Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











quinta-feira, janeiro 19, 2006

Bissau, 1998 - a mulher abandonada

Tenho sentimentos contraditórios relativamente à história que vou contar. Vacilo entre o pudor e a vaidade mas, como já perceberam, vou contar…
Por razões óbvias, vou alterar o nome da principal protagonista. Chamo-lhe Nininha
Tinha vinte e poucos, talvez até menos, e uma barriga avantajada de 7 meses de gravidez. Tinha sido abandonada por todos. Primeiro, pelo marido português que fugiu da guerra, logo aos primeiros tiros, evacuado no “Ponta de Sagres”, um navio cargueiro que, debaixo de fogo, tirou alguns milhares de pessoas de Bissau. Depois, foi abandonada pelos vizinhos que não quiseram arriscar a fuga com o contrapeso de uma grávida que já não podia correr. Acabou por ficar quase só, na cidade deserta. No bairro onde morava, Chão de Papel, havia meia dúzia de casas habitadas. Alguns homens tinham ficado, para evitar pilhagens. Mas eram poucos.
Nininha descobriu-nos e passou a ser visita assídua. Comia da nossa comida, pagava com risos. De noite, ia para casa.
Ao fim de dois meses, abandonámos Bissau, rendidos por outra equipa de reportagem. Nunca mais soube dela. Ainda durante a guerra, voltei a Bissau mais três vezes, mas nunca mais a vi, ninguém soube dar notícias dela. Havia cada vez menos gente na cidade.
No final da guerra, a Marta Jorge (jornalista da RTP, sedeada em Bissau) contou-me o resto da história…
Andava ela em reportagem, retratando a difícil situação dos habitantes de Bissau que tinham ficado sem morada, porque as suas casas tinham sido destruídas, quando encontrou uma negra jovem que vivia na rua com um filho bebé. O miúdo era muito claro, quase branco. A mulher contou que tinha ficado sem casa, queimada por um obus que lhe rebentou com o telhado. A repórter perguntou-lhe, depois, pelo pai da criança. Respondeu que era um português que tinha fugido. A repórter perguntou, então, como se chamava o bebé. Ela respondeu… "Carlos Narciso".
A Marta teve um arrepio. Passou-lhe pela cabeça que eu seria o pai do miúdo… mas, logo de seguida, a mulher disse-lhe que, quando o bebé tinha nascido, lhe tinha dado o nome da única pessoa que a tinha ajudado durante aquele período.
Gosto desta história, até porque não termina aqui.
Mais tarde, Nininha conheceu um médico francês, voluntário dos Médecins Sans Frontiéres. Apaixonaram-se. Nininha vive, hoje, em Bordéus, com o marido e o filho.
Espero que seja feliz.

8 comentários:

para mim disse...

Só consigo dizer uma coisa: linda história... obrigado por a partilhares...

Joana Capitão disse...

São histórias destas que também fazem parte do jornalismo... Histórias felizes.:)
Aproveito para lhe dar os parabéns pelo blog, tornei-me leitora assídua das suas "estórias".

CN disse...

infelizmente, as histórias com fim feliz são raras. obrigado, pelas vossas visitas.

Isabela disse...

Ó Carlos, você quando quer pensar em coisas boas que lhe aconteceram, pensa nesta história... Um Carlos Narciso em sua honra!

CN disse...

é verdade Isabela. tenho uma vaidade assumida com esta história.

fernando alves disse...

Obrigado, amigo.

MAH-TRETAS disse...

Bonita história.
Lamentavelmente muitas Nininhas da Guiné de Angola e Moçambique não tiveram a sorte de ter um Carlos Narciso por pertp

bem haja

Leila disse...

A história de Nininha é comovente ... O nome que carregamos reflecte sempre um pouco da nossa alma .Devem ter sido boas ... as palavras que por ali deixou ... e o brilho dos olhos desse menino deve refletir o seu ...

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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