Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











quarta-feira, junho 17, 2009

100 anos

Não liguei patavina ao Dia da Força Aérea que se comemorou no passado sábado. Tinha até recebido um “convite” via email para ir assistir às acrobacias à beira Tejo, mas não me apeteceu sair de casa para me meter em apertos e engarrafamentos e chatices para arrumar o carro e preocupações para não perder nenhum miúdo na multidão. Não fui.
Mas gostei que outros tivessem ido. Acho que a Força Aérea merece o meu carinho, quanto mais não seja porque é o ganha-pão de um bom amigo.
Ora, foi esse “meu” Major quem me enviou uma série de fotos respeitantes ao festival e que não resisto em publicar. Publico-as mais o texto do email dele.

“Nunca fui muito apreciador do género de cinema deste homem. Mas tem filmes maravilhosos. E é um homem notável.
E deu-me um prazer enorme ver o entusiasmo de criança que pôs nisto. Uma aventura que aceitou de peito aberto. Aos 100 anos. Os mesmos da aviação em Portugal. E foi voar num avião com 50 anos. E chegou fresco como uma alface.
Durante o almoço (antes do voo) onde bebeu uns belos copos de tinto, confidenciou-me como se fosse um grande segredo:
- Sabe, eu não tenho medo de envelhecer.... O meu medo é ficar dependente de alguém....”








E parabéns à Força Aérea.

Sustentabilidade

Todos pensamos em deixar um planeta melhor para nossos filhos...
Mas, porventura, deveríamos pensar em deixar filhos melhores para o nosso planeta.

terça-feira, junho 16, 2009

A propósito do TGV




Escreve o director do Expresso, no Twitter:



@HenriquMonteiro política tb é manter as clientelas satisfeitas. O incumbente quer satisfazer a sua, mas o desafiante tb e por isso quer adiar.


Compadres


Irritou-me ouvir o governador do Banco de Portugal admitir ter sido ingénuo perante as “habilidades” do banqueiro Oliveira e Costa. Não pela ingenuidade em si mesma, mas pelo que ela revela. É que tanto um como outro são membros dessa casta que tomou o poder económico e político nas mãos e que faz deste país uma cosa nostra, onde só eles e os seus filhos se dão bem.
Gestores, empresários, banqueiros, engenheiros, advogados e outros que tais, formam um círculo fechado onde coexistem diferentes grupos políticos que se encaixam uns nos outros, num sistema de geometria variável consoante o sucesso relativo que vão tendo a convencer o eleitorado a votar neles.
Olhando para a maioria dos partidos políticos, percebemos que as elites dirigentes não são mais do que grupos familiares ou de amigos. Amigos de longa data, muitos desde os bancos da escola primária ou secundária, ou filhos de famílias que comungam interesses financeiros ou outros. Não é por acaso que as filhas de uns casam com os filhos de outros, gerando futuros políticos de confiança genética a toda a prova.
Não foi ingenuidade, senhor Vítor Constâncio. Foi compadrio.

segunda-feira, junho 15, 2009

Moussavi não é nome de flor


É verdade que o que se passa no Irão cheira a falcatrua eleitoral, mas não basta à oposição dizer que houve batota. Será preciso comprová-lo e julgo que isso está longe de ter acontecido. Durante a campanha eleitoral, se os comícios do principal adversário de Ahmadinejad tinham muita gente, os do presidente candidato também… e, mesmo agora, apesar das manifestações de protesto atraírem muita gente, não julgo que o número seja revelador de que a maioria da população está a favor do protesto. O que mais indicia a falcatrua é a reacção musculada das autoridades. Quem não hesita em bater é porque não tem outros argumentos. As cacetadas policiais revelam a verdadeira natureza dos dirigentes políticos iranianos. Mas nada disso basta para reconhecermos o senhor Moussavi como merecedor de crédito.
Um tipo que foi primeiro-ministro do Irão nos anos 80 devia levantar algumas suspeitas, mas como para o Ocidente vale tudo para deitar abaixo Ahmadinejad, o senhor Moussavi passa a ser apresentado como democrata de longa data. Mas não é bem assim… lembro que quando esse senhor foi pau mandado dos Aiatolas, a repressão sobre o povo não teve limites. Não lembro apenas as perseguições políticas, os assassinatos. Lembro que foi ele quem reintroduziu a pena de morte e os castigos corporais na via pública para quem não respeitasse a sharia (lei religiosa). Coisas simples, como sexo fora do casamento, consumo de alcóol ou homossexualidade, passaram a ser crime. O Islamismo passou a ser religião do Estado e todas as outras foram proibidas. Marxistas, católicos, judeus e laicos foram fuzilados. As mulheres foram proibidas de usar maquilhagem ou mini-saias, e ouvir música rock ou rap passou a ser razão mais do que suficiente para levar gente para a cadeia.
Talvez Moussavi tenha mudado, entretanto. Talvez Mousavi tenha ganho as eleições, mas eu não punha as mãos no fogo por ele.

Ainda vou ter um amigo na secretaria de estado do ambiente


"Um projecto do tipo da AD (Aliança Democrática) de Sá Carneiro, no qual o PPM participou activamente, é o modelo que mais contribuirá para a estabilidade e progresso do país" – diz o meu amigo Fred, cabeça-de-lista do PPM nas últimas eleições europeias.
O PPM oferece-se para representar o papel que cabe aos Verdes na coligação CDU.
Não sei é se a dona Manuela gosta de alface.

domingo, junho 14, 2009

Posto de observação - 1


Não digo que o PS não possa vencer as próximas eleições legislativas, mas que vai ser muito difícil contrariar os ventos de mudança que surgiram das eleições europeias, lá isso vai.
Nos últimos 4 anos, o PS tratou mal toda a gente, incluindo o seu eleitorado mais fiel. Tal como Paulo Pedroso diz, numa entrevista publicada hoje no Correio da Manhã, as reformas levadas a cabo eram necessárias (até a oposição da direita o dizia…), “mas o governo não pode é tratar o eleitorado como se fosse dispensável”.
Percebe-se o que Paulo Pedroso quer dizer: não se governa sempre com a intenção de angariar votos, mas não é possível governar sempre contra tudo e todos. E foi isso que Sócrates fez, nomeadamente ao assumir a opção “beligerante” face aos sindicatos. O que este governo PS fez, podia ter sido feito por qualquer governo de direita, sem espanto.
O governo fez de conta que a luta de classes é um cenário da Guerra Fria e que, hoje, não faz sentido continuar a dar relevo à acção sindical. Um governo socialista deveria ter tido um papel nivelador na desigualdade existente entre patrões e trabalhadores, mas decidiu promover um novo Código de Trabalho que cava ainda mais essa diferença, liberalizando os despedimentos. Na verdade, Sócrates seguiu as pisadas de Cavaco que, via Bagão Félix, deu inicio à chamada “flexibilização” nos anos 90. O patronato sempre disse que as leis protectoras do trabalhador são contrárias ao desenvolvimento, porque afugentam os investidores. Na verdade, o que eles querem dizer é que essas leis afugentam os investidores que não têm qualquer escrúpulo social. O PS nunca devia ter pactuado com isto.
Hoje, vemos bem como a classe média laboral está desamparada, desempregada, sem capacidade para cumprir com os compromissos que lhe foram impostos pelo sistema: a escola privada dos filhos, a prestação da casa própria ou a prestação do carro. Hoje, Portugal é o país onde existem as maiores desigualdades salariais na Europa, entre o que ganham os gestores (onde não há qualquer tecto salarial) e o salário proposto aos restantes trabalhadores (que é cada vez mais baixo). Este fosso salarial atinge dimensões escandalosas mesmo no sector empresarial do Estado, onde seria mais natural haver algum comedimento nesse tipo de atrevimentos. Mas não há.
Hoje, vivemos num país onde desapareceu a escolha de uma profissão como realização profissional… As pessoas procuram uma carreira preocupadas, apenas, com o sucesso social e financeiro, o que, ironicamente, na actual crise, é cada vez mais difícil.
Para vencer as próximas eleições, o PS teria de alterar este estado de coisas. Não me parece que haja tempo para tarefa tamanha e não sei se o eleitorado vai continuar a fiar-se em promessas eleitorais.
A oposição já se prepara para regressar ao poder. Ainda hoje, no Diário de Notícias, Paulo Rangel confirma um provável cenário de acordo pós-eleitoral entre o PSD e o CDS, para formar um governo de coligação.
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sábado, junho 13, 2009

Apagão


Ontem, nos Estados Unidos, mais de 2 milhões de lares viveram uma noite diferente: não conseguiram ligar a televisão. Ou por outra, ligaram mas nada deu na pantalha. A situação vai durar ainda algum tempo a ser resolvida e só daqui a uns meses poderemos ter a certeza das consequências deste apagão televisivo nos índices demográficos das regiões mais afectadas.
Não foi nenhum acto terrorista, apenas uma imposição legal que obrigou ao início das emissões em sinal digital. As tradicionais antenas deixaram de funcionar, a não ser que os utentes tenham adquirido um descodificador para converter o sinal analógico em digital.
O governo americano tem um programa de ajuda financeira para esta fase de adaptação dos utentes à nova tecnologia, mas os 40 dólares de financiamento parece que não chegam para comprar o descodificador…
Cerca de 1800 estações de televisão foram afectadas por esta transição tecnológica.
Em Portugal também estamos à beira de um evento idêntico (o apagão televisivo), já que o Estado (através da ERC) torpedeou o concurso para a atribuição do 5ºcanal generalista (lembram-se?) e não me parece que alguém queira gastar dinheiro para comprar novos equipamentos de recepção do sinal de televisão para continuar a ver a mesma televisão que já vemos. É verdade que em Portugal a Lei diz que a fase transitória pode ir até 2012… mas a PT está em marcha acelerada para dar início às emissões digitais até ao fim deste ano.
A propósito disto (do 5ºcanal), soubemos que um dos concorrentes interpôs uma providência cautelar para “congelar” a decisão da ERC e, assim, impedir que o governo pudesse avançar com novo concurso sem antes o tribunal se pronunciar sobre o modo como o anterior foi anulado. Mas isto foi em Abril, se a memória não me falha e nunca mais se ouviu falar do assunto. Quem sabe o que o tribunal decidiu sobre a providência cautelar? Nenhum OCS pega no assunto, excepção honrosa da revista Telecabo, o que revela bem o apagão que por aí vai sobre isto…

Lado-a-Lado



Às vezes vejo o Jornal das 9 da Sic-notícias. Trabalhei uns anos no antigo Jornal das 9 do canal 2 da RTP, que foi uma escola de profissionalismo que marcou quem por lá passou, apesar de algumas malfeitorias que por lá se fizeram. Também o Mário Crespo tem alguma nostalgia desse tempo e sei que é por isso que a Sic-notícias recuperou esse título que, entretanto, a RTP estupidamente deixou de utilizar.
Este Jornal das 9 feito em Carnaxide é um espaço banal de informação. É claro que o savoir faire do Mário Crespo disfarça um pouco a debilidade da redacção, mas não suprime a falta de criatividade, a agenda sem surpresas, que caracterizam hoje a produção da informação do grupo Sic. Além disso, o Jornal tem desequilíbrios difíceis de aceitar. Por exemplo, às sextas-feiras o espaço de debate chamado de Frente-a-Frente é abrilhantado pelas participações de um militante do CDS e outro do PC. A ideia é ter um tipo de esquerda a defrontar outro da direita, mas quando estão os dois na oposição a coisa não funciona. E ontem foi muito curioso assistir ao “debate”. Quando o CDS dizia mata, o PC respondia esfola. Fartaram-se de bater no ceguinho (ou seja, no governo) e a mediação do Mário resumia-se a um sorriso beato. Aquilo não é um frente-a-frente. Devia-se intitular antes lado-a-lado.

sexta-feira, junho 12, 2009

Galáctico, de facto






Cristiano Ronaldo não tem culpa da estupidez dos outros. Se há quem pague 90 e tal milhões de euros pela sua transferência, o que pode ele fazer? Se há quem lhe queira pagar 25 mil € por dia, para ele jogar à bola… o que há-de ele fazer senão receber o dinheiro e gastá-lo o melhor e o mais depressa que puder? Logo na primeira noite, deve ter gasto uma pipa de massa, porque putas daquelas saem caríssimas.

As razões da abstenção (2)


Diz Baptista-Bastos, no Diário de Notícias:



"É verdade que o Bloco subiu, o PCP aumentou o número de votantes, e o CDS sacudiu a letargia com a qual desejavam amortalhá-lo. Mas as coisas estão rigorosamente na mesma: elementares e antigas. A mesa está posta para os mesmos. E não é preciso restaurar a frase de Lampedusa; basta reler, por exemplo, o "Portugal Contemporâneo", do Oliveira Martins, para se entender quem manda e sempre aqui mandou."



8


Revelar as oito metas a alcançar antes de morrer, foi o desafio que recebi da Isabela Figueiredo.
A ordem é aleatória:
1- Ensinar aos meus filhos os conceitos de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, para que eles possam viver em plenitude e com sabedoria.
2- Viajar muito, sempre e, antes do fim, largar amarras para as últimas dez voltas ao Mundo.
3- Viver o suficiente para ver os miúdos crescidos.
4- Nunca perder a capacidade de me indignar.
5- Nunca perder a capacidade de me apaixonar.
6- Nunca perdoar a quem não merece perdão.
7- Voltar a realizar-me profissionalmente.
8- Continuar a estudar.

Não repasso a ninguém. Quem quiser seguir esta corrente terá de tentar nos outros links propostos n’ O Novo Mundo.

quinta-feira, junho 11, 2009

Abstenção, causa e consequência

Cavaco Silva, no discurso do 10 de Junho, em Santarém:

"...a abstenção deve fazer reflectir os agentes políticos”, já que, “a confiança dos cidadãos nas instituições democráticas depende, em boa parte, da forma como aqueles que são eleitos actuam no desempenho das suas funções”.

Caras de cú...

Nos dicionário da língua portuguesa, a palavra abstenção significa a recusa ou desistência voluntária de um direito político ou social ou de participar numa eleição. Ou seja, trata-se de um acto consciente que implica uma tomada de decisão. Não se trata, portanto, de uma atitude passiva ou negligente, o que não significa que parte dos abstencionistas não o seja.
Na verdade, a abstenção não tem qualquer tipo de influência no acto eleitoral, onde só contam os votos entrados nas urnas. Mas o mesmo se poderá dizer dos votos brancos ou nulos que também não têm qualquer tipo de validação. Abstenção e votos brancos ou nulos apenas contam para a estatística e, talvez, para a consciência dos dirigentes políticos. E contam de modo igual. De igual modo podem ser considerados veículos de protesto, já que incorporam a aparente vontade dos eleitores em não votar em qualquer um dos candidatos presentes.
Do meu ponto de vista, considero que a abstenção ou votar branco ou nulo, são expressões de protesto mais válidas do que, por exemplo, o voto em candidatos excêntricos, como foi o caso de Cicciolina, uma actriz porno que conseguiu ser eleita em 1987 para o Parlamento italiano. Uma mulher política com uma performance muito apreciada pela Democracia (link). Mais recentemente, outra estrela da pornografia, Milly D'Abbraccio, concorreu para o Parlamento italiano, numa campanha onde exibia o rabo com a frase «Basta destes caras de c...». Mas quem tem um primeiro-ministro chamado Berlusconi já está habituado a tudo.
Em Inglaterra, a vencedora do concurso Miss Grã-Bretanha 2008 decidiu disputar uma vaga no Parlamento, para “dar mais glamour” à House of Commons… a ruiva Gemma Garrett foi candidata pelo Partido Beauties for Britain (Partido Beldades para a Grã-Bretanha). Os ingleses, que infelizmente não são italianos, não elegeram a pequena.
E o que dizer da candidatura do macaco Tião, um chimpanzé do Zoo do Rio de Janeiro que foi proposto como candidato para as eleições autárquicas do Rio em 1996… o chimpanzé recebeu 9,5% dos votos expressos nas urnas, qualquer coisa como 400 mil votos. Foi o 3ºcandidato mais votado, teria tido direito a um lugar na vereação, mas o Tribunal Eleitoral brasileiro considerou nulos os votos expressos a favor do bicho. Uma pena, Tião tinha um sorriso tão bonito…

As razões da abstenção



Por António Barreto:


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“A sociedade e o estado são ainda excessivamente centralizados. As desigualdades sociais persistem para além do aceitável. A injustiça é perene. A falta de justiça também. O favor ainda vence vezes demais o mérito"...



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E eu assino por baixo.

quarta-feira, junho 10, 2009

O estado a que isto chegou...



Na TSF, esta manhã, ouvi a jornalista perguntar a Vasco Lourenço se a homenagem a Salgueiro Maia não era um acto reparador de justiça, embora tardio… Vasco Lourenço respondeu que há erros que não têm emenda possível. Para o antigo capitão de Abril e actual presidente da Associação 25 de Abril, as injustiças que se exerceram sobre Salgueiro Maia em vida, não podem ser reparadas agora. É tarde demais. Mas nunca é demais lembrar que Cavaco Silva, quando era primeiro-ministro, há precisamente 20 anos, recusou uma pensão ao capitão de Abril, enquanto a concedeu a dois antigos agentes da PIDE.
Na madrugada de 25 de Abril de 1974, na parada da Escola Prática de Cavalaria, em Santarém, o capitão Salgueiro Maia falou assim aos soldados: "Há diversas modalidades de Estado, os estados socialistas, os estados corporativos e o estado a que isto chegou! Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos. De maneira que quem quiser, vem comigo para Lisboa e acabamos com isto. Quem é voluntário sai e forma. Quem não quiser vir não é obrigado e fica aqui." Foram todos os 240 homens que ali estavam. E fizeram uma Revolução.

Sr. Comendador





Entre os condecorados deste 10 de Junho, há pelo menos um que merece a distinção. Chama-se Alfredo Neres e é padre missionário, Comboniano. Conheci-o no norte do Congo, em Bondo. Já aqui escrevi sobre ele. Convido-vos a reler estes três posts - primeiro, segundo, terceiro - escritos em 2006, mas que revelam quase tudo o que sei sobre Alfredo Neres. Gostava de o ver no meio dos figurões (ex-ministros, almirantes, artistas da moda, catedráticos e outros doutores) que com ele vão receber a comenda. Tímido, meio desajeitado, Neres vai suar as estopinhas e desejar estar lá no mato, entre os seus, que já há muito tempo lhe dispensaram o merecido reconhecimento e amizade.

Farsolas


Cavaco Silva não promulgou o Decreto nº 285/X da Assembleia da República, que altera a Lei n.º 19/2003, de 20 de Junho, que regula o regime aplicável ao financiamento dos partidos políticos e das campanhas eleitorais. A rejeição presidencial contraria um voto unânime do Parlamento. Nenhum partido votou contra este Decreto e, espantem-se… agora quase todos se agacham perante o veto. Se não estou errado, apenas o PC continua a dizer que este Decreto vinha substituir uma Lei má e que ninguém respeita.
O financiamento dos partidos políticos sempre foi um dos calcanhares de Aquiles do regime. Julgo que nenhum partido cumpre a Lei a preceito, principalmente os partidos do poder, que gastam rios de dinheiro em cada campanha eleitoral e se amancebam levianamente com os donos do capital.
Sempre se ouviram rumores sobre os tortuosos caminhos do financiamento partidário. E, na verdade, não é raro ver dirigentes partidários dividirem o seu tempo e competências com empresas de construção civil, empresas financeiras, além das empresas do sector empresarial do Estado. Acabar com este tipo de suspeição é urgente. Esta nova Lei votada na Assembleia da República alargava o raio de acção dos partidos na recolha de fundos. Ou seja, não acabava com os eventuais conluios perniciosos entre o poder executivo e os donos da massa, mas tornava o funil menos apertado e, portanto, eliminava a necessidade dos partidos utilizarem métodos ilegais para se financiarem.
Cavaco disse que era “inoportuno”, face à situação de crise em que vivemos, permitir uma vida desafogada aos partidos enquanto o povo continua a apertar o cinto. Trata-se, como é óbvio, de uma sentença farsola… porque, como é bom de ver, os partidos continuarão a financiar-se onde for preciso, continuando a vender favores e benesses.

terça-feira, junho 09, 2009

A bomba, um sorriso




Os atentados bombistas já fazem parte do quotidiano e isso retira-lhes capacidade de se tornarem notícia… é o caso do que se passa no Iraque ou no Afeganistão. Ao fim de tantos anos de conflito já quase não sabemos o que por lá se passa, embora pouco tenha mudado. Mas, volta e meia, lá vem um estilhaço de mais uma bomba cravar-se na alma… Vem isto a propósito do atentado que destruiu o Pearl Continental, o melhor hotel de Peshawar, uma cidade paquistanesa próxima da fronteira com o Afeganistão. Nos dias quentes da invasão americana, o Pearl Continental foi poiso obrigatório para todos quantos andavam por ali em reportagem ou a tentar entrar no Afeganistão. Foi lá que vi pela última vez uma camarada de trabalho que, dias depois, atravessou a fronteira afegã e morreu assassinada por assaltantes na estrada de Jalalabad.
Foi no hall do Pearl Continental que a Maria Grazia me sorriu, naquele dia. Foi esse sorriso que esta bomba me trouxe de novo.

Pó eleitoral

















Debate na RTP sobre o futuro próximo deste país, depois das eleições de ontem. Um debate muito esclarecedor. Em representação do PS e do governo, o ministro Santos Silva, quando confrontado com a necessidade do PS se aliar com algum dos outros partidos da esquerda, revelou bem o cisma que divide a esquerda ao apelidar de não-democráticos o BE e o PC… Ou seja, com uma demarcação artificial e espúria, arrogante, o PS deita a perder qualquer possibilidade de se ter um governo de coligação de esquerda, pela primeira vez desde o fim da I República. Santana Lopes e Bagão Félix rejubilaram.














Quanto a atribuírem algum significado, político ou sociológico, aos 62% de abstenções ou aos 6% de votos nulos e brancos, quase nada se disse. Ou seja, as the show must go on, fingem que aquilo não foi nada e toca a andar que prá frente é que é o caminho. Julgo mesmo que foi o único item da discussão em que estiveram todos de acordo, do CDS ao PC.














Outro pormenor triste, foi a relutância revelada pelo BE em se assumir como "partido de poder". Não se percebe muito bem, então, o que andam lá a fazer, se não querem ser governo. De que serve votar neles?
Estes dirigentes de partidos políticos teimam em não perceber que a governabilidade do país está em risco. Continuam a agir como se nada mais houvesse para além da alternância no poder entre o PS e o PSD, com apoios de geometria variável no Parlamento consoante o oportunismo político. Acho que estão muito enganados.

segunda-feira, junho 08, 2009

60% incomoda muita gente


Julgo que não falam a sério os que dizem que quem não foi votar são uns calaceiros que se estão a marimbar para tudo e todos. Não me parece razoável considerar que 60% da população com capacidade eleitoral se encaixa nesse perfil de cidadão. Alguns talvez… mas poucos, seguramente.
Se as pessoas não foram votar foi porque consideraram que não se tratava de um assunto relevante para o futuro da colectividade onde, naturalmente, eles se inserem. E se consideraram as eleições irrelevantes, não se lhes pode deitar as culpas em cima. Talvez a elite dirigente tenha alguma responsabilidade nisso, não acham? Talvez a vidinha ande numa merda tal, que já nada importa muito. Talvez a cifra de 800 mil desempregados tenha alguma coisa a ver com isso, não acham? Talvez o salariozinho de 500 € tenha alguma coisa a ver com isso, não acham? Talvez a falta de opções políticas credíveis tenha algo a ver com isso, não acham?
60% de abstencionistas e 4% de votantes que anularam o voto… para denegrirem o significado do não voto, alguns tentaram dignificar o voto nulo ou branco. Dizem que essa sim, é a opção de protesto válida para quem não encontra em quem votar. Curiosamente, aqui há uns anos, dizia-se que os votos nulos eram devidos à ignorância das pessoas, ao analfabetismo – as pessoas não sabiam ler e não se conseguiam esclarecer. Ou, então, eram os velhos mais a Alzheimer que lhes fazia tremer a mão e falhar o quadrado onde quereriam riscar a cruz… Agora já não, os votos nulos são todos por convicção política. Será que não haverá uns comprimidos para tratar a arrogância intelectual?

A abstenção

Não percebo as críticas a quem decidiu votar abstendo-se. A abstenção é um sentido de voto tão válido como outro qualquer. Na Assembleia da República, por exemplo, quando os legisladores votam, o senhor presidente pergunta, sempre no mesmo tom cordato, “quem vota a favor?”, “quem vota contra?” e “quem se abstém?” , não apontando o dedo aos abstencionistas. Se a decisão de se abster é válida para um deputado, porque não para o cidadão comum?

Dizem-me que não votar é burrice, falta de inteligência, deixar que outros decidam por mim... e muitos dos que o dizem, em eleições anteriores votaram "inteligentemente" no PS ou no PSD ou noutro partido qualquer, o que foi fantástico e deu um resultadão, como estamos todos a ver, de resto. Ir votar apenas por uma questão de fé, tenho pena mas não está (deixou de estar...) nos meus princípios.

A abstenção não é necessariamente um sinal de desinteresse. Mas é, com toda a certeza, um perigoso sinal de rejeição.


domingo, junho 07, 2009

60%

Vencemos, nós os que decidimos não votar como forma de protesto pelo triste estado a que isto chegou… Ninguém teve mais votos que nós. Quando digo nós, falo de mim e dos mais de 5 milhões de portugueses que não pactuaram com o que nos era proposto: encarneirar mais uma vez, fingindo acreditar que os eleitos se iriam preocupar connosco depois de eleitos. Dirão que eles foram eleitos na mesma e que nós não contribuímos para esta escolha democrática. Na verdade, 60% do eleitorado revelou vontade de castigar os protagonistas do teatro político e isso é uma opção com profundo significado político. Pouco interessa se o PS leva 7 ou 8 deputados para o Parlamento Europeu ou se o PSD tem mais um ou mais dois que o comparsa político ou se o Bloco ultrapassou o PC ou se o CDS sobreviveu a mais uma cabala montada pelas agências de comunicação ao serviço sabe-se lá de quem… Nada mudará na nossa vida, mas eles tomaram consciência do ostracismo em que estão envolvidos e temem as consequências disso. De uma maneira ou de outra, todos se referiram ao problema que a abstenção representa e pode ser que, desta vez, essa preocupação não se esfume ao terceiro dia depois das eleições.

sábado, junho 06, 2009

Depois de muito reflectir... decidi votá-los ao desprezo


Pela primeira vez, não vou votar. Desta vez, decidi não legitimar ninguém. Ninguém dirá que fala em meu nome. Em meu nome, falo eu. E se muitas vozes se juntarem à minha, certamente que seremos escutados. Estas eleições europeias podem ser, realmente, importantes. Basta que a população dê um veemente sinal de protesto. Não votar ou votá-los à indiferença, é um dos sinais de protesto possíveis. Se eles forem eleitos por uma minoria ridícula de votantes, poderão lá ficar com os tachos milionários, mais a vaidadezinha toda, mas o ridículo vai-se-lhes agarrar à pele. Talvez assim, sem uma real legitimação democrática, os senhores deputados europeus e a Comissão e os governantes nacionais e os políticos em geral, passem a ter vergonha na cara e comecem a zelar pelos interesses e pelo bem-estar do povo. O não voto é um aviso. O próximo passo poderá ser algum tipo de insurreição civil. Eles sabem e têm medo disso. E se a abstenção nas eleições europeias é já um dado adquirido, a possibilidade desta atitude se repetir nos próximos actos eleitorais tem um significado político que os políticos não poderão deixar de levar em conta. Quem julga que um regime, qualquer regime, pode sobreviver sem adesão popular engana-se.
A actual crise económica tem pai e mãe. É filha do adultério entre o capitalismo e a democracia. Foram os tipos em quem temos andado a votar que o permitiram, que beneficiaram de todos os logros e de todas as impunidades. Votei neles… mas agora não. Dizem-me que podia votar naqueles que nunca tiveram participação nas malfeitorias do meu desagrado. Podia… mas votar em quem quer que seja é legitimar todo o processo político, é legitimar quem vence mesmo que não tenha sido esse o sentido do meu voto.
É importante dar um sinal de que não queremos continuar por este caminho. Não queremos continuar a pagar as asneiras dos outros, as falcatruas dos outros, os desfalques. Desta vez, com o meu voto não contam.

sexta-feira, junho 05, 2009

Acerto de contas, em Bissau

Morreu mais um, lá em Bissau… Baciro Dabó, um tipo que congregou ódios durante toda a sua vida e que só por sorte viveu até esta madrugada. Foi um dos fiéis de Nino Vieira, um dos torturadores do 1º regime de Nino, entre 1980 e 1998, ocupou vários lugares no aparelho de Estado, sempre ligado à segurança do Estado. Quando Nino caiu, derrubado pela rebelião de Ansumane Mané, o bom do Baciro viu a vida mal parada. Foi detido mas nunca julgado pelos muitos crimes de que era acusado pela vox pop. Quando Kumba Yala venceu as eleições, Baciro foi recuperado e voltou aos lugares que tão bem conhecia na segurança do Estado. Quando Nino regressou e venceu as eleições, Baciro sentiu-se certamente redimido. Continuou a fazer das suas, os velhos hábitos não se perdem com facilidade. Esta madrugada, cortaram-lhe o pio. Literalmente. Com 4 balas.
Lamento que o processo político guineense continue a evoluir desta forma. Poder-se-á pensar que os “maus” se estão a eliminar uns aos outros e que acabarão por morrer todos. Talvez morram quase todos, mas haverá sempre um último a sobreviver. Normalmente é o pior de todos.

quinta-feira, junho 04, 2009

Como o Le Monde fala de nós


Au Portugal, les "recibos verdes" incarnent l'extrême précarité du travail – titula hoje o jornal francês Le Monde, revelando uma originalidade vergonhosa que em França não existe.
Não que em frança não exista muito trabalho precário, temporário, em part-time, mas o que não existe é um regime laboral onde o trabalhador não só está completamente desamparado face às prepotências patronais como abandonado pelo próprio Estado, não beneficiando da maioria dos direitos que cabe a um assalariado.
Em França não existem recibos verdes. Nem de cor nenhuma. O que existe é o chamado CDD – contrato de trabalho a termo – que pode ser celebrado por apenas um dia. Se uma empresa precisa de alguém apenas por 1 dia, ou para suprir uma falta pontual, celebra esse contrato de trabalho com o trabalhador e, assim, tanto a empresa como o trabalhador pagam os respectivos impostos. A empresa cumpre com a sua responsabilidade social, o trabalhador vai descontando para a reforma, para o fundo de desemprego, para a segurança social. Trata-se de um regime bastante mais equitativo que esta escravatura a recibo verde a que estamos sujeitos em Portugal.
O artigo traça um panorama negro para os trabalhadores portugueses : « pour le Portugal plus de chômage, plus de précarité, moins de pouvoir d'achat, le tout avec un déficit public et une dette creusés. »

quarta-feira, junho 03, 2009

Debate


Vai passar sem ninguém ver, porque o canal 2 está longe de ser a 1ªopção do telespectador típico português, mas o assunto é interessante. Por isso fica aqui o aviso: hoje, lá plas 11 e meia da noite, no programa da responsabilidade editorial do Clube de Jornalistas, debate-se a alegada e propalada degradação do jornalismo português, nomeadamente o jornalismo televisivo tablóide produzido nos estúdios de Queluz.
Sentam-se à mesa, os jornalistas Francisco Sarsfield Cabral (um veterano da classe, julgo até que já estará reformado…) e João Miguel Tavares (jovem escriba de um diário da capital e que há tempos alimentou uma polémica com Miguel Sousa Tavares (ex-jornalista e actual comentador no Jornal Nacional da TVI) e… (mas que bela ideia!) o bastonário Marinho Pinto. Pena é que, segundo me dizem, a Manuela Moura Guedes não tenha aceite o convite para participar… então sim, seria imperdível.

Bola na trave


O discurso de Figo (igual ao de outras celebridades europeias) foi encomendado pelo Parlamento Europeu e afirma que “não há democracia sem eleições”, o que parece ser uma verdade absoluta. Mas não é. Para além de pensar que é possível organizar democraticamente uma sociedade sem necessariamente recorrer a eleições, a democracia implica outros requisitos. Também podemos afirmar que não há democracia sem justiça social… o que obrigaria a uma distribuição diferente da riqueza, a uma verdadeira igualdade de oportunidades independentemente da origem, religião ou do género, etc. E a liberdade...

Na verdade, os direitos de cidadania não podem ser reconhecidos apenas quando é necessário que a malta vá lá por o voto na urna. Figo... julgo que, desta vez, a bola não entrou.

terça-feira, junho 02, 2009

Seremos todos tablóides?


O avião caiu e logo jornais, rádios e televisões se preocuparam em saber se havia passageiros portugueses a bordo. Morreram 228 pessoas, mas isso não basta. É preciso subir os índices de emoção e ver se temos mais proximidade com a catástrofe. Quanto maior for essa proximidade melhor, porque se torna mais fácil titular com parangonas, encher páginas e tempo de antena mesmo sem haver nada de verdadeiramente noticioso.
Chegámos a ter um português na lista de passageiros, notícia que foi desmentida rapidamente. Nisso, os angolanos têm mais matéria noticiosa. Tivemos de nos remediar com um primo de D.Duarte…

domingo, maio 31, 2009

Money, money, money



É com algum espanto (ainda não perdi essa capacidade…) que noto como quase toda a gente se mostrou impassível perante aquela notícia de que Cavaco Silva e a filha tinham ganho quase 300 mil €, numa compra e venda de acções da SLN.
É que acho que se trata de uma quantidade considerável de dinheiro e não percebo como se conseguem fazer negócios assim sem se ter uma boa fonte de rendimentos. É que é preciso ter dinheiro para investir. É por isso que os pobres não jogam na bolsa nem têm parte em sociedades financeiras.
Se Cavaco nunca tivesse enveredado pela política, se se tivesse mantido como mero professor universitário, teria ele tido dinheiro e os contactos pessoais para investir nesses negócios tão lucrativos?
Não pensem que estou a insinuar qualquer envolvimento do actual presidente nos esquemas esconsos do BPN… mas não deixa de ser curioso que um dos artífices desses esquemas, Dias Loureiro, tenha sido um dos compagnons de route de Cavaco no partido, nos seus governos e no Conselho de Estado.

Meninos de rua


É meia-hora de pura magia, como só na rádio feita pelo Fernando Alves…
Vozes de velhotes, memórias de criança. Histórias de velhos meninos de rua, dos seus brinquedos e fantasias. Os arcos, as fisgas, o jogo do lenço, os berlindes, o ringue (“era um jogo que gostávamos muito porque jogávamos com as raparigas”), o pião, a bola, as corridas de carica no lancil do passeio, “como não haviam os brinquedos que há hoje” diz um deles. Era um tempo em que o horizonte não tinha janelas tecnológicas e “brincávamos com a nossa própria imaginação”. Um reviver fabuloso de risos e sorrisos, de liberdade, de esperança que morreu entretanto:
- Eu ia aos ninhos, aos melros.
- Nós nem sabíamos como os ricos brincavam.
- Não tinha 10 tostões para o eléctrico.
- Eu não ia para a rua, que as raparigas eram malcriadas e a minha mãe não deixava.
- Eu adorava ter sido marinheiro.
Brinca enquanto souberes, diz a voz do Fernando Alves, repetindo o ensinamento que colheu ao fazer esta reportagem.
Vou brincar, então. Vou Tirar o carrinho de rolamentos do sótão, chamar o “Naice” que está ali à espera de rabo a abanar, vou levar os abafadores na algibeira. Vou voltar aquele tempo, quando a rua era para brincar.

sábado, maio 30, 2009

Luís Cabral


Um a um, os velhos dirigentes da Guiné-Bissau estão a morrer. Agora foi a vez de Luís Cabral, o primeiro presidente da Guiné-Bissau depois da independência, deposto em 1980 num golpe de estado liderado por Nino Vieira.
Luís Cabral também não era flor de cheiro… e leva na consciência a responsabilidade pela morte de centenas de compatriotas condenados pelo crime de se terem alistado no exército português durante o período colonial.
Mas, enfim… talvez tenha sido o que menos oportunidades teve para fazer mal à Guiné-Bissau.
Luís, irmão de Amílcar, morreu na cama e do mesmo não se pode gabar a maioria dos que com ele protagonizaram a luta pela independência e os primeiros 35 anos de vida do Estado guineense. Lá na Guiné há-de haver quem o chore à sombra de um grande poilão.
Bom seria que os guineenses tivessem aprendido com a sua própria experiência histórica. Mas não me parece.

Bicesse, algumas memórias


Passaram 18 anos. Durante cerca de um mês, caminhei diariamente para a Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril que, em rigor, fica em Bicesse. Não era época de férias, mas a escola tinha sido requisitada pelo governo. Fizeram das instalações um bunker onde só se entrava devidamente credenciado e, mesmo assim, ficávamos na rua, no pátio fronteiro. Felizmente que fazia calor e a nortada do fim da tarde ajudava a refrescar o ânimo de dezenas de repórteres destacados para a cobertura das negociações de paz que ali decorriam entre o governo angolano e a UNITA. Naquela época não havia o hábito de realizar briefings regulares para a imprensa, além de que tanto o governo português como os beligerantes tremiam só de pensar que qualquer palavra dita podia ser mal interpretada. Assim, imaginem a dificuldade de alimentar um jornal televisivo diário (nessa época, trabalhava no Jornal das 9, canal 2 da RTP). Mas a coisa lá foi feita. Tudo terminou no Palácio da Ajuda, onde o Acordo de Paz de Bicesse foi formalmente assinado por José Eduardo dos Santos e Jonas Savimbi.
Foi uma tremenda vitória pessoal de Durão Barroso e a sua rampa de lançamento para a alta-roda da política internacional. Durante semanas a fio, o homem andou de quarto em quarto, de sala em sala, a levar e a trazer papelinhos, recados e sugestões, de um lado para o outro. Reunia em separado com cada uma das partes, escrutinava os possíveis pontos comuns e expurgava as clivagens. UNITA e governo só se encontravam quando se sabia que não se iriam pôr aos murros na mesa. Um trabalho de sapa, que acabou por possibilitar um acordo final. De secretário de estado dos negócios estrangeiros, Durão Barroso rapidamente passou para ministro da mesma pasta, mais tarde primeiro-ministro e, hoje, presidente da Comissão Europeia. Uma notável carreira política que teve início há 18 anos lá em Bicesse… mesmo se esses acordos de paz pouco valeram e a guerra recomeçou em força alguns meses mais tarde, para só acabar de vez em 2002.

sexta-feira, maio 29, 2009

ERC/TVI: um pouco mais do mesmo


Nada de surpreendente, nas reacções de alguns dos que trabalham na TVI, relativamente à apreciação da ERC sobre o Jornal nacional de 6ªfeira. Quando estamos integrados numa equipa, é normal um sentimento corporativo de defesa do grupo, mesmo se em consciência não estamos muito certos das razões que invocamos. Sempre foi assim, aconteceu também comigo noutras circunstâncias, e aprendi que acabamos quase sempre por concluir que a empresa ou os chefes não mereciam esse esforço nem o sacrifício de vestir uma camisola incomodativa.
Acredito que, hoje, a redacção da TVI vive sentimentos opostos. Alguns quererão cerrar fileiras à volta de Manuela Moura Guedes e José Eduardo Moniz, outros, os mais espertos, estarão a fingir que os apoiam e a dissimular a dissidência, os restantes assumirão a atitude de encolher os ombros e limitar o esforço à realização das tarefas atribuídas, distantes do duelo de interesses de que se consideram estranhos. Comum a todos, apenas a necessidade de preservar o emprego e, por isso, poucos estarão verdadeiramente preocupados com o debate em torno da ética e da deontologia.
Pelas razões contrárias, os da TVI dirão que é muito fácil criticar para quem está de fora. E é a mais pura das verdades. E por isso (porque estou de fora) digo que a liberdade de expressão deve ser um dos pilares do Estado de Direito Democrático em que vivemos. É um direito constitucional, mas não é o único… e por maior que seja o interesse público das notícias relacionadas com eventuais manchas no percurso profissional ou político do actual primeiro-ministro, a Constituição também proclama o direito ao bom nome e reputação, à imagem, à reserva da intimidade da vida privada e familiar…
E se é verdade que um órgão de Comunicação Social não deve ser condenado por reportar a verdade, nem a divulgação dessa verdade deve ser considerada atentatória do direito ao bom nome de quem quer que seja, neste caso falta saber, primeiro, onde está a verdade e, segundo, que a Manuela Moura Guedes deixe de se mascarar de justiceira do povo.
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post scriptum: leio às 00h45, no Público online, que o Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas considerou que "os jornalistas não podem substituir a acutilância pela agressividade, e devem permitir que os seus entrevistados expressem os seus pontos de vista com serenidade e não sejam apenas convidados a participar num espectáculo de enxovalho, em que eles são as vítimas".

quinta-feira, maio 28, 2009

Dona de casa


Cuidar da casa – tratar da roupa, confeccionar refeições, lavar loiça, tirar o pó, aspirar, arrumar a tralha espalhada pelos miúdos, dar banho ao bebé, levar os outros à escola, ir buscá-los, escutá-los, brincar com eles – é dose! Agora, que estou com tempo, sou eu quem trato disto tudo. Sempre gostei de cozinhar e de dar uma ajuda nas outras coisas, mas eram tarefas mais ou menos esporádicas e realizadas por afecto, não por necessidade, o que quer dizer que nem sempre ajudava muito… Mas agora posso garantir que elas têm razão, quando proclamam que boa parte da desigualdade de género advém da carga de trabalhos que as mulheres têm em casa, depois de uma jornada no emprego.

Nova tecnologia, problemas velhos

Hoje, às 16h13.

Twitter is over capacity.
Too many tweets! Please wait a moment and try again.

© 2009 Twitter

Decisão sem consequências


Como seria de esperar, a ERC condenou a TVI por má conduta ético-deontológica. Diz o comunicado da ERC, que “em causa estão sete peças de três edições do Jornal Nacional de sexta da TVI, que foram analisadas pelos serviços técnicos da ERC depois de terem sido apresentadas 13 queixas na ERC sobre essas edições do serviço noticioso. Todas as queixas têm como elemento comum o facto de acusarem a TVI de violar deveres ético-legais do jornalismo, designadamente de falta de rigor e de isenção, em peças jornalísticas que apresentam o Primeiro-Ministro ou outras pessoas ligadas ao Governo e ao PS como protagonistas.”
A ERC apreciou 13 queixas que lhe foram dirigidas, uma das quais pelo deputado Arons de Carvalho, entre os dias 16 de Fevereiro e 30 de Março de 2009. Não sabemos se haverá mais queixas do mesmo teor, mas é possível que haja. E, sendo assim, é possível que a TVI continue a levar com cartões amarelos. Só que, neste caso, a acumulação de cartões amarelos não dá direito nem a suspensão nem a expulsão do jogo, ou seja, nada disto tem consequências e a TVI poderá continuar a fazer o que tem feito sem problemas, para além de alguma censura pública.
Tudo isto é bom para as audiências (amanhã, o país inteiro vai estar sintonizado na TVI às 20 horas), pelo menos enquanto não houver uma decisão judicial inequívoca em relação aos problemas que envolvem o primeiro-ministro, nomeadamente o caso Freeport e o caso Cova da Beira, este último ainda por explorar devidamente pela média se o compararmos com o tratamento dado ao Freeport.
Voltando ao contencioso ERC/TVI, é óbvio que perante acusações de falta de isenção e imparcialidade, o Jornal Nacional de 6ªfeira não tem salvação possível. Agora, na minha opinião, pese embora a ERC seja, alegadamente, um órgão independente do governo, não se livra da fama de pau mandado e… são legítimas as leituras políticas sobre as decisões que toma. Não faltarão clamores contra esta decisão condenatória que muitos não hesitarão em apelidar de censória. É por isso que este género de conflito deve ser dirimido na barra do tribunal. Onde os arguidos têm direito a defesa e os condenados direito a recurso.

quarta-feira, maio 27, 2009

Agora, que vem aí o Verão...


Hoje dei comigo a falar com um amigo sobre férias. Acontece que estamos os dois desempregados e, assim, o significado da palavra passou a ser algo absurdo. Dupla ou triplamente absurdo…
Se a palavra for articulada no singular, féria… significa salário, pagamento. Receber a féria, era um termo usado ainda não há muito tempo mas que, hoje, caiu no esquecimento.
No plural, férias… é o tempo durante o qual se interrompe a actividade quotidiana, seja a escola ou o trabalho. É tempo para descansar. Ir de férias é bom. A praia, os passeios, lugares novos, gente diferente, outros cheiros, sabores diferentes, sotaques, idiomas, preguiça.
Pois, nem féria nem férias.

News from Queluz

A Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) deverá deliberar amanhã, na habitual reunião de conselho, sobre as 15 queixas recebidas contra o ‘Jornal Nacional de 6ª feira’, apresentado por Manuela Moura Guedes, na TVI, noticia hoje o Correio da Manhã.
Entretanto, fontes próximas da TVI dizem-me que o director-geral da estação terá desistido do anunciado processo contra o primeiro-ministro. Se isso for verdade, trata-se de um evidente recuo e será curioso verificar se as 6ªfeiras em Queluz passarão a ser mais calmas.
As mesmas fontes relatam um ambiente tenso na TVI, onde muitos jornalistas não se revêem no estilo, forma e conteúdos do Jornal Nacional de 6ªfeira nem… nos métodos e critérios de gestão de recursos humanos que o casal Moniz pratica.
Cá para mim, os patrões espanhóis dispensavam tudo isto de boa vontade. Problemas de sobra já eles têm, e embora a TVI seja um canal rentável, estas perturbações afectam o valor da empresa e é sabido que a Prisa anda a vender activos um pouco por todo o lado, na tentativa de diminuir uma dívida monstruosa à banca que se agravou com o despoletar da actual crise financeira mundial.

terça-feira, maio 26, 2009

Confissão de Oliveira e Costa no Parlamento


RT @vitorcunha: Oliveira e Casca será o Bibi dos bancos?
Mark this: se o Dias Loureiro cumprir um só dia de prisão em Portugal eu como o meu chapéu :)


...

Voltando à “vaca fria”, que é como quem diz, à passada sexta-feira na TVI, quando a Manuela Moura Guedes se engalfinhou com o bastonário Marinho Pinto… não acham estranho que, apesar do assunto ter suscitado enorme interesse (veja-se só o que se escreveu nos blogues e no twitter), os jornais de referência e as rádios e televisões não tenham tocado no assunto?
Alguns dirão que é por nojo, mas eu acho que é por proteccionismo, corporativismo profissional, puro calculismo político porque não se sabe se no futuro não vamos precisar de lhes pedir algum favorzito… e como têm medo de ofender, não dizem nada.

segunda-feira, maio 25, 2009

Na compita eleitoral


Cada vez que oiço alguém do CDS (ou de outro partido qualquer, mas o CDS é quem faz disto bandeira) falar sobre a necessidade de fechar as portas do país à imigração, percebo como a política pode ser um exercício de cinismo.
É tudo mentira, por várias razões, entre as quais a necessidade absoluta de continuarmos a receber mão-de-obra ainda mais barata que a nacional, condição fundamental para as empresas continuarem a ter margens de lucro suficientemente satisfatórias para os interesses dos accionistas e patrões. Normalmente, o imigrante está mais receptivo a trabalhar mais que o estipulado por Lei e por menos dinheiro, o que além de dar maior lucro às empresas, funciona como contrapeso à pressão dos sindicatos nas renegociações salariais sazonais.
Acho razoável dizer que, nesta época de crise financeira em que as empresas dos países industrializados do Ocidente não conseguem competir com o que vem da Ásia, ainda são os imigrantes que garantem alguma capacidade concorrencial em termos de custos de produção…
Acredito que este discurso xenófobo e de exigência de imposição de quotas para a imigração destina-se, apenas, a captar votos. É um discurso para as classes C e D da população (iletrados, rurais, operários), os pobres que têm medo de ficarem ainda mais pobres e que acreditam que são os imigrantes que lhes ficam com o quinhão de terra ou com o apartamento hipotecado, e não o banco ao executar a penhora.

domingo, maio 24, 2009

Maravilhoso Mundo Novo


A notícia já tem 3 dias, mas só hoje a li no Publico online (esta é uma das vantagens da net, poder ler notícias atrasadas sem que o jornal já tenha servido para embrulhar o peixe). Trata-se do propalado aumento de telespectadores subscritores de um qualquer serviço de televisão. Isso é o que diz o título: “Televisão paga superou 2,3 milhões de clientes no final do primeiro trimestre”. Mas, no corpo da notícia, explica-se que não é bem assim, que os serviços de tv por cabo estão a perder clientes, mas que se assiste a uma migração de telespectadores para a oferta de IPTV. E não nos explicam o que diabo é isso da IPTV, que deve ser coisa boa para as pessoas andarem a subscrever esse serviço…
Para quem não sabe, vou tentar explicar: IPTV é televisão fornecida através do chamado “internet protocol”, mas não é webtv. Ou seja, com a IPTV em casa podemos ver o que queremos dentro do naipe de programas que o fornecedor nos disponibiliza. Podemos ver um programa e, em simultâneo gravar outro. Não precisamos de um televisor, basta ter um pc. Além disso, o sistema permite realizar telefonemas e, por exemplo, utilizando uma webcam, podemos estar a ver televisão e ao mesmo tempo estar a falar com alguém no outro lado do Mundo, vendo essa pessoa numa janela que se abre no ecrã. Que eu saiba, a IPTV é disponibilizada em Portugal pela PT e pela Clix, mas pode ser que haja outros fornecedores, não sei.
Julgo que a PT, com o serviço MEO, tem tido bastante sucesso e isso deve explicar o que se diz na notícia que citei acima, quando se refere que a diminuição do número de subscritores da tv por cabo e satélite foi contrabalançada pelo aumento de clientes de “outras tecnologias, como o IPTV, onde se registou um crescimento de 26 por cento”.
Há um maravilhoso mundo novo em tecnologia que nos está a bater à porta. Só precisamos de algum dinheiro para poder usufruir dele.

sábado, maio 23, 2009

A primeira escolha


O Governo anunciou o lançamento de mais uma campanha para publicitar os produtos nacionais, a marca “Made in Portugal”, na tentativa de reanimar o comércio dos produtos nacionais.
Considero a iniciativa interessante mas, na prática, pouco eficiente. O problema é que o mercado nacional está inundado de produtos importados que, na maioria dos casos, nem concorrência têm de marcas nacionais. A indústria portuguesa cada vez produz menos e os empresários preferem remeter-se ao papel de importadores/intermediários do que arriscar na indústria.
Se formos ao supermercado (estive lá esta manhã), as batatas são espanholas, os cereais americanos, o peixe grego, as confecções chinesas, etc. Alguns produtos são fabricados em Portugal, mas sob licença de uma empresa multinacional instalada algures no Mundo, mas estes são os poucos casos em que é possível comprar “Made in Portugal” ajudando a manter alguns postos de trabalho nacionais. Sempre que possível, essa é a minha opção. Não preciso de ser convencido por campanhas governamentais.

A pantalha incandescente

O bastonário da Ordem dos Advogados é um homem sem medo, não tem papas na língua e marra em frente. Ontem, depois de se ter sentido insultado por Manuela Moura Guedes quando, em directo, foi entrevistado no Jornal Nacional de 6ªfeira da TVI, Marinho Pinto contra-atacou e acusou a apresentadora de notícias de praticar mau jornalismo (VIDEO).
A coisa resultou numa peixeirada digna de se ver, um momento alto da história da televisão portuguesa, onde a minha querida Manela revelou falta de lábia para esgrimir com o advogado.
No final, Marinho Pinto acabou por encenar a defesa dos pontos de vista expressos por José Sócrates, palavras que levaram o director-geral da TVI a anunciar publicamente que iria mover um processo judicial contra o Primeiro-Ministro por difamação. Não sabemos se o chegou a fazer, mas gostávamos de saber. E gostávamos de saber, também, se o mesmo vai acontecer agora com o bastonário da Ordem dos Advogados.

quinta-feira, maio 21, 2009

Pormenores


Cheguei às 18 horas em ponto e o auditório da Fundação Mário Soares já estava quase cheio. Consegui um lugar na última fila.
Invocava-se Afonso Costa, emblema da revolução de 5 de Outubro de 1910, várias vezes ministro e chefe de governo durante a I República, político notável cujo pensamento e acção ainda hoje influenciam a nossa vida.
Mas o que acho mais interessante nestas conferências, não é propriamente o desfiar dos acontecimentos marcantes da História, mas os pormenores, as estórias, os tiques dos figurões, as insignificâncias tantas vezes reveladoras.
Mário Soares, por exemplo, confessou que uma das coisas que pensou quando estava a chegar a Portugal, vindo do exílio, logo a seguir ao 25 de Abril de 1974, foi que “temos de fazer isto durar mais do que os 16 anos que durou a I República” e que, aprendendo com os erros de Afonso Costa (que tinha a alcunha do “mata-frades”), ele “sempre procurou evitar um conflito com a Igreja Católica”.
Outro dos oradores, António Reis, lembrou que uma senhora marquesa, casada com um político da época, aspergia o marido com água benta quando sabia que ele tinha estado reunido com Afonso Costa.
Afonso Costa foi um verdadeiro diabo, na óptica da Igreja Católica. A ele se devem as leis do divórcio e da separação do Estado da Igreja, a obrigatoriedade do casamento civil, a proibição de procissões na via pública e, suprema provocação, a abolição do pagamento de pensões às viúvas de padres… mas também a ele se devem as primeiras leis de protecção social, a obrigatoriedade dos seguros contra acidentes de trabalho, a aplicação de um imposto progressivo sobre os rendimentos (quem ganhava mais, pagava mais), etc.
Sabemos como a História se desenrolou. O fracasso da I República deve-se, sem dúvida, à força das forças políticas de direita que levaram avante a contra-revolução de 28 de Maio de 1926. Mas, mais uma vez, há um pormenor revelador das circunstâncias que propiciam os saltos da História, segundo o relato de Fernando Rosas (outro dos oradores desta sessão). No meio de tantas leis republicanas, ninguém se lembrou de revogar a lei que não permitia o voto aos analfabetos. Ora, a grande grande maioria dos operários e camponeses, da população daquela época, eram analfabetos a quem não foi permitido que legitimassem pelo voto o seu apoio às novas políticas republicanas.
Como último pormenor… dizer que já há muito tempo que não me acontecia ser o mais jovem de todos os que estavam na sala.

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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