Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











sexta-feira, março 02, 2007

O Alberto e a Herminda

Aqui há dias estive em Seia. Fui a casa de um amigo que, embora viva em Lisboa, tem ali as suas raízes. Foi uma visita muito interessante, até porque também eu tenho uma costela montanhesa, embora bastante negligenciada.

Seia
O Alberto, além da casa da família, mantém vivo o negócio familiar. Precisamente, a produção de queijo da serra. Um fabuloso queijo da serra. Ao ouvi-lo falar sobre o dito queijo, lembrei-me da minha avó materna que, ela sim, foi queijeira lá nas faldas da serra, em Celorico e na Mesquitela, as terras onde viveu antes de vir para Lisboa.



Seia

Ao ouvir o Alberto falar do leite de ovelha coalhado pela flor do cardo, do cincho onde se aperta o coalho, da cura, do cheiro que aquilo deita, estava a ouvir a minha avó, que tantas vezes me falou do mesmo e que viveu muitos anos saudosa dos tempos de menina.


O Queijo da Serra é, hoje, um património cultural estabelecido. Produzir bom queijo é um bom negócio. O Alberto diz que o queijo que produziu este ano, já estava vendido desde o ano passado. E que, este ano, já vendeu o queijo que há-de produzir no próximo Inverno. Se tivesse sido assim no tempo da minha avó, nunca a Herminda teria vindo para Lisboa.

terça-feira, fevereiro 27, 2007

Estão a emparedar o Património Mundial da UNESCO, em Évora.

Desde 1986 que o centro histórico de Évora faz parte do património mundial classificado pela UNESCO. A lista inclui 830 locais ou monumentos de todo o Mundo que, no conjunto, formam uma herança que todos temos a obrigação de legar às próximas gerações.
Fazer parte desse património não serve, apenas, para incentivar o turismo ou o ego de autarcas e demais políticos. Antes de mais, resulta na obrigação de preservar esse património. Preservar é sinónimo de defender ou proteger. Isto é, não deixar cair de podre os telhados das casas, manter as paredes direitas, os caixilhos nas janelas, as velhas portas de batentes grossos. É também manter os locais vivos, com gente que lá queira morar, com fumo a sair pelas chaminés, com gatos escondidos nas sombras dos alpendres, com artes e ofícios.
Talvez se lembrem que não é a primeira vez que abordo aqui esta questão…

... se volto a falar disto é porque acho que vale a pena, primeiro que tudo. Depois, porque a minha irmã me enviou fotos de uma das casas que anteriormente eu tinha fotografado, relevadoras de como alguém decidiu emparedar uma casa construída antes da partida do Vasco da Gama para a Índia.
Fico com a sensação de que a autarquia de Évora não está a ser competente, na defesa deste património único no Mundo. O que dirá a UNESCO disto?

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Época de saldos

Passei a manhã no Tribunal de Oeiras. Estava arrolado como testemunha de Alexandre Paes, ex-director do 24 Horas, acusado de perseguição difamatória pelo Rodrigo Guedes de Carvalho.
O caso remontava a 2002, aos meses da brasa da SIC, quando o patrão decidiu despedir mais de 200 trabalhadores para não ter que vender parte do capital social da empresa. Travou-se uma luta titânica entre os trabalhadores e a administração que queria despedir barato. Foi um ano de muitas discussões, muitas assembleias de trabalhadores, muita intransigência patronal.
O 24 Horas era dos jornais que acompanhava mais de perto o evoluir da situação no interior da empresa. Quase todos os dias havia pequenas notícias sobre a SIC. Claro que o nome do Rodrigo foi mencionado muitas vezes, até porque ele sempre se pautou por um posicionamento próximo da administração. Às vezes, mesmo, mais papista que o papa.
Foi neste enquadramento que o Rodrigo se sentiu perseguido e difamado pelo jornal. Não lhe caíram bem alguns epítetos, como, por exemplo, “talhante bem arreado”, que é o que me ficou na memória. De início, Rodrigo pedia 10 mil euros de indemnização. Hoje, contentou-se com 3 mil e não chegou a haver julgamento. Se fizermos contas à inflação, cinco anos depois os 3.000 € são uma ridicularia, sendo que ainda há as custas do tribunal e os honorários do advogado para pagar (isto, se o patrão não patrocinou a causa). Afinal de contas, não foi grande ofensa…

domingo, fevereiro 25, 2007

A Margarida e o Nuno

Acabo de ler uma notícia que me deixou aliviado. Trata-se do acordo extra-judicial alcançado pela Margarida Marante e pelo Nuno Santos. Os dois tinham um litígio em tribunal, por alegadas declarações difamatórias da Margarida. Estou aliviado porque eu era testemunha da Margarida e, para ser sincero, não me sentia muito bem nesse papel. Trabalhei muitos anos com os dois. À Margarida, conheço-a desde sempre. Andámos juntos no Liceu Rainha Dona Leonor, fomos camaradas de partido político, camaradas de trabalho na RTP e na SIC. Devo-lhe algumas atenções raras, que outros não tiveram comigo. E gosto da coragem dela. Conheci o Nuno na SIC. Fui o seu primeiro coordenador no programa Praça Pública, que ele apresentava a meias com a Júlia Pinheiro. Depois fui, durante uns dois anos, coordenador do Jornal da Noite aos fins-de-semana, que o Nuno Santos apresentava. Sempre gostei de trabalhar com ele. É um tipo inteligente e eficaz e tem uma especial capacidade de improviso, condição essencial para se ser um bom apresentador de noticiários. Sempre considerei que, na SIC, o Nuno Santos era o segundo melhor pivot, logo depois do José Alberto Carvalho e muito à frente do Rodrigo ou do Camacho. Hoje, o Nuno Santos está a desempenhar de modo brilhante o cargo de Director de Programas da RTP, facto que deve causar muitos engulhos aos tipos que, na SIC, sempre o menosprezaram.

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Zeca

Vejam bem
Que não há
Só gaivotas
Em terra
Quando um homem
Se põe
A pensar

O Tal&Qual com Escrita em Dia

Semanário Tal&Qual, página 25, texto a 4 colunas na secção “Blogue Bem Informado”, faz referência ao Escrita em Dia, citando primeiro a reportagem (acho que lhe posso chamar assim) que fiz em Évora, em Agosto passado, sobre a degradação evidente do centro histórico da cidade, e depois um outro post sobre o mesmo assunto, por ocasião de umas declarações do Presidente da Câmara de Évora que veio dar razão às críticas feitas anteriormente. O trabalho do Tal&Qual repesca, ainda, duas das minhas fotos de prédios degradados do centro histórico. Fiquei mesmo vaidoso…

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Cinco anos depois, pelo menos a guerra acabou.

Savimbi morreu faz hoje 5 anos. Reli o diário de Alcides Sakala no dia 22 de Fevereiro de 2002 e, de novo, admirei-me com o tom frio que se sente das palavras escritas: “recebemos ao princípio da noite, mas com muito cepticismo, a notícia da morte do Presidente, anunciada em três comunicados de imprensa. Um do Governo de Angola, o segundo do Estado-Maior das FAA e o terceiro do Comando da Polícia Nacional de Angola. Anunciavam que o Presidente falecera às quinze horas de hoje, em combate.”
Recordo que depois da derrota no Cuíto, em Dezembro de 1999, a UNITA tinha sido expulsa do Andulo e do Bailundo. Savimbi organizou uma coluna militar, que também incluía milhares de civis, e procurava alcançar a Zâmbia. Essa coluna foi dividida em três, para dificultar a sua localização. Segundo o relato de Alcides Sakala, ele não estava com Savimbi quando o seu grupo caiu na emboscada montada pelas forças armadas angolanas.
Como foi que os de Luanda souberam do paradeiro de Savimbi? Há muitas teorias sobre isso. Uns dizem que foi graças à tecnologia dos americanos, que detectaram o sinal do telefone-satélite utilizado por Savimbi. Outros dizem que o mais velho foi atraiçoado pelos que estavam com ele, tipos cansados de anos de fuga pelo mato, a passar fome e com poucas esperanças de salvação.
Pelo menos a guerra acabou.

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Abriu a época das transferências

Acabo de ler o seguinte, na "linha" da Lusa:

Media
João Marcelino anuncia saída da direcção do Correio da Manhã e da Cofina
2007-02-21, 15h59
Lisboa, 21 Fev (Lusa) - O director do Correio da Manhã, João Marcelino, anunciou hoje de manhã, numa reunião de editores, que ia deixar a direcção do diário e o grupo de media Cofina, disse à Lusa fonte da empresa.
Na reunião, o jornalista afirmou que vai desvincular-se do grupo liderado por Paulo Fernandes, não adiantando nenhum pormenor sobre o seu futuro.


Pois eu sei o que vai o homem fazer, agora. Vai ser o novo director do Diário de Notícias. Apostamos?

Terra de cárceres

Angola está ainda longe de ser uma terra de liberdade.
O que aconteceu com Sarah Wikes é a enésima repetição de actos arbitrários e de intimidação sobre jornalistas e activistas dos direitos humanos, perpetrados nos últimos 30 anos.
Em 1986 aconteceu o mesmo com uma equipa da RTP. Idos de São Tomé e Príncipe, todos os cinco elementos desse grupo foram detidos sem explicação, logo à chegada ao aeroporto, privados de passaportes e interrogados pela polícia. Queriam saber o que estávamos ali a fazer. Bom, o que faz um jornalista? Aquela rapaziada não sabia… Ficámos em prisão domiciliária e só ao fim de 11 dias pudemos sair de Luanda, mas sempre acompanhados por um rapaz da segurança do estado.
Mas o que é mais sintomático, é o facto destes dirigentes não se preocuparem com a imagem que o mundo tem deles.

segunda-feira, fevereiro 19, 2007

A Madeira é um jardim

Alberto João Jardim deu o show previsível. Demitiu-se para suceder a si próprio. Vai tentar ser reeleito por uma maioria esmagadora, como tem acontecido, de resto, nos últimos 30 anos. Mas os problemas da Madeira não serão resolvidos desse modo. Jardim pode impor mais uma derrota eleitoral aos seus adversários, isso não espantará. Mas não será assim que a região vai conseguir mais dinheiro do orçamento geral do Estado, nem será assim que a região diminuirá o deficit democrático de que padece.
Sem um bolo tão generoso para distribuir, como de costume, vamos lá a ver se Jardim continuará a beneficiar de tantos apoios, como até hoje.
Há uns dois anos, lembro-me de ter assistido a uma aula de Alberto João, na Universidade Independente, em Lisboa, onde ele lecciona uma cadeira da licenciatura de Administração Regional e Autárquica, e de o ouvir dizer que quem governa o país, verdadeiramente, não é o governo, mas as comissões políticas do PS e do PSD. O que, a ser verdade, significa que não é só contra o governo que ele luta, mas também contra os seus próprios pares no partido.
Cá para mim, está na hora de Jardim se reformar e passar a gozar das benesses inerentes aos senadores da Nação. Neste momento, ele já prejudica mais a Madeira do que a beneficia.

domingo, fevereiro 18, 2007

O senhor Mandatário

Quando no primeiro referendo sobre o aborto o NÃO venceu, há uns anos atrás, não me lembro de alguém ter levado em linha de conta os milhões de votos no SIM que, derrotados, não viram nenhuma legislação ser implementada para amaciarem a criminalização do aborto. Podiam, por exemplo, ter legislado de modo a diminuir as penas de prisão previstas no Código Penal. Mas não, tudo ficou na mesma.
Agora, os defensores do NÃO querem ser levados em linha de conta e, como se o referendo não tivesse sido já realizado, até encontraram um novo Mandatário Nacional: o senhor Presidente da República.
Cavaco saiu a terreiro, finalmente, em defesa do NÃO. Veio lembrar as “boas práticas” europeias no caso da IVG. Porque diabo não se lembrou ele dessas “boas práticas” antes? Durante anos, enquanto a IVG foi considerada crime, nenhum defensor do NÃO se lembrou dessas “boas práticas”. Preferiram continuar a mandar as mulheres para a prisão.
Não sei se estas pessoas não se estão a esquecer que ao referendo não se pode aplicar nenhum método de avaliação proporcional de resultados. Ou se ganha ou se perde. Sempre quero ver o que vão fazer do meu voto.

sábado, fevereiro 17, 2007

O Mundo Perfeito

“Acabou de pousar uma avezinha no beiral da minha janela. Olhou para dentro, bateu com o biquinho no vidro, e eu fiquei tão imóvel como uma estante, esperando vê-la entrar por uma frincha que não deixei aberta. Gostaria de ter a minha casa cheia de aves que entrassem e saíssem livremente, fizessem os ninhos entre os livros, a papelada, nos cantos mais seguros. Gostava que a minha casa fosse um pombal, uma torre de aves que eu ouviria arrulhar e piar de manhã e ao final da tarde.” - in Mundo Perfeito , Eu Fico Com as Aves.


O meu avô materno, que morreu diabético e saudoso das aventuras vividas na América, por onde andou a ajudar a construir caminhos-de-ferro no Massachusetts e a limpar vidraças exteriores nos arranha-céus de Nova Iorque, tinha pássaros soltos em casa. Piriquitos de gaiola aberta, que esvoaçavam dos cortinados para o pescoço dele e lhe debicavam carinhosamente as orelhas.
Quando o velhote morreu, os piriquitos fugiram. Preferiram morrer de fome a sofrer de saudades.
De repente, pensei que se a avezinha da Isabela fosse um dos piriquitos do meu avô, o mundo seria, realmente, perfeito.

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Porno SIC


Para quem ainda tinha dúvidas, o jornal 24 horas, na edição de hoje, dissipa-as todas, ao revelar um negócio de filmes pornográficos que se efectua na SIC. Quando falo em dúvidas, refiro-me aos padrões morais e deontológicos dos patrões da SIC, claro. Tudo lhes serve para ganhar dinheiro.
Outro sinal revelador das coisas é o facto de nenhum dos jornalistas do canal ter querido dar a cara nesta denúncia. Prestam declarações sob anonimato, com medo evidente das represálias. Não são homens e mulheres livres, o que para quem exerce o jornalismo como profissão é triste, muito triste.

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Modernices

A modernidade traz imensas vantagens, é claro, mas também muitos riscos e inconvenientes. Os automóveis, por exemplo, cada vez melhores, mais rápidos, mais tecnológicos e mais caros. Esta manhã, quando vinha trabalhar, passei por cinco carros amachucados na Avenida de Ceuta. Lá estavam eles, os condutores, de telemóvel em punho, uns a chamar a polícia, outros a mãezinha, outros o reboque para levar o trambolho empanado dali para fora. O telemóvel, assim como o automóvel, são acessórios imprescindíveis. O telemóvel então, em poucos anos, transformou-se num artigo de primeiríssima necessidade. Ele toca e nós atendemos logo, como se a nossa vida dependesse daquilo. Como era bom, dantes, lembram-se, em que saíamos de casa ou do local de trabalho e ficávamos livres. Hoje não. O telemóvel é um cordão umbilical com a mulher (que quer saber onde andamos) ou com o patrão (que se lembrou de nos por a trabalhar fora de horas). Muitos empregos, hoje, implicam a obrigatoriedade de ter o telemóvel sempre à mão, de estarmos contactáveis a toda a hora e, portanto, disponíveis para o trabalho. Mas não vejo ninguém a prescindir do aparelhinho.
Ainda me lembro de quando o telefone chegou a minha casa, nos anos 60. Era uma coisa preta, pesada, com um disco onde se enfiava o dedo para marcar os números num movimento de rotação. Era um utensílio das casas burguesas.
Hoje, acho que há mais de 11 milhões de telemóveis activos, em Portugal. Ou seja, mais do que 1 por habitante.


segunda-feira, fevereiro 12, 2007

Quando a terra treme

Não dei pelo sismo de hoje, mas do que aconteceu em 1969 lembro-me bem. Foi de noite, acordei com um ruído enorme, um ronco de som cavo, e com a casa toda a abanar. Parecia que os móveis estavam a dançar. E os candeeiros também. Lembro-me de ter dado um salto da cama e de ter encontrado a minha mãe que vinha a correr para o meu quarto. Descemos as escadas do prédio a correr. Era um 2ºandar. Só a meio das escadas o som desapareceu e o prédio deixou de abanar. A rua estava cheia de gente. Todos em pijama, descalços, alguns seminus, enfim, todos tinham fugido como estavam. Lembro-me, ainda, de ter sentido duas réplicas nessa noite. Mas já não fugimos para a rua. A televisão estava muda, mas a rádio era o grande meio de informação na época e cumpria o seu papel. Todos ouvíamos os conselhos transmitidos pelas autoridades. Foi uma experiência marcante, essa noite. Tinha 11 anos e nunca mais deixei de ter medo de terramotos.

domingo, fevereiro 11, 2007

Um país mais livre e mais justo

Agora, o Estado já não se pode esconder atrás de uma lei iníqua, uma lei que nada impedia e só obrigava as mulheres a abortar na clandestinidade. Uma lei que custou muitas vidas, estupidamente. Agora, o Estado tem de providenciar condições para que os hospitais públicos atendam as mulheres que, por alguma desgraça da sua vida pessoal, não possam continuar com a gravidez e precisem de abortar. Não acredito, contudo, que o aborto vá aumentar, lá porque passou a ser legal (até às 10 semanas). Não acredito que alguém faça um aborto de ânimo leve, só porque lhe deu na telha. O Marcelo Rebelo de Sousa acredita, assim como a maioria dos bispos da Igreja Católica, mas esses perderam esta luta.

sábado, fevereiro 10, 2007

Referendo

Não sei quem vai ganhar o referendo. Mas se as pessoas votassem para responder, apenas, à questão que se coloca, o SIM teria, certamente, uma vitória esmagadora. É que a questão prende-se com a despenalização do aborto, ou seja, não se coloca nenhuma questão moral, não se questiona qualquer dogma religioso, apenas se pretende saber se o aborto deve continuar a ser penalizado com uma pena de prisão ou se não. Se o aborto é pecado? Não é essa a pergunta. Se não gostamos de crianças? Não é essa a pergunta. Se iremos abortar alguma vez? Não é essa a pergunta. Se quem aborta é de esquerda? Não é essa a pergunta. Se queremos continuar a mandar mulheres para a prisão por terem feito um aborto? Essa é a questão a que temos de responder, em consciência.

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

Há malucos para tudo (2ªparte)

O Presidente da Gambia insiste na farsa que iniciou há dias.













Depois de ter anunciado ao Mundo que sabia como curar a SIDA, Yahya Jammeh fez agora saber que resultados laboratoriais confirmam o sucesso do seu tratamento. Há coisas fantásticas, não há?
Foi o Pululu quem me voltou a chamar a atenção para isto, ao enviar-me um link para uma notícia da agência noticiosa angolana.















Li, então, que um tal “Souléymane Mboup, da Universidade Cheikh Anta Diop, de Dakar”, confirmou que o primeiro grupo de pacientes do Presidente gambiano apresenta “ausência de plasma viral ou a sua presença em muito fracas quantidades”, pelo que o tratamento à base de ervas medicinais “parece eficaz”.
Pois parece, mas não é. Ou então a comunidade científica internacional não passaria de um bando de idiotas.
O Presidente Jammeh pode ser curandeiro à vontade, que ninguém lhe leva a mal, mas não precisava de brincar com coisas tão sérias. Até pode enganar alguns desgraçados que se agarram a qualquer hipótese de cura, mas que pensará ele do modo como o Mundo o vê?














quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Artes e manhas

Nuno Santos, o actual director de programas da RTP, nunca deve ter sonhado que, um dia, uma decisão sua iria provocar uma acção (neste caso, reacção) legislativa de quase todos os partidos políticos representados na Assembleia da República.
Pois, face à sua decisão de relegar os tempos de antena para as 19 horas (ou seja, antecipar em cerca de ½ hora o habitual horário de transmissão), a Assembleia da República acaba de aprovar uma nova lei que obriga a RTP a colar os tempos de antena ao Telejornal.
Os deputados consideraram que a decisão de Nuno Santos desconsiderava a importância dos tempos de antena e que os relegava para um horário de menor audiência.
Embora, porventura, alheios a essa realidade, os deputados acabaram de fazer um grande favor à SIC e à TVI. As audiências do Telejornal irão baixar, com toda a certeza, sempre que a RTP tiver de passar tempos de antena imediatamente antes. Os tempos de antena são, normalmente, tempo para zapping e muitos telespectadores, uma vez mudado o canal, irão ficar entretidos com qualquer outra programação. O Telejornal, cujas audiências têm sido uma pedra nas engrenagens da SIC e da TVI, fica assim mais fragilizado.
Assim, temo que as audiências dos tempos de antena, às 19h30 ou 19h45, acabem por ser ainda menores do que seriam às 19 horas.
Digamos que se, por absurdo, esta polémica tivesse sido engendrada pelo Dr.Balsemão, não teria sido mais eficaz...

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Já não se pode dar milho aos pombos

Muito sinceramente, acho que a gripe das aves está muito mais espalhada do que se diz. Não sei se nos andam a esconder alguma coisa, mas tenho o pressentimento de que a situação é bastante grave e não vejo que se esteja a fazer alguma coisa de concreto para a combater, a não ser que a missão esteja atribuída aos serviços secretos.
Reparem bem. De repente, surge um surto da gripe das aves no centro de Inglaterra, em plena Europa. Entretanto, houve notícias de casos em vários países africanos, Egipto e Nigéria se não me engano. Há, também, notícia de problemas na Indonésia. Ora, se em Inglaterra todos vimos alguma acção eficiente para conter a epidemia, com a eliminação de centenas de milhar de perus, nos outros locais tenho sérias dúvidas de que se esteja a fazer alguma coisa de útil, tendo em conta a tradicional desorganização dos países em causa e a crónica falta de meios com que se debatem. E se o vírus chegou à Nigéria, porque não a muitos outros países africanos? Quem me garante que existe algum tipo de vigilância eficaz em países como, por exemplo, o Mali, a Guiné-Bissau, a República Centro-Africana, o Congo, o Malawi, onde nem sequer existem laboratórios capazes de efectuar análises para detectar o H5N1.
Estamos todos à espera que o diabo do vírus adquira capacidade para se transmitir entre humanos, porque já há muito que adquiriu a capacidade de se transmitir dos pássaros para humanos e outros mamíferos, como cães e gatos.
mercado em Nairobi
E só quando essa tragédia se abater sobe a Humanidade é que alguma coisa será feita, mas depois de alguns milhões terem morrido, por certo. Mais uma vez, o continente africano será o centro de todas as desgraças, quase de certeza. Já assim é no que diz respeito à SIDA e à malária. Agora, a gripe das aves é mais uma sentença de morte para os milhões de debilitados e famintos que vivem nos bairros da lata de Dakar, Nairobi, Kinshasa ou Luanda.
Acredito que a praga devastará, primeiro, as desprotegidas populações de muitos países africanos e asiáticos, mas se os países ricos do Ocidente falharem na descoberta de uma vacina eficaz, também não terão melhor sorte.

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

O democrata

Rendo homenagem aos Gato Fedorento e só lhes peço que nunca se verguem. Sim, eu sei que o dinheirinho faz muita falta, mas a espinha dorsal também, como qualquer gato tem obrigação de saber, de resto.
Fabulosamente mortal, a rábula do “democrata” que tudo aceita, mas que impõe a sua opinião a todos os outros. Como o próprio Marcelo tinha acabado de reconhecer, no seu tempo de antena, a seguir ao Telejornal, apanharam-lhe mesmo os tiques e o sorriso rasgado à faca. Tal & qual.

domingo, fevereiro 04, 2007


Voto sim, porque um filho tem de ser desejado, bem-vindo, amado. Porque não entendo que se deva ter filhos por outras razões, legais, sociais ou morais.

sábado, fevereiro 03, 2007

Vende-se reptilário

Quero ver o que dirá Marques Mendes, se o Dr.Balsemão vender a Impresa à RTL.
A hipótese anda a ser falada insistentemente em alguns jornais, nomeadamente nos económicos. Parece que seria um grande negócio para o patrão da SIC… e sempre se livrava de uma dor de cabeça para a qual já não tem idade.
Acontece que a RTL é uma empresa alemã e, se bem me lembro, quando os espanhóis da PRISA vieram comprar a Média Capital (TVI), o dirigente do PSD acusou o governo de estar a beneficiar os espanhóis a troco de não-sei-o-quê.
O caso foi até levado à Comissão Parlamentar dos Direitos, Liberdades e Garantias, onde o Ministro dos Assuntos Parlamentares foi dizer o óbvio, ou seja, que o governo não tem nada que ver com mudanças dos accionistas de empresas privadas, nem tem que autorizar ou impedir a venda de empresas portuguesas a grupos económicos estrangeiros. Às vezes é pena, mas a verdade é que o governo não tem competência para tanto.

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Há malucos para tudo

O Presidente da Gâmbia, Yahya Jammeh, diz que consegue curar a SIDA, em 3 dias.
O Ministro da Saúde confirma as afirmações do Presidente, garante que os doentes que estão a ser tratados pelo Presidente com ervas medicinais estão a melhorar.
A capacidade de curar a SIDA foi anunciada pelo próprio Jammeh, perante o corpo diplomático destacado em Banjul.
Que se saiba, nenhum dos embaixadores presentes ousou duvidar, em voz alta, das afirmações do Presidente.


Esta notícia está a ser divulgada pela BBC. Se quiserem ouvir tudo, sintonizem sábado o BBC Service’s Weekend Network Africa. Pode ser que alguém tenha a coragem de dizer que estes tipos estão loucos. Afirmar coisas destas é de uma irresponsabilidade tremenda, porque se uns se calam por medo, outros acreditarão piamente nas palavras do Presidente Jammeh. Não é assim que se promove a educação necessária para implementar comportamentos sexuais que contribuam para a luta contra a SIDA.

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

O exemplo de Cabo Verde

Percebo que a questão dos Direitos Humanos não seja levantada pela delegação governamental portuguesa que visita a China. Um pequeno país como Portugal não pode afrontar um gigante como a China. Se a ideia é desenvolver os negócios com a China, então percebe-se que se feche os olhos a questões delicadas politicamente. Mas lamento que assim seja.
Agora, também não é preciso exagerar e há algumas verdades que não devem ser escondidas ou dissimuladas. A China deve boa parte do seu sucesso económico à exploração que lá se pratica sobre o povo trabalhador. A mão-de-obra chinesa é muito mal paga (salário médio inferior a 100 € por mês), escravizada em longas jornadas diárias de trabalho, sem direito a férias nem à maioria das regalias sociais de que nós, em Portugal, ainda beneficiamos. Se os empresários chineses julgam que poderão vir para aqui praticar as mesmas regras laborais do seu país, talvez seja melhor, para nós e para eles, que fiquem onde estão.

Cidade da Praia, plateau

Vi há dias, na RTP-África, uma reportagem vinda de Cabo Verde, onde uma multidão se manifestava na rua, em frente às inúmeras lojas chinesas, contra a exploração a que estão sujeitos os trabalhadores caboverdeanos empregados nessas empresas chinesas. Lá por causa de uns empregos precários, os caboverdeanos não calaram a revolta que lhes vai na alma e foram para a rua protestar.

quarta-feira, janeiro 31, 2007

Crack house (continuação do post anterior)

Outro pormenor do modo expedito como se aplica a Justiça nos States.
Em Washington (e provavelmente em muitas outras cidades, se não em todas) quando a polícia desmantela uma organização de venda de droga, nomeadamente de crack, a casa do dealer é demolida (à semelhança do que fazem os israelitas com as casas dos palestinianos autores de atentados contra Israel), mesmo se nessa casa vivam outras pessoas que eventualmente não estejam relacionadas com o negócio. Imaginem que o pai é passador de crack, mas a mulher e os filhos não têm nada a ver com o caso. Pois, a casa vai abaixo, na mesma.

Vi isso acontecer quando por lá andei, em 1996. Quem me informou dos pormenores desta política foi mesmo um funcionário do governo americano. Os americanos acreditam que pelo castigo podem vergar o indivíduo.

Acreditam nisso e aplicam essa filosofia em quase tudo, até mesmo no relacionamento com outros países ou, agora, na chamada guerra contra o terrorismo. No que respeita ao terrorismo, já se percebeu que a estratégia não vai resultar. Quanto ao tráfico de droga, também não acredito que resulte, até porque haverá sempre alguém disposto a arriscar tudo para fugir da indigência, isto é, aqueles que não têm nada a perder.

terça-feira, janeiro 30, 2007

Drug dealers

A propósito de um texto sobre o racismo vigente nos EUA, no Pululu, veio-me à memória uma sala de audiências de um tribunal de polícia, em Washington, especializado em julgamentos sumários de casos de tráfico de droga, onde a fila de réus era longa e exclusivamente constituída por negros. Uma estranha coincidência porque, na rua, a maioria dos dealers era de raça branca ou hispânica.

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Como se sabe, amor com amor se paga

Nino anda a pagar as dívidas que contraiu durante a crise de 1998/99. Depois de ter auxiliado o Senegal na guerra contra os rebeldes de Casamança, agora está a auxiliar a Guiné-Conakri na repressão das manifestações populares. Está confirmada a presença de tropas da Guiné-Bissau em Conakri, concretamente em Buruntuma, uma cidade do norte do país.
Recordo que tanto Abdoulaye Wade, o presidente senegalês, como Lansana Conte, o presidente da Guiné-Conakri, prestaram auxílio com tropas durante os meses em que Nino Vieira defrontou a rebelião de Ansumane Mané. Embora tenham sido derrotados e Nino tenha sido obrigado a fugir para o exílio em Portugal, a dívida ficou e, agora que Nino voltou ao poder (legitimado por eleições), chegou a hora de pagá-la.
A Nino não interessa saber quais as circunstâncias em que surgiu a instabilidade na Guiné-Conakri, nem sequer se o velho ditador Conte tem alguma legitimidade para se agarrar ao poder desde 1984. Interessa-lhe sim que os regimes vizinhos sobrevivam porque isso lhe garante, em princípio, apoio institucional para si próprio.

Bissau, 2004

As tropas que Nino enviou (e que se têm evidenciado pela crueldade com que actuam) são a nova elite do exército guineense, os conhecidos “aguentas”, um corpo criado precisamente em 1998 para a guerra contra Ansumane Mané. Na altura, lembro-me bem, os “aguentas” não passavam de um bando de miúdos arrebanhados nas ilhas dos Bijagós, sujeitos a uma apressada recruta militar e que constituíam uma espécie de guarda pretoriana de Nino. Morreram que nem tordos, principalmente na ofensiva final de Ansumane contra Bissau. Os sobreviventes foram presos e, pouco depois, devolvidos às famílias. Ansumane chamou-lhes, na cerimónia de libertação, “os nossos meninos”, referindo-se ao seu desejo de que todos os jovens do país pudessem ter uma vida sã e longa. Coisa que ele não teve, como se sabe.

domingo, janeiro 28, 2007

O grito dos caranguejos

Quando trabalhamos em rádio, aprendemos a dar real importância ao som. Em televisão, o som também é importantíssimo, claro, mas a atenção está centrada no “boneco” que mexe, não no som, até porque em muitas situações as imagens nem precisam de som para ter grande impacto. Lembro-me de uma reportagem que fiz (para a SIC) em Bissau, já no fim da guerra civil, em 1999, numa escola onde tinham caído uns obuses e morrido dezenas de pessoas que se tinham refugiado ali, pensando que estariam a salvo. Quando lá cheguei, dois dias depois, já não havia cadáveres, mas havia as fotos tiradas pelo padre João e que provavam a mortandade inútil e criminosa de dezenas de civis, homens, mulheres e crianças. Filmei as fotos e, na montagem da reportagem, não pus qualquer som sobre essas imagens. Teve um impacto tremendo, soube depois, era um silêncio difícil de suportar, disseram-me.
Depois, na TSF, onde trabalhei durante 2004, aprendi a valorizar o som ao pormenor. A rádio exige sons limpos, audíveis, palavras bem soletradas. A rádio pede-nos textos descritivos, que substituam a imagem que não existe, mas que se forma na cabeça de quem ouve. A rádio pede-nos sons luminosos, como o crepitar das chamas nos fogos da Arrábida, o chape-chape do Tejo contra o costado dos botes da pesca artesanal, o tremor na voz de quem vai ficar sem a barraca no Bairro Estrela d´Africa, a exaltação contida de quem vai ficar sem o emprego na Docapesca, o tic-tic-tic da agulha eléctrica do tatuador no Vale das Almas (memórias soltas dos trabalhos que fiz na TSF). O pior que pode haver em rádio é ruído na comunicação. É por isso que sempre detestei aqueles momentos dedicados à bolsa, em que alguém despeja uma catadupa de palavras estranhas e pouco perceptíveis sobre o sobe e desce, as percentagens, os ganhos e perdas, das empresas e dos índices de não-sei-de-quê. Aquilo deve ser bem pago pelos patrocinadores, mas, na minha opinião, não faz sentido em rádios generalistas, julgo que só afugenta ouvintes.
O som é, portanto, da maior importância para a percepção que temos da vida. Como já repararam, há sons que nunca esqueci, como o do serrote na tíbia do senhor Nicolau. Estou-me a lembrar, também, por exemplo, de um som estranhíssimo que, julgo, a maioria das pessoas nunca ouviu. O som do caranguejo. O caranguejo emite sons, baixinho mas emite. Há uns anos, há muitos anos, de facto, estava com o Paulo Dentinho e o António Hipólito na Ria Formosa, filmávamos mais um episódio da série “Linhas de Pesca” para a RTP, dentro de um bote de pesca artesanal. O pescador dedicava-se à apanha de caranguejos. Uns bichos pequeninos, que ele devia vender muito barato. Tinha centenas deles já, dentro de uma rede enorme. Num momento de silêncio entre nós, apercebi-me de um som que vinha do saco de rede. Uma espécie de ra-ra-ra-re-re-re-ra-ra-ra baixo, quase inaudível. Mas estava lá, o som. Eram as centenas de caranguejos que gritavam, aflitos, como se estivessem a adivinhar o que lhes ia acontecer.

sábado, janeiro 27, 2007

Casos de polícia


A eleição de Francisca Van Dunen para o cargo de Procuradora Distrital de Lisboa é um acontecimento relevante para o país. Primeiro, por ser uma mulher e, depois, por ser uma mulher negra, nascida em Angola.
Francisca Van Dunen vai chefiar uma equipa de 21 Procuradores Gerais adjuntos, entre os quais a célebre Maria José Morgado.
Francisca Van Dunen chegou a Portugal em 1977, fugida das purgas do regime angolano, depois da morte de um irmão, José Van Dunen e da cunhada, Cita Valles, acusados de conspiração e assassinados na cadeia.
Deve ser uma “mulher do caraças”.

sexta-feira, janeiro 26, 2007

Kosovo-quase-independente

No início de Fevereiro, vai ser divulgado o plano da ONU para o futuro do Kosovo.
Um plano mantido em segredo, até agora. Nem uma palavra transpirou para a imprensa. O que se sabe é que as potências envolvidas na discussão – Rússia, EUA e vários países da Europa ocidental – estão divididas. A Rússia sempre foi aliada da Sérvia e, portanto, defende o ponto de vista sérvio que é o de manter a província do Kosovo integrada no país. Os EUA deverão apostar na independência do Kosovo. Os americanos já lá têm Camp Bondsteel, uma enorme base militar e, se a construíram, é porque querem manter o território sob seu domínio, até porque o Kosovo pode tornar-se num santuário fundamentalista muçulmano e isso eles não quererão deixar que aconteça. A base militar americana é, por outro lado, mais uma razão para a Rússia tomar posição contra os EUA. Os europeus (Inglaterra, França, Itália, Alemanha), como de costume, andarão divididos e cada qual a jogar pelo seu lado.
A decisão final caberá ao Conselho de Segurança da ONU. Será lá, em Nova Iorque, que a verdadeira negociação irá ter lugar. Mas a Rússia ou a China poderão sempre vetar.


Estou curioso para ver como irão as potências lidar com conceitos simples como, por exemplo, o direito dos kosovars à autodeterminação, o direito a decidirem o seu próprio futuro.
Também quero ver como irão ser acautelados os direitos das minorias que subsistem no Kosovo, nomeadamente a minoria sérvia que, ainda hoje, continua a viver enjaulada nos chamados “enclaves”, protegidos por tropas estrangeiras, sob pena de serem massacrados pelos mais fanáticos dos kosovars.
Sempre que penso neste assunto, lembro-me de Mitrovica, uma cidade dividida por um rio onde, de um lado vivem os albaneses e do outro os sérvios. Também lá estavam os ciganos, mas desses não restou vivalma nem pedra sobre pedra.

quinta-feira, janeiro 25, 2007

Pigs in Space

A China destruiu um dos seus satélites meteorológicos, disparando um míssil balístico de médio alcance. O satélite em questão era uma máquina velha e sem préstimo. O expediente utilizado pela China poderá ser entendido como um meio expedito de retirar do espaço um trambolho que já não funcionava. Mas o tiro certeiro num pequeno objecto espacial a mais de 500 quilómetros da Terra também revela as actuais capacidades militares da China. E essa revelação é preocupante, pelo menos por duas razões. A primeira, é que não se percebe porque diabo a China quis revelar ao Mundo a sua capacidade para deitar satélites abaixo, já que podia manter o segredo. A segunda, é que até hoje ainda não se fez uma arma que não tivesse sido utilizada.

quarta-feira, janeiro 24, 2007

Ryszard Kapuscinski, "o africano"

Ao ouvir a rádio, esta manhã, quando distribuía os meus filhos pelas escolas, ouvi a notícia da morte de Kapuscinski, um estranho polaco que contou África como poucos.
Ryszard Kapuscinski escreveu coisas espantosas sobre os africanos, durante décadas. Correu o continente de lés a lés, sempre atrás das revoluções, golpes de estado e guerras sem fim. Escrevia notícias e escrevia livros.

Os relatos de Kapuscinski levaram-me para o jornalismo e, talvez, para África. A notícia da sua morte só podia recebê-la de outro africano, realmente. Todos nós, africanos, acabamos de perder alguém que admirávamos.
Durante décadas, Kapuscinski escreveu sobre o que viu e sentiu: a exaltação das independências africanas, a esperança no futuro, as desilusões, a amargura das guerras, o tribalismo e o racismo de que os africanos são vítimas e prevaricadores.


Contava histórias de gente simples, do quotidiano das aldeias, de “uma África que não existe”, tal como ele disse.

segunda-feira, janeiro 22, 2007

É que os portugueses adoram o chicote!

Leitura aconselhada a todos os salazarentos.

Porque ela escreve como poucos e "vergasta" como ninguém. Leiam aqui.

domingo, janeiro 21, 2007

Sementeira do Diabo

Foi agora divulgado o relatório de 2005 da Hallo Trust, uma empresa de desminagem que actua em Angola, já há vários anos.
Então, os números são estes, só em relação à província do Bié: foram neutralizados e destruídos 3.045 artefactos explosivos. Destes, 1.326 eram minas anti-pessoal, 60 eram minas anti-tanque e 1.759 eram granadas e outros artigos deixados no terreno por explodir. Assim, foram limpos 28 campos de minas, distribuídos pelas localidades de Cuíto, Cunhinga, Catabola, Camacupa, Chitembo, Cuemba e Andulo. Agora, no Bié, já há 227 quilómetros de estradas seguras, isto é, desminadas.
Mas a tarefa ainda só agora vai a meio.

sábado, janeiro 20, 2007

Os amigos são para as ocasiões

O Frederico Duarte Carvalho é um tipo simpático e gosto de o considerar um amigo. Conhecemo-nos na famigerada Impala, quando aceitei ir para lá trabalhar para dirigir um novo projecto. No final, não havia nenhum novo projecto (os gajos ali são doidos) e, em menos de três meses, estava desempregado. A história da minha passagem pela Impala ainda está por contar, mas fá-lo-ei quando estiver sarado do nojo que nutro por aqueles bandalhos. Adiante.
O Frederico fez parte da redacção que formei para esse “novo projecto”. Quando aquilo abortou, também ele acabou por ficar desempregado. Assim ficou durante quase dois anos. Por ironia, agora está de novo na Impala. Os tipos já não conseguem convencer ninguém a ir para lá. Quando precisam de algum bom jornalista, têm de andar à procura entre os desempregados. Foi assim que o Fred aceitou o regresso. Por absoluta falta de alternativa.
Bom, mas esta conversa destina-se a chamar-vos a atenção para o blog do Fred… onde, num post recente, ele escreve que espera que seja o Salazar a vencer aquele concurso da RTP-1 sobre as grandes figuras de Portugal. Não só o desanquei na caixa de comentários, como o vou fazer, de novo, aqui. Como não acho que esteja a ser irónico, é preciso envergonhá-lo!
“Oliveirinha” Salazar a grande figura da História de Portugal? Nem pó, meus amigos! Logo ele, a quem devemos todos os males de que padecemos, todas a fraquezas do país. Ele que impediu a modernização do país, que protegia os industriais nacionais impedindo a concorrência das industrias estrangeiras. Depois, quando Portugal teve de enfrentar a globalização, foi o que se viu no Vale do Ave, na Marinha Grande, em Setúbal, por todo o lado.

Para Salazar, desenvolvimento económico era aferrolhar dinheiro e barras de ouro, era guardar notas em baús bafientos. Nunca foi investir, nunca. E, caro Frederico, o que dizer dos milhares de mortos e feridos, estropiados, das guerras coloniais? O que dizer do Tarrafal, de Peniche, do Aljube? Reprimiu a liberdade, suprimiu os direitos cívicos e políticos do povo, recusou-se a descolonizar no tempo certo, teimou na estupidez do “orgulhosamente sós”, erros que custaram a vida de milhares de pessoas, tanto aqui como nas chamadas províncias ultramarinas.
Frederico, o Salazar não prestou. Felizmente, não deixou descendência.

sexta-feira, janeiro 19, 2007

Edmundo Pedro


Ontem estive na apresentação do livro de Edmundo Pedro, o primeiro volume da biografia de uma vida exaltante. Fui levado pela mão de amigos que conhecem o Edmundo de há muito.
Vou ler este testemunho de alguém que sempre teimou em ser cidadão inteiro.
Acho que vou aprender muito.

quarta-feira, janeiro 17, 2007

Há os bons e os maus

Vista de fora, a Tunísia vive sob uma espécie de ditadura suave (se é que tal coisa existe…), onde alguns partidos políticos são tolerados desde que não perturbem o sono ao presidente Zine El Abidine Ben Ali que, como é bom de ver, chegou ao poder através de um golpe de estado.
O país tem petróleo mas vive à porta do Sahara e, para além de tâmaras, pouco mais se consegue tirar da terra. A riqueza é muito mal distribuída e a pobreza é grande e seria maior, muito maior, se não fosse o turismo. A Tunísia é um destino barato para os europeus. Fica perto, a duas ou três horas de voo da maioria das capitais europeias, é suficientemente exótico, tem muitos monumentos históricos (principalmente romanos) e as praias não são más. Todos os verões, os turistas reanimam a economia dos tunisinos, desde os vendedores de tapetes aos aldrabões que vendem falsas moedas romanas nas ruínas de Cartago.
Dir-se-ia que é um país de paz. Mas, volta e meia, a polícia política de Ben Ali descobre um grupo de alegados terroristas, sócios da Al Qaeda, e mata os que resistem à prisão. É assim que, nos últimos tempos, vários tiroteios têm abalado a pacatez da vida dos tunisinos. De vez em quando, também ocorrem atentados bombistas, como o que fez explodir a velha sinagoga sefardita de Djerba. Na Tunísia existem, de resto, vários locais sagrados para os judeus.
O último grupo desmantelado, um grupo fundamentalista sunita, parece que tinha armazenado explosivos em grande quantidade, mapas com a localização de embaixadas em Tunis e nomes de vários diplomatas, hipotéticos futuros alvos da acção armada deste grupo considerado próximo dos fundamentalistas islâmicos argelinos.
Não sei até que ponto estes alegados fundamentalistas são, realmente, um perigo para a estabilidade da região. Na Tunísia não há liberdade de imprensa e as notícias que saem do país são só as aprovadas pela censura oficial. Só por uma vez estive na Tunísia em trabalho, foi em 1991, durante a I Guerra do Golfo. O Norte de África era, então, considerado a terceira frente de batalha e temia-se que os movimentos fundamentalistas, na época alegadamente aliados de Saddam Hussein, tentassem derrubar os regimes do Magreb, nomeadamente em Marrocos e na Tunísia. Por lá andei, durante uns dois meses, a filmar manifestações anti-ocidentais e a entrevistar líderes fundamentalistas. Em Tunis, consegui chegar à fala com o líder do An-Nahdha, um partido político islamista. Era um tipo gordo, borrado de medo de vir a ser preso. Não me pareceu que fosse um grande perigo, mas quem vê caras não vê corações.
Agora, que volto a ler notícias sobre a repressão que se abate sobre os oposicionistas tunisinos, pergunto-me se a manutenção desta situação algo instável não será uma forma do regime autocrático de Ben Ali conseguir apoios no ocidente, nomeadamente na Europa. Deste modo, os ocidentais vão desculpando a falta de liberdades na Tunísia, a manutenção sem prazo da ditadura, sempre sob a desculpa de que o perigo islâmico espreita e que, do mal o menos, o Ben Ali não nos chateia.

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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