Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











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quinta-feira, setembro 21, 2006

Outro furacão

Em 1997 propus ao Director-Geral da SIC a realização de um documentário sobre a travessia do Oceano Atlântico à vela. A oportunidade de atravessar o Atlântico tinha surgido através de um anúncio colocado num expositor da Associação Nacional de Cruzeiros. Tinha entrado em contacto com o dono do veleiro, havia ainda três vagas, para uma tripulação de sete. Tínhamos apenas de comparticipar em pequenas despesas no aprovisionamento. A minha ideia era fazer um documentário-aventura sobre a travessia. A coisa iria passar-se em pleno Inverno…
Largámos de Lagos em meados de Novembro… já com alguns dias de atraso em relação ao calendário previsto. A meteorologia não era nada favorável. Havia frentes sucessivas que vinham de sul para norte, chovia a potes, tudo desaconselhava a saída para o mar. Mas o calendário pressionava-nos. Quase toda a tripulação era gente que tinha tirado férias para embarcar naquela aventura. Tinham um mês de férias. Poderiam faltar, talvez, mais uns dias além disso. Mas não era possível esperar indefinidamente, sob pena de ficarmos sem metade dos tripulantes. De modo que, ao fim de cinco dias de espera, o skeeper deu ordem de largada. E lá fomos enfrentar a borrasca. O mar metia medo. O primeiro dia foi um tormento que, para mim, terminou quando deixei de resistir à agonia do enjoo. Prostrei-me no beliche e deixei-me ficar ali. Nos raros momentos de lucidez, apercebi-me que o temporal desabava sobre o veleiro de 14 metros. Houve momentos em que dei comigo suspenso no ar, entre o beliche e o tecto, quando o barco caía do alto das vagas. Havia barulhos tremendos e cheguei a pensar que o barquito se ia partir. Ressuscitei ao fim de três dias. Comi metade de uma bolacha Maria e senti-me reviver. Apercebi-me então que, de toda a tripulação, apenas três se tinham aguentado satisfatoriamente. O velho John, o skeeper (um verdadeiro lobo do mar), O Zé Santana e o Pedro Laginha. Eles aguentaram o barco em cima de água, mas contaram-me que houve um momento em que eles próprios tinham desistido. Fecharam o barco de modo a impedir ao máximo a entrada de água, recolheram totalmente as velas e deixaram o barco à deriva… contaram-me que o vento tinha chegado aos 120 km/hora e as vagas eram altas como prédios de 7 andares.
Depois do furacão passar, o resto da viagem foi maravilhosa. Demorámos 26 dias a chegar à Martinica, nas Caraíbas.
O documentário? Dei-lhe o título “Navegar”… tinha 40 minutos, em duas partes. Era lindo de se ver. Por várias razões, foi uma história contada com amor. Mas o Rangel considerou que “não fazia o género da SIC” e meteu-o numa gaveta. Em 2001 ou 2002, a Cândida Pinto (quando foi directora da SIC-Notícias) quis exibi-lo na programação de Verão… mas o arquivo não foi capaz de encontrar a 2ªparte… perderam a cassete… acreditam nisto?

segunda-feira, julho 24, 2006

Atravessar o Oceano Atlântico, 1997.

E se acham que nunca atravessei oceanos, estão muito enganados.
Em Novembro de 1997, sete gloriosos malucos, a bordo de um veleiro de 14 metros, largaram de Lagos rumo a Martinica, nas Caraíbas.
Demoramos 26 dias a lá chegar. Tivemos dias esplendorosos e outros menos bons, alguns horríveis… acho que é uma história para contar aqui, também, um dia destes.Foi uma experiência inesquecível. Quando a viagem terminou e pusemos finalmente os pés em terra, o que eu queria mesmo era que aquilo jamais acabasse.
Quando amarramos o veleiro ao cais na Baía de Le Marin, na Martinica, estava inchado de orgulho. Tinha participado numa grande aventura. No cais estavam três crianças. Três meninas, obviamente irmãs. A mais nova teria aí uns 3 anos e as outras talvez 5 e 7. A mais crescida olhou para nós e perguntou-me de onde vínhamos. Respondi-lhe com indisfarçável orgulho que tínhamos acabado de atravessar o oceano, que vínhamos de Portugal. Ela disse que também conhecia, que já tinha estado em Vila do Conde e Cascais. Achei curioso e, então, perguntei-lhe o que estavam elas ali a fazer, se moravam ali. Respondeu-me que não. Que estavam a dar a volta ao Mundo, à vela, com os papás… (e eu ali, armado em bom…).

domingo, julho 23, 2006

A ver navios


Foi lindo, o desfile, pá.
"No mar tanta tormenta, e tanto dano,
Tantas vezes a morte apercebida!
Na terra tanta guerra, tanto engano,
Tanta necessidade aborrecida!
Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme, e se indigne o Céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?"
(Lusíadas, Canto I, 106)
Eles lá vão, mar dentro. E eu, aqui no escritório...

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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