Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











segunda-feira, maio 14, 2007

Cidadãos por Lisboa


A candidatura de Helena Roseta tem uma semana para reunir 4 mil assinaturas, condição sine qua non para ser aceite na corrida eleitoral para a Câmara Municipal de Lisboa.
Isso só será possível se os lisboetas se mobilizarem. Quem quiser dar uma ajuda, pode começar por aceder ao site do movimento, aqui.

domingo, maio 13, 2007

Estamos sempre a aprender

E de repente, eis que surgem vozes livres da disciplina e obediência partidárias.
É verdade que são, todos eles, antigos agentes partidários, mas temos de lhes reconhecer o direito à mudança. Só não muda de opinião quem perdeu a capacidade de aprender. Na escola ou com a vida.
Quero então chamar-vos a atenção para o que escreveram José Pacheco Pereira e Paulo Pedroso nos respectivos blogues.
Pacheco Pereira, num texto intitulado A Terceira Entidade, relembra os seus tempos de líder da distrital de Lisboa do PSD, época em que confessa ter aprendido muito sobre o mecanismo partidário e diz que só ainda não escreveu as suas memórias sobre esse período porque “os nomes circulantes continuam por aí”. Gente que, segundo a opinião expressa por Pacheco Pereira, “farão tudo para se defender e aos seus lugares, e farão tudo para varrer os outros dos lugares. É a lei da selva mais dura que para aí anda, com um grau de produção de "inimigos íntimos" sem dimensão fora da política, mas "eles" são a distrital de Lisboa e não há outra.”
Lindo, não acham? Este texto foi publicado no Abrupto em 5 de Maio e também no jornal Público.


Uns dias depois, a 10 de Maio, no Canhoto, Paulo Pedroso amargava uma prosa incomodativa sobre os factos que obrigaram Helena Roseta a desfiliar-se do PS e a aventurar-se numa campanha eleitoral independente para a presidência da Câmara Municipal de Lisboa. Segundo Paulo Pedroso, há 3 meses que Helena Roseta escreveu uma carta a José Sócrates disponibilizando-se para a luta eleitoral e nunca recebeu resposta. E isso não se faz, diz Pedroso: “detesto a gestão política pelo silêncio, a corrosiva guerra de nervos. Ela tem efeitos perniciosos sobre a coesão dos grupos, mas conheço gente demais, por vezes até bem intencionada, que abusa desses silêncios convencida que assim fica mais vincada a assimetria da sua posição de poder sobre quem discorda ou diverge. Elegantemente, Roseta diz que as pessoas são livres de responder ou não às cartas que recebem, mas discordo dela nesse ponto. Qualquer militante tem direito a uma resposta, seca e curta que seja, do Secretário-Geral do partido a que pertence, quando se lhe dirija de forma urbana e cordata.”
Ou seja, e só posso concordar com Paulo Pedroso, o Secretário-Geral do PS devia ter respondido a essa carta, nem que fosse para dizer não. A soberba é que não se aceita.

sexta-feira, maio 11, 2007

É a isto que eu chamo um mau serviço

Decidi rescindir o contrato com a TV Cabo.
A informação que consta no site da empresa indica um número de telefone para onde se deve ligar para tratar deste tipo de assunto. É 0 707299499. Ligo, aparece uma gravação a dizer que se pretendo não sei quê terei de marcar o 1, se pretendo outra coisa terei de marcar o 2, se pretendo com mais molho terei de marcar o 3, por aí fora. Escolho o que pretendo e surge uma segunda gravação com a mesma lengalenga… volto a marcar o número correspondente ao que pretendo e fico à espera que me atendam. Passado um minuto, atendem-me. “Fala fulana de tal, com quem tenho o prazer de falar?” E segue-se uma conversa pretensamente cordial que serve, essencialmente, para eu me identificar com nome completo e número de cliente. Depois, a menina diz-me que para satisfazer o meu pedido tem de transferir a chamada para outra secção. Transfere e fico a ouvir música de elevador de hotel… desde que liguei passaram-se 5 minutos e a chamada é paga. Passam mais dois ou três minutos e aparece, finalmente, outra menina. Esta já sabe o meu nome e ao que eu venho, mas pergunta-me porque razão pretendo cancelar o contrato. Respondo que vou viver para longe, que vou fechar a casa e, portanto, não preciso de tv cabo. Ela insiste em que permaneça cliente, a troco de um serviço mínimo que me custará apenas 11 € e tal por mês. Volto a explicar-lhe que não estou interessado…. E a chamada cai. Fiquei sem saldo.
Carrego o telefone e volto a ligar para o 707… repete-se tudo de novo. Passo a passo, palavra a palavra… até que chego à tal secção competente para resolver a minha questão, ou seja, onde estava quando a chamada telefónica caiu. Volto a repetir que não estou nada interessado em serviços mínimos a 11 € e tal por mês, que quero mesmo é rescindir o contrato. E de novo perguntam-me porquê. Porquê? Por que sim, porque me apetece, porque deixou de me apetecer, porque tenho mais onde gastar o dinheiro, porque prefiro a concorrência, porque estou desempregado, porque deixei de precisar, sei lá. Com que raio de direito se julgam eles para questionar as razões do cliente?
Mas sabem a melhor? É que, no fim disto tudo, depois de 20 minutos de conversa à custa do cliente (a chamada é paga, volto a lembrar) o funcionário da Tv Cabo termina dizendo que, sendo assim, terei de me deslocar a uma das lojas da Tv Cabo, com o BI, para preencher um impresso qualquer.

quinta-feira, maio 10, 2007

Ronaldo não quer ser reajustado

Não conheço o senhor Ronaldo Caiado, apenas sei que é deputado no parlamento brasileiro e que foi o único, entre todos, que votou contra o aumento de 28,05% dos salários dos políticos.
O termo usado no Brasil para um aumento destes é “reajuste salarial” e eu gostava de saber se os senhores deputados também decidiram reajustar os salários dos restantes trabalhadores do país na mesma ordem de grandeza.
Segundo o que li na edição on-line do jornal Folha de São Paulo, os parlamentares aproveitaram a presença do Papa, que desviou todas as atenções dos media e do povo, para calmamente aprovarem o reajuste.
Engraçado era se o tiro lhes saísse pela culatra, ou seja, que o Papa chamasse a atenção para tamanho atrevimento num país com dezenas de milhões de cidadãos a viver abaixo do limiar da pobreza. Mas desconfio que o Papa está mais preocupado com outros problemas, como o aborto ou a canonização do primeiro santo brasileiro. Dizendo de outro modo, com a política do Vaticano.

quarta-feira, maio 09, 2007

Os independentes

As próximas eleições para a Câmara Municipal de Lisboa vão ser curiosas, do ponto de vista socio-político. Os partidos políticos vão ter grandes problemas para encontrar bons candidatos.
Logo, porque quem vencer essas eleições apenas terá dois anos para governar a capital e não os habituais quatro, o que quer dizer menos tempo para realizar obra e, mais do que isso, pouco tempo para recuperar a situação económica da cidade e reformar a gestão da autarquia. Enfim, esse pouco tempo poderá transformar-se numa armadilha política a prazo, já que o fracasso significará a derrota nas eleições que se realizarão, depois, em 2009.

Mas o grande problema dos partidos políticos é a candidatura de independentes. Para além do próprio Carmona Rodrigues, que deverá recandidatar-se para tentar uma vingança contra o PSD, temos a anunciada candidatura de Helena Roseta, que se desvinculou do PS para lutar pela edilidade. Helena Roseta é uma fortíssima candidata e não vejo como o PS e o PSD vão encontrar facilmente quem queira defrontar estes dois independentes.

Roseta tem bastante experiência política (foi deputada e presidente da Câmara de Cascais), é bastonária da Ordem dos Arquitectos e passa por ser incorruptível, o que é condição suficiente para ser eleita.
Carmona tem um discurso de vítima, é o não-político que foi trucidado pelo aparelho do partido, é o “técnico competente” impedido de governar a cidade pelos políticos como, de resto, afirmou o próprio há dias: “Com sentido de responsabilidade, tal como o Comandante de um navio, não serei eu o primeiro a abandonar o barco. Nem permitirei que me atirem pela borda fora."
O principal problema de Carmona é ser arguido nos processos que envolvem a câmara, assim como os seus principais colaboradores. Por isso, acho que Carmona Rodrigues é muito mais frágil que Helena Roseta.
Seja como for, qualquer candidatura partidária contra Roseta ou Carmona arrisca-se a perder, o que no caso de eleições para a capital do país tem um significado político relevante.

segunda-feira, maio 07, 2007

Mar insonso

Fui ver o grande lago do Alentejo, aquela imensidão de água doce que transformou aldeias do interior alentejano em localidades ribeirinhas, onde pontuam novas tabuletas pintadas de azul com indicações que seriam bizarras há uns anos como, por exemplo, “ancoradouro” ou “cais”.
Mudou tudo. Do alto de Monsaraz, para os lados de Espanha, onde dantes só se viam olivais e montados, rebanhos de vacas e de ovelhas, agora há água e ilhas.
Em 2002 fiz uma descida do Guadiana, de canoa, para a realização de um documentário sobre o que o Alqueva iria submergir. O Castelo da Lousa, a aldeia da Luz, o Convento do Alcance, uma fábrica de pasta de papel, o olival da Pega, os moinhos de água, os menires, antas e dólmenes, e uma imensidão de sítios arqueológicos nunca estudados. Daqui a 100 anos, talvez, quando a barragem já não existir, tudo aquilo voltará à luz do dia, só não sei em que condições de preservação. Intitulei esse documentário “Por esse rio abaixo”. Foi um trabalho que gostei de fazer, que passou uma única vez na SIC Notícias, no consulado do Nuno Santos enquanto director daquilo.

sexta-feira, maio 04, 2007

Habeas Corpus

Encontrámo-nos em Nice, durante uns Jogos Mundiais de Jornalistas, um evento bienal organizado por uma associação internacional de jornalistas a que o Sindicato dos Jornalistas português costumava aderir.
Aquilo era sempre uma paródia e eu fazia tudo para não faltar. Daquela vez inscrevi-me na equipa de xadrez, mas acabei por ter de jogar futebol sob pena da equipa não poder entrar em campo por falta de quórum. Ela estava na bancada, a assistir ao jogo.
Nessa noite encontrei-a num cocktail. Começamos a conversar e nunca mais nos largámos. Até perdi a camioneta que trouxe a malta de volta para Lisboa. Tive de vir de comboio, no dia seguinte.
Umas semanas depois, namorávamos ao telefone. Eu em Lisboa, ela em Paris, onde trabalhava na embaixada do Canadá. Um dia, deu-me a louca e disse-lhe que no dia seguinte, ao meio-dia, estaria à espera dela debaixo da Torre Eiffel. Meti-me no carro, fui a casa enfiar umas t-shirts num saco e pus-me a caminho de Paris. Guiei 24 horas seguidas, mas ao meio-dia estava debaixo da Torre Eiffel. Ela apareceu à hora marcada. Foi um beijo muito louco.
Foi em 1983 e não sei porque me lembrei disto agora. Mas deu-me uma saudade de Paris. É uma cidade onde se pode ser feliz.
A foto é de Robert Doisneau.

quinta-feira, maio 03, 2007

A exaltação

Não vi o debate, mas na reportagem do Paulo Dentinho (hoje, no programa da manhã da RTP) ela aparecia indignada, com o tom de voz um pouco elevado. Logo o adversário lhe aconselhava calma, porque a exaltação parece mal, conforme está convencionado e ele tentou tirar partido disso. E ela respondia-lhe que não estava enervada, que estava, apenas, indignada, que mantinha intacta a sua capacidade de revolta, como quem diz que continua a ser gente, apesar de estar ali a disputar o poder total de uma das nações mais importantes da Europa.
Porque parece mal aparecer enervado num debate político televisionado? Os nervos à flor da pele denunciam fraquezas escondidas? Pois eu acho que essa é mais uma convenção estipulada pelos cínicos, por aqueles que nunca se zangam porque são capazes de todas as cambalhotas e contorcionismos para se manterem à tona. Gosto de gente que se zanga e que se enerva, que se indigna e se escandaliza, se revolta e luta por aquilo em que acredita. Julgo que era disso que se tratava no debate entre Ségolène e Sarkozy, naquele extracto que apareceu na reportagem do Paulo Dentinho. Ela defendia uma lei que, quando fez parte do governo, tinha implementado em defesa dos direitos das crianças fisicamente incapacitadas, uma lei que ele desmantelou em nome de um liberalismo económico pouco sensível aos problemas das pequenas minorias da população. Se eu fosse francês, votaria em Ségolène.

quarta-feira, maio 02, 2007

1º de Maio



Se não fossemos um povo de medrosos, de acomodados, de resignados, as várias manifestações de ontem não teriam cabido nas ruas por onde desfilaram. Mas o que se viu foi meia dúzia de tipos em Loures, na manif da UGT e alguns milhares na Cidade Universitária na manif da CGTP. Foi pouco, numa sociedade cheia de desempregados e de trabalhadores em situação precária, submetidos à ditadura do “recibo verde” a troco de um rendimento miserável.
Como é que um povo que se lançou ao mar para dar novos mundos ao mundo se transformou nisto?

domingo, abril 29, 2007

Real Politik

É uma folha A3, com timbre da Agência Lusa, escrita à mão por mim. Não tem data, mas é de Outubro de 1998 e refere-se ao atentado contra a vida de Abel Chivukuvuku, à época o líder parlamentar da UNITA.

Chivukuvuku (foto pequena) morava no bairro de Alvalade, numa rua muito movimentada e tinha segurança policial no portão, como habitualmente têm todos os tipos importantes em Luanda. No entanto, os polícias que lhe guardavam o portão de casa, nesse dia de manhã, não estavam lá, inexplicavelmente.

Às 9 horas, quando o carro de Abel Chivukuvuku passou o portão, conduzido pelo motorista que ia levar os dois filhos do patrão à escola, de um outro veículo que circulava pela rua saíram três tiros disparados de uma pistola com silenciador. Ninguém viu a cara do atirador, ninguém reparou na matrícula do carro utilizado no atentado, nem sequer ouviram os disparos por causa do silenciador. Mas duas balas ficaram cravadas na porta do carro e a terceira ficou no capôt. Chivukuvuku não ia no carro e as crianças não foram atingidas.

Não sei se quiseram mesmo matar Chivukuvuku, mas sei que o assustaram bastante. O passo seguinte foi a sua substituição forçada na direcção da bancada parlamentar da UNITA.

Foi por esses dias que surgiu a chamada UNITA-Renovada, um grupo dissidente de Jonas Savimbi e liderado por Eugénio Manuvakola e Jorge Valentim.

Manuvakola foi imposto como novo dirigente parlamentar da UNITA, num golpe palaciano levado à cena pelo próprio presidente do Parlamento angolano. Com os votos do MPLA, o Parlamento declarou ilegal a direcção de Chivukuvuku, que se mantinha leal a Savimbi e passou a reconhecer a dita UNITA-Renovada.

No dia em que isso sucedeu, eu estava lá, no Parlamento e assisti a tudo.
Enquanto a guerra regressava ao país, os primeiros tiros em Luanda contra a UNITA foram disparados neste episódio que aqui vos conto.

Em 98, Luanda voltava a transformar-se numa ratoeira para os tipos da UNITA, como já tinha sido em 92.

Já me tinha referido a este episódio aqui no blogue, em circunstâncias diferentes, mas o reencontro com este papel obrigou-me a regressar a este episódio paradigmático da real politik à angolana.

sábado, abril 28, 2007

Adoro miminhos

Penso logo existo, ora blogda-se.
Um grande abraço aos que se lembraram disto.
Mas não sei se mereço tamanha distinção.
Não sei mesmo.

sexta-feira, abril 27, 2007

Arte e manhas da política. No caso, angolana.

Já há muito tempo que não mergulhava o braço no baú da papelada. Desta vez saiu um papel A4 dobrado em oito, um comunicado da Missão de Observação das Nações Unidas em Angola – MONUA.
O papel está datado de 31 de Julho de 1998. Eu estava em Angola há cerca de 15 dias, na companhia do Carlos Santos, o camera-man da SIC que me acompanhou. O comunicado fala de um terrível massacre ocorrido numa aldeia da Lunda Norte, onde terão morrido 600 pessoas, segundo se dizia em Luanda. Na verdade, ninguém sabe quantos morreram.
O governo acusou a UNITA da autoria do massacre. A UNITA nunca o reconheceu. O ataque foi, de facto, um assalto para rapinar os diamantes que estavam naquela aldeia que, como tantas outras do Norte de Angola, mais não era que um acampamento de garimpeiros. Atacaram e mataram todos de modo a não deixar testemunhas.
O comunicado da MONUA acusa o Jornal de Angola, a Televisão Pública de Angola e a Rádio Nacional de Angola de difundirem falsas notícias sobre o sucedido, nomeadamente a afirmação de que a MONUA teria identificado os atacantes como sendo militares da UNITA.
Na verdade, o que se dizia à boca pequena, em Luanda, é que o ataque teria sido feito por soldados governamentais, homens tresmalhados, cansados de esperarem por um soldo que nunca chegava, fartos de passar fome e medo.
Alguns dias depois, eu e o Carlos Santos estávamos em Bula, levados pela tropa angolana. Vimos os corpos enterrados nas valas cavadas para o garimpo, vimos as palhotas destruídas e vimos muitas cápsulas de munição espalhadas pelo chão de areia. Não sei quem disparou aquelas balas todas. Sei apenas que eram cápsulas de munição de fabrico espanhol. E sei que Espanha vendia munições e outro equipamento militar ao exército governamental.

quinta-feira, abril 26, 2007

A resignação e o inconformismo

Cavaco não põe cravos na lapela e não gosta das comemorações do 25 de Abril. Disse-o ontem, quando presidia às ditas celebrações por mera obrigação do ofício, como se depreende. Não gosta e não se resigna e, então, quer mudar tudo, quer alterar o ritual, quer modernizar a coisa, pelo que percebi. E falou da necessidade dos jovens não se resignarem perante a mediocridade vigente.
Cavaco também não gosta de manifestações e, por isso, não alinhou na descida da Avenida da Liberdade, um outro modo de celebrar o 25 de Abril muito do agrado de milhares de cidadãos, como se viu. Lá estiveram alguns dos que já tinham estado nas comemorações oficiais realizadas no Parlamento. Foi o caso dos capitães de Abril, os tais que não se conformaram com a situação em 1974 e fizeram cair o regime. De manhã estiveram em São Bento a escutar o Presidente da República, de tarde juntaram-se ao povo que festejava.
Alguns dos participantes desta passeata acabaram por passar a noite nos calabouços da polícia. Parece que se excederam nos protestos contra o racismo e a xenofobia emergentes na sociedade portuguesa. Segundo a polícia, cerca de 150 pessoas, "extremistas com simbologia anarcolibertária", pertencentes a movimentos antiglobalização, iniciaram uma marcha rumo à Praça Luís de Camões, no Chiado. Uma marcha não autorizada, faz notar a polícia. A coisa tinha de acabar mal, porque tanto inconformismo também não.

quarta-feira, abril 25, 2007

25/A





De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
e só nos faltava agora
que este Abril não se cumprisse.
Só nos faltava que os cães
viessem ferrar o dente
na carne dos capitães
que se arriscaram na frente.

terça-feira, abril 24, 2007

Termo de identidade e residência

Agora, os desempregados têm de se apresentar quinzenalmente na Junta de Freguesia onde vivem. Quando se inscrevem no centro do IEFP recebem a primeira intimação para se apresentarem na Junta e, depois, a Junta renova-lhes a data para a próxima apresentação e assim sucessivamente, de quinze em quinze dias.
Porquê isto tudo? Porque parece que há pessoas que não se contentam com o subsídio de desemprego que o Estado português lhes dá e vão trabalhar para Espanha. Assim, se forem, têm de vir a casa todos os 15 dias e, porventura, a trabalheira deixa de compensar. Se falharem duas apresentações, o subsídio é cortado. Os outros todos pagam por tabela. O legislador terá pensado, porventura, que se o cidadão está desempregado bem pode passar umas horas numa fila inútil à porta da Junta de Freguesia. O cidadão pode, é claro. Os funcionários da Junta também podem, claro está, até porque se tinham pouco que fazer, antes, agora o seu posto de trabalho está completamente justificado. O Estado ganhará alguma coisa com isto? Não sei, mas julgo que não. A coisa é um bocadinho ridícula e não evita a economia clandestina. Quem pariu este esquema não devia estar imbuído daquele espírito simplex propalado pelo Primeiro-Ministro. Em pouco tempo, o cidadão desempregado vê-se obrigado a carregar um dossier cada vez mais cheio de folhas A4 onde se comprova “o dever de apresentação quinzenal previsto no artigo 17º do decreto-Lei nº220/2006 de 3 de Novembro”, além da colecção de provas quanto à obrigação de procurar activamente emprego, ou seja, o cidadão desempregado tem de provar que responde a anúncios de emprego, que vai a entrevistas, que envia currículos para empresas, etc. O dossier engorda, o cidadão talvez não.

segunda-feira, abril 23, 2007

Dans le divan

Em 2002 falou-se “no fim da democracia” quando o desinteresse do eleitorado francês deu espaço à extrema direita de Le Pen que chegou a meter medo ao sistema democrático.
Agora, parece que os franceses se reconciliaram com a política, ou com os seus políticos, foram votar em massa e deram uma tareia eleitoral a Le Pen, como ele nunca deve ter imaginado.
Outro pormenor interessante foi o surgimento do terceiro elemento. Durante a campanha eleitoral, a candidata Ségolène Royal terá dito que François Bayrou era um homem “sem cadeira”, querendo dizer que ele não tinha lugar naquela luta pelo poder, que ela pretenderia disputar apenas com Nicolas Sarkozy. Como se vê, a senhora enganou-se bastante. Ironicamente, Bayrou sentou-se num confortável sofá e, agora, espera que Ségolène se chegue ao pé dele para negociar os tais 7 milhões de votos que amealhou nestas eleições. Como cavalheiro que deve ser, Bayrou certamente cederá algum espaço do seu sofá para que Ségolène se sente a seu lado e conversem sossegadamente. E se ela traçar a perna, tudo poderá acontecer… na segunda volta a 6 de Maio.

sexta-feira, abril 20, 2007

Na curva do rio



Encalhei a canoa na margem e deixo que passe a hora da fome dos crocodilos. Deixo-os saciarem-se antes de voltar a empurrar a canoa contra a corrente. Enquanto estiverem na água, o rio é deles. Quando eles regressarem para a margem, eu voltarei para o rio.

quarta-feira, abril 18, 2007

A conferência de imprensa


Bombástico, adj. estrondoso; extravagante

Pífia, adj. desprezível; vil

terça-feira, abril 17, 2007

Assassinos



Creio que Marques Mendes, que foi professor na UnI, sabia do conteúdo do dossier académico de José Sócrates. Daí ter formulado aquela cândida proposta da investigação a ser feita por uma entidade independente.
De facto, estão a assassinar lentamente o carácter do homem. A cada dia uma nova facada. Sendo que o que sobra é vingança, apenas. Vingam-se pelo encerramento da universidade, como se a culpa fosse de Sócrates e não deles próprios, magníficos actores de cowboyadas.
Sócrates foi favorecido na obtenção da licenciatura? Em plena consciência, é difícil responder. Mas é possível que tenha sido, sim. O que não me admira, se pensarmos no sentido prático que os capitalistas dão à vida: o dinheiro não tem cor nem cheiro, mas dá prestígio. O que, no caso vertente, quereria dizer que valia tudo para atrair estudantes à UnI e, melhor ainda, se esses estudantes fossem deputados.

domingo, abril 15, 2007

A mudança da maré

O tom do que se escreve nos jornais já não é o mesmo. Por exemplo, hoje, o Diário de Notícias tem duas prosas favoráveis ao Primeiro-Ministro e o Público limita-se a descrever, pela enésima vez, as incongruências entre os vários certificados de habilitações de José Sócrates, nada que lhe possa ser imputado directamente.
No PSD, Marques Mendes está praticamente a falar sozinho quando exige um inquérito independente ao dossier académico do Primeiro-Ministro.
Quando isto tudo acabar, vão sobrar os escombros da Universidade Independente e pouco mais. Dirão que a universidade não merece viver, que tem de pagar caro pela desorganização evidente em que viveu durante estes anos todos. Talvez. Mas é irónico que a encerrem quando, finalmente, parecem existir condições para a reorganizar. E quanto aos direitos dos actuais alunos, o silêncio dos governantes permanece.
Ainda quanto à desorganização da Independente, gostaria de ver a mesma justiça ser aplicada a outras instituições de peso bem maior na organização do Estado português. É que também a Assembleia da República não sabe explicar como foi que o registo biográfico de José Sócrates aparece emendado, limitando-se a afirmar que é impossível indagar porque já se passaram muitos anos. Se uma universidade privada tem a obrigação de preservar a integridade dos seus arquivos, a mesma obrigação se exige, por maioria de razão, à Assembleia da República. Ou não?

sábado, abril 14, 2007

Autofagia política

Como se vê, o caso da licenciatura de Sócrates não é um fait divers político. O líder da oposição já exige uma investigação independente. Suspeito que, tarde ou cedo, essa investigação venha a ser feita. Basta que alguém se lembre de apresentar uma queixa formal na Procuradoria Geral da República, por exemplo. Julgo que muitos políticos, adversários de Sócrates, apostam muito nessa investigação e na suspeita de que ainda existem segredos escondidos no dossier académico de Sócrates na Universidade Independente.
A prestação do Primeiro-Ministro na RTP foi boa, mas não chegou (nunca chegaria) para calar a boca aos que o querem derrubar seja lá como for. Por isso, esta história ainda terá mais episódios, aposto eu.
Depois da desistência de Guterres, do abandono de Barroso, das trapalhadas de Santana, o país não aguenta mais desilusões do género. Se Sócrates cair, as consequências poderão ser devastadoras para a classe política.
No meio de tudo isto, a Universidade Independente continua a caminhar para o encerramento e ainda não vi ninguém preocupar-se verdadeiramente com o problema das centenas de finalistas que, se não conseguirem terminar os seus cursos este semestre, terão de se transferir para outras universidades e, com isso, gastar mais um ano das suas vidas a estudar, além dos custos financeiros que isso obriga.
Todos falam que os antigos alunos, os que ali se licenciaram, não podem ser prejudicados pelo que se está a passar nem apanhar por tabela com os estilhaços do "caso Sócrates", mas todos se parecem esquecer, ou dar de barato, que os actuais alunos são os que estão a ser mais prejudicados com tudo isto. O senhor Ministro do Ensino Superior, professor doutor Mariano Gago, bem poderia decidir o que tem a decidir salvaguardando os tais legítimos interesses dos alunos.

sexta-feira, abril 13, 2007

As fontes da manipulação

Para os mais distraídos ou distantes destas coisas, vou aqui demonstrar como o poder político manipula jornalistas. E não é preciso fazer grande esforço.
No passado dia 6, o Diário de Notícias, entre outros jornais, publicava a notícia (sustentada por uma fonte da presidência) de que o Presidente da República, preocupado com as consequências da polémica em torno da licenciatura do Primeiro-Ministro, tinha reunido “discretamente com os seus colaboradores mais próximos para preparar eventuais ondas de choque do caso Universidade Independente”. Leiam aqui.
Horas depois, vários órgãos de comunicação social citavam uma notícia da Lusa, onde se negava que tal reunião se tivesse realizado, segundo “fonte da Presidência da República”, que desmentiu «categoricamente o teor da notícia de hoje publicada pelo Diário de Noticias». Leiam aqui.
Ou seja, duas fontes do mesmo fontanário deram informações díspares. Isto é, a mensagem de Cavaco passou, sem que ele tivesse tido necessidade de abrir a boca. O destinatário recebeu e entendeu o alcance da coisa. E daí a entrevista do Primeiro-Ministro à RTP.
Isto é política pura, meus amigos. E não vi nenhum jornalista a denunciar a “fonte” que os levou a fazer este papelão.

quinta-feira, abril 12, 2007

Coelhos da cartola

Hoje, todos dizem que Sócrates “passou no exame”, mas há indícios de que a coisa não ficará por aqui. Primeiro: se Marques Mendes vem, agora, reclamar uma inspecção ao dossier académico de Sócrates por uma entidade independente do Governo, isso poderá querer dizer que o PSD sabe de mais pormenores que ainda não foram revelados. Segundo: Francisco Louçã usou a expressão “satisfeito por agora”, quando se referiu às explicações dadas pelo Primeiro-Ministro na entrevista à RTP.
A minha suspeita é que se o Ministro Mariano Gago confirmar a sua decisão “provisória” de fecho da Universidade Independente, alguns coelhos vão começar a sair da cartola.
Quem viver verá.

quarta-feira, abril 11, 2007

Imaginem lá

Não é difícil de imaginar que a RTP vai vencer nas audiências desta noite. Sócrates vai tentar convencer o povo que não aldrabou nem beneficiou de qualquer favorecimento relativamente à sua licenciatura em Engenharia Civil, obtida na Universidade Independente, em 1996.
Eventualmente, o primeiro-ministro irá safar-se desta trapalhada, mas o preço a pagar será altíssimo. Vou tentar explicar porquê.
Imaginem o Conselho de Ministros. Sócrates na cabeceira de uma longa mesa oval e os seus 16 ministros olham para ele e sorriem. Mas de que sorriem eles? De comiseração, de complacência pedante? Eles, entre os quais estão 8 Doutorados, dois Professores Catedráticos e um Mestre, que respeito terão pelo “quase-engenheiro”?
Imaginem Sócrates a ensaiar um discurso sobre qualificação, rigor ou equidade… quem não irá sorrir, a partir de agora?
Imaginem como deve ter mudado a relação entre Sócrates e Cavaco Silva. O primeiro-ministro fragilizado por esta questão que mancha a sua honorabilidade, face a um PR reconhecidamente austero e suspeito de alguma perfídia política.
Diz-se que o tempo tudo cura, mas a ferida é profunda e vai levar tempo a cicatrizar.

terça-feira, abril 10, 2007

Os legítimos interesses de quem?

O Ministro falou ontem e mostrou-se zangado com os gestores da Universidade Independente, e com razão. Por isso, decretou o fecho compulsivo da universidade. E disse que iria salvaguardar os legítimos interesses dos alunos. Mas não disse como… e é aí que a porca torce o rabo. Ainda hoje fui à Universidade Lusíada para me informar sobre a possibilidade de me transferir para lá. A Lusíada abriu uma época especial de transferência apenas para alunos provenientes da UnI. Ouvi dizer que até há professores da UnI que recebem por cabeça de aluno que consigam levar para a Lusíada… mas é claro que não devemos acreditar em tudo o que se ouve. Mas lá que encontrei professores da UnI por ali, lá isso encontrei.
Mas, quanto aos legítimos interesses dos alunos… os finalistas, por exemplo, quase todos com 23 ou 24 cadeiras feitas, faltando apenas defender a dissertação ou pouco mais, se forem para a Lusíada terão de fazer, pelo menos, 10 cadeiras… ou seja, fazer um 5ºano de licenciatura. E não tem pós-laboral. Se for assim nas outras universidades, gostava de saber o que o Ministro quis dizer com “salvaguardar os legítimos interesses dos alunos”.

Lapsos a mais



Acabo de ouvir, na SIC, que José Sócrates, em 1993 (três anos antes de ter concluído a famigerada licenciatura na Independente), quando foi eleito deputado pela primeira vez, já se fazia apresentar como “engenheiro” e “licenciado em engenharia civil”. É o que consta, segundo a notícia, no who’s who dos eleitos dessa época. Mais uma vez, o engano até pode não ter sido da lavra do actual primeiro-ministro, mas diga ele o que disser, amanhã, à Judite de Sousa na RTP, já poucos irão acreditar nele. Eu, que desde o início lhe dei o benefício da dúvida, já começo a torcer o nariz…

domingo, abril 08, 2007

Engenharias políticas

Sempre duvidei das coincidências. É uma mania minha, se calhar, mas acho que atrás de uma coincidência há, quase sempre, uma mãozinha invisível providencial. Daí que estranho a coincidência do chumbo da OPA do Belmiro sobre a PT e o início da cruzada do Público sobre Sócrates.
Desde 2005 que o blogue Do Portugal Profundo anda a publicar textos sobre as alegadas irregularidades da licenciatura de Sócrates e só agora, depois do chumbo da OPA, a coisa chegou aos jornais de referência.
A política tem destas coisas e é por isso que eles (os políticos) andam sempre sobre brasas. Nunca sabem com o que podem contar. Este governo, por exemplo, que parecia sólido que nem rocha há um mês atrás, agora abana que nem varas verdes por causa desta história da licenciatura do primeiro-ministro.
Dir-me-ão que não, que já estou a imaginar mais uma teoria da conspiração. Direi que quando o patrão manda, o director obedece e acciona a cadeia de transmissão onde, no final, há sempre um redactor que faz o trabalho. Depois, há o fenómeno da imitação, tão comum no jornalismo português. Se o "vizinho" aborda um assunto, os outros imitam-no, principalmente se for um dos ditos jornais de referência. Até as televisões copiam os jornais. Sei do que estou a falar, como podem imaginar.
É por isso que considero a crónica de Pacheco Pereira, ontem, no Público, um disparate de fio a pavio. Mas muito bem escrita.

sábado, abril 07, 2007

O bom aluno

Se alguém julga que mudei de opinião sobre a licenciatura de Sócrates, desenganem-se. Não é pelo que se lê no Público ou no Expresso que devemos tirar ilações. As ditas investigações jornalísticas ainda não deram em nada, excepto na revelação evidente da desorganização interna da Universidade Independente. Quem conhece a UnI sabe que, até agora, aquilo era mais ou menos governado como se fosse uma empresa familiar. O que, de facto, até era. Espero que deixe de ser, se lhe for dada a hipótese de sobreviver a estes tumultos. Por isso não fico espantado com certificados assinados a um domingo pelo Reitor e pela filha, ou por haver falta de assinaturas em documentos e outras imperfeições do género.
Quem conhece a realidade do ensino superior privado, sabe que notas altas (do tipo que Sócrates obteve) não são, de todo, estranhas ao sistema. Muitos alunos que chegam às privadas são pessoas mal preparadas, provenientes de um sistema escolar deficiente e permissivo. E há os que vêm dos Palops, com certificados escolares mais do que duvidosos, manifestamente impreparados para um nível de ensino superior. De modo que, quanto mais não seja por comparação, os alunos razoáveis acabam por se verem transformados em alunos muito bons. Foi o que aconteceu, provavelmente, com José Sócrates. Mas ele não tem culpa disso.
As universidades privadas são fábricas de canudos? Pois são, e então? O que queriam que fossem? Elas existem como negócio. Servem para dar dinheiro aos accionistas. Não têm outra função maior.

sexta-feira, abril 06, 2007

Enquadramento sociológico


“Quem não tem experiência deste trabalho nos gabinetes do Governo, não sabe que vivemos rodeados de inimigos…”, disse-me ele.
Mas a verdade é outra. Com os inimigos já nós contamos. Não contamos é com os que julgamos amigos.

quarta-feira, abril 04, 2007

As razões de Estado


Não sei quem é Pedro Araújo, jornalista do Jornal de Notícias, mas foi dos poucos que fez bom jornalismo neste caso. Pelo menos ouviu as partes envolvidas nesta questão.
Muitos amigos e conhecidos já me telefonaram para perguntar porque “não ponho a boca no trombone” sobre o que sucedeu na passada 3ªfeira. Não ponho, realmente, porque não tenho motivos para isso, apesar de sentir que sofri uma penalização exagerada para a falta cometida.
Percebo muito bem as motivações do ministro que me exonerou (ora aqui está um belo termo para despedimento!) mas lamento a frieza, a desumanidade e a incompreensão reveladas por ele e por muitos dos jornalistas que trataram este caso.
Cometi o erro de ter sido sensível ao pedido de ajuda de um professor. De uma pessoa por quem tinha estima e que, afinal, se revelou um homenzinho fraco. Cometi o erro de ter tentado ajudar a amenizar as convulsões que se abateram sobre a Universidade Independente, com a agravante de não ter conseguido manter a frieza perante um problema que me afectava pessoalmente. Passei os últimos 4 anos a caminhar para a UNI, raramente faltei a uma aula, tenho notas razoáveis e sempre trabalhei em simultâneo, claro. Quando estava na TSF (e no 1ºano da Faculdade), levantava-me às três e meia da manhã, entrava na TSF uma hora depois, deitava-me ao meio-dia, dormia até às cinco, tinha aulas das seis às 11 da noite, voltava para casa para dormir mais um bocadinho até às 3 e meia. Por isso, ao fim de 4 anos, em que só me falta defender a dissertação, vejo a UNI a ir para o fundo e não consigo ficar frio perante isso. As razões de Estado que me desculpem.

domingo, abril 01, 2007

O meu filho olha para mim e vê-me assim...


Será que estou a criar um Picasso?

sábado, março 31, 2007

Tempo de catanas e kalashnikovs





É jornalismo do melhor que há. Não sei se o livro está à venda por cá. Comprei-o em Nairobi, já lá vão uns anitos. Precisei, agora, de o reler.

Eu e Scott Peterson andámos pelos mesmos sítios, na mesma altura. Ele teve o talento de escrever este livro. Eu tenho a sorte de o poder ler.
Foi uma oportunidade para me arrepiar de novo, como dantes.


Me Against My Brother, at war in Somalia, Sudan and Rwanda, Scott Peterson, Routledge, New York.

ISBN 0-415-92198-8

quarta-feira, março 28, 2007

Ainda Salazar...

Notícia da agência Lusa, hoje, a meio da tarde:

Lisboa, 28 Mar (Lusa) - O Bloco de Esquerda exigiu hoje explicações à RTP sobre o seu "concurso farsa" que "entronizou" Oliveira Salazar como "o maior português de sempre", fazendo uma "rasteira apologia do salazarismo".
Numa declaração política no período antes da ordem do dia do plenário da Assembleia da República, o deputado do BE Fernando Rosas teceu duras críticas ao programa "Grandes Portugueses", que terminou no domingo com a escolha de Oliveira Salazar como "o maior português de sempre", considerando que o Parlamento tem o dever de exigir explicações.
"Esta Assembleia, órgão por excelência da soberania popular e sede primeira da democracia - essa democracia que o fascismo proibiu e espezinhou - tem o estrito dever de exigir da televisão pública as explicações que são devidas à luz do regime legal e constitucional a que está vinculada", sublinhou Fernando Rosas.

Agora, digo eu. Foi uma coincidência, mas a verdade é que li isto logo a seguir a um amigo me ter chamado a atenção para o facto curioso de Salazar ter sido eleito “o maior” no canal televisivo cujo vice-presidente do Conselho de Administração é um salazarista confesso.
Ponces Leão assim o admitiu, faz agora um ano, numa entrevista ao Expresso, onde se declarava nacionalista, admirador de Salazar e onde expressou algumas pérolas do seu pensamento político, tais como algo do género (referindo-se aos Palop) “os pretos não estavam preparados para a independência”.

terça-feira, março 27, 2007

Cidadania

Bissau, eleições legislativas de 2004


Corre na NET um abaixo-assinado pela Paz e Democracia na Guiné-Bissau. Claro que não serão as assinaturas, mesmo que sejam muitas, a resolver a situação do país, mas sempre é uma posição que se toma, perante a arrogância dos poderosos. Para quem quiser saber dos termos do abaixo-assinado, é só clicar AQUI.

segunda-feira, março 26, 2007

Catedrática trapalhada

Quando penso na Universidade Independente, assalta-me uma grande angústia. É que há ali 2.400 pessoas inocentes de qualquer trafulhice, sem quota de participação no capital social da empresa que gere a universidade e que são os únicos grandes prejudicados das trapalhadas que estão a destruir a escola. Se o Reitor ou o vice-Reitor andaram a meter dinheiro ao bolso indevidamente, é uma coisa que não me interessa por aí além, é um caso de polícia que qualquer investigador judicial tem capacidade para resolver. Quem é o dono daquilo, é outro assunto irrelevante para o cidadão comum, mas que o ministério da tutela deveria ter preocupação em saber. Agora, os 2.400 alunos que pagam os 200 e muitos euros mensais de propinas, que além de investirem ali o seu dinheiro investem, também, expectativas legítimas de se valorizarem profissionalmente, esses é que estão a ver a vida a andar para trás, com o “canudo” a desvalorizar-se e a escola em risco de perder o alvará e ter de fechar.
O caso da Independente, depois do que já aconteceu noutras universidades privadas (lembrem-se da Moderna), demonstra que nem tudo o que é privado é bom… ou fiável… ou eficiente…
A responsabilidade do Estado é total, neste caso. Primeiro, porque licenciou a escola. Depois, porque não cuidou de fiscalizar ao longo do tempo se a escola cumpria devidamente com as regras. Terceiro, porque se dispensou de equipar as universidades públicas com cursos em horário pós-laboral e, assim, deu às privadas todo o mercado dos trabalhadores-estudantes. Ou seja, o Estado deu uma fatia do mercado para que as privadas pudessem viver. A implantação das universidades privadas não foi, assim, uma questão definida pela qualidade do serviço prestado, não foi definida por aquilo a que se chama “regulação do mercado”. Foi um favor que se fez a alguns senhores.

Lembrar Salazar

Ah! Salazar, o impoluto! Ganda tuga, meu! Sim senhora, depois de morto lá venceste umas “eleições”. Parabéns! Voltaste a beneficiar da santa estupidez desta malta, o que só prova que fizeste, realmente, bom trabalho enquanto por cá andaste. Aquela coisa de manter o pessoal ignaro e comezinho sustentou-se no tempo, como vês.
És um verdadeiro artista, já o sabíamos, de resto. Quem não sabe do modo habilidoso como safaste os teus amigos daquele escândalo pedófilo que ficou conhecido por “ballet rose”? Vocês, seus maganões, andaram a comer as meninas e, no final, foram absolvidos pelo juiz obediente e abençoados pelo Cerejeira. É isso que é admirável, mantiveram esse ar de figurões importantes, muito respeitáveis, embora podres por dentro. Ainda hoje a coisa perdura. É obra!

sábado, março 24, 2007

As investigações jornalísticas dão resultados tão diferentes, não dão?

Depois das “investigações” exemplares do Público e de O Crime, era de esperar que todos os outros jornais lhes seguissem as pisadas na abordagem do caso da licenciatura de Sócrates. É mais ou menos isso que tem acontecido.
O Correio da Manhã, hoje, traz uma novidade: entrevistou um antigo colega de estudos de Sócrates, alguém que, apesar de nunca mais se ter relacionado com o ex-colega de turma, testemunha o mérito de Sócrates como aluno.
O Correio da Manhã encontrou, ainda, uma explicação lógica para haver notas diferentes às mesmas disciplinas. Segundo a explicação, Sócrates teve uma nota no exame escrito e outra no exame oral:
Betão Armado e Esforçado - 18 (escrita), 17 (oral)
Estruturas Especiais - 16 (escrita), 16 (oral)
Análise de Estruturas - 17 (escrita), 18 (oral)
Projectos e Dissertação - 18 (escrita), 17 (oral).
Ou seja, em duas das orais desceu a nota que trazia do exame escrito, numa manteve e noutra subiu 1 valor. Não vejo nada de anormal nisto. As notas são boas, talvez alguns vejam nisso algo de estranho, mas eu não.

sexta-feira, março 23, 2007

À la africaine...

pintura mural em Bondo, Congo Democrático, 1999
.
Angola está quase a ultrapassar a Nigéria como principal produtor de petróleo de África. Angola é uma potência regional emergente e isso sente-se nos países vizinhos. Foi Angola quem pôs Joseph e Laurent Kabila no poder, no Congo Democrático (que raio de designação para um país daqueles…) e que sustentou esse regime “dinástico”durante a guerra civil. Angola fez o mesmo no outro Congo plus petite, idem para o Zimbabwe. Angola não se inibe de provocar quedas de regimes que não lhe convenham. Foi o que fez com todos os que apoiavam Savimbi, só falhando o golpe de estado que preparou na Zâmbia.
Nos países onde a pressão da comunidade internacional consegue a realização de um simulacro de democracia, com eleições gerais mais ou menos livres e justas, os “cavalos” angolanos vencem sempre. Muitas vezes, os derrotados acabam por aceitar integrarem-se no sistema, talvez convencidos de que os deixarão comer na alta manjedoura do poder. Mas não. Há sempre um acidente comprometedor para futuros tão promissores… foi o que aconteceu com John Garang, no Sudão, é o que pode vir a acontecer com Jean Pierre Bemba no Congo, ou com Morgan Tsvangirai no Zimbabwe, se não se põem a pau.
A política africana é fascinante!

quinta-feira, março 22, 2007

Um tabloide de referência

Hoje, o Público roubou uma cacha ao 24 horas. O que será que este facto quererá dizer? Que o jornal de referência se está a tabloidizar, na luta pela sobrevivência?


Refiro-me à história sobre as alegadas irregularidades cometidas por José Sócrates na obtenção da licenciatura em Engenharia Civil, estudos terminados na Universidade Independente.
O que resulta da leitura das páginas 2, 3, 4 e 5 é que o caos organizativo, administrativo, da Universidade Independente não é de hoje. Mas nada prova que tenha existido algum suborno do actual primeiro-ministro para corromper os responsáveis da escola.
Da leitura de todas as peças que o jornal publicou sobre o tema, ressalta também que o Público sentiu obrigação de se justificar perante os seus leitores, pouco habituados a este tipo de jornalismo. Numa nota da Direcção Editorial, o jornal argumenta com “referências múltiplas” que se avolumaram na blogosfera “há cerca de um mês”, sendo que, na verdade, apenas um blog se tem dedicado exaustivamente a esse tema, num caso típico de obsessão, bastante comum na dita blogosfera.
Porque estou eu a defender aqui o homem? Porque este tipo de atentado ao carácter das pessoas é de uma eficácia tremenda. Dificilmente alguém se conseguirá limpar completamente de uma maquinação deste tipo. Nada se provou, mas a dúvida permanecerá para sempre. Foi isto que fizeram a Paulo Pedroso e que, agora, estão a fazer com Sócrates. O jornal investigou e não encontrou nada de conclusivo. Mesmo assim, publicou e, hipocritamente, lava as mãos dizendo que essa investigação “permite aos leitores ajuizarem sobre o que estava certo e o que estava errado no que se dizia à boca pequena”.

quarta-feira, março 21, 2007

Prateleiras

Em todas as redacções por onde já passei, existiam as chamadas “prateleiras”, um local onde o trabalhador era colocado, às vezes isolado dos demais, sem trabalho atribuído, às vezes sem telefone ou sequer cadeira para se sentar. Era para lá que mandavam os tipos caídos em desgraça, por algum motivo. Também passei por algumas “prateleiras”, como é bom de ver. Muitos dos meus amigos também.
Aqui há tempos, o Mário Crespo foi contactado pelo Diário de Notícias, para uma reportagem sobre as ditas “prateleiras”. O Mário viveu alguns anos, na RTP, nessa situação de ostracismo. Foi ainda no tempo em que o José Eduardo Moniz mandava e desmandava na RTP. A situação do Mário acabou por ser resolvida com a sua transferência para a SIC e com uma tardia decisão em tribunal que lhe deu razão. Por ser um caso paradigmático de um trabalhador com experiência em “emprateleiramentos”, o repórter do Diário de Notícias tinha, então, escolhido o Mário para entrevistar. O trabalho foi feito a preceito, com uma boa produção fotográfica e tudo. Mas a reportagem nunca mais sai. Será que foi “emprateleirada”? Será que a influência de Moniz (um velho amigo de Oliveira, o novo patrão do Diário de Notícias) tem alguma coisa a ver com isto? O que será que se passou?

terça-feira, março 20, 2007

A televisão que temos (2)

Prós e Contras. Tema de debate: a televisão.
Balsemão foi à pantalha pública confessar o seu medo pela existência da Entidade Reguladora da Comunicação. O homem tem medo de ser examinado, avaliado. Porque a ERC (com a nova Lei da Televisão que aí vem) passará a ter o dever de avaliar periodicamente o desempenho dos operadores de televisão. No limite, a ERC poderá não renovar as licenças aos prevaricadores. E Balsemão revelou medo. Ele lá sabe.

Balsemão e Morais Sarmento

Morais Sarmento, também lá esteve. O ex-ministro de Durão Barroso que tutelou a Comunicação Social, teve um discurso hábil e muito político. Chegou mesmo a lamentar que, hoje, Marques Mendes não reconheça o bom trabalho que foi feito no serviço público de televisão.
Santos Silva, o actual ministro que tutela a Comunicação Social defendeu bem a sua dama e lembrou ao Dr.Balsemão que os operadores privados usam um bem público, que para isso são licenciados pelo Estado e por isso têm de cumprir com um caderno de encargos. E que não há renovações automáticas de licenças de televisão. Embora, de facto, a questão da renovação só se coloque daqui a 15 anos. Nem percebo porque razão o Dr.Balsemão se preocupa tanto com isso.


Fátima Campos Ferreira

Almerindo Marques jogava em casa. Desajeitado a falar, consumiu-se em auto-elogios. Foi ele o salvador da RTP, confessou Almerindo ao mundo. Mas disse uma coisa interessante: a RTP custa, a cada cidadão, por ano, 26 Euros e trinta cêntimos apenas. Sendo assim, até sai baratinha, esta televisão.

segunda-feira, março 19, 2007

A televisão que temos

Um estudo do Centro de Investigação Média e Democracia, divulgado hoje no âmbito da conferência internacional "Informação e Programação Televisiva de Serviço Público em Contexto Competitivo", que está a decorrer na Gulbenkian, diz que os telejornais dos quatro canais generalistas dão muitas notícias sobre futebol e poucas sobre política internacional. Julgo que esta “moda” de fazer noticiários começou na SIC, com o Emídio Rangel, logo em 92. Foi quando a SIC precisou de deitar mão a todos os truques possíveis e imaginários para ir angariando audiências. Foi aí que a tabloidização da pantalha teve início e o resto do mundo desapareceu dos noticiários. Como a táctica resultou, os outros canais não tardaram a imitar os procedimentos da SIC.
Hoje, exceptuando o telejornal da RTP 2, pouco noticiário internacional se vê nas televisões. Normalmente, limitam-se a dar uma notícia ou duas e fecham a loja. Além dos massacres diários de Bagdad, só temos direito a alguma notícia sobre desastres de comboios ou de aviões, desde que morram muitos.

sábado, março 17, 2007

Lei? Qual Lei?

Ouvi na TSF e creio ter ouvido bem (ia a conduzir…), que os chefes das Forças Armadas ponderam desobedecer aos tribunais administrativos, nos casos em que a justiça civil contradiga a justiça militar.

















A questão (se bem me lembro) foi levantada quando os militares detidos por terem “passeado” na Avenida da Liberdade, castigados com vários dias de prisão, interpuseram providências cautelares e viram as suas razões serem atendidas pelos tribunais civis. Agora, os chefes militares ponderam desobedecer a ordens análogas, no futuro, preferindo pagar indemnizações a libertar os detidos. Sinceramente, até me custa a acreditar que tenha escutado bem, que tenha entendido direito tudo o que foi dito… nesta notícia a TSF citava o Sol e, realmente, devia ter comprado o jornal para ter a certeza dos pormenores da notícia, mas não me apeteceu sujar as mãos. Fico à espera das reacções que, julgo, não tardarão a estalar.
Mas esta ideia peregrina não é inédita. Muitas decisões dos tribunais não são acatadas, nunca. Não sei com que consequências mas, cheira-me, a impunidade reina alegremente.


















Dou-vos o exemplo da SIC do Dr.Balsemão que ainda não acatou a sentença do Supremo Tribunal que mandou reintegrar o jornalista Jorge Schnitzer e pagar-lhe todos os ordenados em falta desde meados de 2003, altura em que o director do Departamento de Desporto foi despedido sem justa causa (assim julgou o tribunal). Já lá vão quase dois meses, se não erro, e Schnitzer continua à espera. Claro que o “contador” não para e, mais tarde ou mais cedo, Schnitzer será reintegrado e devidamente indemnizado. Mas a questão é o modo como uma decisão de um tribunal, que já não pode ser contestada, segundo creio, continua a ser olimpicamente ignorada. Não é só a SIC que se porta mal, mas também o seu patrão, que não honra a condição de senador da República.



















De modo que, se um general de 4 estrelas desobedecer a um tribunal, não abram a boca de espanto.

sexta-feira, março 16, 2007

Assassinos de olhos em bico

Este vídeo foi feito por uma equipa da televisão da Roménia que acompanhava uma expedição de alpinistas no Himalaia. Filmaram, à distância, uma coluna de fugitivos tibetanos que tentava atravessar a fronteira da China com o Nepal, em Nangpa Pass, enquanto eram alvejados impiedosamente por soldados chineses. São imagens chocantes, da vida real de um povo oprimido de um país ocupado. Não sei quantos sobreviveram desta coluna, nem sei quantas vezes estas cenas se repetiram já nos últimos 50 anos, desde que o Tibete foi invadido pela China, mas sei que deveria bastar esta denúncia para que a comunidade internacional encostasse a China à parede.

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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