Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











sexta-feira, maio 29, 2009

ERC/TVI: um pouco mais do mesmo


Nada de surpreendente, nas reacções de alguns dos que trabalham na TVI, relativamente à apreciação da ERC sobre o Jornal nacional de 6ªfeira. Quando estamos integrados numa equipa, é normal um sentimento corporativo de defesa do grupo, mesmo se em consciência não estamos muito certos das razões que invocamos. Sempre foi assim, aconteceu também comigo noutras circunstâncias, e aprendi que acabamos quase sempre por concluir que a empresa ou os chefes não mereciam esse esforço nem o sacrifício de vestir uma camisola incomodativa.
Acredito que, hoje, a redacção da TVI vive sentimentos opostos. Alguns quererão cerrar fileiras à volta de Manuela Moura Guedes e José Eduardo Moniz, outros, os mais espertos, estarão a fingir que os apoiam e a dissimular a dissidência, os restantes assumirão a atitude de encolher os ombros e limitar o esforço à realização das tarefas atribuídas, distantes do duelo de interesses de que se consideram estranhos. Comum a todos, apenas a necessidade de preservar o emprego e, por isso, poucos estarão verdadeiramente preocupados com o debate em torno da ética e da deontologia.
Pelas razões contrárias, os da TVI dirão que é muito fácil criticar para quem está de fora. E é a mais pura das verdades. E por isso (porque estou de fora) digo que a liberdade de expressão deve ser um dos pilares do Estado de Direito Democrático em que vivemos. É um direito constitucional, mas não é o único… e por maior que seja o interesse público das notícias relacionadas com eventuais manchas no percurso profissional ou político do actual primeiro-ministro, a Constituição também proclama o direito ao bom nome e reputação, à imagem, à reserva da intimidade da vida privada e familiar…
E se é verdade que um órgão de Comunicação Social não deve ser condenado por reportar a verdade, nem a divulgação dessa verdade deve ser considerada atentatória do direito ao bom nome de quem quer que seja, neste caso falta saber, primeiro, onde está a verdade e, segundo, que a Manuela Moura Guedes deixe de se mascarar de justiceira do povo.
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post scriptum: leio às 00h45, no Público online, que o Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas considerou que "os jornalistas não podem substituir a acutilância pela agressividade, e devem permitir que os seus entrevistados expressem os seus pontos de vista com serenidade e não sejam apenas convidados a participar num espectáculo de enxovalho, em que eles são as vítimas".

quinta-feira, maio 28, 2009

Dona de casa


Cuidar da casa – tratar da roupa, confeccionar refeições, lavar loiça, tirar o pó, aspirar, arrumar a tralha espalhada pelos miúdos, dar banho ao bebé, levar os outros à escola, ir buscá-los, escutá-los, brincar com eles – é dose! Agora, que estou com tempo, sou eu quem trato disto tudo. Sempre gostei de cozinhar e de dar uma ajuda nas outras coisas, mas eram tarefas mais ou menos esporádicas e realizadas por afecto, não por necessidade, o que quer dizer que nem sempre ajudava muito… Mas agora posso garantir que elas têm razão, quando proclamam que boa parte da desigualdade de género advém da carga de trabalhos que as mulheres têm em casa, depois de uma jornada no emprego.

Nova tecnologia, problemas velhos

Hoje, às 16h13.

Twitter is over capacity.
Too many tweets! Please wait a moment and try again.

© 2009 Twitter

Decisão sem consequências


Como seria de esperar, a ERC condenou a TVI por má conduta ético-deontológica. Diz o comunicado da ERC, que “em causa estão sete peças de três edições do Jornal Nacional de sexta da TVI, que foram analisadas pelos serviços técnicos da ERC depois de terem sido apresentadas 13 queixas na ERC sobre essas edições do serviço noticioso. Todas as queixas têm como elemento comum o facto de acusarem a TVI de violar deveres ético-legais do jornalismo, designadamente de falta de rigor e de isenção, em peças jornalísticas que apresentam o Primeiro-Ministro ou outras pessoas ligadas ao Governo e ao PS como protagonistas.”
A ERC apreciou 13 queixas que lhe foram dirigidas, uma das quais pelo deputado Arons de Carvalho, entre os dias 16 de Fevereiro e 30 de Março de 2009. Não sabemos se haverá mais queixas do mesmo teor, mas é possível que haja. E, sendo assim, é possível que a TVI continue a levar com cartões amarelos. Só que, neste caso, a acumulação de cartões amarelos não dá direito nem a suspensão nem a expulsão do jogo, ou seja, nada disto tem consequências e a TVI poderá continuar a fazer o que tem feito sem problemas, para além de alguma censura pública.
Tudo isto é bom para as audiências (amanhã, o país inteiro vai estar sintonizado na TVI às 20 horas), pelo menos enquanto não houver uma decisão judicial inequívoca em relação aos problemas que envolvem o primeiro-ministro, nomeadamente o caso Freeport e o caso Cova da Beira, este último ainda por explorar devidamente pela média se o compararmos com o tratamento dado ao Freeport.
Voltando ao contencioso ERC/TVI, é óbvio que perante acusações de falta de isenção e imparcialidade, o Jornal Nacional de 6ªfeira não tem salvação possível. Agora, na minha opinião, pese embora a ERC seja, alegadamente, um órgão independente do governo, não se livra da fama de pau mandado e… são legítimas as leituras políticas sobre as decisões que toma. Não faltarão clamores contra esta decisão condenatória que muitos não hesitarão em apelidar de censória. É por isso que este género de conflito deve ser dirimido na barra do tribunal. Onde os arguidos têm direito a defesa e os condenados direito a recurso.

quarta-feira, maio 27, 2009

Agora, que vem aí o Verão...


Hoje dei comigo a falar com um amigo sobre férias. Acontece que estamos os dois desempregados e, assim, o significado da palavra passou a ser algo absurdo. Dupla ou triplamente absurdo…
Se a palavra for articulada no singular, féria… significa salário, pagamento. Receber a féria, era um termo usado ainda não há muito tempo mas que, hoje, caiu no esquecimento.
No plural, férias… é o tempo durante o qual se interrompe a actividade quotidiana, seja a escola ou o trabalho. É tempo para descansar. Ir de férias é bom. A praia, os passeios, lugares novos, gente diferente, outros cheiros, sabores diferentes, sotaques, idiomas, preguiça.
Pois, nem féria nem férias.

News from Queluz

A Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) deverá deliberar amanhã, na habitual reunião de conselho, sobre as 15 queixas recebidas contra o ‘Jornal Nacional de 6ª feira’, apresentado por Manuela Moura Guedes, na TVI, noticia hoje o Correio da Manhã.
Entretanto, fontes próximas da TVI dizem-me que o director-geral da estação terá desistido do anunciado processo contra o primeiro-ministro. Se isso for verdade, trata-se de um evidente recuo e será curioso verificar se as 6ªfeiras em Queluz passarão a ser mais calmas.
As mesmas fontes relatam um ambiente tenso na TVI, onde muitos jornalistas não se revêem no estilo, forma e conteúdos do Jornal Nacional de 6ªfeira nem… nos métodos e critérios de gestão de recursos humanos que o casal Moniz pratica.
Cá para mim, os patrões espanhóis dispensavam tudo isto de boa vontade. Problemas de sobra já eles têm, e embora a TVI seja um canal rentável, estas perturbações afectam o valor da empresa e é sabido que a Prisa anda a vender activos um pouco por todo o lado, na tentativa de diminuir uma dívida monstruosa à banca que se agravou com o despoletar da actual crise financeira mundial.

terça-feira, maio 26, 2009

Confissão de Oliveira e Costa no Parlamento


RT @vitorcunha: Oliveira e Casca será o Bibi dos bancos?
Mark this: se o Dias Loureiro cumprir um só dia de prisão em Portugal eu como o meu chapéu :)


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Voltando à “vaca fria”, que é como quem diz, à passada sexta-feira na TVI, quando a Manuela Moura Guedes se engalfinhou com o bastonário Marinho Pinto… não acham estranho que, apesar do assunto ter suscitado enorme interesse (veja-se só o que se escreveu nos blogues e no twitter), os jornais de referência e as rádios e televisões não tenham tocado no assunto?
Alguns dirão que é por nojo, mas eu acho que é por proteccionismo, corporativismo profissional, puro calculismo político porque não se sabe se no futuro não vamos precisar de lhes pedir algum favorzito… e como têm medo de ofender, não dizem nada.

segunda-feira, maio 25, 2009

Na compita eleitoral


Cada vez que oiço alguém do CDS (ou de outro partido qualquer, mas o CDS é quem faz disto bandeira) falar sobre a necessidade de fechar as portas do país à imigração, percebo como a política pode ser um exercício de cinismo.
É tudo mentira, por várias razões, entre as quais a necessidade absoluta de continuarmos a receber mão-de-obra ainda mais barata que a nacional, condição fundamental para as empresas continuarem a ter margens de lucro suficientemente satisfatórias para os interesses dos accionistas e patrões. Normalmente, o imigrante está mais receptivo a trabalhar mais que o estipulado por Lei e por menos dinheiro, o que além de dar maior lucro às empresas, funciona como contrapeso à pressão dos sindicatos nas renegociações salariais sazonais.
Acho razoável dizer que, nesta época de crise financeira em que as empresas dos países industrializados do Ocidente não conseguem competir com o que vem da Ásia, ainda são os imigrantes que garantem alguma capacidade concorrencial em termos de custos de produção…
Acredito que este discurso xenófobo e de exigência de imposição de quotas para a imigração destina-se, apenas, a captar votos. É um discurso para as classes C e D da população (iletrados, rurais, operários), os pobres que têm medo de ficarem ainda mais pobres e que acreditam que são os imigrantes que lhes ficam com o quinhão de terra ou com o apartamento hipotecado, e não o banco ao executar a penhora.

domingo, maio 24, 2009

Maravilhoso Mundo Novo


A notícia já tem 3 dias, mas só hoje a li no Publico online (esta é uma das vantagens da net, poder ler notícias atrasadas sem que o jornal já tenha servido para embrulhar o peixe). Trata-se do propalado aumento de telespectadores subscritores de um qualquer serviço de televisão. Isso é o que diz o título: “Televisão paga superou 2,3 milhões de clientes no final do primeiro trimestre”. Mas, no corpo da notícia, explica-se que não é bem assim, que os serviços de tv por cabo estão a perder clientes, mas que se assiste a uma migração de telespectadores para a oferta de IPTV. E não nos explicam o que diabo é isso da IPTV, que deve ser coisa boa para as pessoas andarem a subscrever esse serviço…
Para quem não sabe, vou tentar explicar: IPTV é televisão fornecida através do chamado “internet protocol”, mas não é webtv. Ou seja, com a IPTV em casa podemos ver o que queremos dentro do naipe de programas que o fornecedor nos disponibiliza. Podemos ver um programa e, em simultâneo gravar outro. Não precisamos de um televisor, basta ter um pc. Além disso, o sistema permite realizar telefonemas e, por exemplo, utilizando uma webcam, podemos estar a ver televisão e ao mesmo tempo estar a falar com alguém no outro lado do Mundo, vendo essa pessoa numa janela que se abre no ecrã. Que eu saiba, a IPTV é disponibilizada em Portugal pela PT e pela Clix, mas pode ser que haja outros fornecedores, não sei.
Julgo que a PT, com o serviço MEO, tem tido bastante sucesso e isso deve explicar o que se diz na notícia que citei acima, quando se refere que a diminuição do número de subscritores da tv por cabo e satélite foi contrabalançada pelo aumento de clientes de “outras tecnologias, como o IPTV, onde se registou um crescimento de 26 por cento”.
Há um maravilhoso mundo novo em tecnologia que nos está a bater à porta. Só precisamos de algum dinheiro para poder usufruir dele.

sábado, maio 23, 2009

A primeira escolha


O Governo anunciou o lançamento de mais uma campanha para publicitar os produtos nacionais, a marca “Made in Portugal”, na tentativa de reanimar o comércio dos produtos nacionais.
Considero a iniciativa interessante mas, na prática, pouco eficiente. O problema é que o mercado nacional está inundado de produtos importados que, na maioria dos casos, nem concorrência têm de marcas nacionais. A indústria portuguesa cada vez produz menos e os empresários preferem remeter-se ao papel de importadores/intermediários do que arriscar na indústria.
Se formos ao supermercado (estive lá esta manhã), as batatas são espanholas, os cereais americanos, o peixe grego, as confecções chinesas, etc. Alguns produtos são fabricados em Portugal, mas sob licença de uma empresa multinacional instalada algures no Mundo, mas estes são os poucos casos em que é possível comprar “Made in Portugal” ajudando a manter alguns postos de trabalho nacionais. Sempre que possível, essa é a minha opção. Não preciso de ser convencido por campanhas governamentais.

A pantalha incandescente

O bastonário da Ordem dos Advogados é um homem sem medo, não tem papas na língua e marra em frente. Ontem, depois de se ter sentido insultado por Manuela Moura Guedes quando, em directo, foi entrevistado no Jornal Nacional de 6ªfeira da TVI, Marinho Pinto contra-atacou e acusou a apresentadora de notícias de praticar mau jornalismo (VIDEO).
A coisa resultou numa peixeirada digna de se ver, um momento alto da história da televisão portuguesa, onde a minha querida Manela revelou falta de lábia para esgrimir com o advogado.
No final, Marinho Pinto acabou por encenar a defesa dos pontos de vista expressos por José Sócrates, palavras que levaram o director-geral da TVI a anunciar publicamente que iria mover um processo judicial contra o Primeiro-Ministro por difamação. Não sabemos se o chegou a fazer, mas gostávamos de saber. E gostávamos de saber, também, se o mesmo vai acontecer agora com o bastonário da Ordem dos Advogados.

quinta-feira, maio 21, 2009

Pormenores


Cheguei às 18 horas em ponto e o auditório da Fundação Mário Soares já estava quase cheio. Consegui um lugar na última fila.
Invocava-se Afonso Costa, emblema da revolução de 5 de Outubro de 1910, várias vezes ministro e chefe de governo durante a I República, político notável cujo pensamento e acção ainda hoje influenciam a nossa vida.
Mas o que acho mais interessante nestas conferências, não é propriamente o desfiar dos acontecimentos marcantes da História, mas os pormenores, as estórias, os tiques dos figurões, as insignificâncias tantas vezes reveladoras.
Mário Soares, por exemplo, confessou que uma das coisas que pensou quando estava a chegar a Portugal, vindo do exílio, logo a seguir ao 25 de Abril de 1974, foi que “temos de fazer isto durar mais do que os 16 anos que durou a I República” e que, aprendendo com os erros de Afonso Costa (que tinha a alcunha do “mata-frades”), ele “sempre procurou evitar um conflito com a Igreja Católica”.
Outro dos oradores, António Reis, lembrou que uma senhora marquesa, casada com um político da época, aspergia o marido com água benta quando sabia que ele tinha estado reunido com Afonso Costa.
Afonso Costa foi um verdadeiro diabo, na óptica da Igreja Católica. A ele se devem as leis do divórcio e da separação do Estado da Igreja, a obrigatoriedade do casamento civil, a proibição de procissões na via pública e, suprema provocação, a abolição do pagamento de pensões às viúvas de padres… mas também a ele se devem as primeiras leis de protecção social, a obrigatoriedade dos seguros contra acidentes de trabalho, a aplicação de um imposto progressivo sobre os rendimentos (quem ganhava mais, pagava mais), etc.
Sabemos como a História se desenrolou. O fracasso da I República deve-se, sem dúvida, à força das forças políticas de direita que levaram avante a contra-revolução de 28 de Maio de 1926. Mas, mais uma vez, há um pormenor revelador das circunstâncias que propiciam os saltos da História, segundo o relato de Fernando Rosas (outro dos oradores desta sessão). No meio de tantas leis republicanas, ninguém se lembrou de revogar a lei que não permitia o voto aos analfabetos. Ora, a grande grande maioria dos operários e camponeses, da população daquela época, eram analfabetos a quem não foi permitido que legitimassem pelo voto o seu apoio às novas políticas republicanas.
Como último pormenor… dizer que já há muito tempo que não me acontecia ser o mais jovem de todos os que estavam na sala.

quarta-feira, maio 20, 2009

Escola


A mulher não bate bem da bola e duvido que esteja em condições emocionais para dar aulas, mas alguns dos melhores professores que tive eram, também, um pouco assim: maluquinhos.
Tive um professor de desenho que, quando a malta extravasava no barulho, chamava os prevaricadores para junto da sua secretária, em fila indiana, e despachava-nos a todos com um soco nas bochechas que nos deixava azambuados… correctivo aplicado de modo igual às meninas. Era um homem sem preconceitos de género.
Tive um professor de Matemática que parecia um ogre lunático… mas que com cáculo mental resolvia equações de segundo grau…
Enfim, tive uma professora de Geografia que atraía alunos com mais de 16 anos a casa, sob pretexto de que estavam necessitados de explicações… que acabavam por ser de anatomia. Todos os que lá foram, chumbaram… numa espécie de síndrome da viúva negra.
As coisas foram o que foram, mas nós nunca fomos nem bufos nem espiões. Os paizinhos só sabiam do que era estritamente necessário e a malta desenvencilhava-se melhor sem eles. Também é verdade que naquela época os gravadores de som eram uns trambolhos que dificilmente passariam despercebidos numa sala de aula. Também é verdade que, naquela época, a televisão não prestava para coisas deste género.

terça-feira, maio 19, 2009

Simplesmente, não funciona


Pode-se ler no Portal do Cidadão: "com a criação do serviço "Nascer Cidadão" é possível efectuar o registo das crianças logo após o seu nascimento nas unidades de saúde que aderiram a este projecto, sem necessidade de deslocação à Conservatória."
No site do Instituto dos Registos e Notariado, em relação ao serviço “Nascer Cidadão”, esclarece-se que com este projecto “pretende-se criar mecanismos que assegurem, de imediato, o registo das crianças após o nascimento, visando também, numa linha de simplificação e desburocratização, facultar aos cidadãos meios simples para o cumprimento de formalidades essenciais à salvaguarda de direitos fundamentais. Destaca-se, a possibilidade de o registo de nascimento das crianças ser feito em unidades de saúde (hospitais e maternidades) logo após o nascimento e sem necessidade de deslocação à conservatória, bem como a identificação precoce de situações de risco para as crianças.” Um dos hospitais onde o “Nascer Cidadão” foi implementado é o Santa Maria, o maior hospital do país, onde nasceu agora o meu 3ºfilho.
Lá estive hoje, à porta do referido gabinete. A senhora funcionária explicou-me serenamente que não ia ser possível efectuar o registo da criança, que pelo menos seria muito difícil, porque o “sistema” estava lento… ou seja, o computador não estava a funcionar. Ao ouvir isto, um outro pai começou a disparatar, porque já era a segunda tentativa que fazia para registar a seu rebento e… o computador continuava sem computar…
Olhando para a máquina em questão, adivinham-se chips estafados e fios eléctricos em mau contacto, bugs e worms a emperrarem o “sistema”.
Este Simplex não está a resultar. Andam a boicotar, torpedear, a desburocratização do funcionalismo público que este governo começou a implementar em 2005. Até parece que fazem de propósito, só para haver ainda mais descontentes que não votem no PS nas próximas eleições...

Salomão teria mandado dividi-la ao meio...

O caso da criança de Braga é o paradigma da insensibilidade do nosso sistema de protecção a menores. A Segurança Social manteve a criança com uma família de acolhimento durante 4 anos e, ao fim desse tempo todo, queriam que não se tivessem criado laços afectivos fortíssimos entre a criança e essa família? Não conheço os pormenores da história, mas sabe-se que a mãe biológica foi prostituta e toxicodependente. Porventura terá conseguido mudar de vida, mas gostava de saber que garantias disso teve o juiz que decidiu confiar nela.
Amanhã, Alexandra será levada para a Rússia, país da naturalidade da mãe biológica e para onde a senhora pretende regressar. Sabemos, pelo que foi escrito em alguns jornais, que mãe e filha irão viver para um lugar a 300 quilómetros de Moscovo, para casa da avó. Isto quer dizer, pelo menos indicia, que a mãe continua sem grandes meios de subsistência e ainda dependente de terceiros…
A criança tem seis anos, nasceu em Braga e, como pouco viveu com a mãe biológica, nunca aprendeu a falar russo. Agora, arrancam-na ao único mundo que conhece e levam-na, de um dia para o outro, para um país e para um meio desconhecidos, onde ela não conseguirá interagir com facilidade porque nem vai perceber o que lhe dizem… o choque será tremendo, mesmo sabendo que as crianças têm uma capacidade de adaptação extraordinária, que aprendem muito mais depressa do que julgamos.
Temos de admitir que a mãe biológica teve o ânimo suficiente para lutar nos tribunais pela posse da sua filha e que isso tem algum significado… mas o que ontem se viu nas pantalhas, na altura em que a criança era retirada dos braços da família de acolhimento e entregue à mãe biológica, foi um acto de grande violência, principalmente para a Alexandra. Se os adultos envolvidos nesta questão não fossem tão egoístas, tão convencidos da razão que lhes assiste, teria sido possível encontrar uma solução mais justa para a criança...
Por fim, julgo que João Pinheiro e Florinda Vieira (o casal que acolheu a menina) têm boas razões pra meter o Estado português em tribunal. Só que isso não lhes irá devolver a menina.

Vai uma novena?


Nestes tempos de Freeport, BPN e BPP, estava à espera que os jornais repescassem a velha história da fraude que rodeou a subscrição pública de angariação de dinheiro para a construção do Cristo-Rei. Os 50 anos da estátua justificariam e sabe-se como o povo gosta desses mexericos. Já em 1959 a história foi abafada, mas naquela época havia a censura e as vontades conjugadas do Cardeal Cerejeira e de Salazar.
Não conheço bem os contornos da história, mas julgo que foram desviados algumas centenas de milhar de contos pelo administrador da obra, um tipo de que não guardei o nome na memória, mas que seria alguém muito próximo da Igreja Católica. A tentação foi demasiada, à vista do monte de dinheiro laboriosamente angariado durante anos e anos nas homilias por todo o país. Ainda assim, o que sobrou deu para finalizar a construção, o que quer dizer que a subscrição pública excedeu em muito as reais necessidades do empreendimento. A dádiva popular foi ainda mais notável se pensarmos que as oferendas foram feitas durante os anos da II Guerra Mundial, uma época de crise económica profunda em Portugal, com fome declarada em muitas zonas do país.
A Igreja Católica organizou, a partir dos finais dos anos 30, aquilo a que se chamou a “Novena das Jóias para Cristo-Rei”, onde se pedia uma contribuição mínima de 1 escudo anual… manifestamente insuficiente como se pode ler numa circular que, em 1937, foi distribuída nas paróquias: “...se a subscrição nacional ficasse a cargo só da gente pobre, os trabalhos de erecção do Monumento teriam de arrastar-se por longos anos, com sumo desgosto dos entusiasmos desta iniciativa que são de todos os bons portugueses., desânimo de muitos, prejuízo de outras beneméritas iniciativas de carácter geral e até com a vergonha e desdoiro que seria para nós – à vista dos nossos irmãos brasileiros tão admiráveis no entusiasmo com que, em menos de um ano, amontoaram os milhares de contos do seu magnífico monumento a Cristo-Rei, no Corcovado…”.
Assim, a “Novena” serviu para aliciar os mais abastados para contribuições que poderiam ir até aos 5 mil escudos (uma boa maquia, para a época, compravam-se carros por menos dinheiro).
Como paga pelas boas acções, a Igreja garantia que “para benfeitores vivos e defuntos serão celebradas trinta missas cada mês, até à conclusão do monumento! E, sobre o coração e o lar de todos eles, cairá incessantemente, com o olhar agradecido de Jesus, o caudal das suas bênçãos…” .
O país inteiro contribuiu para a obra. Pena é que as bênçãos tenham caducado há tanto tempo. Hoje davam-nos jeito…

segunda-feira, maio 18, 2009

Inequivocamente

Hoje reajo a um comentário ao post de ontem. Normalmente não o faço, mas detesto equívocos…
Interrogou-se Alex (nova visitante, bem vinda!): “não será a expressão "mãezinhas e veraneantes" um pouco ácida? É que é um digno direito dos trabalhadores serem pais e terem férias. O problema da "reposição" de recursos humanos não é daqueles funcionários, mas de quem os gere. Feriu-me mais a sua expressão porque sendo mulher, deparo-me em entrevistas de trabalho frequentemente com a questão "tem filhos?" feita já com reservas, o que me faz "realizar" o quão atrasado Portugal ainda é nesta matéria.”
Pois, não podia estar mais de acordo com o que Alex deixou escrito. Acho abominável que as mulheres sejam discriminadas não só por serem mulheres, mas ainda por terem filhos. Trata-se de uma ilegalidade que muitas empresas cometem e que raramente é denunciada.
O propósito do post de ontem era precisamente evidenciar a má gestão do serviço público em questão, cujos responsáveis preferem fechar a loja a substituírem atempadamente os funcionários.
Talvez volte, mais tarde, a escrever sobre isto. Julgo que oportunidades e motivação não faltarão. Agora, tenho de ir mudar a fralda ao meu mais pequenito. Nasceu há 4 dias e é uma delícia de bebé.

domingo, maio 17, 2009

Loja fechada


Sou daqueles que recebe a newsletter semanal do Portal do Cidadão. Gosto de estar informado e de perceber os modos como o Estado trata o cidadão… esta semana, vinha um aviso com o seguinte teor: “A Loja 24, presente na Loja do Cidadão de Odivelas, vai estar indisponível durante o mês de Junho, devido à falta de recursos humanos, por motivo de férias, estatuto de trabalhador estudante e licença de maternidade.”
Isto é, nem mesmo numa altura em que sobejam desempregados, o Estado soube aproveitar esta oportunidade para dar trabalho, mesmo temporário, a alguns deles… nenhuma das situações descritas na newsletter são imprevistas e teria havido tempo para dar formação a alguém para que os trabalhadores-estudantes, as mãezinhas e os veraneantes pudessem ter sido substituídos sem necessidade de fechar a Loja 24 da Loja do Cidadão de Odivelas.

Coisas que se dizem só em campanha eleitoral


A direita política anda a fazer campanha pela redução dos impostos sobre as empresas, a pretexto de proporcionar alívio financeiro e evitar falências e maior desemprego ainda.
Pode até parecer boa ideia, mas acho que não é. Julgo que se trata de mais uma falácia política. Primeiro, porque não será suficiente uma redução de impostos para agradar aos capitalistas. Seria necessário uma anulação de impostos. Só aí eles ficariam verdadeiramente contentes e, talvez, mais condescendentes. Depois, porque sem cobrança de impostos o Estado ficaria sem meios para continuar a subsidiar a segurança social. Sim, é verdade que o subsídio de desemprego é uma miséria e que os restantes serviços sociais prestados pelo Estado são mauzinhos, mas imaginem o que seriam escolas e os hospitais públicos se tudo estivesse nas mãos dos que só pensam no lucro pessoal e egoísta… eles que acham que o subsídio de desemprego, por exemplo, é apenas um incentivo à preguiça e uma regalia a abater num futuro próximo… Por último, se a ideia é assim tão genial, porque será que nunca até hoje nenhum governo a aplicou? Nem mesmo aqueles que a reclamam, agora? Oportunidades não lhes faltaram, nestes 35 anos de exercício da Democracia.
Concordo quando se acusa o Estado de pagar mal e tarde. E isso devia acabar. Não há nenhuma razão para o Estado demorar meses e anos a pagar aos que lhe fornecem bens e serviços. É um mau exemplo e serve de desculpa para os privados fazerem o mesmo entre si. Ninguém paga a ninguém, conheço vários casos de pequenos empresários (são sempre os pequenos que se lixam…) que foram à falência, não por falta de trabalho, mas porque não conseguem cobrar os serviços que prestaram ou os bens que venderam. Assim, os calotes do Estado apenas beneficiam as grandes empresas, as únicas que conseguem aguentar o tempo de espera… sacrificando uns quantos postos de trabalho para equilibrar as contas e continuarem a dar lucro aos accionistas.

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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