Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











terça-feira, janeiro 06, 2009

Matar

Na Palestina, em Gaza, morreram dezenas de pessoas que se encontravam abrigadas numa escola que o exército israelita atacou. Os soldados israelitas dizem que responderam a disparos vindos da escola…
Em Lisboa, um polícia da PSP matou com um tiro na cabeça um adolescente de 14 anos. O agente em questão diz que disparou depois de ter sido ameaçado pelo rapaz que empunhava uma pistola.
Do lado das vítimas, em Gaza e em Lisboa, acusa-se a outra parte de violência desmedida, desproporcionalidade de meios, abuso, atentado contra os direitos humanos.




No que diz respeito ao sucedido em Gaza, a versão israelita é plausível. Conheço muitos estratagemas utilizados por soldados em conflito e vivi situações parecidas… também em Bissau, durante a guerra civil de 98/99, por exemplo, os soldados de Nino utilizavam artilharia móvel que colocavam junto a habitações na hora de disparar e que, logo a seguir, retiravam. Quando a resposta vinha, os soldados já lá não estavam, apenas os civis… que eram os que levavam com os obuses em cima.
Quanto ao que se passou em Lisboa, sabemos que o rapaz estava num veículo roubado, com outros quatro comparsas, que não obedeceram à ordem de parar da polícia, fugiram e, depois de apanhados, resistiram à prisão. Foi nessa luta que o polícia disparou…
Lamento as mortes mas não consigo condenar os matadores. Acredito que tanto uns como outros sejam vítimas das circunstâncias... embora seja sempre difícil saber quem está a mentir.

segunda-feira, janeiro 05, 2009

Arafat, a oportunidade perdida



Estive em Gaza, em circunstâncias que já relatei aqui… Vinte anos depois, embora nunca mais lá tenha voltado, julgo que pouco ou nada mudou, pelo menos para melhor.
Já naquela altura não se conseguia vislumbrar uma solução para resolver o conflito israelo-palestiniano… Acredito até que, hoje, o conflito está mais longe de uma solução negociada do que estava há 20 anos. Na altura, existia Yasser Arafat, um dirigente palestiniano que estava disposto a negociar uma solução com Israel. Arafat tinha uma missão na vida, que era a de criar o estado palestiniano independente e era, portanto, um homem disposto a negociar, ao mesmo tempo que lutava, e os dirigentes israelitas deveriam ter percebido isso. Mas Arafat nunca quis uma paz sem condições e os israelitas nunca estiveram dispostos a fazer reais concessões políticas… perderam-se anos a negociar as fronteiras irreais de um futuro estado palestiniano, que acabou dividido e sem continuidade territorial entre Gaza e a Cisjordânia… Israel preferiu isolar Arafat e deixá-lo morrer e, agora, não tem um verdadeiro interlocutor para negociar… o Hamas responde, primeiro, aos interesses hegemónicos de potências regionais como o Irão e a Síria, que utilizam a causa palestiniana como arma de arremesso para ferir Israel… e ao Hamas pouco interessa o bem estar da população palestiniana…
De modo que percebo, agora, a opção militarista assumida por Israel. Não conseguindo negociar com quem não pode ter boa-fé, resta o confronto aberto e a possibilidade de uma vitória militar. O problema é que este conflito pode não ser controlável, dirigentes árabes e islâmicos mais extremistas podem sentir-se compelidos a agir… e tudo isto pode descambar perigosamente…
Por outro lado, a actual invasão de Gaza pode resultar num fiasco para os estrategas israelitas. Gaza é um imenso aglomerado urbano, com milhares de ruelas e túneis, uma anarquia urbanística super-populada, um sítio ideal para emboscar as patrulhas israelitas. Já era assim há 20 anos, quando por lá andei e hoje não será muito diferente, volto a dizer.

domingo, dezembro 28, 2008

2009 em perspectiva nos Media



Disseram-me há dias que a Controlinvest vai iniciar em Janeiro o processo de despedimento de 150 pessoas. Portanto, a ser assim, algumas dezenas de jornalistas do DN, JN, 24 Horas, TSF, etc., vão entrar para o mercado de desemprego. A SIC, como se sabe, tem já em fase adiantada um processo semelhante de rescições mais ou menos amigáveis... Se juntarmos mais umas dezenas que vão saindo de outras empresas é óbvio que a oferta (independentemente da qualidade) é cada vez maior e atingirá lá para o Verão números deprimentes. Digo deprimentes porque isso implica uma forte depressão salarial. A situação é idêntica a nível de produtoras e é possível que a RTP tente também alijar pessoal a curto prazo, a não ser que o governo lhes dê instruções para ficarem quietos... mas uma administração inteligente aproveita sempre estas oportunidades para cortar despesas e, no caso dos jornalistas, até lhes pode dar a entender que nem tudo é mau porque levam umas indemnizações e podem ter oportunidades dado que vêm aí um novo diário e um canal de TV. Para quem arranca é, por seu turno, o ideal para contratar gente ao preço da chuva. O que acontece a seguir é merda pura, mas já nem interessa.

terça-feira, dezembro 23, 2008

(Des)Encontros

(no passado dia 16)
Fernando,
Por mais estranho que te pareça, acabei de te ver e ouvir na pantalha da RTP-I, dizendo como ninguém o "Adeus".
Contigo, meu irmão, as palavras nunca estão gastas.
Tenho uma espécie de nostalgia por uma coisa que nunca aconteceu... a nossa amizade.
Abraços.
Carlos







(ontem)
Carlos,
Por mais estranho que te pareça, os gajos que continuam a passar na pantalha isso que foi gravado há meia dúzia de Natais, ainda não me pagaram um tostão. E todos eles fazem grandes vidas, é Natal sempre que eles querem.
Mas para a fogueira que conta, são palavras como as tuas que aquecem o coração.
Partilho a mesma nostalgia, tão episódico foi o nosso encontro numa Redacção (e as Redacções sempre foram a nossa outra casa; agora que as Redacções se degradam aceleradamente, sentimos que vivemos uma parte essencial da nossa vida sob escombros).
Mas as Redacções dão muitas voltas, tal como a vida, e felizmente também não aconteceu, entre nós... a inimizade. Temos mais de meio caminho andado.
Que em 2009 possamos brindar a coisas boas.
Abraços.
Fernando

domingo, novembro 30, 2008

Juramento de Hipócrates



Mas a senhora não cumpre com o protocolo!, diz ela de modo alterado. Assim, não pode ser, acrescenta, e o timbre nervoso acentua-se quando refere que será necessário regressar ao centro de saúde da área de residência, marcar nova consulta com o médico de família para obter as credenciais para ir fazer as análises e, só depois, voltar ali ao hospital onde poderá ser vista por um médico especializado se, e só se, a triagem assim o indicar.
Meia-hora depois, na urgência do mesmo hospital, outro médico diagnosticava risco iminente de aborto mas, estranhamente, enviou a paciente para o centro de saúde e para o mesmo sacrossanto périplo estabelecido num qualquer protocolo que institui a primazia da consulta com o médico de família que, como sabemos, é um médico generalista e que pode não ser minimamente competente para questões especificas como, no caso, gravidez de risco…
O desfecho previsível desta caso que vos relato será uma interrupção involuntária de gravidez e eu só gostava de saber a quem devo bater… talvez aos médicos que se deixaram "protocolarizar" e não passam, hoje, de administrativos zelosos em saber se o doente que ali aparece reside de facto na área de atendimento do hospital ou se o centro de saúde cumpriu com todos os preceitos do protocolo estabelecido com o hospital… e deixam o acto médico para segundo plano.

quarta-feira, novembro 26, 2008

E-mail para BB



BB,


Gostei da tua recente crónica no DN. É bom saber que ainda há quem tenha memória: "o que ocorreu nas redacções dos jornais, das rádios e das televisões, com a imposição de uma nova ordem que principiava pela substituição das chefias e a remoção de jornalistas qualificados, mas desafectos ou mesmo dissentes - é uma história sórdida, e esquecida por muitos." Pois é, camarada... um dia fui enviado para a cobertura de um comício do PSD, na campanha para a segunda vitória de Cavaco, reportei uma história paralela ao comício, em que um grupo de trabalhadores quis entregar uma carta ao senhor primeiro-ministro lembrando-lhe uma promessa da primeira campanha que não tinha sido cumprida. Fiz a reportagem no local e, chegado à redacção, procurei no arquivo e encontrei declarações do Cavaco, na anterior campanha, que corroboravam as reclamações dos trabalhadores. Meti tudo na reportagem... e foi a última coisa que fiz de política nacional na RTP. O meu chefe recebeu ordens expressas do director para me deixar quieto. E assim fiquei, de 1989 a 1992, até ir para a SIC.
Um grande abraço.

sábado, julho 28, 2007

Interrupção

O PROGRAMA SEGUE DENTRO DE ALGUNS ANOS.
QUANTO MAIS TARDE, MELHOR.

segunda-feira, julho 09, 2007

O malandro do Carlos Pinto Coelho escreveu: "Quero partilhar contigo a imagem dos campos alentejanos quando saí de casa, esta manhã. A sete minutos de viagem, não resisti, parei o carro e guardei para sempre a memória de um espectáculo."

E eu que nas ultimas cinco semanas tenho apanhado chuva todos os dias, não posso deixar de partilhar tanta luz.

quarta-feira, julho 04, 2007

Ousadias

O video é um extracto de um programa produzido pela Teresa Guilherme, julgo que para a SIC, em 1997 ou 98. Supostamente, a gravação da entrevista seria para incluir num programa para as comunidades emigrantes, num canal qualquer de cabo nos Estados Unidos. Enfiei o barrete todo, todinho, da cabeça aos pés. Foi um trabalho bem feito que contou com a minha tradicional ingenuidade... não ha' nada a fazer. Vou morrer assim. Um abraço ao Frederico Duarte Carvalho, que me enviou o link do YouTube.

domingo, julho 01, 2007

Por cima e por baixo

Ouvi dizer que quando Paris foi ocupada pelo III Reich, Hitler foi ao Trocadéro para admirar a sua conquista la’ do alto. E’ bem possivel. Realmente, é lindo de se ver. E depois não é so’ a vista, mas a arquitectura dos edificios, os jardins, o restaurante do Museu do Homem e as empregadas que la’ trabalham, a animação que transforma o terraço num palco exotico. Tudo aquilo vale a pena. Ainda não se paga so’ por olhar.

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Por baixo do Trocadéro é o mundo dos “sans abri”, mamiferos de sangue quente que delimitam o territorio com marcas odoriferas, como fazem os lobos, mijando nos cantos estrategicos, para que os outros saibam que estão a trespassar terreno alheio. Ninguém se senta naqueles bancos.



sábado, junho 30, 2007

No metro


Sonolentos, macambuzios, dobrados, sisudos, tristes, os franceses enchem o metro todas as manhãs. Franceses? Alguns serão, mas ouve-se de tudo, russo, polaco, chinês, thai, wolof, castelhano, àrabe e portunhol. Mas quase sempre vão silenciosos. Dormitando mais umas migalhas a caminho do emprego.














Quase nunca olham pela janela porque, se olhassem, assustavam-se com os monstros que, na escuridão dos tuneis, espreitam a corrida das carruagens.

domingo, junho 24, 2007

Nas margens do Orge

E’ uma velha casa burguesa, herança de um avô.
Os netos não têm dinheiro para a manter em perfeitas condições e, assim, dividiram o palacete em pequenos apartamentos que alugam.
Foi construida em 1850, o tempo de Victor Hugo e de grandes convulsões sociais provocadas pela proclamação da Republica e a realização de eleições em que foi eleito Presidente da Republica o monarquico Louis-Napoléon Bonaparte que, pouco depois, iria liderar um golpe de estado para se auto-proclamar Imperador Napoleão III. Uma confusão dos diabos.
Desde então que a casa la’ esta’. Muito ja’ se viveu e morreu dentro daquelas paredes. E’ la’ que vive agora um amigo meu. Mas à cautela, arranjou um cão feroz para afastar os maus espiritos.

quarta-feira, junho 20, 2007

Clochard

Nunca se levanta antes das 7 da manhã. Mas depois dessa hora torna-se dificil conciliar o sono com o bulicio matinal da cidade. Deita-se no ultimo banco de pedra da estação. Imagino que ninguém fale com ele excepto, talvez, os da mesma condição.

Para quem procura casa, aqui, a “désocialisation’’ não é uma noção distante nem improvavel. E’ que os preços das casas raiam o absurdo. Apartamentos infimos, T0 ridiculos, não custam menos de 600 € por mês. Uma casa para uma familia de 4 pessoas parece ser algo luxuoso e quase inacessivel ao trabalhador comum. Os senhorios, aqui, não pedem menos de 3 meses de renda adiantados, querem ver os comprovativos de pagamento de impostos e não aceitam trabalhadores com contratos a termo. Ou seja, é facil ficar sem casa e passar a dormir na rua.

quinta-feira, junho 14, 2007

Madrugada sem sono



Ah ! A torre.
No bairro onde por enquanto estou a viver, a silhueta da torre é uma presença constante. Vê-se de quase todas as ruas, basta que estejam orientadas num enfiamento favoravel. É de facto uma magnifica inutilidade, como parece que disseram em 1886 quando o engenheiro Eiffel a construiu. Enfim, inutilidade é uma imprecisão grosseira. Todos os anos, seis milhões de pessoas pagam para subir até la’ acima. Realmente, é uma màquina de fazer muito dinheiro.

quarta-feira, junho 13, 2007

Sarkozy au G8 ou o erro de falar à imprensa depois de almoçar com Putin

Os jornalistas da televisão francesa não passaram estas imagens. Foram os belgas que o fizeram. A cena provocou protestos do governo francês e a tv belga que exibiu esta conferência de imprensa pediu desculpa pelo que fez. Julgo que apenas porque não pode provar que o presidente francês estava realmente un peu touché.

domingo, junho 10, 2007

A minha princesinha


A minha princesa enfeitiçou-me logo no dia em que nasceu. Na hora em que nasceu. Com ela não preciso de outros amores, não tenho frio, não sinto fome. Com ela nunca estou so’. Por isso me custa tanto estar longe dela, agora. Sinto-me um viciado em ressaca e sofro com isso. Tenho necessidade dela. Porque ela é boa para mim e porque é ùnica no meu mundo. E porque me falta a paciência para esperar por amanhã. E porque tenho medo da monotonia e com ela a vida nunca é monótona. Porque me falta o calor do seu corpo quando se senta juntinho a mim para fazer os trabalhos de casa. A minha filha faz 8 anos, hoje. Não estou la’ com ela e isso perturba-me. Mas sei que o essencial não se olha com os olhos.

quinta-feira, junho 07, 2007

Morrer de tristeza

Ja’ aqui vos falei dos piriquitos do meu avô, sim… Um dia, quando ele ja’ estava muito doente (foram os diabetes que o mataram), a minha avo’ passou a tratar dos piriquitos. Não sei porque carga de àgua, decidiu separar um casal de piriquitos que viviam juntos ja’ ha’ muito. Os bichos ficaram em gaiolas diferentes, mas viam-se à distância. Na ânsia de se reunirem de novo, tentavam passar por entre as grades, de tal modo que o macho entalou a cabeça e morreu asfixiado. Depois disso, a fêmea deixou de comer. Definhou lentamente, arrancou as proprias penas da barriga. Morreu feita um esquife ossudo e careca. Morreu de tristeza. Como se tivesse bebido um frasco de veneno.

sábado, junho 02, 2007

Paris



Quando voltar a escrever aqui, será de lá.

Je pars demain. Retomo a profissão, enfim. Sempre há alguém que considera útil o meu contributo profissional. Vamos lá, então. Sinto que vou viver uma experiência marcante, naquela terra onde nasceram os conceitos de Liberdade, Igualdade e Fraternidade que moldaram os ideais de muita gente.

À bientôt.

quinta-feira, maio 31, 2007

Arquivos da Humanidade

Há um livro, recentemente editado, que deveria ser de leitura obrigatória para todos. Todos, sem excepção. Cada página desse livro é uma lição de coragem e desassombro.
Comprei-o agora e ainda nem o li. Mas fiz a experiência de o abrir à toa, aleatoriamente. Na página 282, por exemplo, li o seguinte:

“Ao que acabo de referir sobre a situação tão precária dos Direitos Humanos para boa parte da população mundial, como se já não bastasse, temos de acrescentar, como factor particularmente nefasto para a situação actual dos Direitos Humanos no mundo, a vigente, perversa e espúria tendência, assumida às claras, de se substituir a força do Direito pelo direito da força que gera, ipso facto, como corolário imediato e infelizmente amiúde observado, o surgimento de caldos políticos incentivadores ou permissivos à tortura com comportamentos particularmente desumanos, cínicos e hipócritas que importa desde já estigmatizar e arquivar na nossa memória colectiva a fim de que não possam ser negados amanhã por aqueles que os estimularam, defenderam e praticaram recorrendo a todo o tipo de manipulações, mentiras e demagogias fossem eles governantes, políticos, “pensadores”, analistas, jornalistas, polícias ou militares… Dispondo de arquivos, a sociedade humana democrática poderá confrontá-los, assim o entenda, com as suas atitudes passadas.”

O autor de “Gritos contra a Indiferença” é Fernando Nobre, presidente da AMI, uma daquelas pessoas de quem eu gostaria de ter oportunidade de ser amigo e não apenas conhecido.


quarta-feira, maio 30, 2007

Por solidariedade







Garantimos, no entanto, os serviços mínimos. Muito mínimos.
O cartaz foi emprestado pela vizinhança.

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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