Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











domingo, maio 10, 2009

Sem feira nem beira


Tal como o José Saramago, “este ano não irei à Feira do Livro de Lisboa. Que não é como a de Frankfurt, ou a de Guadalajara, no México, nem sequer como a de Madrid, mas que é a nossa e está num lugar bonito…”
Julgo que ele não vai porque estará adoentado. A idade não perdoa, e o nosso Prémio Nobel da Literatura já viveu um bom bocado. Eu não vou, porque o subsídio de desemprego é manifestamente curto para dar de comer à família e ainda conseguir comprar livros. Como não sou masoquista, não ponho lá os pés.

sábado, maio 09, 2009

Engaiolado


Hoje almocei com alguém que conheço há muitos anos. Trabalhámos juntos na RTP, quando ele se iniciou no jornalismo. Fomos parceiros no trabalho e cúmplices fora dele. Nunca foi um grande jornalista, mas fez duas coisas que marcaram a história da RTP: foi um dos repórteres que mais se distinguiu na cobertura do incêndio do Chiado e foi um dos que engendrou o modo de se entrevistar os membros das FP-25 que estavam em greve de fome na prisão de Caxias. Depois, enveredou por outros caminhos mais bem pagos. Ele hoje tem dinheiro, mas confessou-me que nunca mais pôde mandar à merda os figurões que o chateiam. Aprendeu a engolir sapos, submeteu-se, domesticou-se.
Quem olha para ele vê um homem bem sucedido na vida. Grande casa, Mercedes Benz, boa roupa de marca. Mas quando o olhei de frente, acho que vi um certo embaraço, uma sombra de vergonha.

Operário em construção


Um dia, já lá vão mais de 20 anos, tive de construir uma parede. Uma pequena parede, é verdade, mas uma tarefa difícil face à minha ignorância e falta de jeito para esse tipo de trabalhos manuais. Tratava-se do muro de apoio ao lava-loiça da cozinha. Nessa época, tinha alugado uma casa centenária no bairro da Graça, cansado dos engarrafamentos monstruosos na Ponte 25 de Abril. O pior é que o apartamento não tinha cozinha e, portanto, tive de improvisar uma. Daí a necessidade de montar o lava-loiça. Tijolos, cimento, areia, pá de pedreiro, comprei tudo e deitei mãos à obra guiado pelo bom senso e memória visual. No final, o muro ficou quase direito e o lava-loiça assentou bem. Tinha uma ligeira inclinação, mas que até ajudava a escorrer a água na direcção do ralo do esgoto. Perfeito. Aposto que ainda hoje lá está. E julgava que também a minha aprendizagem como pedreiro tinha ficado por ali. Mas hoje percebi que não tenho feito outra coisa, afinal de contas. Todos os dias coloco tijolo sobre tijolo, numa construção interior ainda sem fim à vista.

sexta-feira, maio 08, 2009

As ovelhas e os lobos


Emídio Rangel diz que “…o PS sempre foi desastrado a gerir a comunicação social. Tem um talento enorme para, entre tanta gente boa, ir sempre buscar as ovelhas ranhosas”.
Os seus detractores dirão que são palavras de despeito. Eu acho que ele tem razão. Do mesmo modo, também digo que o Emídio tem ido buscar algumas ovelhas ranhosas para implementar os seus projectos. E isso vê-se, agora, quando eles já só esperam pelo seu funeral para voltarem a reivindicar uma amizade que só existiu enquanto lhes foi conveniente.

quinta-feira, maio 07, 2009

no i


Seja um iRepórter.





Pergunta: quanto pagam?

Nada Simplex

Esta manhã, saí de casa para resolver dois assuntos. Tentar resolver…
Fui até à Direcção Geral do Ensino Superior, onde há quatro meses pedi um certificado de habilitações, porque a universidade onde estudei fechou por ordem do senhor ministro e ficou essa DGES de cumprir com as obrigações para com os antigos alunos da instituição em causa. Quatro meses e vários emails de protesto depois, lá fui preparado para uma peixeirada fosse com quem fosse. Cumpriu-se o vaticínio, logo que a senhora me disse que o meu requerimento “estava a ser analisado” saltou-me a tampa! Mas, é preciso dizê-lo… voltei de mãos a abanar. Continuo sem certificado de habilitações e sem saber quando o terei. A senhora apenas se comprometeu a dizer-me qualquer coisa durante a próxima semana. Razões para tamanha demora na prestação deste serviço: excesso de trabalho…
Montei na mota e fui até à Loja do Cidadão de Odivelas, para uma tarefa mais simples: obter um registo criminal. Hora e meia de espera e… a diligente funcionária não conseguiu imprimir o meu registo criminal. “Será que tem alguma coisa pendente?”, perguntou ela… “Basta uma multa, às vezes”, explicou perante a minha incredulidade.
Alternativas: esperar 12 dias pelo envio do documento pelo correio ou dirigir-me a uma das outras Lojas do Cidadão. Optei por ir e não esperar. Nas Laranjeiras, já não havia senhas de atendimento… e era meio-dia apenas. Meia-hora depois, o mesmo cenário nos Restauradores e o mesmo voltou a repetir-se na Expo. E é suposto que o registo criminal seja dado “na hora”, desde que o governo instaurou um modo simplex de fornecer serviços da responsabilidade do Estado.

quarta-feira, maio 06, 2009

Vichyssoise

O banqueiro sorvendo lentamente a sua vichyssoise: «Fomos inicialmente convidados a participar com garantia do Estado no Banco Privado mas não sabemos de mais nada. Além disso, não estamos interessados em participar em nada…» - palavras de Ricardo Espírito Santo Salgado, CEO do Banco Espírito Santo, comentando a provável falência do BPP, banco do qual Francisco Balsemão é o principal accionista.
Recordo que o BPP afirma precisar urgentemente de 300 milhões de euros para sobreviver, 150 dos quais foram pedidos ao Estado. O resto, teria de vir de outros bancos portugueses…
Mais uma colherada de sopa fria…
Há uns meses, foi público e notório o desentendimento entre os dois capitalistas, a propósito de umas notícias do Expresso que desagradaram ao CEO do BES. Na altura, Ricardo Salgado cortou toda a publicidade no grupo de média de Balsemão, bateu-lhe onde mais dói ao velho, que é no bolso das patacas. Depois, lá fizeram as pazes, mas a vichyssoise ficou guardada…
Continuando a desfiar a memória… a vichyssoise é uma receita de sopa francesa que Paulo Portas celebrizou quando, há uns anos atrás, resolveu contar na televisão uma história sobre Marcelo Rebelo de Sousa. Disse Portas que Rebelo de Sousa o tinha enganado, ao descrever-lhe uma reunião partidária que nunca se tinha realizado, chegando mesmo ao pormenor de referir que os confrades tinham jantado uma vichyssoise…
Assim acabou a segunda AD, mesmo antes de ter começado. Agora que se volta a falar tanto em novo Bloco Central, vale a pena remexer a vichyssoise, mesmo azeda e bolorenta.

Férias grandes



A meio do zapping dei de caras com o meu amigo Frederico Duarte Carvalho, jornalista dos bons que, infelizmente, tem de trabalhar para um mau patrão. Participava ele num debate sobre as próximas eleições europeias, não como jornalista ou comentador, mas como candidato.
Sim, o Fred é o cabeça-de-lista do PPM ao Parlamento Europeu… não sei se tem alguma hipótese de ser eleito ou se ainda precisará também de comer muita farinha Maizena, mas imagino o prazer que isto lhe está a dar. Não só pela adrenalina própria da corrida eleitoral, mas pelo alivio de não ter de fazer diariamente a IC-19, pelo menos durante o período da campanha eleitoral. A Lei permite que os candidatos sejam dispensados do trabalho, sem perda de regalias ou qualquer penalização pecuniária. Para o Fred, são férias grandes! Para o Jacques Rodrigues, azia.

domingo, maio 03, 2009

Separados à nascença

Celebramos hoje o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. Dançamos? Cantamos? Reflectimos? Choramos? Rimos? Lembramo-nos dos jornalistas assassinados para a profissão? Vamos fazer alguma coisa por eles, dar-lhes uma mão? Denunciamos a situação? Alguns até foram nossos amigos, camaradas de trabalho, parceiros em lutas, confidentes, cúmplices. Não. Apenas nos procuramos safar. Dos fracos não reza a história e de estórias está o inferno cheio. Temos de ser dos fortes. Temos de encontrar o nosso cantinho e rezar para não dar nas vistas, não vão eles lembrarem-se de mais uma lipoaspiração à redacção…
Hoje, alguns jornais da nossa praça falam de Liberdade. O Público debruça-se sobre tendências legislativas riscadas a lápis azul… o Diário de Notícias refere-se ao Dia Mundial de Liberdade de Imprensa, a efeméride do dia. Entre os problemas da difusão da propaganda política (assunto sempre interessante, tanto mais em ano de eleições) e os atropelos à Liberdade de Imprensa cometidos um pouco por todo o Mundo, notei que o desemprego e a precariedade no trabalho quase não são referidos como pilares da actual repressão que se exerce sobre os jornalistas em Portugal.
Ainda assim, ficámos a saber que, segundo o relatório "Freedom of the Press 2009", divulgado esta semana, a Freedom House refere países como Israel e Itália que passaram da situação de imprensa "livre" para "parcialmente livre". No caso israelita trata-se de razões óbvias, no caso italiano a coisa pode espantar mais pessoas, mas as razões são igualmente óbvias: em Itália, tal qual em Portugal, existem muitos jornais, revistas, canais de rádio e tv, mas a concentração destes meios é enorme e, portanto, tudo pertence a meia dúzia de empresários ou grupos económicos e daí o epíteto de “parcialmente livre”... o que não deixa de ser um conceito absurdo. Em Itália, a situação chama mais a atenção pelo facto do Primeiro-Ministro Berlusconi ser o Balsemão lá do sítio... a única diferença está mesmo na diferente capacidade de realização política de Berlusconi e Balsemão, um foi capaz de ser eleito o outro não. Mas a ideologia é a mesma.

sexta-feira, maio 01, 2009

Olhar para Sul

Quando falamos de democracia, raramente pensamos em regimes implantados em África, mas as coisas estão a mudar, devagarinho… e convém ir olhando para lá e percebermos as mudanças.
Na semana passada houve eleições na República da África do Sul. É verdade que venceu o grupo político do costume, mas não da forma do costume, digamos assim.
Vejamos. Votaram 77% dos eleitores, uma percentagem que podemos considerar normal. Venceu o ANC, o que acontece desde que o apartheid foi desmantelado, com um resultado de 65,9%, uma maioria absoluta, mas longe da maioria qualificada que lhe permitiria alterar a constituição do país sem passar cartão às outras formações políticas, como dizem que seria a vontade de uma parte dos grupos que integram o ANC. O partido foi formado por uma coligação de comunistas, grupos sindicais e esquerda liberal defensora do mercado livre. É nessa amálgama que o ANC vive e vai governar o país, mais uma vez. A liderar o ANC e, portanto, a liderar o país, teremos Jacob Zuma, um histórico aureolado por inúmeras suspeitas de corrupção e, até, de violação, mas nunca condenado por esses actos que alegadamente praticou.
Na oposição, o ANC vai ter a Democratic Alliance (16,66% dos votos), o partido que congrega a simpatia da maioria da população branca do país, nomeadamente da comunidade portuguesa. Também ali, esta aliança democrática é um partido de direita. Venceram na província do Cabo, a única região do país onde o ANC não obteve a maioria dos votos.
Com 7,42%, o Congresso do Povo. Com 4,56% (apenas 800 mil votos) o Inkhata, um grupo outrora todo-poderoso com o qual Nelson Mandela, nos idos de 90, teve de negociar cuidadosamente para evitar uma guerra civil de consequências certamente devastadoras. O fracasso do Inkhata é uma boa notícia, porque significa que a política sul africana está a ficar livre do estigma tribal. O Inkhata é um partido de base tribal e se, agora, a maioria dos Zulus decidiu votar num dos outros partidos, talvez até no ANC, isso quer dizer que a democracia teve uma vitória e isso talvez seja o que de mais importante saiu destas eleições.

Resta ver como vai ser a performance de Jacob Zuma. Demagogo e populista, resistiu ao desgaste provocado pelas investigações judiciais e pela má publicidade que isso lhe granjeou nos média do país... e venceu as eleições. Cumpriu um sonho, vamos lá a ver o que faz com ele.

Les uns et les autres




quinta-feira, abril 30, 2009

One sic TV


Ouvem-se os lamentos, de Algés a Carnaxide…
O grupo Impresa manifestou um prejuízo de 6 milhões de euros no primeiro trimestre deste ano. Dizem que é da crise, da retracção do mercado publicitário… uma desculpa, plausível nos dias que correm, mas que não justifica tudo. É que nem todos têm prejuízos… até há quem tenha registado aumento de receitas

Se o Dr. Balsemão reparasse bem no produto final da sua televisão, perceberia a verdade. O desinvestimento na SIC está relacionado com o afastamento dos telespectadores, fartos de sintonizar um canal desinteressante. Até porque no grupo Impresa só a SIC perdeu receitas. Na área de publishing aumentou 2,2% e no digital manteve o mesmo nível.

Xicos & Espertos


quarta-feira, abril 29, 2009

Merda, pá !



Estou chocado... O Mundo Perfeito acabou...

Tantos Tês...


A PT iniciou hoje as emissões experimentais da TDT. Muitos Tês… para nada. A experimentação abrange 29 localidades onde vive 40% da população portuguesa. Parece muito… mas não é nada. Nada, porque ninguém está a beneficiar de coisa alguma… porque a maioria das pessoas não tem equipamento capaz de reproduzir as emissões de TDT: televisores compatíveis com a norma de emissão (MPEG-4/H.264) ou uma caixa descodificadora. Assim, gostava de perceber o que está a PT a experimentar… será que a empresa forneceu a alguém (um painel de telespectadores, escolhido para o efeito, por exemplo) equipamento para a recepção do sinal?
Por outro lado, a PT diz que até ao final de 2010, 80% do território vai estar abrangido pela TDT, se não mesmo a totalidade do território. Tanta pressa, quando o prazo indicado pela UE vai até meados de 2012. Além do mais, gostava de perceber como vai a PT, ou o Estado, ou seja lá quem for, convencer a malta a gastar 50 ou 60 ou 70 € na compra da caixinha descodificadora… porque, do preço do televisor nem vale a pena falar… Ainda acreditava que as pessoas fossem levadas a gastar esse dinheiro se a TDT lhes viesse oferecer alguma coisa de novo. Mas como o 5ºcanal foi atirado para um futuro incerto, não vejo como alguém vai querer gastar esse dinheiro para continuar a ter a mesma televisão que já tem hoje. É que com a TDT não muda nada, em termos práticos, isto é, do ponto de vista do telespectador. Quem tem tv por cabo, já a recebe no formato digital, pelo que não vai notar diferença na qualidade da imagem do seu televisor. Os outros, sem a caixinha nada feito…. O que a TDT possibilita é o aproveitamento do espectro radioeléctrico de um modo mais eficiente, e onde dantes cabiam 4 canais agora poderão caber 40… ou seja, a TDT poderia dar maior liberdade de escolha, mas como não é isso que vai acontecer, então não servirá para nada

Às vezes, Soares é fixe (2ªparte)

E depois do email que ontem recebi e aqui divulguei, hoje não resisti e fui ver, na net, o último Prós e Contras… programa dedicado ao tema “Pensar Portugal”, com quatro senadores da República no palco e uma plateia composta por jovens alunos universitários. Só espero que os miúdos tenham aprendido alguma coisa…
Às tantas, o diálogo a que o meu amigo W se referia, no email de ontem…

“A liberdade de expressão plena é uma conquista de Abril que muito nos orgulha”… dizia Fátima Campos Ferreira… o que fez com que o velho senhor, Mário Soares, argumentasse, um pouco depois… que “a concentração da comunicação social foi feita e está na mão de meia dúzia de pessoas, de grupos económicos… e isso é complicado, porque os jornalistas têm medo… os jornalistas fazem o que lhes mandam, em regra geral. Não quero dizer que não hajam honrosas excepções, mas a verdade é que fazem o que lhes mandam, porque sabem que se não fizerem, por uma razão ou por outra são despedidos e depois não têm para onde ir. É por isso que nós vimos que muitos jornalistas, dos mais notáveis que apareceram depois do 25 de Abril, já deixaram de ser jornalistas… fazem outras coisas, são professores de jornalismo, são professores de outras coisas…"
- Mas onde fica aí a liberdade de expressão?, pergunta ela, com aquele ar surpreso que só uma mulher sabe fazer.
- Fica mal… fica mal, como nós sabemos.

terça-feira, abril 28, 2009

Às vezes, Soares é fixe (email de um amigo)


Viva, Carlos,

Gostei de ver o Mário Soares, esta noite, no Prós e Contras, a falar sobre a liberdade de informação. Há liberdade, segundo ele, mas está limitada, devido, precisamente, à concentração de meios nas mãos de meia dúzia de empresários. Os jornalistas têm que fazer o que o patrão quer, sob pena de, "de uma forma ou outra, acabarem despedidos". Mais -o bochechas não esteve com meias medidas-, muitos dos grandes jornalistas estão fora da profissão porque não há lugar para eles nos actuais OCS: "São, hoje, professores ou outra coisa qualquer".
Ora, o que o Soares diz, matéria sobre a qual estamos de acordo, entronca numa outra questão sobre a qual também já falámos: quem, em Portugal, se lembra de uma reportagem feita por qualquer director, actual, de um jornal, rádio ou TV? Ninguém! Nenhum director, actual, de qualquer órgão de informação, se destacou no jornalismo. Dantes, os directores eram jornalistas com nome, com muitas provas dadas na profissão. Hoje, estão lá apenas porque oferecem garantias de que cumprem as ordens do patrão. E o que se aplica aos directores aplica-se à restante hierarquia.

Abração.

W

segunda-feira, abril 27, 2009

O xarope

O que se passa entre a TVI e o Primeiro-Ministro só prova uma coisa: que aquele canal de televisão, neste momento, não depende do Governo. Tudo o mais que se tentar extrair da questão, é pura mistificação. Nem Sócrates deve estar manietado ou impossibilitado de recorrer aos tribunais, caso se sinta ofendido com o tratamento a que a TVI o tem sujeitado, nem Sócrates é mais ou menos culpado seja do que for só porque a TVI já o condenou, nem a TVI é mais independente do poder político do que quer fazer parecer, lá porque trata o Primeiro-Ministro da maneira como trata…
Gostava de saber, por exemplo, caso a renovação da licença de emissão da TVI não tivesse sido obtida em 2007, se as coisas se passariam da mesma maneira… mas sei que esta é uma questão sem resposta cabal. Uns dirão que sim, outros que não. Ficarei sempre na dúvida.
E porque duvido? Porque sei que o que se passa tem uma motivação política, embora não consiga dizer, sem medo de errar, quem é o político ou a força política que anda a alimentar esta novela. Não é só a coincidência do caso Freeport renascer em sucessivos anos eleitorais… é também a catadupa de informação habilmente ministrada de modo a esticar a coisa infinitamente, é a fina e suave mistura de indícios verosímeis mas falsos com actos comprovados que envenena mortalmente o xarope informativo…
O que se passa, agora, com Sócrates já se passou antes das eleições de 2005 com as “bocas” sobre a sua homossexualidade, e com outros matizes de má língua passou-se com Ferro Rodrigues, com Paulo Pedroso, com Armando Vara, com Sousa Tavares (pai), com Sá Carneiro… todos acusados de malfeitorias várias, nenhum condenado pelos tribunais. Ou os juizes deste país são todos uns merdosos ou os jornalistas têm uma forte tendência para se deixarem instrumentalizar. Fica à vossa consideração...
Na verdade, o caso que envolve Sócrates já foi investigado, instruído e julgado. O veredicto é “culpado”, sentenciou a TVI. Bem podem pedir celeridade à Justiça que já de nada vale. No dia em que o juiz decidir, a TVI até pode não fazer disso notícia…
Entretanto, o que se assiste é ao habitual espectáculo promovido por aqueles que se sustentam servindo interesses privados, camuflados, tantas vezes iníquos mas quase nunca questionados. Alguns deles até são bons jornalistas, mas todos sabemos o que são necessidades…

domingo, abril 26, 2009

sábado, abril 25, 2009

25 de Abril, sempre !


Através da televisão, durante a manhã, estive nas comemorações do 25 de Abril no Parlamento. Ouvi os discursos da praxe e notei que nenhuma bancada ovacionou outro discurso que não o seu próprio… Claro que discursos como o do CDS não merecem aclamação, e percebo que o PS não consiga bater palmas a quem nem mesmo hoje se poupou a críticas à governação de Sócrates, mas que mal vinha ao Mundo se os outros -PSD, PCP, BE e PEV- aplaudissem democraticamente os discursos alheios?
Se nem estas comemorações se conseguem livrar das quezílias partidárias e do calculismo político… ao menos, um pouco de respeito pela grandeza da data.

sexta-feira, abril 24, 2009

Namorados



Só hoje fiquei a saber que a jornalista Fernanda Câncio abandonou um programa da TVI, onde fazia parte de um painel fixo de comentadores. Nunca vi o programa, raramente sintonizo a TVI, mas desde o início que pressentia este desconforto da Fernanda Câncio. Sei que ela gostaria de pensar que foi convidada pelas suas qualidades de opinion maker, pelo seu curriculum como jornalista, pelas ideias que expressa na sua coluna no Diário de Notícias, mas julgo que ela sempre soube que a verdadeira razão da TVI a querer era a sua ligação afectiva com José Sócrates. Tentaram fazer da Fernanda Câncio uma espécie de bombo da festa mas ela não o permitiu. Saiu e fez muito bem.
Infelizmente para a Fernanda Câncio, o facto de ser a namorada de Sócrates irá estigmatiza-la sem remédio. Faça ela o que fizer, diga o que disser, escreva o que escrever, enquanto essa relação afectiva durar ela é, efectivamente, a namorada dele. E o que ela disser soará sempre à voz dele.

terça-feira, abril 21, 2009

Uns são filhos, outros enteados (do que se fala e o que se cala)

O actual Conselho de Estado tem 16 membros. Alguns estão lá por inerência dos cargos que ocupam, como é o caso do Presidente da Assembleia da República ou do Primeiro-Ministro, outros têm direito ao cadeirão por inerência dos cargos que já ocuparam, como é o caso dos antigos Presidentes da República, outros foram nomeados por Cavaco Silva. Uma das prerrogativas do Presidente é, precisamente, nomear os seus conselheiros… Um deles, o banqueiro Dias Loureiro, tem andado nas bocas do mundo por causa do seu envolvimento no caso BPN, um banco que andou a servir de veículo a aldrabices de todo o tamanho e que só se salvou da falência porque foi nacionalizado.
Toda a gente acha que Dias Loureiro se devia demitir, que a sua permanência no Conselho de Estado prejudica não só o órgão mas também a imagem do actual Presidente da República. Cavaco Silva não demite o seu antigo compagnon de route porque não pode. Os senhores Conselheiros não podem ser destituídos, diz a Lei. Também não sabemos se Cavaco quereria demitir o seu amigo de longa data. Ficaremos sempre com essa dúvida… não há forma de a esclarecer convenientemente. E Dias Loureiro não se demite porque enquanto lá estiver goza de imunidade… não pode ser detido nem julgado, portanto, não pode ser condenado, por maior ou mais grave que seja a trafulhice em que se envolveu.
Em rigor, diz o estatuto do Conselho de Estado:

CAPÍTULO III
Imunidades

Artigo 13.º(Irresponsabilidade)

Os membros do Conselho de Estado não respondem civil, criminal ou disciplinarmente pelos votos e opiniões que emitirem no exercício das suas funções.

Artigo 14.º(Inviolabilidade)

1. Nenhum membro do Conselho de Estado pode ser detido ou preso sem autorização do Conselho, salvo por crime punível com pena maior e em flagrante delito.

Ora bem, mas há outros que também estão no Conselho de Estado e que também estão envolvidos (não sei se em maior ou menor grau – não sou da polícia) em escândalos financeiros e de que ninguém fala…
Consultada a lista dos Conselheiros, o 16º nome que nos aparece é o do Dr.Balsemão. Este nosso amigo é dos tais que foi escolhido pelo actual Presidente. Ou indicado pelo PSD, vem a dar no mesmo. Toda a gente sabe que Balsemão é o principal accionista do BPP – Banco Privado Português, outro banco que está à beira da falência e a ser investigado judicialmente por alegadas trafulhices de gestão. Enquanto accionista de referência do BPP, o nosso amigo sacou lucros durante anos, lucros esses que, estamos agora a ver, foram obtidos através de uma gestão danosa dos interesses dos depositantes. Estranhamente, ou não, na última assembleia geral do Banco Privado Português um grupo de três dos maiores accionistas da instituição propôs "um voto de louvor e confiança" à administração liderada por João Rendeiro. Nessa proposta, Francisco Pinto Balsemão, Stefano Saviotti, ambos com participações de 6% na Privado Holding, e a Sofip, ligada à família Vaz Guedes, da construtora Somague, com uma posição de 3% no banco, sublinhavam "a forma eficiente e escrupulosa como foi conduzida a actividade da sociedade", bem como "o bom senso e rigor evidenciados na respectiva gestão".
Quer isto dizer que os principais accionistas do BPP aclamaram e beneficiaram despudoradamente dos actos de gestão praticados por João Rendeiro e que as autoridades judiciais indiciam como crime. São, no senso comum (face à Lei, não sei), comparsas, cúmplices, suspeitos de benefícios ilegítimos.
Mas disto ninguém fala, é claro. É muito mais fácil investigar o fripor.

Ajudar a Marta



Trata-se de uma menina que está doente, mas que se pode curar.
Se tiver sorte.

sábado, abril 18, 2009

A SIC já não é o que era...




Email do meu amigo João:




Ontem fui parar à urgência do S. Francisco Xavier com um crise aguda da dor lombar que me tem incomodado. Apanhei o hospital em mudança do sistema informático. Havia na urgência mais gente em uniforme da HP do que batas e uniforme hospitalar. Esperei 5:20 numa cadeira de rodas, cheio de dores, até ser atendido por uma médica numa consulta que durou 20 segundos... Depois, puseram-me a soro com Nolotil e... desapareci do sistema informático. Nenhum médico me encontrava no computador, eu próprio ajudei, sem sucesso, o ortopedista a procurar-me no computador... Finalmente, um dos muitos jovens em uniforme HP, vasculhou menus, lá me encontrou e restituiu-me, ali à frente de doentes e médicos, à realidade hospitalar enquanto o médico comentava com simpatia: "Ah...ok. Encontrei, está aqui. Diz o sistema que o senhor está no hospital há 8 horas e 17 minutos".


Podendo assim voltar a viver na realidade passou a fazer sentido queixar-me de novo das dores que ainda não tinham desaparecido... para, a seguir, perdermos mais uma hora porque o sistema não permitia ao médico passar-me uma receita: "Neste susbsistema de menus não é suposto ter-se acesso às prescrições" dizia o técnico da HP. Saído do hospital às 2:30 da manhã (tendo entrado às 16:45) ainda cheio de dores e fome, não tive energias para mais do que preencher uma página do livro de reclamações ouvir a clamação (do tipo o filho da puta do Sócrates é que devia vir agora aqui) dos utentes que tinham chegado às urgências pela hora de jantar e que, cinco horas depois, ainda não tinham sido atendidos... e pude ainda encolher os ombros perante a tirada determinada da Luisa Pité (SIC e ex-secretária do Rangel e Manuel da Fonseca que acompanhava a mãe numa crise de barriga) que ameaçava "amanhã, a primeira coisa que vou fazer é falar com a Conceição Lino para vir cá o Nós Por Cá" o que não entusiasmou particularmente a plateia da sala de espera.


João






sexta-feira, abril 17, 2009

Pagar para trabalhar


A Groundforce é a empresa que assegura as operações aeroportuárias em terra, nomeadamente o embarque de passageiros e carga, abastecimento de aviões, etc.
Apesar da crise, acredita-se que no próximo Verão haverá, como de costume, um pico no tráfego de passageiros e carga no aeroporto de Lisboa. Assim, a empresa prepara-se para enfrentar os meses estivais, assegurando que vai ter pessoal suficiente em número e qualificação. Para não ter de contratar directamente mais funcionários, a Groundforce vai recorrer ao outsourcing. Dizem-me que contratou a Adecco, uma empresa que fornece mão-de-obra temporária. Mas, para as tarefas que se executam no aeroporto, é preciso dar formação a esse pessoal temporário. Vai daí, a Adecco abriu inscrições para uma acção de formação. Os formandos pagam mil euros pelo curso, sem a garantia de serem contratados. E, se forem contratados, já sabem que tudo começa em Maio e termina no Outono. Ou seja, terão pouco tempo para rentabilizarem os mil euros empatados no curso de formação. É quase pagar para trabalhar.

quinta-feira, abril 16, 2009

Escola fechada


Hoje os meus filhos não foram à escola. Porque, quando falta a água, a escola fecha. Acontece que, por razões que desconheço, a água falta com alguma frequência nesta zona do país, mesmo se se trata da maior freguesia da Europa em número de habitantes por metro quadrado… Sem água, não é possível fazer funcionar a cantina nem garantir a limpeza das casas de banho. São razões compreensíveis. O que não é compreensível é que a água falte recorrentemente e que a escola nunca tenha procurado uma alternativa funcional.

sábado, abril 11, 2009

O poder da palavra

O mais velho fez anos, por estes dias. 80 anos, gastos em guerras. Lúcio Lara é o último dos jurássicos do MPLA, um exemplo de dignidade que afronta as vaidades e arrogâncias vigentes. Um homem da craveira de Mandela, um caso raro de desapego ao poder e de verdadeiro sentido de serviço público. Foi perante ele que Agostinho Neto jurou como primeiro Presidente da República de Angola, no dia 8 de Novembro de 1974.
Lara era secretário-geral do MPLA quando Neto morreu. Foi indicado três vezes para lhe suceder e três vezes disse não. Dizem-me que acabou por ser ele a sugerir o nome de José Eduardo dos Santos, um camarada jovem, políticamente bem preparado, sem anti-corpos entre os que fundaram o partido e se embrenharam na mata na guerrilha contra o colonialismo, condições que Lara julgou essenciais para alguém que iria ter uma dificílima missão pela frente. Zedu foi assim, uma espécie de Cavaco Silva da política angolana. Um subalterno que foi a um congresso para fazer “rodagem” política e, por via dos acasos, se viu sentado no cadeirão do poder.
O resto da História que se seguiu já todos sabemos. O que não sabemos é como teria sido se Lara tivesse dito sim.

quinta-feira, abril 09, 2009

Sócrates versus jornalista

À distância, acompanho o “drama” do jornalista que foi processado pelo primeiro-ministro. Leio coisas pungentes, como a alegada tendência de Sócrates em mover processos contra os fracos e não o fazer contra os fortes, em circunstâncias idênticas.
Estranho, apenas, o facto deste bravo jornalista não ser nem o primeiro nem o único a ter sido alvo de processos judiciais no exercício da profissão e, que me lembre, nunca tamanha onda de indignação se ter levantado antes. Além de que, lá porque o processo foi movido por um governante, não quer dizer que o jornalista vá perder a causa. Os tribunais existem para que o cidadão se possa defender e, creio, se algum dos litigantes tem anti-corpos que possam influenciar a apreciação da questão pelo juiz, o primeiro-ministro está aí em grande desvantagem.


terça-feira, abril 07, 2009

Concurso

Concurso televisivo. Três equipas em confronto, constituídas por alunos de diferentes escolas secundárias de Luanda. O mecanismo do concurso é de simples pergunta/resposta. Quando uma equipa falha, a seguinte tem oportunidade de responder à mesma questão.
Apresentador: quantas patas tem a barata?
1ª equipa: ... hummm... dez !
Apresentador: errado! Quantas patas tem?
2ª equipa: ... haaann... dez!?
Apresentador: erraaadoo. Quantas?...
3ª equipa: onze!

segunda-feira, abril 06, 2009

Um Blog Bué da Caprino

Nos últimos dias, o acesso à net de que disponho é tão lento, tão lento, tão lento, tão lento, tão lento, tão lento que não se aguenta... com comunicações deste quilate, não sei como se desenvolve um país, mesmo que seja um país cheio de petróleo...
Por isso, tenho escrito pouco.
Por isso, limito-me a vos propor outras leituras, como esta, aqui.
Aproveitem a dica, que vale a pena.

quinta-feira, abril 02, 2009

Dependências

Embora noutro contexto, o ministro Santos Silva (ASS para os amigos), disse que "um governo não pode ficar dependente de uma decisão judicial"... às vezes, mordemos a língua.

Pois parece que, cada vez mais, este governo está dependente disso mesmo. Por exemplo, é óbvio que se o Primeiro-Ministro for alguma vez constituído arguido, o governo cai. Por menos, já outros caíram, ainda há bem pouco tempo.

quarta-feira, abril 01, 2009

Os dias da mentira

De suspeita em suspeita, lá nos vão embrulhando na verdadeira cabala.

terça-feira, março 31, 2009

LEIAM, POR FAVOR

"O Comboio das Azémolas" e o "Empata-canais". Aqui.

segunda-feira, março 30, 2009

OFERECE-SE

Anúncio no Público.

sexta-feira, março 27, 2009

Armas de destruição maciça (contra o vão de escada)


Para excluir a TELECINCO, a ERC muniu-se de todas as armas. Mesmo aquelas de que apenas Durão Barroso e George Bush conhecem o paradeiro: as de destruição maciça.

A mentira, ou melhor, a mãe de todas as mentiras, que consiste em trocar cirurgicamente um “sim” por um “não” foi uma das tácticas de Azeredo Lopes. E isto, pasme-se, no texto de uma Resolução do Conselho de Ministros publicada no Diário da República. Sabemos como é fácil manipular argumentos e matéria subjectiva. Mas o esmero e o empenho persecutório da ERC foram mais longe. Veja-se este exemplo:

- O Conselho de Ministros determinou a 17 de Março, com publicação no Diário da República, que a cobertura do território nacional (para a Televisão Digital Terrestre) será de 100% no final de 2010.

- A 23 de Março, a ERC delibera a exclusão da TELECINCO com o seguinte fundamento: nos primeiros anos de funcionamento do novo canal, (leia-se, final de 2010, 2011 e 2012, caso a licença fosse atribuida já nos próximos meses) não é tecnicamente possível a cobertura da totalidade do território nacional.

Alguém faça o favor de transmitir esta pérola aos advogados da Telecinco.

quinta-feira, março 26, 2009

Conversas no vão de escada

(enquadramento: A Entidade Reguladora para a Comunicação Social chumbou segunda-feira as candidaturas da Telecinco e da Zon para a abertura de um quinto canal nacional generalista em sinal aberto.Durante uma audição na Comissão de Ética, Augusto Santos Silva disse que o concurso para o quinto canal foi feito com "requisitos exigentes" e "não se pode entregar a um projecto de vão de escada").





"... A jornalista telefonou-me. O SS diz que... ora essa... o vão de escada não era nada connosco... pqp."


quarta-feira, março 25, 2009

No vão de escada

email de um amigo:



"Estimados desempregados,

Para fechar, por enquanto, o dossier 5º Canal, guardai para V. instrução o comentário de Santos Silva na AR deplorando "projectos de vão de escada". Mais acrescenta que o Executivo tem o poder de decidir sobre a utilização futura do espaço remanescente do ‘Mux A' (que é a Televisão Digital Terrestre gratuita). Sendo que esta poderá ser efectuada no âmbito de um eventual novo concurso ou na reafectação desse espaço para outros serviços. Apesar de admitir que agora há um incentivo a menos para a migração para o digital, o ministro sublinhou que o desfecho do concurso não coloca em causa o calendário para a TDT.
Em boa verdade fica tudo para outro dia longuínquo pois basta recordar o exemplo da providência cautelar da Air-plus por via da atribuição dos canais pagos da TDT à PT interposta em Agosto que ainda aguarda decisão.
Por altura de novo concurso (sempre possível por iniciativa governamental invocando interesse público ou por acção cível de particulares em prol do aproveitamento cabal de bem público) e caso então a Telecinco ou empresa sucedânea esteja interessada em participar recuperai então a papelada para outra investida...
Entretanto uma nova ERC será eleita pela AR no primeiro trimestre de 2011. Até lá, tratemos do escasso pão nosso de cada dia.

Um abração, João."
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(na volta do correio)
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Camarada,
Vivemos num sítio de merda, onde uns senhores põem e dispõem dos recursos do país, mandam e desmandam e ainda lhes sobra tempo.
O “nosso” ministro fala no interesse público para avançar (protegido pela Lei) com a possibilidade de não ser necessário esperar pelas decisões soberanas (?) dos tribunais. Demoram muito tempo… é uma chatice, mas qual é a pressa? O país não pode passar sem mais este atropelo à cidadania?
O homem está quase a dizer que, afinal de contas, quem tem razão é a Manuela Ferreira Leite, que advogou há tempos colocar taipais na democracia durante uns seis meses, para endireitar o país.
Para mim, o interesse público estaria na concessão do 5º canal de televisão a alguém que quisesse e soubesse fazê-lo, alguém que tivesse apresentado um projecto profissional recheado de imaginação, know-how e atrevimento. Alguém que precisasse mesmo de agarrar pelos cornos essa tarefa. Velar pelo interesse público teria sido garantir que este concurso não fosse torpedeado em nome dos interesses privados de uns quantos senhores, poderosos, que meteram no bolso o poder político.
Outro abraço.
Carlos

terça-feira, março 24, 2009

Batotas, tribunais e analogias




"Vamos avançar com uma providência cautelar que anule a decisão ilegal da ERC e reponha a Telecinco como concorrente", disse Carlos Pinto Coelho, accionista e porta-voz da Telecinco.

Mais um pedido de indemnização cível por todos os prejuízos causados, mais uma acção contra os três elementos da ERC que votaram contra o projecto da Telecinco, a saber… Azeredo Lopes (presidente da ERC), Estrela Serrano e Elísio Oliveira.

Assim a Justiça funcionasse…

Na conferência de imprensa, do lado de lá da mesa, os cinco accionistas da Telecinco. Do lado de cá… alguns jornalistas, quase todos muito jovens, a maioria sem uma pergunta na cabeça. Autênticos pieds de micro

Televisões, só a TVI. Compreende-se que a SIC não tenha ido (depois da festa, a ressaca….), mas a RTP já se percebe mal, já que se tratava de um assunto de relevância nacional e manifesto interesse público. Nem sequer o serviço audiovisual da Agência Lusa foi… o que só vem reforçar a ideia de que a ordem é para silenciar a polémica.

Curiosamente, ainda ontem e anteontem, televisões rádios e jornais gastaram rios de tinta para dissecar o caso do árbitro que ajudou o Benfica a vencer o Sporting na final da Taça da Liga.
Também aqui houve um árbitro que manipulou resultados… e não me venham dizer que a concessão do 5ºcanal de televisão generalista em sinal aberto é de menos importância que um golo na baliza do Sporting.

segunda-feira, março 23, 2009

Quem manda? Não é a ERC.




A ERC chumbou em definitivo os dois projectos candidatos ao 5ºcanal de televisão. Para a ZON tanto faz, o serviço de televisão não é o seu negócio e a candidatura apenas se fez pensando que o canal lhes cairia suavemente no regaço, já que não contavam com o surgimento de candidaturas concorrentes. A Zon chegou mesmo a contratar o Emídio Rangel, para encenar que estaria realmente interessada num projecto profissional de televisão. Na verdade, a ideia sempre foi a de apresentar um projecto manhoso, de uma televisão que apenas serviria para alavancar os negócios da Zon e dos seus clientes, como de resto ficou escrito neste projecto agora chumbado, onde a Zon revelou ter negociado uma relação contratual com a RTP, SIC, TVI e Lusa para que estes lhe fornecessem conteúdos para o canal. Seria, assim, uma espécie de montra da concorrência.
Para a Telecinco é a morte de um sonho. Mais um sonho que se desvanece, triturado na máquina dos interesses privados que dominam o sistema. A ERC voltou, agora, a reproduzir os mesmíssimos argumentos utilizados há 20 dias úteis… úteis, porque foram utilizados para encher de verborreia jurídica 75 páginas onde se aniquila cinicamente um projecto profissional válido.
O grande argumento da ERC para chumbar o projecto da Telecinco é que “a concorrente não fundamenta o share que se propõe atingir, situado num intervalo compreendido entre os 20% e os 25%, as estimativas da concorrente revelam-se irrealistas, desajustadas da realidade que caracteriza o sector…”.
A ERC, aconselhada pelos teóricos do CEGE da Universidade Nova de Lisboa, queria contabilidade organizada, estudos de mercado, e a Telecinco deu-lhes com uma televisão arrojada, moderna, recheada de bons profissionais, portanto uma televisão rica como já não há em Portugal. Talvez por isso o projecto tenha sido chumbado.
De facto, quem manda na televisão em Portugal? A questão é colocada no blog do Frederico Duarte Carvalho, um jornalista que gosta de investigar… e que nos vem lembrar que o dono da TVI, Juan Luís Cebrian, é um velho amigo e admirador de Balsemão, tal como o próprio escreveu num prefácio da biografia do então primeiro-ministro de Portugal.
Quem manda? Não é a ERC.

sábado, março 21, 2009

Cagadela

email de um amigo:

"... os rapazes da ERC nem são obrigados a "postar a cagadela" (copyright CN). Basta-lhes publicar a decisão, 3 dias depois, no Diário da República. O que quer dizer que, se quiserem mesmo ser mauzinhos, deixam-nos a comprar e ler diariamente o segundo mais lido órgão de comunicação controlado pelo governo... o primeiro é o Telejornal, claro."

O que tem a Justiça a ver com boys e tachos ?

O Provedor de Justiça deve ser do PS ou do PSD ? Mas então, jamais poderá ser do PC, do BE, ou do CDS ou, sequer, do PPM…
O Provedor de Justiça existe para reclamar, recomendar justiça, quando o “sistema” a nega ao comum do cidadão. Então, talvez devesse ser nomeado pelo Supremo Tribunal de Justiça…
Agora, o Provedor não deveria nunca ser um “boy” partidário. O que lá está foi ministro de governos PSD e o anterior ainda mais… Meneres Pimentel foi fundador, deputado e membro da Comissão Política Nacional do PSD.
Manuela Ferreira Leite reclama para a oposição o direito a nomear o Provedor de Justiça, o que só faria sentido se o homem se demitisse quando o partido que o nomeou vencesse eleições…
Que me lembre, isso nunca aconteceu. Nascimento Rodrigues foi nomeado na vigência de um governo de António Guterres, mas deixou-se lá ficar nos governos de Durão Barroso e Santana Lopes… E Meneres Pimentel conviveu alegremente com o correligionário Cavaco Silva.
Portanto, ou fazem com que o senhor Provedor de Justiça seja, de facto, independente do poder político ou então, talvez seja a melhor ideia, acabem com aquilo. Sempre se poupa uns tostões e se for para fazer o que este fez, que nem dei por ele, acho que podemos dispensá-lo.

sexta-feira, março 20, 2009

Um tiro no pé




O comunicado tem 704 caracteres, incluindo espaços. Um desastre, numa dúzia de linhas mal medida. A Manuela Moura Guedes tem razão, nunca antes a ERC emitiu um comunicado para dizer que ia investigar o trabalho de um grupo de jornalistas e já teve outras queixas contra jornais, jornalistas e empresas de comunicação social. E também tem razão ao notar que o comunicado saiu na véspera da edição por ela coordenada (que é às sextas-feiras). Não vi o jornal, não costumo ver, porque não gosto do tom que ali se emprega. Mas tenho essa liberdade de escolher o jornal televisivo que quero ver. Se a ERC pretendia amedrontar a TVI ou apenas a Manuela Moura Guedes, a presunção saiu errada. Pelo que conheço dela, jamais se calará assim. Se a ERC pretendia mostrar serviço a alguém, pois mostrou um mau serviço.

Estranho amor


Para alguns membros da Igreja Católica, o amor pela doutrina é superior a tudo o mais. No caso dos apelos contra o uso do preservativo, como nos casos de condenação dos abortos efectuados a meninas que engravidaram ao terem sido violadas (como aconteceu recentemente no Brasil), o que está em causa mesmo é a ofensa à doutrina e não qualquer tipo de cuidado com a protecção da vida.
O que diz a doutrina? O Código de Direito Canónico diz que qualquer pessoa que pratique aborto é excomungada através de uma penalidade conhecida por latae sententiae. Esta é uma sentença automática, já que o aborto é uma espécie de crime publico no Direito Canónico, basta que exista para que seja punido sem necessidade de accionar qualquer mecanismo religioso.

quarta-feira, março 18, 2009

Falibilidade papal


Para combater as doenças sexualmente transmissíveis, a ICAR faz a apologia da abstinência sexual, mas nem todos podemos ser padres (mesmo esses…) e se seguíssemos à risca essa recomendação, a espécie humana entraria rapidamente em vias de extinção. A ICAR condena o uso do preservativo e, de um modo geral, de qualquer método de controlo de natalidade. Mas, ao tentar influenciar o abandono do preservativo, a ICAR comete um acto lesivo da protecção da vida. Tanto mais grave, quando esse apelo é dirigido a povos africanos, as principais vítimas da pandemia da SIDA precisamente devido à manutenção de comportamentos de risco, entre os quais, as relações sexuais desprotegidas.
Curiosamente, alguns cardeais e bispos e muitos padres e missionários católicos não têm rebuço em desobedecer ao Papa. Eles sabem, em consciência, que este tipo de apelo apenas contribui para a expansão das doenças. Infelizmente, há milhões de pessoas, em todo o Mundo, que seguem à risca os ditames da ICAR. Em países como, por exemplo, as Filipinas, Timor-Leste ou Brasil, onde as populações são predominantemente católicas e crentes na infalibilidade das palavras papais, condenar o uso do preservativo pode ser, mesmo, uma condenação à morte. Em África, 25 milhões de mortos exigem outra ética menos dogmática.

Máxima política

As ideias têm mais força que as armas. Se não os deixamos usar armas, porque haveremos de os deixar ter ideias?
José Estaline

(citação de memória)

terça-feira, março 17, 2009

A pastorinha Manela


A tia Manela diz que quase ninguém a ouve. Armada ao fino, ela confessa que tem pouco jeito para gritar, que o seu tom afectado não lhe permite falar assim tão alto… mas, na verdade, o que se passa é o conhecido “sindroma do Pastor” que, de tanto gritar por socorro que vinha lá o lobo, quando não vinha, fez com que os outros se desinteressassem pelo que dizia. No dia em que o lobo veio mesmo, ninguém foi em seu socorro.
Com a tia Manela é também assim, um pouco… o que ela já disse do Sócrates acaba por se tornar num miado permanente que cansa e não dá esperança a ninguém… ela é o achar “absolutamente impressionante, chocante e insultuoso” que o governo só se preocupe com a sua imagem, “verdadeiramente dramático, senão trágico” que se insista no TGV, “manifestação excessiva do culto de uma personalidade, absolutamente imprópria para um país que está na crise em que está” referindo-se ao congresso do PS, que todas as decisões do governo são “medidas altamente discricionárias”, que a governação não passa de um “longo intervalo publicitário”…
Por favor, ó tia, deixe-se de coisas! Ainda por cima, quando abre a boca para dizer mais alguma coisa que não seja adjectivar, sai-se com propostas tipo “internamentos e cirurgias não devem ser taxados” logo depois de ter dito que os gastos com a saúde são “irracionais”…Assim não vamos lá. Nas próximas eleições, o PS vai correr praticamente sozinho… talvez apenas contra a abstenção.

segunda-feira, março 16, 2009

Sinais: a cortina de proscénio


email de um amigo:




"...Não há dinheiro, vamos todos à falência... e depois, pela porta do cavalo, vamos comprar os restantes 50% da empresa de que já possuíamos metade, etc... A "ideia de crise" está na moda, mais do que a própria crise. Nem preciso de fazer metáforas com o Balsemão - vejam-se os oscars deste ano: toda a cerimónia foi feita parodiando o estado de crise e de recessão... com cenários de cartão, números musicais com adereços artesanais etc., mas depois tudo estava enquadrado numa cortina de proscénio com 100.000 cristais, que custou mais (só a cortina) do que as edições dos oscars anteriores... É a crise!"

domingo, março 15, 2009

weekend

Tantos posts para postar e a praia aqui tão perto.

quinta-feira, março 12, 2009

Sinais: die shadenfreude


Email de um amigo:

"...O que na realidade se está a passar é que o Dr. Balsemão agendou para esta semana um conjunto de desgraças, pânicos, fatalidades, falências, que deverão ser cirurgicamente dramatizadas, em local e hora pré-estabelecidos, e depois levados à cena pelos diferentes actores da sua trupe. Do Martim Cabral já eu vi, há dias, uma excelente representação. Depois, basta distribuir uns bilhetes pró espectáculo pelos amigos... Azeredo, Santos Silva, etc, e esperar pela ovação final. É o show biz na versão lusitana."

Sinais: money, money, money


A Confederação de Meios, um grupo de pressão formado pelos patrões da área da Comunicação Social, quer que o Governo – quer dizer, o Estado – invista mais dinheiro em publicidade institucional e conceda benefícios fiscais às empresas. Em ano de triplas eleições, Sócrates tem aqui um problema bicudo. Se não cede à pressão, aumenta a má vontade que já existe contra ele por parte dos bosses. Por outro lado, quem nos garante a equidade do tratamento jornalístico se o Governo lhes conceder as benesses pedidas?

quarta-feira, março 11, 2009

Jornalismo, Que Liberdade ? (medo e compadrio)

A maioria dos jornalistas que caem em desgraça, acaba por abandonar a profissão. Na realidade, todas as pessoas têm de comer diariamente e poucos terão meios para continuar a lutar num ambiente tão hostil. Até porque, os ostracizados não podem contar com a solidariedade activa dos seus pares.
E porque se calam os jornalistas, perante estas situações de absoluta injustiça e perseguições iníquas? A maioria por medo de lhes vir a acontecer o mesmo. Outros por compadrio.
Em 29 de Setembro de 2008, o Jornal de Notícias deu à estampa uma crónica do Mário Crespo, onde ele lembra um debate que moderou na campanha autárquica de 1989. Foi um debate entre os candidatos Jorge Sampaio e Marcelo Rebelo de Sousa. Nesse debate, o jornalista confrontou os políticos com um documento proveniente dos arquivos da Câmara Municipal de Lisboa, onde constava um rol de personalidades a quem a Câmara tinha entregue apartamentos novos na Quinta do Lambert. Havia advogados, arquitectos, engenheiros, médicos, muitos políticos e jornalistas. A lista discriminava os montantes irrisórios que essas pessoas pagavam pelo arrendamento dos apartamentos topo de gama numa das zonas nobres da cidade. Confrontados com esta prova de ilicitude, os candidatos às autárquicas de 1989 prometeram, todos, pôr fim ao abuso. O desaparecido semanário Tal e Qual foi o único órgão de comunicação social que deu seguimento à notícia. Identificou moradores, fotografou o prédio e referiu outras situações de cedência questionável de património camarário a indivíduos que não configuravam nenhum perfil de carência especial. Mas não houve consequência desta denúncia pública.
O facto de haver jornalistas entre os beneficiários destas dádivas do poder político explica muito do apagamento da notícia nos órgãos de comunicação social.
Quem tem estas casas gratuitas (é isso que elas são) é gente poderosa. Há assessores e senadores da república, dispersos por várias forças políticas e a vários níveis do Estado, capazes de com uma palavra no momento certo construir ou destruir carreiras. Há jornalistas que com palavras adequadas favorecem ou omitem situações de gravidade porque isso é parte da renda cobrada nos apartamentos da Quinta do Lambert e noutros lados.
De um modo mais sintético, há algumas semanas, o juiz Rui Rangel escreveu no Correio da Manhã que é inegável que “a Comunicação Social vive tempos difíceis, de credibilidade, de afirmação, de rigor e de independência. Hoje, temos jornalistas amordaçados pelo medo. E temos jornalistas que estão na bolsa de valores, que se vendem ou deixam comprar, hipotecando no mercado de interesses a sua carteira profissional.”
Quando quisermos falar de Liberdade no jornalismo, temos de ter em conta tudo isto que acabei de vos contar.

terça-feira, março 10, 2009

Boas-vindas


O Bloco de Esquerda não pretende dar as boas-vindas ao presidente de Angola, a pretexto de querer protestar contra o deficit democrático e as assimetrias sociais que o regime tem vindo a cavar ao longo de três décadas de poder.
Quero aqui lembrar que foi ao actual regime angolano que alguns dos fundadores, inspiradores, do Bloco de Esquerda sempre prestaram apoio político e ideológico.
O passar do tempo veio revelar que não era a ideologia que movia os líderes políticos angolanos. Era apenas o exercício do poder em si mesmo, do poder político e do poder económico. Em Angola vive-se num certo tipo de nepotismo? Sim, mas culturalmente o exercício do poder, em África, sempre foi assim. Se considerarmos que nepotismo é o favoritismo que os detentores do poder dão a um círculo próximo de colaboradores ou familiares, então estamos a falar de uma característica tipicamente africana de organização política. Em África, é assim que as sociedades se organizam desde há séculos. Mas a despudorada acumulação de riqueza, tão criticada por ser manifestamente injusta, já é uma característica das modernas sociedades ocidentais capitalistas. Somos nós, no Ocidente, que valorizamos a riqueza acima de tudo, que endeusamos o dinheiro e lhe sacrificamos tudo.
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No Público de hoje (edição impressa), Maria Antónia Palla e João Soares, velhos apoiantes de Jonas Savimbi, vêm hoje lembrar feridas ainda mal fechadas, numa tentativa de dar uma lição de moral ao dirigente angolano. Mas a moral não existe no exercício político, por mais que se pintem Soares e Palla. Nunca a política, em lado algum do Mundo, se condicionou a esse tipo de imperativos e, portanto, o “apelo” hoje publicado não faz muito sentido, pese embora todas as palavras politicamente correctas que foram alinhadas no texto: liberdade, justiça, desenvolvimento, democracia, legitimidade, amor, irmãos, povo, verdade, respeito.
Por mim, prefiro o pragmatismo honesto de Cavaco e Sócrates. Angola vale milhões e é uma oportunidade única de termos algum apoio nos próximos anos de crise. Em Angola já estão dezenas de milhar de portugueses e outros tantos para lá caminham. O presidente angolano é muito bem-vindo!

Jornalismo, Que Liberdade ? (os indexes)

A dependência económica dos jornalistas não se resume, apenas, a uma normal relação de trabalho com a empresa onde exercem a profissão. Hoje, os jornalistas confrontam-se cada vez mais com situações de grande precariedade que são quase impossíveis de ultrapassar e que constrangem em absoluto a sua liberdade de expressão. Além da velha questão dos recibos verdes, situação em que muitos jornalistas permanecem anos e anos - muitos nunca tiveram um contrato de trabalho ao fim de muitos anos de profissão - existe agora o medo de perder o emprego, sabendo que dificilmente irão encontrar outro. E não estou a falar das consequências da actual crise económica… Estou a falar da excomunhão de jornalistas que, um dia, por alguma razão, se incompatibilizaram com um patrão e que, por via disso, acabam proscritos da profissão. Estou a falar da existência de listas negras de jornalistas, listas que circulam entre as empresas do meio, de indexes que impedem os que neles constam de voltarem a trabalhar na profissão. Quem está nessas listas? Depende muitos das circunstâncias, mas são, por exemplo, antigos delegados sindicais, ou jornalistas que se notabilizaram no seio das redacções pela defesa dos seus direitos laborais, ou jornalistas que ousaram defender a sua integridade profissional mesmo contra os interesses expressos do patrão ou até do seu chefe directo, jornalistas que disseram não quando queriam que eles tivessem dito sim.
Exemplos práticos desta tese…
1º Exemplo: Em finais de 2002, quando a SIC levou a cabo a sua primeira operação de emagrecimento, de redução de custos, a empresa despediu, entre muitos outros, todos os delegados sindicais dos jornalistas. Não ficou um. Aliás, enquanto a grande maioria dos despedimentos foram suavemente negociados, os delegados sindicais dos jornalistas foram coagidos a sair através de um processo de despedimento colectivo que apenas abrangeu cinco pessoas, o mínimo exigível pela Lei de Trabalho. O despedimento dos delegados sindicais não foi motivado por qualquer necessidade de reestruturar a direcção de informação da empresa, mas apenas para servir de exemplo para o futuro.
2º Exemplo: Numa revista semanal do mesmo grupo, um jornalista avençado, que escrevia especialmente sobre transportes, deixou de ser solicitado pela revista depois do editor dessa secção ter ido à China, a convite de um membro do governo que tutelava a área dos transportes, precisamente.
3º Exemplo: Num caso que foi muito mediatizado, o jornalista Mário Crespo, na altura correspondente da RTP em Washington, incompatibilizou-se com o Director-Geral da sua empresa, José Eduardo Moniz, acusando-o de uma série de irregularidades administrativas. O caso foi parar ao Tribunal de Trabalho. Entretanto, o Mário Crespo foi retirado de Washington e colocado em Lisboa, sem funções atribuídas. Nas redacções chamamos a isto ser “colocado na prateleira”. Sem esperança de ver a sua situação profissional melhorar, o Mário Crespo pediu emprego à SIC e foi aceite.
Depois disso, um repórter do Diário de Notícias contactou o Mário Crespo, para o entrevistar a propósito dessa experiência de estar “emprateleirado”. O Mário aceitou falar sobre o assunto, o repórter deslocou-se à SIC acompanhado por um repórter fotográfico, a entrevista e as fotos foram feitas, o trabalho foi redigido mas nunca foi publicado. Porquê, não se sabe, mas é conhecida a amizade que liga Moniz ao presidente da empresa proprietária do Diário de Notícias.
4º Exemplo: Um jornalista que tinha rescindido de modo conflituoso o contrato de trabalho que o ligava a um dos maiores grupos de comunicação, que engloba televisões, jornais e revistas, encontrou colocação num gabinete de comunicação de um instituto do Estado. Estranhamente, a nova relação laboral nunca foi contratualizada e ao fim de alguns meses, o presidente desse instituto estatal confessou que estava a receber pressões para não manter esse jornalista ao serviço. E não manteve. Três anos depois, esse jornalista continua desempregado.
5º Exemplo: Uma empresa produtora de conteúdos para televisão assina um contrato com um dos dois canais privados para a realização de uma série documental. Antes do trabalho de campo começar, o canal de televisão enviou num fax para a produtora uma lista de 24 nomes que, sob pretexto algum, poderiam colaborar nesse trabalho.
6º Exemplo: Emídio Rangel foi director-geral da SIC durante 10 anos. Desde que ele saiu, como se sabe, incompatibilizado com a administração, sempre que a SIC comemora os seus aniversários omite o nome de Rangel, como se ele nunca por lá tivesse passado. Todos os anos, desde 2001, os jornalistas que na SIC são incumbidos da tarefa de realizarem as peças alusivas ao aniversário do canal recebem sempre a mesma ordem de apagarem o Emídio Rangel da história. E obedecem.
Último exemplo: um jornalista, um amigo, confidenciou-me há dias, por email, que esperava um convite para finalmente ir trabalhar, depois de anos de desemprego. No fim da mensagem escreveu: “Por favor não fales a ninguém. Já sabes como é... Um telefonema fode tudo!... “

segunda-feira, março 09, 2009

Ab ira


Nos “Sinais” de hoje, Fernando Alves falou de Luís Leante (foto), um professor de Latim do Instituto de Alicante detido há mais de 48 horas por ter destruído e feito desaparecer duas câmeras de vigilância instaladas na escola, uma das quais apontada à sua sala de aula.
O caso de Luís Leante, que é também um escritor de renome em Espanha, está a provocar uma onda de indignação. Alunos e colegas de profissão mobilizaram-se para o apoiar nesta hora difícil.
O professor reconhece que a ira tomou conta de si, reconhece que ao fazer o que fez perdeu a razão. Mas isso não faz dele um delinquente.
O furor de Leante fez-me recordar uma fúria idêntica que levou Emídio Rangel a cometer um acto semelhante, quando os securitários da SIC fizeram instalar câmeras de vigilância no interior da redacção. Perante o incómodo dos jornalistas, Rangel subiu ao escadote e arrancou as câmeras com as próprias mãos.
Em Alicante, as autoridades escolares esperam pela decisão judicial, para decidirem o futuro profissional de Luís Leante. Em Carnaxide, os administradores do antigo armazém de bananas começaram, logo ali, a congeminar um futuro negro para o Rangel. Foi uma questão de tempo.

Jornalismo, Que Liberdade ? (mordaças)

O que se está a passar com o licenciamento do 5ºcanal pode ter todas as leituras políticas que cada um de nós desejar. A minha é a seguinte: num ano de várias lutas eleitorais, com a crise económica e as outras crises originadas por campanhas negras de origem incerta, o governo não quis afrontar directamente dois dos mais poderosos grupos de imprensa, nomeadamente a Impresa do Dr.Balsemão, tanto mais que a TVI, como é público e notório pelo menos às sextas-feiras, não morre de amores pelo primeiro-ministro. Como também não era possível, sem originar um escândalo clamoroso, privilegiar o projecto Zon II em detrimento do projecto Telecinco, surgiu esta habilidosa decisão de eliminar os dois, atrasando o surgimento do 5ºcanal para uma data longínqua.
É isto sinal de ausência de Liberdade, no jornalismo? Penso que sim. Não vi nenhum esforço por parte dos principais órgãos de comunicação social em esclarecer uma só destas dúvidas e não acredito ser o único a tê-las…
Voltando a citar o presidente da ERC, na mesma entrevista ao Diário de Notícias e à TSF que mencionei no início da minha intervenção, Azeredo Lopes disse que a liberdade de imprensa em Portugal é “substancialmente mais rica” do que ele pensava antes de ser presidente do órgão regulador. Diz que considera a imprensa portuguesa diversificada, plural e polémica. E, portanto, depreende-se, é uma imprensa livre. Será, mas ao dizer isto devemos acrescentar que a grande maioria dos órgãos de comunicação social, ou mesmo a totalidade, são projectos profissionais de imprensa – escrita, radiofónica ou televisiva – ou seja, são empresas que estão ali para dar lucro aos accionistas, embora por vezes também possam dar um jeito aos interesses privados do patrão, sejam eles económicos ou mesmo políticos. É ao lucro que elas se dirigem e não, propriamente, à defesa das liberdades. As empresas privadas de comunicação social usam a Liberdade, de imprensa e de expressão, e só nesse sentido a defendem, porque quando a Liberdade prejudica os interesses dos accionistas, tendencialmente… deixam-na cair, como se vê.
De resto, a liberdade de imprensa e de expressão são direitos constitucionais. Estão regulamentados num número razoável de diplomas legais, tais como o Estatuto do Jornalista, o Regulamento da Carteira Profissional, a Lei de Imprensa, a Lei da Televisão, a Lei da Rádio, a Lei do Serviço Público de Rádio e Televisão, Código Civil, o Código Penal, entre outras leis que balizam ou influenciam a actividade dos média. Não é por aqui que a porca torce o rabo.
O problema está (como estou a tentar explicar) na dependência económica dos jornalistas, condição que se agrava cada vez mais à medida que a legislação liberaliza as relações laborais nas empresas. Sendo mais fácil despedir, é muito mais fácil condicionar a liberdade de expressão.
O que neste momento se passa, com a excessiva concentração dos médias – cada vez há menos patrões – é uma convergência da ingerência das administrações nos conteúdos publicados ou emitidos com a auto-censura dos jornalistas que têm medo de perder o emprego, o que resulta num jornalismo doentio, politicamente dirigido. E mau jornalismo significa democracia empobrecida.
Assim se cala a malta.

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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