Na maioria dos casos, o patronato português julga que só pode haver empresas estáveis e produtivas com trabalhadores instáveis, amedrontados e permanentemente ameaçados pelo desemprego. Esse modelo de relação laboral funcionou relativamente bem no início do século passado até ao 25 de Abril de 1974, é o modelo que fez o crescimento dos nossos sectores tradicionais da actividade económica, o têxtil e o calçado, mas é um modelo completamente esgotado. Hoje, as t-shirts e os sapatinhos de design italiano são feitos na China ou na Índia porque, meus senhores, por mais baixinhos que sejam os salários que se paguem a operários portugueses, serão sempre salários muito mais altos que os que recebem os trabalhadores quase escravos desses países asiáticos.
Eu, que percebo pouco de economia e quase nada de finanças… ainda não entendi porque diabo deixámos de ter agricultores e pescadores… actividades que poderiam empregar muitos milhares de pessoas e onde podíamos jogar com vantagem, já que temos o grande lago do Alqueva para regar campos agrícolas e a maior Zona Económica Exclusiva onde quase só pescam barcos espanhóis e franceses. Chateia-me ver tanta água desperdiçada… Ainda hoje comprei no Continente um pargo mulato espanhol, cinco douradas de aquacultura espanholas, uma perca do Nilo (será egípcia?) e um polvo grego. Peixinho portuga só vi carapaus… mas não os achei com boa cara.
Vou a França e à Alemanha e só oiço falar bem da capacidade de trabalho dos operários portugueses que por lá labutam nas metalúrgicas e nas linhas de montagem. Se labutam lá, poderiam fazê-lo aqui… digo eu, não sei. Mas, aqui, só oiço falar na criação de call centers… que raio de coisa se produzirá num sítio desses?... Será isso um serviço exportável? Se calhar é… mas não impede que continuemos a importar 90% do que necessitamos para comer, para vestir, para viver.
Preocupa-me que em Portugal se claudique nas condições laborais. Os jornalistas do
Público e os operários da Auto Europa aceitaram trabalhar por menos dinheiro, mas não acredito que esta crise se vença agravando as condições de trabalho das pessoas… e considero indecente que os capitalistas, que desde sempre acumularam riqueza à custa de quem trabalha, queiram agora que sejam os trabalhadores a pagar uma crise para a qual nada contribuíram.

É neste enquadramento que considero inaceitável que alguns
opinion makers continuem a propalar a ideia de que a legislação laboral portuguesa é muito rígida, restritiva, impeditiva para o desenvolvimento dos negócios. É mentira. Quem já emigrou sabe bem que, por exemplo, em França é muito mais difícil despedir um funcionário do que em Portugal. É claro que esses
opinion makers nunca foram despedidos à pala de um mirabolante processo colectivo de despedimento ou de uma alegada extinção do posto de trabalho..
Nas próximas eleições legislativas, votarei em quem me der garantias de ir tentar mudar este estado de coisas.