Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











terça-feira, janeiro 31, 2006

Angola, 1999 - campo de minas

Caminhava à nossa frente, com um pau na mão. O chão era de areia, ensopada pela chuva. O mato era denso, arbustos altos, poucas árvores. Não havia trilho. A recomendação era para pisar nas pegadas do homem da frente. Não tirava os olhos do chão, não fosse falhar a marca da pegada. Mas a voz do homem que seguia à frente, estava sempre nos meus ouvidos. “Ali tem mina”, “ali tem mina” dizia ele com frequência, desviando-se meio metro para a direita ou para a esquerda, para fintar a “semente do diabo".



Chegámos ao destino, o local onde estava mais um dos tanques russos que a UNITA tinha utilizado na última grande ofensiva sobre a cidade do Cuito. Estávamos em Janeiro de 1999 e a cidade acabava de se livrar de um cerco de 43 dias. O último, da longa guerra de quase 30 anos. No primeiro avião que lá aterrou, ido de Luanda, chegámos nós, eu e o Renato Freitas. Naquele dia, os combates estavam já a 50 quilómetros de distância, a UNITA batia em retirada, depois de ter tido o Cuito à mercê do tiro daqueles tanques, traficados à conta dos diamantes de sangue. Quem salvou a cidade foram as minas anti-carro colocadas por aquele tipo que nos guiava através do labirinto de morte “semeado” no planalto sobranceiro à cidade. O último tanque quebrou-se a apenas seis quilómetros de distância do Cuito. Os tripulantes eram brancos, ucranianos ou russos, não se sabe. Os que puderam fugir, eclipsaram-se, os outros morreram ali mesmo. Mas não tinham documentos de identificação, não se podia dizer quem eram. Estávamos, portanto, ali, a admirar o tanque de lagartas quebradas… para tirar uma foto melhor, escolhi um ponto ligeiramente mais alto, uma pequenina elevação de terreno, encimada por um arbusto seco… estava lá em cima, quando a voz se fez ouvir de novo: “aí tem mina”… olhei para o tipo e percebi que aquilo era comigo. Olhei para o chão e senti que estava onde não devia… antes de ter tempo de começar a tremer, a voz acrescentou “tem mina anti-carro”… os meus 85 kg não eram suficientes para a detonar…

3 comentários:

rm disse...

Com o perdão da expressão, «d'asse»!

Anónimo disse...

Blogda-se que até me arrepiei. Também por lá andei e todo o texto me soa familiar.
http://desgovernos.blogs.sapo.pt/

Anónimo disse...

A mim, quando me disseram "tem mina" olhei para o céu, comecei a ver tudo em câmara lenta e deixei de ter audição. Fiz os dois metros mais longos da minha vida. Foi em Osijek, na Croácia.
Juanita Caminante

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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