nem sempre viveu bem. Os anos da revolução passados na Sierra Maestra devem ter deixado alguma marca, se bem que, depois, nos últimos 47 anos, Fidel não se deve poder queixar da sorte. O mesmo não dirão outros cubanos…
Temo que o velho esteja a ser torturado pelos médicos, no afã de evitarem o que é inevitável. Os praticantes de medicina têm esta mania de se armarem em deuses. Deixem Fidel morrer com dignidade. Não o cortem inutilmente, não o transformem numa múmia viva. Fidel viveu uma vida exaltante. Não deveria morrer entubado numa cama.
Os que não foram a Cuba até hoje, perderam a oportunidade de conhecer ao vivo um dos paradigmas do comunismo. Estive lá em 1990. Não encontrei nada que desejasse para mim próprio, creio. Uma sociedade empobrecida, muita gente desocupada, embora ninguém pedisse esmola nas ruas, excepto a criançada. Os cubanos são alegres. Deve ser a tropicalidade que lhes dá essa leveza de ânimo com que enfrentam as dificuldades do dia-a-dia. Fidel sempre teve opositores políticos, a quem não tratou bem. Mas quem o pode censurar? Quem será o cínico a atirar a primeira pedra? Bush beberá uma cuba libre, por certo, esse cocktail em que se estraga bom rum de cana com água suja do imperialismo. Mas muitos chorarão a morte do velho.
O mal dos ditadores é nunca quererem largar o poder no tempo certo. Mas, como se vê, nenhum deles é eterno.

sábado, janeiro 13, 2007

Amigos p`ra que vos quero (da série Reptilário)

O semanário Tal&Qual traz, na edição desta semana, uma história repescada dos anos 90, quando foi denunciada a falência fraudulenta da Caixa Económica Faialense, um banco que se dedicava a captar as poupanças dos portugueses que trabalhavam no estrangeiro.


A falência do banco deixou um rasto de miséria entre os clientes, pudera. O Tal&Qual relembra a história mais emblemática dessa fraude: o caso de José Fernandes, um tipo que, nas vésperas da fraude se consumar, tinha depositado 100 mil contos, fruto da venda de um negócio que tinha no Canadá. Num dia era um homem rico, no outro acordou pobre. A inoperância da justiça e a raiva levaram-no a matar a tiro o gerente do balcão.


José Fernandes matou, porventura, o operacional da fraude, mas não chegou aos mandantes. Esses, eram homens mais poderosos e com amigos mais influentes. Os arguidos deste caso são ex-ministros do governo do Dr.Balsemão, quando este foi cooptado para primeiro-ministro depois da morte de Sá Carneiro, em 1980.
De modo que, quando o programa que eu coordenava e apresentava na SIC pegou no assunto, o “Casos de Polícia”, a repórter Isabel Horta foi avisada (ameaçada?) de que a reportagem jamais iria para o ar, porque o Dr.Balsemão, certamente, não iria permitir.
Era essa a fé de Luís Morales, Serra de Moura, entre outros. E, de facto, o Dr.Balsemão tentou, embora timidamente. Estaria dividido entre a lealdade aos tais amigos e os cifrões que arrecadava nos intervalos do "Casos de Polícia"... o que sei é que perguntou, ou mandou perguntar, não me recordo já, ao Emídio Rangel (o Director-Geral da SIC) se a reportagem “tinha mesmo de ser exibida”. Rangel disse-lhe que sim, obviamente. A minha tarefa ficou muito mais simplificada.
Bons tempos.

sexta-feira, janeiro 12, 2007

Guantanamo


Os Estados Unidos ocupam a base de Guantanamo desde 1898, quando venceram uma guerra contra a Espanha. Cuba era, na época, uma colónia espanhola. O resultado dessa vitória militar foi a nomeação de um cidadão americano como primeiro presidente de Cuba, um tipo chamado Tomás Estrada Palma que se apressou a celebrar o acordo que deu a posse de Guantanamo aos EUA para que ali edificassem uma base naval permanente.
Ao longo dos anos, a existência da base foi questionada diversas vezes por vários governos cubanos, mas os EUA nunca a quiseram abandonar e os acordos foram sendo renovados, com maior ou menor dificuldade. Até que Fidel Castro chegou ao poder, em 1959.
O regime comunista nunca quis a base ali. Considera Guantanamo território ocupado ilegalmente. Os cubanos dizem que a permanência dos americanos viola o direito internacional, nomeadamente a Convenção de Genebra de 1969. Mas os americanos não saem dali. É verdade que, agora, a base serve de prisão para os suspeitos de terrorismo. Nos últimos anos, centenas de pessoas foram para ali enviadas e ali permanecem sem culpa formada nem julgamento. Mas, de facto, a base não tem qualquer importância militar aparente. A permanência dos EUA no local é, julgo, apenas uma demonstração de força e uma questão de teimosia política.
O que diríamos nós, em Portugal, se quiséssemos de volta a Base das Lajes e os americanos se recusassem a devolvê-la?

quinta-feira, janeiro 11, 2007

Iraque, vitória ou morte?

O presidente Bush vai enviar mais 20 mil soldados para Bagdad e outros locais do Iraque, com o argumento de que esse reforço de tropas já devia ter sido feito há muito tempo e que esse erro seria uma das causas do fracasso das tropas americanas no Iraque.
Tenho dúvidas que isso resolva alguma coisa. Julgo que quantos mais soldados estiverem no Iraque, mais fácil será matar alguns. É uma mera questão de probabilidade. Também é verdade que, quantos mais soldados americanos estiverem no Iraque, mais militantes extremistas serão mortos. Mas isso não significa vitória militar para a América. Os iraquianos, sejam xiitas ou sunitas, não contam os seus mortos. Os americanos contam. Contam e recontam. E cada marine morto equivale a menos votos. E, por isso, Bush está cada vez mais só, nesta guerra imperialista que decidiu levar a cabo. Outro factor que não parece estar a ser levado em conta é o ódio visceral que os árabes ou outros povos islâmicos sempre tiveram, desde há séculos, por quem os invade e tenta dominar. Nem será preciso folhear muitos compêndios de História, basta puxar pela memória: a derrota militar francesa na Argélia; a derrota militar soviética no Afeganistão; a derrota militar americana na Somália; a recente derrota militar israelita no Líbano. Aprender com os erros dos outros, ou com os nossos próprios erros, é uma demonstração de bom senso e inteligência. Estes dirigentes americanos não aprenderam.

quarta-feira, janeiro 10, 2007

Tiro ao alvo

Já mais do que uma vez, os americanos tentaram resolver os seus problemas com a Somália utilizando a força. Em 92, vi-os desembarcar na praia de Mogadíscio, numa noite sem luar, mas com as CNN, BBC e CBS de sobreaviso e de holofotes bem acesos para o espectáculo ter alguma cor. Foi giro, até que o tal Black Hawk foi abatido e um bom número de marines massacrados pelos maltrapilhos somalis.
Em 93, os marines enfiaram o rabinho entre as pernas e o Mundo decretou o isolamento da Somália. O povo ficou à mercê dos tiranos da terra que se continuaram a combater alegremente. Claro que nada mudou. A Somália permaneceu um santuário de doidos assassinos, de fanáticos de toda a espécie e um excelente campo de tiro.
Agora, o presidente dos EUA voltou a mandar bombardear a Somália. Alegadamente, para matar três supostos terroristas alegadamente responsáveis pelos atentados de Nairobi e Dar-es-Salam contra as embaixadas americanas, em 1998. Mas, para matar três supostos criminosos, os americanos bombardearam aldeias e mataram gente de todas as idades que não tem nada a ver com o assunto.
Não me parece que este método remedeie seja o que for. Matar indiscriminadamente não é solução. Mesmo que a eliminação dos tais três tenha sido bem sucedida, outros 30 acabaram de nascer, entre os que sobreviveram e viram as suas famílias assassinadas por bombas largadas de muito alto. Suponho que não será assim que se vence a guerra contra o terrorismo.Há um provérbio somali que os generais americanos deveriam conhecer: La-yeele ma hilmaamo, lakiin yeele wuu hilmaamaa. As ofensas são esquecidas, não pelo ofendido mas pelo ofensor.

terça-feira, janeiro 09, 2007

Outro equívoco histórico

Em Zanzibar existe um monumento perturbador. Um rectângulo escavado no solo, com várias estátuas de homens agrilhoados lá dentro. Evoca a escravatura, esse empreendimento levado a cabo por capitalistas esforçados de séculos passados.
A escravatura, é um facto, sangrou África de milhões de seres humanos que, levados para outros continentes, foram obrigados a contribuir com o seu trabalho esforçado para o crescimento económico dessas terras.
Foi um crime horrível, sem dúvida. Já levou a que alguns dirigentes africanos actuais alvitrassem que o Ocidente deveria pedir desculpa pelo mal que provocou aos africanos. Penso que sim, que não nos ficava nada mal a expiação desse pecado. Mas, com isto, quero também dizer que os europeus não deveriam ser os únicos a pedir desculpa… a escravatura não se fez contra todos os africanos, já que muitos deles eram comparsas assumidos nesse negócio.
Além disso, a escravatura não foi, sequer, inventada pelos europeus. Muito antes dos portugueses, espanhóis, franceses, ingleses e holandeses terem dado início ao negócio, já os árabes o faziam há séculos.
A escravatura, em África, era uma questão interna (os africanos escravizavam-se uns aos outros) e transariana, com os árabes a traficarem seres humanos para o Norte de África e para a Arábia.
Aliás, convém não esquecer, que na Arábia Saudita a escravatura só foi abolida em 1962 e na Mauritânia (um Estado árabe do Sahel) foi abolida em 1980…
Mesmo em Zanzibar, a escravatura perdurou até ao início do século XX, embora de modo ilegal. Zanzibar foi, até muito tarde, entreposto de escravos capturados no interior do continente e que, na ilha, esperavam transporte para a Arábia. Os ingleses, que colonizaram Zanzibar nesse período, pouco ou nada fizeram para terminar com o tráfico.
Aliás, em Zanzibar existem muitos vestígios dessa actividade, como casas como esta que vos mostro (última foto), construídas com coral retirado do mar, semienterradas no chão, onde os escravos eram mantidos enquanto não eram transportados para o destino final, ou fatal.




segunda-feira, janeiro 08, 2007

O género irritante

Há umas revistas de género que me irritam. Falo das chamadas revistas masculinas. Irritam-me porque, primeiro, são feitas essencialmente para vender coisas aos incautos dos leitores.

Vendem tudo, desde relógios a aviões. É sempre tudo tão chic, tão bem, tão in, que até chateia. Depois, porque os tipos que lá aparecem, à laia de exemplo do que deve ser o bom cidadão, são sempre homens bem sucedidos na vida, nunca se questionando o método utilizado para alcançar esse sucesso. Estes tipos nunca se despenteiam, nunca se enganam na gravata, têm sempre as calças vincadas. Como diz uma amiga minha: "não cagam".


São tipos que costumam casar com a Miss Universo mais à mão e que o único transporte público que apanham é na classe Navigator a caminho das Antilhas.
Essas revistas retratam um mundo irreal, onde não há defeitos. Mentem-nos, por isso.

domingo, janeiro 07, 2007

Bissau, acerto de contas

Bissau, Julho de 1998

Para onde vai Nino Vieira? Para que quis ele voltar à Guiné-Bissau e à presidência do país? Será só para se vingar dos que o depuseram em 1999? Os últimos acontecimentos indiciam isso. Lamine Sanhá, ex-Chefe do Estado Maior da Armada foi assassinado a tiro. Morreu ontem, depois de agonizar vários dias no depauperado Hospital Simão Mendes, em Bissau. Lamine Sanhá foi um dos apoiantes da rebelião de Ansumane Mané. Outro próximo do falecido chefe da saudosa Junta Militar foi espancado no passado dia 21. Silvestre Alves, dirigente de um pequeno partido sem representação parlamentar, foi atacado de noite, numa rua de Bissau, por quatro homens que se faziam transportar num carro igualzinho ao do Conselheiro presidencial para a Informação, Baciro Dabó, um fiel homem-de-mão de Nino Vieira. Baciro nega ter tido qualquer envolvimento no assunto e como o carro tinha a matrícula tapada, não se pode provar que está a mentir. Baciro e Nino parecem ter sete vidas e quererem gastá-las a matar adversários políticos. Mas quantas ainda lhes restarão?
Em 1999, quando Nino se refugiou na Embaixada de Portugal, para evitar ser apanhado pelos revoltosos, Baciro teve menos sorte. Relembrem a foto e este post…

Bissau, Maio de 1999

Tenho vários episódios passados com o bom do Baciro. Um dos mais interessantes passou-se na tomada de posse do governo de transição chefiado por Francisco Fadul, ainda em 1999. A cerimónia serviu de pretexto para se abrir a cidade, pela primeira vez desde que a guerra tinha começado. Sob protecção das tropas da Ecomog, Ansumane dirigiu-se numa coluna automóvel para a antiga Praça do Império, onde está o Palácio Presidencial. Havia uma multidão nas ruas a aplaudir o herói do povo. Para Ansumane, deve ter sido um momento único na sua vida. Para entrar no palácio estavam dezenas de jornalistas, portugueses, franceses, senegaleses e de muitos outros países africanos. À porta, Baciro Dabó. Era ele quem escolhia os que entravam. Parecia um porteiro de discoteca fatela. Quando percebi que não ia entrar, desatei aos gritos. O som dos protestos chegou dentro do palácio aos ouvidos de José Lello, o Secretário de Estado da Cooperação do Governo português, que integrava a comitiva de Portugal. Foi ele quem desbloqueou a situação. Não ficou ninguém à porta. Baciro e eu nunca nos demos bem.

sábado, janeiro 06, 2007

Quem chorou Gerald Ford em Timor Lorosae?


(pintura mural em Manatuto, foto da minha irmã Vanda)
Nos últimos tempos morreram Pinochet, Saddam e Ford. Sobre os dois primeiros, não lhes perdoámos as malfeitorias, e bem. Na morte de Pinochet, Salvador Allende foi lembrado, assim como os milhares de chilenos e democratas de outras nacionalidades que desapareceram durante o regime do ditador chileno. Saddam foi enforcado, alegadamente por ser o responsável por vários massacres e crimes contra a Humanidade. Gerald Ford foi incensado como santo. E ninguém se lembrou de Timor-Leste…
Então, vamos lá acertar essas contas. Quando Suharto, o ditador indonésio, mandou invadir Timor, estava apenas a jogar o jogo do presidente dos EUA. Quem era esse presidente, em Outubro de 1975? Mister Gerald Ford himself. Na véspera da invasão, precisamente no dia anterior ao ataque, 6 de Outubro, Ford e Kissinger reuniram em Jakarta com Suharto. É público que nessa reunião foi autorizado o ataque.
A ocupação indonésia de Timor durou 24 anos, durante os quais morreram cerca de 200 mil timorenses. O obituário do 39º presidente dos EUA está incompleto. Para além de tudo o que disseram do homem, falta dizer que foi, também, comparsa no genocídio praticado em Timor.

sexta-feira, janeiro 05, 2007

Trinta

Resumo de uma notícia da Lusa, que talvez apareça um dia destes nos jornais: nas três províncias centrais de Moçambique, Tete, Sofala e Manica, quase não há médicos nem enfermeiros e a taxa de infecção de SIDA é de 30%.
Trinta.
Em Manica, por exemplo, há um médico para 32.379 habitantes.
A notícia foi feita a propósito da recente graduação de 75 técnicos de saúde que vão, agora, tentar minorar os problemas da população.
Isto fez-me lembrar as duas últimas viagens que fiz a Moçambique, em 1999 e 2002, em serviço de reportagem para a SIC. Em 1999 fui, com o Carlos Santos, até ao Chimoio (povoação já perto da fronteira com o Zimbabwe), ouvir o medo dos médicos e dos enfermeiros, também eles contaminados, e perceber como esse medo os inibia de trabalhar. O medo e a falta de meios. A Sida devastava livremente aquela gente e, hoje, o resultado está à vista: 30% da população está doente.
Trinta.

quinta-feira, janeiro 04, 2007

Também se pode ser feliz, em Bissau

Jantares de amigos sempre são pródigos em histórias. Neste tipo de encontros, acabamos por recordar histórias antigas que, por alguma razão, nos marcaram. Às vezes, surgem novos fascículos…
O padre Daniel, missionário italiano do PIME, radicado há muitos anos na Guiné-Bissau, é um homem que jamais esquecerei. Se lerem estes posts antigos perceberão porquê.
Sempre que voltei a Bissau procurei por ele. É um tipo bom conversador e muito simpático. Alto, bonacheirão, gordinho, sorridente. Tinha sempre coisas novas para dizer. Às vezes meras curiosidades, outras vezes verdadeiras preciosidades da política local, informações muito úteis para quem procura enquadrar-se no ambiente local.
A última vez que lá estive, em 2004, para a cobertura das eleições legislativas para a TSF, logo nos primeiros dias fui a Antula procurar o padre Daniel. Não estava, disse-me um outro padre. Que tinha sido levado de urgência para Roma, muito doente do coração e nem se sabia se iria salvar-se. Fiquei destroçado com esta notícia, dita de tal forma que me convenci de que jamais voltaria a vê-lo…
No jantar do Zé, a Marta Jorge, delegada da RTP, contou-me o novo fascículo desta história. De facto, o padre Daniel tinha ido para Roma, por causa do coração. Mas a doença dele chamava-se paixão e, apesar de às vezes o mal ser mortal, o Daniel queria mesmo era viver e não corria risco de vida. Aconteceu, simplesmente, que o padre Daniel se tinha apaixonado por uma mulher, uma médica cubana, também ela a viver em Bissau há anos. Em Roma, foi mantido num retiro, isolado, durante ano e meio, numa tentativa de cura pela força. Não resultou. Voltou a Bissau, onde a mulher continuava à espera dele. Abandonou o sacerdócio, casaram e lá vivem felizes, em Bissau, o italiano e a cubana. Adorei saber isto. Fiquei tão contente que nem vou levar a mal ao padre que me enganou de modo tão cruel. Perdoo-lhe de boa vontade.

quarta-feira, janeiro 03, 2007

Para acabar com equívocos


Em Angola, o 4 de Janeiro é feriado. Celebram o “Dia dos Mártires de Cassange”, as vítimas de um massacre perpetrado pelo exército português durante a repressão de uma revolta de trabalhadores agrícolas. A propaganda do regime angolano sempre falou em 10 mil mortos angolanos, na maior parte vítimas dos bombardeamentos com napalm. Confesso que me enjoa ouvir falar nisto. Nos bombardeamentos com napalm e nos 10 mil mortos. Enjoa-me que os bombardeamentos se tenham feito sobre populações praticamente indefesas, enjoa-me a desproporcionalidade dos meios utilizados. Também me enjoa o pregão dos 10 mil mortos, porque não acredito nele. Que se saiba, nunca ninguém os contou e se alguém, por acaso, o fez, não foi o MPLA. Foi o governo colonial, o exército português ou alguém a mando deles. Acho que é tempo dos governos angolano e português se entenderem quanto à História comum dos dois povos. Para evitarem este tipo de situações, que nada contribuem para um são relacionamento entre nós, angolanos e portugueses, os dois Estados deveriam colaborar para encontrarmos uma única versão dos acontecimentos, a verdadeira versão. Penso que o segredo da Baixa do Cassange deve estar bem guardado nos arquivos militares portugueses. Suponho que a sete chaves. A Lei deveria permitir que, ao fim de alguns anos, os historiadores e cientistas sociais pudessem ter acesso a essa papelada. Como se faz nos EUA, por exemplo, onde os documentos secretos são tornados públicos ao fim de umas dezenas de anos. Houve outros massacres perpetrados pelo exército português, nas várias frentes de guerra dos anos 60 e 70, alguns até anteriores, como o de Batepá, em São Tomé e Príncipe (1953), o de Pidjiguiti, na Guiné-Bissau (1959), o de Mueda, em Moçambique (1960), o dos musseques de Luanda (1961). Em todos estes acontecimentos, os relatos falam de dezenas de vítimas, algumas centenas porventura, mas nunca de milhares. Por isso, acho que o número de 10 mil mortes na Baixa do Cassange é exagero e propaganda política, até melhor prova. Sei que dos exércitos de ocupação não se pode esperar comportamento decente. Veja-se só o que se passa no Iraque. Mas, na minha opinião, a verdadeira tragédia não é só a das vítimas. Também há a tragédia dos que massacram. Muitas vezes, aposto, sem saberem porquê. Enfim, resumindo, regresso ao início do texto: desbloqueiem os arquivos militares portugueses para que a História se possa escrever sem equívocos.

segunda-feira, janeiro 01, 2007

Bissau, cidade perigosa

Na semana passada jantei com o José Sousa Dias, jornalista da Lusa, acabadinho de chegar de Bissau, depois de três anos na condição de expatriado. Jantei com ele e com mais 30 pessoas, todos, ou quase todos, portugueses expatriados na Guiné e que, como se estivessem mortos de saudades uns dos outros, se juntam para jantar em Lisboa na primeira oportunidade. Digamos que fui testemunha de um notável espírito de corpo. Na verdade, o jantar foi uma espécie de festa de despedida do Zé aos que com ele conviveram durante três difíceis anos. A Guiné-Bissau nunca foi um sítio fácil para um correspondente estrangeiro trabalhar. O Zé, nesta comissão de serviço, levou com um golpe de estado, um assassinato político relevante (a morte do CEMGFA, general Veríssimo Seabra), eleições legislativas e as eleições presidenciais que deram uma segunda vida a Nino Vieira e, ainda, umas semanas de conflito armado na fronteira Norte.

O Zé aguentou com tudo. Só se partiu todo quando, uma noite, à saída de um restaurante, caiu no fosso do esgoto que corre a céu aberto nas bermas das ruas de Bissau. Não riam, que pode acontecer a qualquer um. Bissau é uma cidade perigosa.

sábado, dezembro 30, 2006

Os aniversários do tempo

Não sei porquê, mas não é nos meus aniversários que sinto passar o tempo. É nos aniversários do tempo que percebo como ele voa. Chega o fim do ano e mal vislumbro o que fiz nestes 365 dias que passaram.
Pôrra!... E tenho de mudar de calendário.

Às vezes ponho-me a ouvir os mais velhos. Conversas de café de gente que nem conheço. Cada vez os escuto com maior atenção. Olhando para eles, vejo-me daqui a uns anos. A mim e a vocês todos, o que julgam? E já descobri que quando chegarmos perto do fim do tempo, teremos a ilusão de que quando éramos jovens todos os políticos eram nobres, os preços acessíveis e os miúdos respeitavam os mais velhos. Acabamos sempre a contar as mesmas mentiras.

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Ano Novo

2007 começa em grande!

Segundo o serviço da Lusa, “o ex-presidente iraquiano Saddam Hussein será enforcado dentro de "poucos dias" no interior da "Zona Verde", a oeste de Bagdad, noticia hoje o diário árabe internacional Al-Hayat, que cita fontes governamentais iraquianas. A forca já está preparada num lugar no interior da 'Zona Verde»", onde se encontram as instalações do Governo iraquiano e as sedes das embaixadas dos Estados Unidos e do Reino Unido, afirmaram as fontes, segundo o jornal.”
Será uma execução pública, à moda dos bons velhos tempos do far-west?

Outro arranque em grande: o meu amigo Jorge Schnitzer diz que regressa à SIC no próximo dia 16. O Dr.Balsemão usou de um processo dilatório para atrasar a aplicação da sentença do Supremo Tribunal que lhe ordenava a integração imediata do Director do Departamento de Desporto, mas parece que o “aclaramento” solicitado pelo advogado de Balsemão foi satisfeito com rapidez. Também, que raio de aclaramento queriam eles? As sentenças, hoje, já não são manuscritas, não há hipótese de se argumentar que não se percebe a caligrafia do juiz…

terça-feira, dezembro 26, 2006

Os trabalhos do Carlos Aranha

Hoje há um amigo que parte. O Carlos Aranha vai para o Qatar, durante cinco meses. Vai trabalhar. O “spider” é um repórter de mão cheia. É daqueles camera-men que não se limitam a ser bons tecnicamente. Ele gosta da reportagem, gosta de perceber através do view-finder o que anda a fazer, gosta de contar histórias com as imagens que captura. Dele guardo algumas parcerias heróicas: Israel, em 1989, numa grande reportagem para a RTP sobre o 2ºaniversário da Intifada; Alentejo, 1992, para uma média reportagem sobre a seca, com que em Outubro a SIC estreou o Praça Pública; Guiné-Bissau, 1998, para a cobertura da guerra civil. Fizemos outros trabalhos juntos, mas estes ficaram-me na memória para sempre. O Aranha vai para o Qatar, porque aqui não encontra trabalho. Deixa a mulher e os dois filhos e sei quanto isso lhe custa. Espero que se dê bem por lá e que estes cinco meses passem rápido.

A última experiência que partilhei com ele, foi em 2003, depois de termos saído da SIC. Fomos para Cabo Verde dar aulas, a convite do Cenjor, mais o Paulo Tavares (um dos maiores montadores de imagem portugueses vivos e que a SIC, por acaso, também não quis...). A foto que publico diz respeito a essa viagem, foi tirada no Museu do Tarrafal, em Santiago. O Carlos Aranha é o que está à direita na foto. Em Cabo Verde, descobri que o Aranha também sabia ensinar. Acho que ele próprio se descobriu nisso, também. Mas, nem assim, o Aranha conseguiu novo modo de vida. Nem mesmo a ensinar aquilo que tão bem sabe fazer.

segunda-feira, dezembro 25, 2006

Lixo natalício

Confesso que o Natal cada vez me cansa mais. Gosto de comprar prendas para os miúdos, claro. Mas a obrigação de oferecer qualquer coisa a toda a família, amigos e afins, torna-se insuportável. E o pior é que é evidente o vício que já incutimos nos miúdos que, neste dia, estão ansiosos, até angustiados, por causa das prendas. Rebentam de expectativa para, pouco depois, já não ligarem nada às prendas. Aqui no bairro, o resultado de tanto desperdício está visível nos pontos de recolha de lixo… e o dia ainda agora começou. Logo à noite, os contentores devem estar completamente submersos nos sacos de plástico.Este ano comprei: uma camisola, uns calções, dois perfumes, dois casacos, um tamagotchi digital, um relógio, uma telefonia, um par de botas, um vestido para bonecas, dois equipamentos de basquetebol, cinco bonecas, um cachecol e um barrete, um action-man com um tigre que ruge e dá saltos, dois carrinhos do Faísca MacQueen, mais dois barretes, cinco kits de maquilhagem, uma web cam, um lenço e 5 livros. Contribuí decentemente para o aumento exponencial da tonelagem de lixo que tem de ser recolhido esta noite.

sábado, dezembro 23, 2006

Desabafo

Ontem enviei 4 fotos do telemóvel para o meu e-mail da Netcabo. Como as fotos não chegaram, apesar de ter recebido um relatório da TMN a dizer que estavam entregues, telefonei a reclamar. Do serviço de atendimento esclareceram-me que o problema não era deles, mas sim do servidor de Internet que utilizo. Explicaram-me que eles, TMN, enviam as mensagens para o servidor, no caso a Netcabo, que fica encarregue de as distribuir. Portanto, a culpa seria deles, servidor de Internet. Aconselharam-me a ligar para a Netcabo, ao que respondi que era um pouco estranho ir reclamar à Netcabo de um serviço que pago à TMN e não à Netcabo… mas enfim.
Telefonei para a Netcabo. Expliquei o que vos acabei de contar. Disseram-me que não, que a culpa não seria deles, antes da TMN… Fiquei muito cansado, de repente… Perguntei como fazer para uma reclamação formal. Deram-me o endereço electrónico vocacionado para receber queixas e reclamei para lá. Passado umas duas horas, talvez, recebo uma resposta da Netcabo com o seguinte teor:

“Estimado Cliente,
Na sequência do seu contacto, que desde já agradecemos, comunicamos que para procedermos à análise da ocorrência, necessitamos que nos reenvie, por favor, o presente e-mail com a seguinte informação:
Nº de Cliente
Nº de Bilhete de Identidade
Nº de Identificação Fiscal
Nº de série do equipamento (encontra-se na zona inferior do equipamento)
Mac-Adress (número que se encontra na zona inferior do equipamento)
Serviço que possui.”

Não acham estranho que a empresa que me vendeu o referido equipamento (modem) e que me cobra religiosamente a factura mensal não saiba do meu número fiscal ou do meu número de cliente, do número de série do equipamento e do número MAC (seja lá isso o que for) nem, sequer, qual o serviço que possuo (e que eles me prestam e pelo qual se fazem cobrar)? Acham isto normal? Ou será só para irritar o parceiro, que estas empresas se entretêm com estas merdas? Desculpem, mas não há espírito natalício que aguente…

sexta-feira, dezembro 22, 2006

Carta ao menino Jesus

"Meu querido Menino Jesus,
Quando era puto, ensinaram-me que és tu que trazes os presentes na noite de Natal. Depois apareceu esse velhote de barbas brancas vestido à Benfica – que mau gosto! – a distribuir as prendas. Não tenho nada contra ele, mas o pai-natal é cada um de nós, porque «é Natal quando cada um quiser».
O Natal é o teu dia de anos! Às vezes esquecemo-nos disso… Tem piada: fazes anos e dás os presentes. És bué fixe. Por isso é que resolvi escrever-te alguns pedidos.
Antes de mais, quero que abençoes a pessoa que está a ler esta carta. Sabes? Gosto muito dela. Enche-a da tua paz e deixa-lhe um 2007 cheio de bondade!
Depois, peço a tua bênção para as crianças do Mundo. O Evangelho conta que nasceste fora da cidade, entre os excluídos, e que foste refugiado no Egipto para escapar à violência invejosa de Herodes. Há milhões de menores traficados, escravizados, forçados a pegar em armas ou a entrar na prostituição. Nunca vão ser meninos! Cuida deles de uma forma especial. Sobretudo das crianças do Darfur, da Palestina, do Iraque que (sobre)vivem e crescem no meio da violência e da morte.
Recorda-te também das pessoas do Sul do Sudão. Andam ocupadas a reconstruir as vidas depois de 20 anos de guerra. Muitas sentem-se frustradas. Que ultrapassem o ódio e os desejos de vingança! E que os dirigentes usem os recursos humanos, económicos, naturais, sociais e culturais para o bem comum. Sabes? Aqui dizem que a sigla GoSS – Governo do Sul do Sudão em inglês – também quer dizer Government of Serf Service, Governo de Auto Abastecimento!
Abençoa a equipa que está a iniciar a Rede Católica de Rádio do Sudão. Ser boa notícia neste contexto é um desafio enorme. Dá-nos audácia e coragem. E um forte sentido de equipa.
Com a tua ajuda, que os vizinhos descubram que os amas através das missionárias e dos missionários que vivem no espaço chamado Comboni House.
Para mim, já me deste tanto que até tenho vergonha de te pedir mais. Deste-me esta vida linda, a minha família, os amigos, a família comboniana… Faz que me sinta feliz no calor e no pó desta cidade em ebulição. É pedir muito?
Ah! Não te preocupes. A minha casa não tem chaminé e eu não uso sapatos. Só sandálias! Por isso, deixa os presentes no corredor à porta do meu quarto!
Um xi-coração do teu mano Zé."

Carta escrita pelo meu amigo José Vieira que está no Sudão a fazer pela vida dos outros.

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Sonho recorrente

Somos umas vinte pessoas no alto do penhasco, todos a olharmos para o mar revolto. O vento ataca-nos pelas costas e os cabelos esvoaçam para a frente da cara. À minha frente, uma menina pela mão da avó. Do promontório, avistamos léguas de mar esbranquiçado. Uma rabanada mais violenta desequilibra-me da pedra para onde tinha subido de modo a ver melhor. Sem chão para os pés, apoio-me nas costas da menina que, entretanto, tinha deixado a mão da avó. Um efeito de dominó. A miúda, desequilibrada, cai para a frente e mergulha no abismo, como uma ave pesqueira. A avó, enlouquece de dor. Grita e tenta vingar-se. Agarra-me e empurra-me para o abismo. Agarro-me à manga do seu casaco. Resisto ao empurrão. O vento sopra com mais força. A velha grita e eu grito. Só vejo os dedos da minha mão fincados no braço da velha, agarro-me para continuar a viver. O vento afasta os cabelos da cara e vejo-lhe a expressão de ódio. Vejo uma cara magra, angulosa, com espessas sobrancelhas e cabelo branco.
O sonho acabava sempre quando via a cara “dela”.

foto de Luís Carvalho

quarta-feira, dezembro 20, 2006

A banalização dos genocídios

Acabo de ler uma notícia sobre o Darfur, onde prossegue impune o genocídio das tribos negras. Agora, já não são só as aldeias a serem atacadas, mas também os campos de refugiados, mesmo os que estão fora das fronteiras sudanesas. A guerra já passou para o Chade.

Andamos há mais de 30 anos a dizer que o governo árabe sudanês pratica crimes contra o seu próprio povo e nunca nada se fez para por termo a essa situação. Viajei duas vezes para o Sudão, em 99 e 2000, para contar precisamente essa história e, já então, não era grande novidade…
Não percebo o que impede a ONU, os EUA ou mesmo a União Europeia de porem cobro ao genocídio desses povos. Que altos interesses se levantam que conseguem branquear esses crimes? Ou será que estamos perante a evidência da crueldade intrínseca da espécie humana?
Quantos genocídios se sucederam já e que deveríamos reter na memória colectiva? O dos judeus, na II Guerra Mundial (apesar dos negacionistas que recentemente se reuniram em Teerão), o dos índios norte-americanos (branqueado por Hollywood como um empreendimento civilizacional), o dos índios sul-americanos (que os nossos compêndios de História omitem), o dos negros africanos (escravizados e chacinados desde o século XV), o dos arménios (chacinados pelos turcos), o dos campos da morte do Cambodja (no regime de Pol Pot), o dos Tutsis no Ruanda, os gulags de Stalin, Sarajevo… sei lá quantos mais. São tantos, que já nem ligamos.

terça-feira, dezembro 19, 2006

Mas que lindo canteiro a vizinha tem

Segundo um artigo on-line do Guardian, há cada vez mais cidadãos norte-americanos a cultivar marijuana em vasos ou no quintal das traseiras. A dimensão da coisa é tal que, segundo o artigo, a produção caseira de marijuana ultrapassa todas as outras, se não em tonelagem, em valor da mercadoria. Isto é, estima-se que a colheita deste ano de marijuana caseira seja superior a 35 milhões de dólares (o valor de revenda será muito superior) enquanto que, por exemplo, o milho terá uma colheita de 23 milhões e o feijão de 17 milhões. Não é fantástico? Tantas muralhas erguidas na fronteira com o México, tantos bombardeamentos com químicos sobre a Colômbia e, afinal, a produção está disseminada pelos canteiros de flores das donas-de-casa e pelos vasos dos celibatários de Manhattan…
Continua o artigo a dizer que a colheita de marijuana caseira será a maior de todas em doze estados, incluindo a colheita de amendoim da Geórgia e a de tabaco nas Carolina Norte e Sul.
O artigo baseia-se num relatório recente (Marijuana Production in the US) feito pela organização DrugScience que luta pela legalização da marijuana e, portanto, tudo isto podem ser dados manipulados… mas lá que tem piada, isso tem.

Quando faz frio

Estes dias de frio e céu azul, trazem-me vontade de voltar a mergulhar no Cabo Espichel. Nestes dias, quando a água está fria, a visibilidade é óptima e chega a parecer que estamos a mergulhar em água tropical. Se não fosse a temperatura, claro…
A temperatura da água (chegava a estar a 7, 8 graus) e a ausência de chuva (que arrasta detritos para o mar), fazem com que o mar ao largo do Espichel pareça de vidro. Além do mais, nesta altura do ano, o fundo rochoso do Espichel, abaixo dos 30 metros, costumava estar repleto de lagostas…

Um dia destes, tenho de voltar a por uma garrafa de ar comprimido às costas.

segunda-feira, dezembro 18, 2006

Estive no INFERNO

Estreia esta semana o filme “20,13” de Joaquim Leitão. É o segundo filme de uma trilogia dedicada às guerras coloniais que Portugal travou em três cenários africanos: Guiné, Angola e Moçambique. O primeiro desses filmes foi “Inferno”, estreado já lá vão 7 anos.
Acham que, agora, estou armado em crítico de cinema? Não… Se falo disto é porque… (preparem-se)… participei nesse tal “inferno”, fui um dos 10 protagonistas do filme. Fui convidado para participar no casting e acabei por ser o escolhido, pelo Joaquim Leitão e pelo produtor Tino Navarro, para o papel de “Luke”, um dos marados de um grupo de ex-soldados que viviam sob o trauma do stress de guerra.


Adorei a experiência, podem crer. Fiz parte de um grupo interessantíssimo de actores (Júlio César, Nicolau Breyner, Joaquim de Almeida, Ana Bustorff, José Wallenstein, Cândido Ferreira, António Melo, José Mora Ramos, Rogério Samora, Carlos Santos, entre outros) que me acolheu e ajudou como se eu fosse um deles.


Claro que não sou actor. Nunca fui fingidor. Falta-me a “lata” necessária para esse tipo de performance. Mais tarde, ainda aceitei um outro desafio do género, num filme intitulado “A Noiva”, protagonizado pela Catarina Furtado e por um jovem loiro de que não me lembro o nome. Mas, dessa vez, foi apenas uma participação especial, numa única cena, interpretando o papel de um médico militar.
Joaquim Leitão regressa, então, ao grande ecrã. É notável a persistência deste tipo. Passaram 7 anos, mas o projecto não foi abandonado. Poderão passar mais sete, até que a trilogia se complete. Espero que este filme tenha sucesso. Sem receitas de bilheteira, os filmes não têm sentido. Joaquim Leitão sabe isso e tenta fazer filmes comerciáveis… foi por isso, de resto, que no “Inferno” se procurou um não-actor para um dos protagonistas, numa tentativa de captar melhor a atenção do público. Não sei se fui uma boa escolha, mas enfim. Por alguma razão o “Inferno” não foi o sucesso esperado.
Quanto à importância destes filmes do Joaquim Leitão… pois, julgo que a guerra colonial devia ser debatida, discutida, observada, estudada, radiografada, reflectida, absorvida de todas os modos possíveis, através da literatura, da ficção, dos filmes, documentários, peças de teatro, blogs, jornais, rádio, televisão. Devíamos exorcizar todos os medos, fantasmas, remorsos e assumir a exaltação e comunhão que as guerras sempre proporcionam a todos quantos participam nelas.

sábado, dezembro 16, 2006

Teorias da conspiração

Circula pela net um power-point com dezenas de fotos do 11 de Setembro de 2001 em Nova Iorque e no Pentágono. Não sou ferveroso partidário de teorias da conspiração, mas admito que elas (as conspirações) existam. Quem me quiser convencer, tem de trabalhar um bocado e apresentar provas e não, apenas, meras conjecturas.

Uma das teorias mais conspirativas é a que aponta para a hipótese do atentado do 11 de Setembro ter sido auto-infligido... confesso que me custa acreditar numa monstruosidade dessas.
Mas, por vezes, surgem evidências que nos põem a pensar... Reparem então nestas fotos, obviamente obtidas nos dias seguintes ao atentado.
O fogo estava já apagado. Os destroços recolhidos. Acham que foi um Boeing que bateu no edifício do Pentágono? ...

Isto cheira a história mal contada, não acham?

sexta-feira, dezembro 15, 2006

Leopoldo, o Indigno

“The river where he had landed would be known by Europeans for most of the next five hundred years as the Congo”, assim começa, na prática, uma história horrível relatada no livro que agora estou a ler. Uma história com início em 1492, com a chegada de Diogo Cão à foz desse imenso rio.
É um livro sobre um homem e os povos que ele dominou. O homem é o Rei Leopoldo II da Bélgica, por muitos ainda hoje considerado um grande humanista, filantropo, protector da ciência e da dignidade humana. Nunca um só homem beneficiou de uma mentira tão grande. E é isso que este livro desmascara. Um homem que vitimou os povos que viviam no imenso território que ele, no alto da sua imensa arrogância, reclamou para si próprio: o Congo.
A colonização belga do Congo vitimou 8 a 10 milhões de seres humanos. Foi um genocídio à dimensão do holocausto e, no entanto, não se fala dele. Ainda hoje, o silêncio impera sobre o que sucedeu no Congo nos últimos anos do século XIX. Ainda hoje, quem for a Tervuren, nos arredores de Bruxelas, pode continuar a ser enganado ao visitar o Museu da África Central com que Leopoldo II maravilhou o Mundo com os leões empalhados, as cabeças de gorilas e as peles de crocodilos que as expedições belgas traziam de África. Mas Leopoldo esqueceu-se de dizer que tinha outros troféus: mãos e pés decepados de seres humanos que ousavam desafiar a ordem instituída. Mãos e pés decepados aos milhares. Um sofrimento difícil de descrever, mas que vem contado neste livro de que vos falo: O Fantasma do rei Leopoldo. Existe uma tradução em português, da Caminho, mas preferi comprar a versão inglesa, a original.
A primeira vez que ouvi falar nestes relatos foi, precisamente, no Congo e, em rigor, num dos locais onde esse terror foi vivido: na província Equatoriale, no norte do país.
Foi durante a expedição científica organizada por Karl Ammann e que seguiu as pisadas de uma dessas expedições coloniais belgas do século XIX, no caso a liderada pelo explorador Le Marinel, mas disso já vos falei aqui. Foi num fim de tarde, no acampamento, que Ammann me falou deste livro. Desde então que estava para o ler. Foi agora.

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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