Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











quarta-feira, março 14, 2007

Novo apartheid

Aqui há tempos redescobri umas fotos de Durban. Estive lá em 2000, quando se realizou uma conferência internacional sobre SIDA. Foi uma experiência muito gratificante, até porque tive oportunidade de ouvir falar Nelson Mandela, de facto, um homem diferente.


Mas esses dias que passei na África do Sul deram, ainda, para perceber alguma coisa do que se estava a passar no país. Depois do apartheid ter sido desmantelado, seria lógico que começasse a surgir uma elite social negra. E isso era visível, por todo o lado. Nas auto-estradas, já se notavam muitos carrões de último modelo, daquelas marcas do costume: BMW, Mercedes, Audi, Nissan, etc. Nas ruas, os enfatados. Nas zonas comerciais, muito movimento. Os motoristas de táxi, no aeroporto, era quase todos brancos. No centro da cidade, também vi pedintes brancos. E vi vários brancos com cartazes pendurados no peito e nas costas a pedir emprego. A pobreza e as dificuldades não cabiam já só aos negros, como dantes.
downtown
Percebi, também, em conversas com quem lá vive, que o novo regime sul-africano decretou aquilo a que chamam “”política de acção afirmativa”, que mais não é senão uma discriminação exercida sobre os brancos, de modo a favorecerem os negros na obtenção de empregos ou nomeação para cargos directivos. Uma lei que pretende equilibrar as injustiças do passado, reservando cargos a todos os níveis das empresas públicas e privadas para a população não-branca. A legislação estabelece que, perante várias candidaturas a determinado lugar, os não-brancos têm sempre preferência na admissão, a não ser que os candidatos brancos possuam maiores habilitações técnico-profissionais, ou que para determinada posição não exista qualquer candidato não-branco com habilitações semelhantes ao do concorrente branco. A aplicação prática da lei tem gerado uma insatisfação crescente entre os brancos, que na prática são impedidos de concorrer a lugares de nível médio e superior nas empresas, uma vez que mesmo em casos em que possuem mais habilitações, acabam por ser preteridos.
Contou-me um jornalista português que vive em Joanesburgo que uma prima tinha concorrido para uma vaga num banco e que lhe tinham dito, logo à partida, que não valia a pena inscrever-se porque nenhum branco ia ficar com aquela vaga, por mais qualificado que fosse.
Pelo que sei, nada mudou, desde então. A tal “política de acção afirmativa” continua a ser exercida e não se sabe quando deixará de haver discriminação contra os brancos na África do Sul.
porto de Durban
Julgo que seria tempo disso acabar. Acho que o país só poderá piorar se essa discriminação não for abolida. Digamos que, sem querer pegar nos chavões do costume (a economia, o politicamente correcto, os Direitos Humanos), acho que é um péssimo exemplo educacional para as novas gerações de sul-africanos. Se, dantes, o apartheid era um regime abjecto, não me parece que, hoje, as coisas caminhem de forma muito diferente. Os sul-africanos estão a formar novas gerações de racistas. Tanto negros como brancos.

terça-feira, março 13, 2007

Angola e o direito à reciprocidade

As cartas de condução portuguesas deixaram de ser válidas em Angola. Depois de Mantorras ter sido detido e levado a tribunal por estar a conduzir com uma carta de condução angolana (não válida em Portugal), eis que o governo de Angola reivindica o “direito à reciprocidade” e passa a aplicar a mesma medida.
Em 1998 a minha carta de condução portuguesa expirou a data indicada na validade. Embora em Portugal o documento continue a ser válido, porque a legislação mudou e as cartas só caducam depois do cidadão fazer 65 anos, o polícia angolano não quis saber disso. Se a data tinha expirado, estava caducada. Multou-me, claro.
No dia seguinte, depois de ter estabelecido o contacto necessário, à mesa do restaurante Mutamba, ao almoço, comprei uma carta angolana por 100 dólares americanos. Foi fácil, rápido e descomplicado. Ainda hoje tenho esse documento (na foto) que, de resto, tenho utilizado sempre que vou a Angola ou, até, noutros países africanos onde essa carta é reconhecida. O mesmo facilitador propôs-me, lembro-me bem, a compra de outra documentação útil, a mais interessante seria, talvez, a autorização de residência. Mas, como não precisava…
Ainda hoje, sei que com facilidade qualquer um pode comprar uma carta de condução, um certificado de habilitações, reconhecer uma assinatura falsa ou satisfazer qualquer outra necessidade do género que dependa, apenas, da “boa vontade” do funcionário da repartição pública. São os esquemas de sobrevivência em que os angolanos se especializaram, ao longo dos anos, de modo a complementarem o salário.

segunda-feira, março 12, 2007

Será eco?



José Pacheco Pereira, ex-deputado do PSD, comentador assalariado da SIC, confessou no passado sábado, no Público, o desejo de ver a RTP desaparecer. Diz ele que “o país ficava muito melhor sem televisão pública” e que “não há nada que a RTP hoje faça, mesmo como instrumento de política externa, que se não possa contratualizar com as privadas”.
Realmente, seria uma boa ideia o Estado pagar à SIC ou à TVI o serviço público. Era mais uma fonte de rendimentos para Balsemão e outros que tais, matava-se o problema da divisão da publicidade que a existência da RTP provoca e, então sim, a sustentabilidade das privadas estaria assegurada ad eternum. Pacheco Pereira deve ter tirado da boca de Balsemão tais palavras.
Diz ele, ainda, que a RTP sempre serviu os regimes instalados. Pois serviu. Serviu a ditadura (que remédio…) e serve, agora, o regime democrático. A RTP serve de bitola para que as privadas não descambem na vulgaridade absoluta e na indigência total quanto à qualidade da programação. Sem a RTP, a tabloidização da pantalha seria inevitável. Mas isso não interessa nada, pois não, Pacheco Pereira? Sem a RTP, quem garante que uma televisão como a SIC, por exemplo, controlada pelo militante nº1 do PSD, não iria servir os interesses instalados no seu interior?
Por último, achei curioso verificar que Pacheco Pereira conhece bem como se monta o controlo sobre um canal de televisão: “tudo isto se faz sem qualquer conspiração, ou telefone directo, ou instrução ou ordem, mas em primeiro lugar pela escolha para os lugares-chaves de pessoas confiáveis”. Pois é assim mesmo que se faz, confirmo eu. Mas também é assim que se faz nas privadas. Rigorosamente da mesma maneira. E, além disso, convém lembrar, já agora, que tanto a actual administração da RTP como a quase totalidade da sua estrutura hierárquica, foram nomeadas no tempo do governo do… PSD.

Utopia

Ora aqui está mais uma inovação deste blog! Vídeos!
Tenho o prazer de vos apresentar o melhor emprego do Mundo.
Para quem precisar de tradução, aqui fica uma explicação sucinta: A Google foi considerada a melhor empresa da América para onde ir trabalhar. No vídeo que exibo, podemos perceber porquê. Em vez de cartão de ponto, a Google tem ginásio, barbeiro, lavagem de carro, sala de jogos, massagens, lavandaria e médico, tudo para que os funcionários se sintam tão bem lá dentro que nem se lembrem de ir para casa aturar a mulher e os filhos. O restaurante é de 5 estrelas e a comida grátis.
A meio do vídeo, alguém diz que aquilo é uma utopia, mas a verdade é que os trabalhadores parecem gostar tanto que os índices de produtividade são altíssimos e os conflitos laborais inexistentes. A empresa recebe 1 milhão de candidaturas por ano, pudera! É um sítio sempre em festa.
De certo modo, este vídeo fez-me lembrar os primeiros anos da SIC. Também ali as pessoas se sentiam tão bem que pouco tempo passavam fora do local de trabalho. Claro que a SIC nunca proporcionou condições de trabalho semelhantes às da Google, nem de longe. Mas havia uma magia no ar, muita alegria no trabalho, muito incentivo à criatividade. Mas esses tempos morreram, pela ganância e incompetência de quem devia ter apostado devidamente nos trabalhadores leais à empresa.
Agora, o exemplo do Google devia ser mostrado aos empresários nacionais. Podia ser que aprendessem alguma coisa.


domingo, março 11, 2007

O mar bate na rocha e quem se lixa é o mexilhão, claro.



O Nuno Ramos de Almeida escreveu que o Governo português decidiu desactivar a embaixada portuguesa no Iraque por considerar perigos vários e falta gritante de condições de segurança e que, ao mesmo tempo, os Serviços de Estrangeiros e Fronteiras do Ministério da Administração de Interna resolveram recusar o pedido de asilo a um cidadão iraquiano alegando “não estar provado que não existem condições de segurança no Iraque”.
Parece piada, mas não deve ser. A questão é o que fazer numa situação destas? Conceder asilo a todos os iraquianos que o solicitassem?
O argumento do SEF é que, francamente… não lembra ao diabo.

sábado, março 10, 2007

Na Afriki, os deuses devem estar loucos




Aqui há tempos, tive conhecimento de um relatório policial que confirma quase tudo o que Didinho vem agora dizer no seu blog, no texto "O Cartel de Bissau": a Guiné-Bissau transformou-se num narco-Estado.
Dizia esse relatório que a Guiné-Bissau e Cabo Verde funcionam como “armazéns” dos traficantes de droga sul-americanos. A polícia já definiu “dois corredores lusófonos” para o tráfico de droga internacional. Os dois “corredores” partem do Brasil e passam pela Guiné-Bissau e Cabo Verde, sendo que um, depois, vira para Sul, levando a droga para a África do Sul, via Angola e o segundo “corredor” vira a Norte, de modo a que a droga chegue à Europa via Portugal. Chamam-lhes “corredores lusófonos” porque os traficantes criaram estruturas nos países lusófonos, aproveitando uma certa solidariedade existente entre os elementos que recrutam nos diversos países e a facilidade de entendimento existente pela partilha da mesma língua.
Nesse mesmo relatório dizia-se que a polícia portuguesa já tinha agentes em Bissau, para investigar a traficância. Para já, não parecem estar a ter muito sucesso essas investigações, mas a acreditar no que diz agora Didinho no seu blog, será difícil alguém de fora ter sucesso nesse combate, se é verdade que o Estado guineense está tomado pelos traficantes.

Na Afriki

A guerra civil da Costa do Marfim exilou-a em Marselha. É uma rapariga com sorte, malgré tout…

Canta por todo o Mundo. Quem já a viu em palco sabe que é fascinante, carismática, poderosa.
Chama-se Dobet Gnahoré. Acaba de sair o seu segundo disco, “Na Afriki”.

sexta-feira, março 09, 2007

O chinês deve ser mais fácil que o HTML

Primeiro foi a fotografia do topo que desapareceu, inexplicavelmente. Como não sabia como fazer para a repor, como aquele quadrado vazio me estava a chatear, alterei o template do blog, como se pode constatar. Não me chateia nada não ter a tal foto no cabeçalho, mas perdi os contadores que estavam instalados e isso já me chateia um bocado. Não por causa da contagem, mas porque gosto de saber de onde vêm os visitantes que aqui chegam. Há gente de todo o lado, o que é muito surpreendente. Do Brasil, da Rússia, da China e da Austrália, da África do Sul e da Suiça, de Espanha e da Índia, dos Estados Unidos e de França, da Guiné-Bissau e do Canadá, do Qatar, de Itália, da Eslovénia, da Bósnia-Herzegovina, de Marrocos, por aí fora. Eram já 101 os países de proveniência dos visitantes deste blog. Era bom ter essa percepção global. Ainda hoje (antes das alterações ao template), tinha reparado em dois visitantes sul-africanos, por volta das 18 horas. O que virão vocês procurar aqui? A maioria não deixa comentários. O contador era o único vestígio que deixavam. Alguém sabe como devo fazer para os reaver?

quinta-feira, março 08, 2007

O que se aprende na escola?


Hoje, estive num colóquio onde ouvi o pintor Eduardo Batarda (que é professor nas Belas Artes) dizer que, em Portugal, “a Universidade anda a enganar as pessoas”. E não se referia à Independente.

quarta-feira, março 07, 2007

50 anos


Queria tanto trabalhar na RTP que aceitei o trabalho de estafeta. Foi em 1977, tinha 19 anos. Durante um ano andei de mota a levar e trazer cassetes e bobinas de filme, de um lado para o outro. Depois, concorri para teletipista, uma função que já nem existe. Chamemos-lhe antes operador de telex. Concorri porque o posto de trabalho era numa sala ao lado da redacção. Era ali que chegavam todas as notícias do que se passava no país e no mundo. Entretanto, iniciei a carreira de jornalista no jornal A Tribuna, pela mão do saudoso Amadeu José de Freitas, um dos “papas” do jornalismo desportivo português. Ao fim de um ano de telexes, escrevi uma carta a pedir a requalificação profissional, dado que era detentor de carteira profissional de jornalista. Fui aceite. Entrei para a equipa que foi fazer o Bom Dia Portugal. Isto foi em 1980. Estive lá até 1992, quando aceitei o convite para ir para a SIC, cansado de “prateleiras” e de injustiças.
O resto da história não vem, agora, ao caso. Apenas quero dizer que estou contente por a RTP ter conseguido aguentar o embate das televisões privadas e começar, agora, a conquistar cada vez mais audiência. Das televisões que temos, é a que vejo.
Só acho que está na hora da RTP deixar de ser administrada por contabilistas e gestores de lobbies, agora que a empresa está financeiramente saneada, segundo parece. Não quero que a RTP volte ao despesismo dos tempos do Moniz, mas acho que o serviço público não tem que dar lucro. Só tem de dar boa programação.

terça-feira, março 06, 2007

Caça à multa

Enquanto que na Brigada de Trânsito da GNR circula um sms com um apelo ao boicote às multas (o que os condutores muito agradeceriam…), a PSP anda num afã à cata dos prevaricadores. Não, não é a correr atrás de bandidos, é mesmo atrás de cidadãos menos cumpridores, apenas. Bons chefes de família, votantes, mas enfim… um tanto ou quanto relapsos quanto a impostos, selos, inspecções, seguros e outras coisas do género, muito importantes para o bom funcionamento da sociedade. Foi assim que, esta manhã, a caminho do emprego, fui multado em 250 €. Como se não houvesse mais nada onde gastar o dinheiro…

segunda-feira, março 05, 2007

The boys from Camberra

O que se passa em Timor indicia o habitual cinismo que prevalece nas relações internacionais. A Austrália, que tem fortíssimos interesses na exploração do petróleo no off-shore timorense, implantou-se no território com armas e bagagens. Talvez mais armas que bagagens. Com o pretexto de contribuir para a pacificação do território, a tropa australiana começou por proteger o rebelde Alfredo Reinado, soldado formado na Austrália. Quem se lembra da reportagem de Paulo Dentinho, da RTP, em Timor, denunciando essa protecção?
soldado australiano em Timor-Leste


Reinado acabou detido, mas depressa se evadiu. Depois, refugiou-se no interior do país, mas os australianos sempre souberam por onde ele andou e Reinado nunca deixou as zonas que estão sob sua responsabilidade.
Recentemente, o major rebelde assaltou esquadras da polícia e roubou armas automáticas, ainda em zonas sob jurisdição da tropa australiana. Agora, tinha sido cercado num local concreto, numa pequena localidade mas, mais uma vez, os australianos deixaram-no fugir.
O governo australiano não deve estar a pensar em condecorar estes militares, pela competência revelada no cumprimento da missão em Timor. A não ser que a ideia seja manter a instabilidade no território para, assim, melhor poder “reinar”.
Realmente, o petróleo cheira mal.

domingo, março 04, 2007

Esse grande filho da Pátria

Sou completamente a favor de um Museu Salazar, ou lá como lhe querem chamar. Também eu, quero esse museu e quero, mesmo, que o ponham lá em Santa Comba Dão.
Quero um museu que não deixe cair no esquecimento as dezenas, centenas de milhar de vítimas da guerra colonial, que não se esqueça dos deportados políticos para o degredo da Guiné ou de Timor, um museu que nos lembre os mortos do Tarrafal e os que tombaram nas várias revoltas que deflagraram desde 1926 até 1974. Espero que esse museu tenha uma vitrina para os espanhóis que se refugiaram em Portugal durante a guerra civil e que Salazar mandou devolver a Franco, para que pudessem ser devidamente torturados e eliminados. Quero um museu que tenha lá em lugar de destaque Humberto Delgado, assassinado a tiro em 1965 em Vila Nueva del Fresno pelos PIDES Rosa Casaco, Agostinho Tienza e Casimiro Monteiro.
Um museu assim, ocupar-me-ia durante horas ou dias. Estou certo que iria vasculhar todas as prateleiras, até encontrar os actos heróicos que levaram à morte (em 1968) de Manuel Agostinho Góis, trabalhador agrícola de Cuba, Alentejo, torturado até à morte pela polícia política salazarista, ou de Herculano Augusto, morto à pancada no posto da PSP de Lamego ou do estudante Daniel Teixeira, morto em Caxias. Viajaria por esses corredores, como se fosse numa máquina do tempo, até encontrar todas as outras vítimas desse regime. E foram tantas, tantas.
Um museu assim seria um belo museu, sem dúvida. Ainda melhor se nos lembrasse a magnífica Lei do Condicionamento Industrial, com que Salazar impediu o desenvolvimento do país e nos votou ao atraso tecnológico até hoje. Que visão, que estadista de estalo, esse Salazar. Um museu que nos lembrasse a privação de liberdade, a ausência de democracia, a menoridade das mulheres, o analfabetismo, esse belo país tão bem representado pela imagem do burro e da carroça, como éramos vistos pelo resto do Mundo.
Acho mesmo que é urgente a constituição de um museu assim. O meu voto de apoio ao senhor presidente da autarquia de Santa Comba Dão.

sábado, março 03, 2007

O Santo Sepulcro

Jesus nunca ressuscitou, pela simples razão que nunca foi crucificado. Quem morreu na cruz terá sido um filho de Jesus com Maria Madalena, de nome Judá, que ocupou o lugar do pai, eventualmente, fazendo-se passar por ele. Depois, quando Jesus reapareceu, surgiu o mito da ressurreição.
É mais ou menos esta a tese desenvolvida num documentário de James Cameron, elaborado à volta do achado arqueológico de uma tumba (primeira foto) onde se encontraram vários ossários e documentos escritos em aramaico que indiciam que se pode tratar de uma tumba familiar, pertencente à família de Jesus. Nos diversos ossários (pequenos caixões de pedra onde se encontraram ossadas) estavam inscrições com nomes de, por exemplo, Maria, Mateus, José, Jesus, Judá, etc. O achado arqueológico localiza-se numa zona limítrofe de Jerusalém. A datação situa o achado arqueológico na época de Jesus, há 2.000 anos.

Ossário com a inscrição "José"
Os que acreditam nos dogmas da Igreja Católica, dizem que nada disto é plausível e que tudo se resume a um golpe publicitário para vender o documentário. Pode até ser, mas não sei se o realizador de Titanic precisa de engendrar esquemas destes para vender documentários.
Quanto a mim, continuo com a opinião de que as questões de fé não se discutem. Mas a versão apresentada no documentário parece-me bastante mais plausível do que o dogma da ressurreição.

sexta-feira, março 02, 2007

O Alberto e a Herminda

Aqui há dias estive em Seia. Fui a casa de um amigo que, embora viva em Lisboa, tem ali as suas raízes. Foi uma visita muito interessante, até porque também eu tenho uma costela montanhesa, embora bastante negligenciada.

Seia
O Alberto, além da casa da família, mantém vivo o negócio familiar. Precisamente, a produção de queijo da serra. Um fabuloso queijo da serra. Ao ouvi-lo falar sobre o dito queijo, lembrei-me da minha avó materna que, ela sim, foi queijeira lá nas faldas da serra, em Celorico e na Mesquitela, as terras onde viveu antes de vir para Lisboa.



Seia

Ao ouvir o Alberto falar do leite de ovelha coalhado pela flor do cardo, do cincho onde se aperta o coalho, da cura, do cheiro que aquilo deita, estava a ouvir a minha avó, que tantas vezes me falou do mesmo e que viveu muitos anos saudosa dos tempos de menina.


O Queijo da Serra é, hoje, um património cultural estabelecido. Produzir bom queijo é um bom negócio. O Alberto diz que o queijo que produziu este ano, já estava vendido desde o ano passado. E que, este ano, já vendeu o queijo que há-de produzir no próximo Inverno. Se tivesse sido assim no tempo da minha avó, nunca a Herminda teria vindo para Lisboa.

terça-feira, fevereiro 27, 2007

Estão a emparedar o Património Mundial da UNESCO, em Évora.

Desde 1986 que o centro histórico de Évora faz parte do património mundial classificado pela UNESCO. A lista inclui 830 locais ou monumentos de todo o Mundo que, no conjunto, formam uma herança que todos temos a obrigação de legar às próximas gerações.
Fazer parte desse património não serve, apenas, para incentivar o turismo ou o ego de autarcas e demais políticos. Antes de mais, resulta na obrigação de preservar esse património. Preservar é sinónimo de defender ou proteger. Isto é, não deixar cair de podre os telhados das casas, manter as paredes direitas, os caixilhos nas janelas, as velhas portas de batentes grossos. É também manter os locais vivos, com gente que lá queira morar, com fumo a sair pelas chaminés, com gatos escondidos nas sombras dos alpendres, com artes e ofícios.
Talvez se lembrem que não é a primeira vez que abordo aqui esta questão…

... se volto a falar disto é porque acho que vale a pena, primeiro que tudo. Depois, porque a minha irmã me enviou fotos de uma das casas que anteriormente eu tinha fotografado, relevadoras de como alguém decidiu emparedar uma casa construída antes da partida do Vasco da Gama para a Índia.
Fico com a sensação de que a autarquia de Évora não está a ser competente, na defesa deste património único no Mundo. O que dirá a UNESCO disto?

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Época de saldos

Passei a manhã no Tribunal de Oeiras. Estava arrolado como testemunha de Alexandre Paes, ex-director do 24 Horas, acusado de perseguição difamatória pelo Rodrigo Guedes de Carvalho.
O caso remontava a 2002, aos meses da brasa da SIC, quando o patrão decidiu despedir mais de 200 trabalhadores para não ter que vender parte do capital social da empresa. Travou-se uma luta titânica entre os trabalhadores e a administração que queria despedir barato. Foi um ano de muitas discussões, muitas assembleias de trabalhadores, muita intransigência patronal.
O 24 Horas era dos jornais que acompanhava mais de perto o evoluir da situação no interior da empresa. Quase todos os dias havia pequenas notícias sobre a SIC. Claro que o nome do Rodrigo foi mencionado muitas vezes, até porque ele sempre se pautou por um posicionamento próximo da administração. Às vezes, mesmo, mais papista que o papa.
Foi neste enquadramento que o Rodrigo se sentiu perseguido e difamado pelo jornal. Não lhe caíram bem alguns epítetos, como, por exemplo, “talhante bem arreado”, que é o que me ficou na memória. De início, Rodrigo pedia 10 mil euros de indemnização. Hoje, contentou-se com 3 mil e não chegou a haver julgamento. Se fizermos contas à inflação, cinco anos depois os 3.000 € são uma ridicularia, sendo que ainda há as custas do tribunal e os honorários do advogado para pagar (isto, se o patrão não patrocinou a causa). Afinal de contas, não foi grande ofensa…

domingo, fevereiro 25, 2007

A Margarida e o Nuno

Acabo de ler uma notícia que me deixou aliviado. Trata-se do acordo extra-judicial alcançado pela Margarida Marante e pelo Nuno Santos. Os dois tinham um litígio em tribunal, por alegadas declarações difamatórias da Margarida. Estou aliviado porque eu era testemunha da Margarida e, para ser sincero, não me sentia muito bem nesse papel. Trabalhei muitos anos com os dois. À Margarida, conheço-a desde sempre. Andámos juntos no Liceu Rainha Dona Leonor, fomos camaradas de partido político, camaradas de trabalho na RTP e na SIC. Devo-lhe algumas atenções raras, que outros não tiveram comigo. E gosto da coragem dela. Conheci o Nuno na SIC. Fui o seu primeiro coordenador no programa Praça Pública, que ele apresentava a meias com a Júlia Pinheiro. Depois fui, durante uns dois anos, coordenador do Jornal da Noite aos fins-de-semana, que o Nuno Santos apresentava. Sempre gostei de trabalhar com ele. É um tipo inteligente e eficaz e tem uma especial capacidade de improviso, condição essencial para se ser um bom apresentador de noticiários. Sempre considerei que, na SIC, o Nuno Santos era o segundo melhor pivot, logo depois do José Alberto Carvalho e muito à frente do Rodrigo ou do Camacho. Hoje, o Nuno Santos está a desempenhar de modo brilhante o cargo de Director de Programas da RTP, facto que deve causar muitos engulhos aos tipos que, na SIC, sempre o menosprezaram.

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Zeca

Vejam bem
Que não há
Só gaivotas
Em terra
Quando um homem
Se põe
A pensar

O Tal&Qual com Escrita em Dia

Semanário Tal&Qual, página 25, texto a 4 colunas na secção “Blogue Bem Informado”, faz referência ao Escrita em Dia, citando primeiro a reportagem (acho que lhe posso chamar assim) que fiz em Évora, em Agosto passado, sobre a degradação evidente do centro histórico da cidade, e depois um outro post sobre o mesmo assunto, por ocasião de umas declarações do Presidente da Câmara de Évora que veio dar razão às críticas feitas anteriormente. O trabalho do Tal&Qual repesca, ainda, duas das minhas fotos de prédios degradados do centro histórico. Fiquei mesmo vaidoso…

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Cinco anos depois, pelo menos a guerra acabou.

Savimbi morreu faz hoje 5 anos. Reli o diário de Alcides Sakala no dia 22 de Fevereiro de 2002 e, de novo, admirei-me com o tom frio que se sente das palavras escritas: “recebemos ao princípio da noite, mas com muito cepticismo, a notícia da morte do Presidente, anunciada em três comunicados de imprensa. Um do Governo de Angola, o segundo do Estado-Maior das FAA e o terceiro do Comando da Polícia Nacional de Angola. Anunciavam que o Presidente falecera às quinze horas de hoje, em combate.”
Recordo que depois da derrota no Cuíto, em Dezembro de 1999, a UNITA tinha sido expulsa do Andulo e do Bailundo. Savimbi organizou uma coluna militar, que também incluía milhares de civis, e procurava alcançar a Zâmbia. Essa coluna foi dividida em três, para dificultar a sua localização. Segundo o relato de Alcides Sakala, ele não estava com Savimbi quando o seu grupo caiu na emboscada montada pelas forças armadas angolanas.
Como foi que os de Luanda souberam do paradeiro de Savimbi? Há muitas teorias sobre isso. Uns dizem que foi graças à tecnologia dos americanos, que detectaram o sinal do telefone-satélite utilizado por Savimbi. Outros dizem que o mais velho foi atraiçoado pelos que estavam com ele, tipos cansados de anos de fuga pelo mato, a passar fome e com poucas esperanças de salvação.
Pelo menos a guerra acabou.

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Abriu a época das transferências

Acabo de ler o seguinte, na "linha" da Lusa:

Media
João Marcelino anuncia saída da direcção do Correio da Manhã e da Cofina
2007-02-21, 15h59
Lisboa, 21 Fev (Lusa) - O director do Correio da Manhã, João Marcelino, anunciou hoje de manhã, numa reunião de editores, que ia deixar a direcção do diário e o grupo de media Cofina, disse à Lusa fonte da empresa.
Na reunião, o jornalista afirmou que vai desvincular-se do grupo liderado por Paulo Fernandes, não adiantando nenhum pormenor sobre o seu futuro.


Pois eu sei o que vai o homem fazer, agora. Vai ser o novo director do Diário de Notícias. Apostamos?

Terra de cárceres

Angola está ainda longe de ser uma terra de liberdade.
O que aconteceu com Sarah Wikes é a enésima repetição de actos arbitrários e de intimidação sobre jornalistas e activistas dos direitos humanos, perpetrados nos últimos 30 anos.
Em 1986 aconteceu o mesmo com uma equipa da RTP. Idos de São Tomé e Príncipe, todos os cinco elementos desse grupo foram detidos sem explicação, logo à chegada ao aeroporto, privados de passaportes e interrogados pela polícia. Queriam saber o que estávamos ali a fazer. Bom, o que faz um jornalista? Aquela rapaziada não sabia… Ficámos em prisão domiciliária e só ao fim de 11 dias pudemos sair de Luanda, mas sempre acompanhados por um rapaz da segurança do estado.
Mas o que é mais sintomático, é o facto destes dirigentes não se preocuparem com a imagem que o mundo tem deles.

segunda-feira, fevereiro 19, 2007

A Madeira é um jardim

Alberto João Jardim deu o show previsível. Demitiu-se para suceder a si próprio. Vai tentar ser reeleito por uma maioria esmagadora, como tem acontecido, de resto, nos últimos 30 anos. Mas os problemas da Madeira não serão resolvidos desse modo. Jardim pode impor mais uma derrota eleitoral aos seus adversários, isso não espantará. Mas não será assim que a região vai conseguir mais dinheiro do orçamento geral do Estado, nem será assim que a região diminuirá o deficit democrático de que padece.
Sem um bolo tão generoso para distribuir, como de costume, vamos lá a ver se Jardim continuará a beneficiar de tantos apoios, como até hoje.
Há uns dois anos, lembro-me de ter assistido a uma aula de Alberto João, na Universidade Independente, em Lisboa, onde ele lecciona uma cadeira da licenciatura de Administração Regional e Autárquica, e de o ouvir dizer que quem governa o país, verdadeiramente, não é o governo, mas as comissões políticas do PS e do PSD. O que, a ser verdade, significa que não é só contra o governo que ele luta, mas também contra os seus próprios pares no partido.
Cá para mim, está na hora de Jardim se reformar e passar a gozar das benesses inerentes aos senadores da Nação. Neste momento, ele já prejudica mais a Madeira do que a beneficia.

domingo, fevereiro 18, 2007

O senhor Mandatário

Quando no primeiro referendo sobre o aborto o NÃO venceu, há uns anos atrás, não me lembro de alguém ter levado em linha de conta os milhões de votos no SIM que, derrotados, não viram nenhuma legislação ser implementada para amaciarem a criminalização do aborto. Podiam, por exemplo, ter legislado de modo a diminuir as penas de prisão previstas no Código Penal. Mas não, tudo ficou na mesma.
Agora, os defensores do NÃO querem ser levados em linha de conta e, como se o referendo não tivesse sido já realizado, até encontraram um novo Mandatário Nacional: o senhor Presidente da República.
Cavaco saiu a terreiro, finalmente, em defesa do NÃO. Veio lembrar as “boas práticas” europeias no caso da IVG. Porque diabo não se lembrou ele dessas “boas práticas” antes? Durante anos, enquanto a IVG foi considerada crime, nenhum defensor do NÃO se lembrou dessas “boas práticas”. Preferiram continuar a mandar as mulheres para a prisão.
Não sei se estas pessoas não se estão a esquecer que ao referendo não se pode aplicar nenhum método de avaliação proporcional de resultados. Ou se ganha ou se perde. Sempre quero ver o que vão fazer do meu voto.

sábado, fevereiro 17, 2007

O Mundo Perfeito

“Acabou de pousar uma avezinha no beiral da minha janela. Olhou para dentro, bateu com o biquinho no vidro, e eu fiquei tão imóvel como uma estante, esperando vê-la entrar por uma frincha que não deixei aberta. Gostaria de ter a minha casa cheia de aves que entrassem e saíssem livremente, fizessem os ninhos entre os livros, a papelada, nos cantos mais seguros. Gostava que a minha casa fosse um pombal, uma torre de aves que eu ouviria arrulhar e piar de manhã e ao final da tarde.” - in Mundo Perfeito , Eu Fico Com as Aves.


O meu avô materno, que morreu diabético e saudoso das aventuras vividas na América, por onde andou a ajudar a construir caminhos-de-ferro no Massachusetts e a limpar vidraças exteriores nos arranha-céus de Nova Iorque, tinha pássaros soltos em casa. Piriquitos de gaiola aberta, que esvoaçavam dos cortinados para o pescoço dele e lhe debicavam carinhosamente as orelhas.
Quando o velhote morreu, os piriquitos fugiram. Preferiram morrer de fome a sofrer de saudades.
De repente, pensei que se a avezinha da Isabela fosse um dos piriquitos do meu avô, o mundo seria, realmente, perfeito.

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Porno SIC


Para quem ainda tinha dúvidas, o jornal 24 horas, na edição de hoje, dissipa-as todas, ao revelar um negócio de filmes pornográficos que se efectua na SIC. Quando falo em dúvidas, refiro-me aos padrões morais e deontológicos dos patrões da SIC, claro. Tudo lhes serve para ganhar dinheiro.
Outro sinal revelador das coisas é o facto de nenhum dos jornalistas do canal ter querido dar a cara nesta denúncia. Prestam declarações sob anonimato, com medo evidente das represálias. Não são homens e mulheres livres, o que para quem exerce o jornalismo como profissão é triste, muito triste.

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Modernices

A modernidade traz imensas vantagens, é claro, mas também muitos riscos e inconvenientes. Os automóveis, por exemplo, cada vez melhores, mais rápidos, mais tecnológicos e mais caros. Esta manhã, quando vinha trabalhar, passei por cinco carros amachucados na Avenida de Ceuta. Lá estavam eles, os condutores, de telemóvel em punho, uns a chamar a polícia, outros a mãezinha, outros o reboque para levar o trambolho empanado dali para fora. O telemóvel, assim como o automóvel, são acessórios imprescindíveis. O telemóvel então, em poucos anos, transformou-se num artigo de primeiríssima necessidade. Ele toca e nós atendemos logo, como se a nossa vida dependesse daquilo. Como era bom, dantes, lembram-se, em que saíamos de casa ou do local de trabalho e ficávamos livres. Hoje não. O telemóvel é um cordão umbilical com a mulher (que quer saber onde andamos) ou com o patrão (que se lembrou de nos por a trabalhar fora de horas). Muitos empregos, hoje, implicam a obrigatoriedade de ter o telemóvel sempre à mão, de estarmos contactáveis a toda a hora e, portanto, disponíveis para o trabalho. Mas não vejo ninguém a prescindir do aparelhinho.
Ainda me lembro de quando o telefone chegou a minha casa, nos anos 60. Era uma coisa preta, pesada, com um disco onde se enfiava o dedo para marcar os números num movimento de rotação. Era um utensílio das casas burguesas.
Hoje, acho que há mais de 11 milhões de telemóveis activos, em Portugal. Ou seja, mais do que 1 por habitante.


segunda-feira, fevereiro 12, 2007

Quando a terra treme

Não dei pelo sismo de hoje, mas do que aconteceu em 1969 lembro-me bem. Foi de noite, acordei com um ruído enorme, um ronco de som cavo, e com a casa toda a abanar. Parecia que os móveis estavam a dançar. E os candeeiros também. Lembro-me de ter dado um salto da cama e de ter encontrado a minha mãe que vinha a correr para o meu quarto. Descemos as escadas do prédio a correr. Era um 2ºandar. Só a meio das escadas o som desapareceu e o prédio deixou de abanar. A rua estava cheia de gente. Todos em pijama, descalços, alguns seminus, enfim, todos tinham fugido como estavam. Lembro-me, ainda, de ter sentido duas réplicas nessa noite. Mas já não fugimos para a rua. A televisão estava muda, mas a rádio era o grande meio de informação na época e cumpria o seu papel. Todos ouvíamos os conselhos transmitidos pelas autoridades. Foi uma experiência marcante, essa noite. Tinha 11 anos e nunca mais deixei de ter medo de terramotos.

domingo, fevereiro 11, 2007

Um país mais livre e mais justo

Agora, o Estado já não se pode esconder atrás de uma lei iníqua, uma lei que nada impedia e só obrigava as mulheres a abortar na clandestinidade. Uma lei que custou muitas vidas, estupidamente. Agora, o Estado tem de providenciar condições para que os hospitais públicos atendam as mulheres que, por alguma desgraça da sua vida pessoal, não possam continuar com a gravidez e precisem de abortar. Não acredito, contudo, que o aborto vá aumentar, lá porque passou a ser legal (até às 10 semanas). Não acredito que alguém faça um aborto de ânimo leve, só porque lhe deu na telha. O Marcelo Rebelo de Sousa acredita, assim como a maioria dos bispos da Igreja Católica, mas esses perderam esta luta.

sábado, fevereiro 10, 2007

Referendo

Não sei quem vai ganhar o referendo. Mas se as pessoas votassem para responder, apenas, à questão que se coloca, o SIM teria, certamente, uma vitória esmagadora. É que a questão prende-se com a despenalização do aborto, ou seja, não se coloca nenhuma questão moral, não se questiona qualquer dogma religioso, apenas se pretende saber se o aborto deve continuar a ser penalizado com uma pena de prisão ou se não. Se o aborto é pecado? Não é essa a pergunta. Se não gostamos de crianças? Não é essa a pergunta. Se iremos abortar alguma vez? Não é essa a pergunta. Se quem aborta é de esquerda? Não é essa a pergunta. Se queremos continuar a mandar mulheres para a prisão por terem feito um aborto? Essa é a questão a que temos de responder, em consciência.

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

Há malucos para tudo (2ªparte)

O Presidente da Gambia insiste na farsa que iniciou há dias.













Depois de ter anunciado ao Mundo que sabia como curar a SIDA, Yahya Jammeh fez agora saber que resultados laboratoriais confirmam o sucesso do seu tratamento. Há coisas fantásticas, não há?
Foi o Pululu quem me voltou a chamar a atenção para isto, ao enviar-me um link para uma notícia da agência noticiosa angolana.















Li, então, que um tal “Souléymane Mboup, da Universidade Cheikh Anta Diop, de Dakar”, confirmou que o primeiro grupo de pacientes do Presidente gambiano apresenta “ausência de plasma viral ou a sua presença em muito fracas quantidades”, pelo que o tratamento à base de ervas medicinais “parece eficaz”.
Pois parece, mas não é. Ou então a comunidade científica internacional não passaria de um bando de idiotas.
O Presidente Jammeh pode ser curandeiro à vontade, que ninguém lhe leva a mal, mas não precisava de brincar com coisas tão sérias. Até pode enganar alguns desgraçados que se agarram a qualquer hipótese de cura, mas que pensará ele do modo como o Mundo o vê?














quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Artes e manhas

Nuno Santos, o actual director de programas da RTP, nunca deve ter sonhado que, um dia, uma decisão sua iria provocar uma acção (neste caso, reacção) legislativa de quase todos os partidos políticos representados na Assembleia da República.
Pois, face à sua decisão de relegar os tempos de antena para as 19 horas (ou seja, antecipar em cerca de ½ hora o habitual horário de transmissão), a Assembleia da República acaba de aprovar uma nova lei que obriga a RTP a colar os tempos de antena ao Telejornal.
Os deputados consideraram que a decisão de Nuno Santos desconsiderava a importância dos tempos de antena e que os relegava para um horário de menor audiência.
Embora, porventura, alheios a essa realidade, os deputados acabaram de fazer um grande favor à SIC e à TVI. As audiências do Telejornal irão baixar, com toda a certeza, sempre que a RTP tiver de passar tempos de antena imediatamente antes. Os tempos de antena são, normalmente, tempo para zapping e muitos telespectadores, uma vez mudado o canal, irão ficar entretidos com qualquer outra programação. O Telejornal, cujas audiências têm sido uma pedra nas engrenagens da SIC e da TVI, fica assim mais fragilizado.
Assim, temo que as audiências dos tempos de antena, às 19h30 ou 19h45, acabem por ser ainda menores do que seriam às 19 horas.
Digamos que se, por absurdo, esta polémica tivesse sido engendrada pelo Dr.Balsemão, não teria sido mais eficaz...

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Já não se pode dar milho aos pombos

Muito sinceramente, acho que a gripe das aves está muito mais espalhada do que se diz. Não sei se nos andam a esconder alguma coisa, mas tenho o pressentimento de que a situação é bastante grave e não vejo que se esteja a fazer alguma coisa de concreto para a combater, a não ser que a missão esteja atribuída aos serviços secretos.
Reparem bem. De repente, surge um surto da gripe das aves no centro de Inglaterra, em plena Europa. Entretanto, houve notícias de casos em vários países africanos, Egipto e Nigéria se não me engano. Há, também, notícia de problemas na Indonésia. Ora, se em Inglaterra todos vimos alguma acção eficiente para conter a epidemia, com a eliminação de centenas de milhar de perus, nos outros locais tenho sérias dúvidas de que se esteja a fazer alguma coisa de útil, tendo em conta a tradicional desorganização dos países em causa e a crónica falta de meios com que se debatem. E se o vírus chegou à Nigéria, porque não a muitos outros países africanos? Quem me garante que existe algum tipo de vigilância eficaz em países como, por exemplo, o Mali, a Guiné-Bissau, a República Centro-Africana, o Congo, o Malawi, onde nem sequer existem laboratórios capazes de efectuar análises para detectar o H5N1.
Estamos todos à espera que o diabo do vírus adquira capacidade para se transmitir entre humanos, porque já há muito que adquiriu a capacidade de se transmitir dos pássaros para humanos e outros mamíferos, como cães e gatos.
mercado em Nairobi
E só quando essa tragédia se abater sobe a Humanidade é que alguma coisa será feita, mas depois de alguns milhões terem morrido, por certo. Mais uma vez, o continente africano será o centro de todas as desgraças, quase de certeza. Já assim é no que diz respeito à SIDA e à malária. Agora, a gripe das aves é mais uma sentença de morte para os milhões de debilitados e famintos que vivem nos bairros da lata de Dakar, Nairobi, Kinshasa ou Luanda.
Acredito que a praga devastará, primeiro, as desprotegidas populações de muitos países africanos e asiáticos, mas se os países ricos do Ocidente falharem na descoberta de uma vacina eficaz, também não terão melhor sorte.

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

O democrata

Rendo homenagem aos Gato Fedorento e só lhes peço que nunca se verguem. Sim, eu sei que o dinheirinho faz muita falta, mas a espinha dorsal também, como qualquer gato tem obrigação de saber, de resto.
Fabulosamente mortal, a rábula do “democrata” que tudo aceita, mas que impõe a sua opinião a todos os outros. Como o próprio Marcelo tinha acabado de reconhecer, no seu tempo de antena, a seguir ao Telejornal, apanharam-lhe mesmo os tiques e o sorriso rasgado à faca. Tal & qual.

domingo, fevereiro 04, 2007


Voto sim, porque um filho tem de ser desejado, bem-vindo, amado. Porque não entendo que se deva ter filhos por outras razões, legais, sociais ou morais.

sábado, fevereiro 03, 2007

Vende-se reptilário

Quero ver o que dirá Marques Mendes, se o Dr.Balsemão vender a Impresa à RTL.
A hipótese anda a ser falada insistentemente em alguns jornais, nomeadamente nos económicos. Parece que seria um grande negócio para o patrão da SIC… e sempre se livrava de uma dor de cabeça para a qual já não tem idade.
Acontece que a RTL é uma empresa alemã e, se bem me lembro, quando os espanhóis da PRISA vieram comprar a Média Capital (TVI), o dirigente do PSD acusou o governo de estar a beneficiar os espanhóis a troco de não-sei-o-quê.
O caso foi até levado à Comissão Parlamentar dos Direitos, Liberdades e Garantias, onde o Ministro dos Assuntos Parlamentares foi dizer o óbvio, ou seja, que o governo não tem nada que ver com mudanças dos accionistas de empresas privadas, nem tem que autorizar ou impedir a venda de empresas portuguesas a grupos económicos estrangeiros. Às vezes é pena, mas a verdade é que o governo não tem competência para tanto.

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Há malucos para tudo

O Presidente da Gâmbia, Yahya Jammeh, diz que consegue curar a SIDA, em 3 dias.
O Ministro da Saúde confirma as afirmações do Presidente, garante que os doentes que estão a ser tratados pelo Presidente com ervas medicinais estão a melhorar.
A capacidade de curar a SIDA foi anunciada pelo próprio Jammeh, perante o corpo diplomático destacado em Banjul.
Que se saiba, nenhum dos embaixadores presentes ousou duvidar, em voz alta, das afirmações do Presidente.


Esta notícia está a ser divulgada pela BBC. Se quiserem ouvir tudo, sintonizem sábado o BBC Service’s Weekend Network Africa. Pode ser que alguém tenha a coragem de dizer que estes tipos estão loucos. Afirmar coisas destas é de uma irresponsabilidade tremenda, porque se uns se calam por medo, outros acreditarão piamente nas palavras do Presidente Jammeh. Não é assim que se promove a educação necessária para implementar comportamentos sexuais que contribuam para a luta contra a SIDA.

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

O exemplo de Cabo Verde

Percebo que a questão dos Direitos Humanos não seja levantada pela delegação governamental portuguesa que visita a China. Um pequeno país como Portugal não pode afrontar um gigante como a China. Se a ideia é desenvolver os negócios com a China, então percebe-se que se feche os olhos a questões delicadas politicamente. Mas lamento que assim seja.
Agora, também não é preciso exagerar e há algumas verdades que não devem ser escondidas ou dissimuladas. A China deve boa parte do seu sucesso económico à exploração que lá se pratica sobre o povo trabalhador. A mão-de-obra chinesa é muito mal paga (salário médio inferior a 100 € por mês), escravizada em longas jornadas diárias de trabalho, sem direito a férias nem à maioria das regalias sociais de que nós, em Portugal, ainda beneficiamos. Se os empresários chineses julgam que poderão vir para aqui praticar as mesmas regras laborais do seu país, talvez seja melhor, para nós e para eles, que fiquem onde estão.

Cidade da Praia, plateau

Vi há dias, na RTP-África, uma reportagem vinda de Cabo Verde, onde uma multidão se manifestava na rua, em frente às inúmeras lojas chinesas, contra a exploração a que estão sujeitos os trabalhadores caboverdeanos empregados nessas empresas chinesas. Lá por causa de uns empregos precários, os caboverdeanos não calaram a revolta que lhes vai na alma e foram para a rua protestar.

quarta-feira, janeiro 31, 2007

Crack house (continuação do post anterior)

Outro pormenor do modo expedito como se aplica a Justiça nos States.
Em Washington (e provavelmente em muitas outras cidades, se não em todas) quando a polícia desmantela uma organização de venda de droga, nomeadamente de crack, a casa do dealer é demolida (à semelhança do que fazem os israelitas com as casas dos palestinianos autores de atentados contra Israel), mesmo se nessa casa vivam outras pessoas que eventualmente não estejam relacionadas com o negócio. Imaginem que o pai é passador de crack, mas a mulher e os filhos não têm nada a ver com o caso. Pois, a casa vai abaixo, na mesma.

Vi isso acontecer quando por lá andei, em 1996. Quem me informou dos pormenores desta política foi mesmo um funcionário do governo americano. Os americanos acreditam que pelo castigo podem vergar o indivíduo.

Acreditam nisso e aplicam essa filosofia em quase tudo, até mesmo no relacionamento com outros países ou, agora, na chamada guerra contra o terrorismo. No que respeita ao terrorismo, já se percebeu que a estratégia não vai resultar. Quanto ao tráfico de droga, também não acredito que resulte, até porque haverá sempre alguém disposto a arriscar tudo para fugir da indigência, isto é, aqueles que não têm nada a perder.

terça-feira, janeiro 30, 2007

Drug dealers

A propósito de um texto sobre o racismo vigente nos EUA, no Pululu, veio-me à memória uma sala de audiências de um tribunal de polícia, em Washington, especializado em julgamentos sumários de casos de tráfico de droga, onde a fila de réus era longa e exclusivamente constituída por negros. Uma estranha coincidência porque, na rua, a maioria dos dealers era de raça branca ou hispânica.

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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