
No princípio da notícia não percebi porque motivo uma democrata teria alguma razão para lamentar a morte de um tipo tão velhaco, mas depois entendi. É que, durante a guerra das Falklands (ou Malvinas, se preferirem), Pinochet terá dado ajuda decisiva para a vitória inglesa. Uma dívida de gratidão que Thatcher manteve até agora. A política tem destas coisas. Pinochet atraiçoou Videla, o general argentino que dirigia também com mão de ferro o país vizinho. Quando seria natural que dois ditadores de direita se entendessem quanto a um inimigo comum, eis que Pinochet ajuda a Inglaterra numa guerra difícil de vencer: as ilhas Falklands estão a milhares de quilómetros da Inglaterra, no Atlântico Sul, mas relativamente perto das costas argentinas. Seria de esperar que a Inglaterra perdesse essa guerra, dada a extensa linha de abastecimentos que teria de suportar, enquanto que a Argentina jogava em casa.
Mas, graças a Pinochet, a Argentina perdeu. Foi por isso. A Guerra das Falklands aconteceu em 1982 e estive na Argentina no final dessa década, em 1989, para cobrir a transição política para a democracia. O primeiro presidente eleito foi Carlos Menem, mas disso já aqui vos falei antes. Apenas quero acrescentar que, mesmo Menem, passados quase 8 anos sobre essa derrota militar, ainda falava das Malvinas (ou Falklands, se preferirem…) como terra argentina. A ferida ficou, até hoje.

