Largámos de Lagos em meados de Novembro… já com alguns dias de atraso em relação ao calendário previsto. A meteorologia não era nada favorável. Havia frentes sucessivas que vinham de sul para norte, chovia a potes, tudo desaconselhava a saída para o mar. Mas o calendário pressionava-nos. Quase toda a tripulação era gente que tinha tirado férias para embarcar naquela aventura. Tinham um mês de férias. Poderiam faltar, talvez, mais uns dias além disso. Mas não era possível esperar indefinidamente, sob pena de ficarmos sem metade dos tripulantes. De modo que, ao fim de cinco dias de espera, o skeeper deu ordem de largada. E lá fomos enfrentar a borrasca.
O mar metia medo. O primeiro dia foi um tormento que, para mim, terminou quando deixei de resistir à agonia do enjoo. Prostrei-me no beliche e deixei-me ficar ali. Nos raros momentos de lucidez, apercebi-me que o temporal desabava sobre o veleiro de 14 metros. Houve momentos em que dei comigo suspenso no ar, entre o beliche e o tecto, quando o barco caía do alto das vagas. Havia barulhos tremendos e cheguei a pensar que o barquito se ia partir. Ressuscitei ao fim de três dias. Comi metade de uma bolacha Maria e senti-me reviver. Apercebi-me então que, de toda a tripulação, apenas três se tinham aguentado satisfatoriamente. O velho John, o skeeper (um verdadeiro lobo do mar), O Zé Santana e o Pedro Laginha. Eles aguentaram o barco em cima de água, mas contaram-me que houve um momento em que eles próprios tinham desistido. Fecharam o barco de modo a impedir ao máximo a entrada de água, recolheram totalmente as velas e deixaram o barco à deriva… contaram-me que o vento tinha chegado aos 120 km/hora e as vagas eram altas como prédios de 7 andares.Depois do furacão passar, o resto da viagem foi maravilhosa. Demorámos 26 dias a chegar à Martinica, nas Caraíbas.
O documentário? Dei-lhe o título “Navegar”… tinha 40 minutos, em duas partes. Era lindo de se ver. Por várias razões, foi uma história contada com amor. Mas o Rangel considerou que “não fazia o género da SIC” e meteu-o numa gaveta. Em 2001 ou 2002, a Cândida Pinto (quando foi directora da SIC-Notícias) quis exibi-lo na programação de Verão… mas o arquivo não foi capaz de encontrar a 2ªparte… perderam a cassete… acreditam nisto?
Foi uma experiência inesquecível. Quando a viagem terminou e pusemos finalmente os pés em terra, o que eu queria mesmo era que aquilo jamais acabasse.



