Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











segunda-feira, janeiro 23, 2006

Somália, 1992 - a encenação continua (2ºtexto)

A fome ameaçava matar toda a gente. Havia perto de meio milhão de somalis agonizantes, à míngua de pão e água. Poucas crianças sobreviviam além dos 5 anos. A fome e a mal nutrição matavam quase tanto quanto as balas e os obuses.
Os senhores da guerra desviavam, roubavam, a ajuda alimentar destinada ao povo. Alimentos, medicamentos, até roupa, entravam assim no mercado negro e engordavam contas bancárias nos off-shores.

No Outono de 1992, as Nações Unidas tentaram pôr cobro a esta situação caótica e injusta. O Conselho de Segurança deliberou uma intervenção militar para tornar possível a acção das ONG humanitárias, para parar com as matanças entre clãs, para reorganizar minimamente o Estado. Essa operação chamou-se “Restaurar a Esperança”. Quando as primeiras tropas desembarcaram na praia de Mogadíscio, em 9 de Dezembro de 92, eu já lá estava. Eu, mais uma multidão de jornalistas de todo o Mundo.
O desembarque dos marines em Mogadíscio foi um espectáculo. Não é adjectivo. É substantivo. Foi, de facto, uma comédia. A CNN, a CBS, a NBC, a BBC tinham sido informadas com antecedência. Todos sabíamos que era naquela noite. Os meteorologistas previram céu limpo. Era Lua Nova. A noite estava escura que nem breu.
As network mundiais construíram um palanque gigante, largo e alto, em tubo de ferro e madeira, onde montaram as suas cameras Betacam equipadas com infravermelhos, para poderem filmar de noite e sem luz artificial. Através deles, o desembarque “deu” em directo para todo o Mundo.
Eu e muitos outros jornalistas deambulávamos pela praia, para vermos o desembarque ao vivo. Tropecei mais de uma vez em soldados camuflados no escuro. Eles tinham óculos de visão nocturna, eu não via um palmo à frente do nariz. Foi uma palhaçada. Os marines sabiam que o desembarque era seguríssimo. Não havia necessidade daquele show. A não ser que se tenha pretendido, apenas, garantir audiências televisivas e venda de jornais. Ou disseminar propaganda. O desembarque americano na praia de Mogadíscio foi uma demonstração de força da superpotência. Pela primeira vez, os americanos ensaiaram novas armas e novos veículos militares, em cenário real.

Quem não ficou boquiaberto com o surgimento do LCAC (Landing Craft Air Cushion)?... Um monstro anfíbio capaz de transportar tanques, camiões e centenas de homens dos navios até à praia... e foi também na Somália que os primeiros Hummer entraram em acção...
...os primeiros testes deste jeep militar não foram própriamente um sucesso. Lembro-me de ver muitos avariados, logo nos primeiros dias. E se, no deserto, não tinham grandes problemas, para circularem na cidade, nas ruas estreitas de Mogadíscio, não foram a melhor opção. Aqueles Hummer tinham 2 metros de largura... não cabiam nas ruas mais apertadas.

2 comentários:

para mim disse...

E o "Black Hawk Down"?!

CN disse...

isso foi uns dias depois...

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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