Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











domingo, janeiro 15, 2006

Argentina, atrás de Menem (1)

No final da década de 80, a Argentina tinha um naipe de políticos hábeis cuja acção contribuiu decisivamente para o renascimento da democracia no país. Estou a falar de Raul Alfonsin, Eduardo Angeloz e Carlos Menem. Conheci-os a todos, durante a realização de uma grande reportagem sobre a transição política do país, depois de uma ditadura militar implantada em 1976. No final venceu Carlos Menem, eleito Presidente da República. Não se pode dizer que tenha sido a melhor escolha, mas isso só sabemos agora, passados já 17 anos sobre esses acontecimentos.
Menem deu-me “água pela barba” para o conseguir entrevistar. O homem era um furacão e nunca parava dois dias no mesmo sítio. Num país enorme, como a Argentina, tornava-se difícil seguir um tipo assim, tanto mais que a agenda do homem era completamente improvisada. Nunca se sabia bem onde ele ia estar no dia seguinte.

Para o "agarrar" foi preciso voar para o interior do país, apanhar um autocarro e viajar 6 horas de solavancos e rádio aos gritos até à aldeia de Anillaco, na Província de Rioja. Ia ser um comício monumental. A aldeia é a terra natal do político. Convergiam para lá militantes peronistas de todo o país.
O Partido Peronista é uma organização política nacionalista, muito próxima do fascismo. Havia, no largo da aldeia onde o comício decorreu, milhares de pessoas de braço esticado e a berrar canções militaristas. Foi uma viagem no tempo, a um tempo que nunca vivi, mas que aprendi nos livros de História e nos filmes de Hollywood.
A organização tinha-nos posto em cima de um estrado alto, onde estava colocada uma enorme coluna de som. O barulho era tanto, que nem conseguia ouvir o meu próprio pensamento. Pedi a um tipo da organização para ver se era possível baixar o som da coluna, por um minuto, de modo a que pudesse gravar um stand-up, aquilo a que na gíria chamamos “um vivo”. O tipo atravessou todo o largo, subiu ao palanque dos discursos, pegou no microfone e disse para o povo: “Companheiros! Um minuto de silêncio! Está ali um jornalista europeu que vai falar para o Mundo sobre a importância do nosso candidato!”. E, assim, de repente, tinha 10 mil pares de olhos e de orelhas atentos à minha performance… uma multidão em silêncio, à espera das minhas palavras … ouviam-se as moscas… e o respirar compacto da imensa plateia… foi horrível.

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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