Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











sábado, dezembro 30, 2006

Os aniversários do tempo

Não sei porquê, mas não é nos meus aniversários que sinto passar o tempo. É nos aniversários do tempo que percebo como ele voa. Chega o fim do ano e mal vislumbro o que fiz nestes 365 dias que passaram.
Pôrra!... E tenho de mudar de calendário.

Às vezes ponho-me a ouvir os mais velhos. Conversas de café de gente que nem conheço. Cada vez os escuto com maior atenção. Olhando para eles, vejo-me daqui a uns anos. A mim e a vocês todos, o que julgam? E já descobri que quando chegarmos perto do fim do tempo, teremos a ilusão de que quando éramos jovens todos os políticos eram nobres, os preços acessíveis e os miúdos respeitavam os mais velhos. Acabamos sempre a contar as mesmas mentiras.

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Ano Novo

2007 começa em grande!

Segundo o serviço da Lusa, “o ex-presidente iraquiano Saddam Hussein será enforcado dentro de "poucos dias" no interior da "Zona Verde", a oeste de Bagdad, noticia hoje o diário árabe internacional Al-Hayat, que cita fontes governamentais iraquianas. A forca já está preparada num lugar no interior da 'Zona Verde»", onde se encontram as instalações do Governo iraquiano e as sedes das embaixadas dos Estados Unidos e do Reino Unido, afirmaram as fontes, segundo o jornal.”
Será uma execução pública, à moda dos bons velhos tempos do far-west?

Outro arranque em grande: o meu amigo Jorge Schnitzer diz que regressa à SIC no próximo dia 16. O Dr.Balsemão usou de um processo dilatório para atrasar a aplicação da sentença do Supremo Tribunal que lhe ordenava a integração imediata do Director do Departamento de Desporto, mas parece que o “aclaramento” solicitado pelo advogado de Balsemão foi satisfeito com rapidez. Também, que raio de aclaramento queriam eles? As sentenças, hoje, já não são manuscritas, não há hipótese de se argumentar que não se percebe a caligrafia do juiz…

terça-feira, dezembro 26, 2006

Os trabalhos do Carlos Aranha

Hoje há um amigo que parte. O Carlos Aranha vai para o Qatar, durante cinco meses. Vai trabalhar. O “spider” é um repórter de mão cheia. É daqueles camera-men que não se limitam a ser bons tecnicamente. Ele gosta da reportagem, gosta de perceber através do view-finder o que anda a fazer, gosta de contar histórias com as imagens que captura. Dele guardo algumas parcerias heróicas: Israel, em 1989, numa grande reportagem para a RTP sobre o 2ºaniversário da Intifada; Alentejo, 1992, para uma média reportagem sobre a seca, com que em Outubro a SIC estreou o Praça Pública; Guiné-Bissau, 1998, para a cobertura da guerra civil. Fizemos outros trabalhos juntos, mas estes ficaram-me na memória para sempre. O Aranha vai para o Qatar, porque aqui não encontra trabalho. Deixa a mulher e os dois filhos e sei quanto isso lhe custa. Espero que se dê bem por lá e que estes cinco meses passem rápido.

A última experiência que partilhei com ele, foi em 2003, depois de termos saído da SIC. Fomos para Cabo Verde dar aulas, a convite do Cenjor, mais o Paulo Tavares (um dos maiores montadores de imagem portugueses vivos e que a SIC, por acaso, também não quis...). A foto que publico diz respeito a essa viagem, foi tirada no Museu do Tarrafal, em Santiago. O Carlos Aranha é o que está à direita na foto. Em Cabo Verde, descobri que o Aranha também sabia ensinar. Acho que ele próprio se descobriu nisso, também. Mas, nem assim, o Aranha conseguiu novo modo de vida. Nem mesmo a ensinar aquilo que tão bem sabe fazer.

segunda-feira, dezembro 25, 2006

Lixo natalício

Confesso que o Natal cada vez me cansa mais. Gosto de comprar prendas para os miúdos, claro. Mas a obrigação de oferecer qualquer coisa a toda a família, amigos e afins, torna-se insuportável. E o pior é que é evidente o vício que já incutimos nos miúdos que, neste dia, estão ansiosos, até angustiados, por causa das prendas. Rebentam de expectativa para, pouco depois, já não ligarem nada às prendas. Aqui no bairro, o resultado de tanto desperdício está visível nos pontos de recolha de lixo… e o dia ainda agora começou. Logo à noite, os contentores devem estar completamente submersos nos sacos de plástico.Este ano comprei: uma camisola, uns calções, dois perfumes, dois casacos, um tamagotchi digital, um relógio, uma telefonia, um par de botas, um vestido para bonecas, dois equipamentos de basquetebol, cinco bonecas, um cachecol e um barrete, um action-man com um tigre que ruge e dá saltos, dois carrinhos do Faísca MacQueen, mais dois barretes, cinco kits de maquilhagem, uma web cam, um lenço e 5 livros. Contribuí decentemente para o aumento exponencial da tonelagem de lixo que tem de ser recolhido esta noite.

sábado, dezembro 23, 2006

Desabafo

Ontem enviei 4 fotos do telemóvel para o meu e-mail da Netcabo. Como as fotos não chegaram, apesar de ter recebido um relatório da TMN a dizer que estavam entregues, telefonei a reclamar. Do serviço de atendimento esclareceram-me que o problema não era deles, mas sim do servidor de Internet que utilizo. Explicaram-me que eles, TMN, enviam as mensagens para o servidor, no caso a Netcabo, que fica encarregue de as distribuir. Portanto, a culpa seria deles, servidor de Internet. Aconselharam-me a ligar para a Netcabo, ao que respondi que era um pouco estranho ir reclamar à Netcabo de um serviço que pago à TMN e não à Netcabo… mas enfim.
Telefonei para a Netcabo. Expliquei o que vos acabei de contar. Disseram-me que não, que a culpa não seria deles, antes da TMN… Fiquei muito cansado, de repente… Perguntei como fazer para uma reclamação formal. Deram-me o endereço electrónico vocacionado para receber queixas e reclamei para lá. Passado umas duas horas, talvez, recebo uma resposta da Netcabo com o seguinte teor:

“Estimado Cliente,
Na sequência do seu contacto, que desde já agradecemos, comunicamos que para procedermos à análise da ocorrência, necessitamos que nos reenvie, por favor, o presente e-mail com a seguinte informação:
Nº de Cliente
Nº de Bilhete de Identidade
Nº de Identificação Fiscal
Nº de série do equipamento (encontra-se na zona inferior do equipamento)
Mac-Adress (número que se encontra na zona inferior do equipamento)
Serviço que possui.”

Não acham estranho que a empresa que me vendeu o referido equipamento (modem) e que me cobra religiosamente a factura mensal não saiba do meu número fiscal ou do meu número de cliente, do número de série do equipamento e do número MAC (seja lá isso o que for) nem, sequer, qual o serviço que possuo (e que eles me prestam e pelo qual se fazem cobrar)? Acham isto normal? Ou será só para irritar o parceiro, que estas empresas se entretêm com estas merdas? Desculpem, mas não há espírito natalício que aguente…

sexta-feira, dezembro 22, 2006

Carta ao menino Jesus

"Meu querido Menino Jesus,
Quando era puto, ensinaram-me que és tu que trazes os presentes na noite de Natal. Depois apareceu esse velhote de barbas brancas vestido à Benfica – que mau gosto! – a distribuir as prendas. Não tenho nada contra ele, mas o pai-natal é cada um de nós, porque «é Natal quando cada um quiser».
O Natal é o teu dia de anos! Às vezes esquecemo-nos disso… Tem piada: fazes anos e dás os presentes. És bué fixe. Por isso é que resolvi escrever-te alguns pedidos.
Antes de mais, quero que abençoes a pessoa que está a ler esta carta. Sabes? Gosto muito dela. Enche-a da tua paz e deixa-lhe um 2007 cheio de bondade!
Depois, peço a tua bênção para as crianças do Mundo. O Evangelho conta que nasceste fora da cidade, entre os excluídos, e que foste refugiado no Egipto para escapar à violência invejosa de Herodes. Há milhões de menores traficados, escravizados, forçados a pegar em armas ou a entrar na prostituição. Nunca vão ser meninos! Cuida deles de uma forma especial. Sobretudo das crianças do Darfur, da Palestina, do Iraque que (sobre)vivem e crescem no meio da violência e da morte.
Recorda-te também das pessoas do Sul do Sudão. Andam ocupadas a reconstruir as vidas depois de 20 anos de guerra. Muitas sentem-se frustradas. Que ultrapassem o ódio e os desejos de vingança! E que os dirigentes usem os recursos humanos, económicos, naturais, sociais e culturais para o bem comum. Sabes? Aqui dizem que a sigla GoSS – Governo do Sul do Sudão em inglês – também quer dizer Government of Serf Service, Governo de Auto Abastecimento!
Abençoa a equipa que está a iniciar a Rede Católica de Rádio do Sudão. Ser boa notícia neste contexto é um desafio enorme. Dá-nos audácia e coragem. E um forte sentido de equipa.
Com a tua ajuda, que os vizinhos descubram que os amas através das missionárias e dos missionários que vivem no espaço chamado Comboni House.
Para mim, já me deste tanto que até tenho vergonha de te pedir mais. Deste-me esta vida linda, a minha família, os amigos, a família comboniana… Faz que me sinta feliz no calor e no pó desta cidade em ebulição. É pedir muito?
Ah! Não te preocupes. A minha casa não tem chaminé e eu não uso sapatos. Só sandálias! Por isso, deixa os presentes no corredor à porta do meu quarto!
Um xi-coração do teu mano Zé."

Carta escrita pelo meu amigo José Vieira que está no Sudão a fazer pela vida dos outros.

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Sonho recorrente

Somos umas vinte pessoas no alto do penhasco, todos a olharmos para o mar revolto. O vento ataca-nos pelas costas e os cabelos esvoaçam para a frente da cara. À minha frente, uma menina pela mão da avó. Do promontório, avistamos léguas de mar esbranquiçado. Uma rabanada mais violenta desequilibra-me da pedra para onde tinha subido de modo a ver melhor. Sem chão para os pés, apoio-me nas costas da menina que, entretanto, tinha deixado a mão da avó. Um efeito de dominó. A miúda, desequilibrada, cai para a frente e mergulha no abismo, como uma ave pesqueira. A avó, enlouquece de dor. Grita e tenta vingar-se. Agarra-me e empurra-me para o abismo. Agarro-me à manga do seu casaco. Resisto ao empurrão. O vento sopra com mais força. A velha grita e eu grito. Só vejo os dedos da minha mão fincados no braço da velha, agarro-me para continuar a viver. O vento afasta os cabelos da cara e vejo-lhe a expressão de ódio. Vejo uma cara magra, angulosa, com espessas sobrancelhas e cabelo branco.
O sonho acabava sempre quando via a cara “dela”.

foto de Luís Carvalho

quarta-feira, dezembro 20, 2006

A banalização dos genocídios

Acabo de ler uma notícia sobre o Darfur, onde prossegue impune o genocídio das tribos negras. Agora, já não são só as aldeias a serem atacadas, mas também os campos de refugiados, mesmo os que estão fora das fronteiras sudanesas. A guerra já passou para o Chade.

Andamos há mais de 30 anos a dizer que o governo árabe sudanês pratica crimes contra o seu próprio povo e nunca nada se fez para por termo a essa situação. Viajei duas vezes para o Sudão, em 99 e 2000, para contar precisamente essa história e, já então, não era grande novidade…
Não percebo o que impede a ONU, os EUA ou mesmo a União Europeia de porem cobro ao genocídio desses povos. Que altos interesses se levantam que conseguem branquear esses crimes? Ou será que estamos perante a evidência da crueldade intrínseca da espécie humana?
Quantos genocídios se sucederam já e que deveríamos reter na memória colectiva? O dos judeus, na II Guerra Mundial (apesar dos negacionistas que recentemente se reuniram em Teerão), o dos índios norte-americanos (branqueado por Hollywood como um empreendimento civilizacional), o dos índios sul-americanos (que os nossos compêndios de História omitem), o dos negros africanos (escravizados e chacinados desde o século XV), o dos arménios (chacinados pelos turcos), o dos campos da morte do Cambodja (no regime de Pol Pot), o dos Tutsis no Ruanda, os gulags de Stalin, Sarajevo… sei lá quantos mais. São tantos, que já nem ligamos.

terça-feira, dezembro 19, 2006

Mas que lindo canteiro a vizinha tem

Segundo um artigo on-line do Guardian, há cada vez mais cidadãos norte-americanos a cultivar marijuana em vasos ou no quintal das traseiras. A dimensão da coisa é tal que, segundo o artigo, a produção caseira de marijuana ultrapassa todas as outras, se não em tonelagem, em valor da mercadoria. Isto é, estima-se que a colheita deste ano de marijuana caseira seja superior a 35 milhões de dólares (o valor de revenda será muito superior) enquanto que, por exemplo, o milho terá uma colheita de 23 milhões e o feijão de 17 milhões. Não é fantástico? Tantas muralhas erguidas na fronteira com o México, tantos bombardeamentos com químicos sobre a Colômbia e, afinal, a produção está disseminada pelos canteiros de flores das donas-de-casa e pelos vasos dos celibatários de Manhattan…
Continua o artigo a dizer que a colheita de marijuana caseira será a maior de todas em doze estados, incluindo a colheita de amendoim da Geórgia e a de tabaco nas Carolina Norte e Sul.
O artigo baseia-se num relatório recente (Marijuana Production in the US) feito pela organização DrugScience que luta pela legalização da marijuana e, portanto, tudo isto podem ser dados manipulados… mas lá que tem piada, isso tem.

Quando faz frio

Estes dias de frio e céu azul, trazem-me vontade de voltar a mergulhar no Cabo Espichel. Nestes dias, quando a água está fria, a visibilidade é óptima e chega a parecer que estamos a mergulhar em água tropical. Se não fosse a temperatura, claro…
A temperatura da água (chegava a estar a 7, 8 graus) e a ausência de chuva (que arrasta detritos para o mar), fazem com que o mar ao largo do Espichel pareça de vidro. Além do mais, nesta altura do ano, o fundo rochoso do Espichel, abaixo dos 30 metros, costumava estar repleto de lagostas…

Um dia destes, tenho de voltar a por uma garrafa de ar comprimido às costas.

segunda-feira, dezembro 18, 2006

Estive no INFERNO

Estreia esta semana o filme “20,13” de Joaquim Leitão. É o segundo filme de uma trilogia dedicada às guerras coloniais que Portugal travou em três cenários africanos: Guiné, Angola e Moçambique. O primeiro desses filmes foi “Inferno”, estreado já lá vão 7 anos.
Acham que, agora, estou armado em crítico de cinema? Não… Se falo disto é porque… (preparem-se)… participei nesse tal “inferno”, fui um dos 10 protagonistas do filme. Fui convidado para participar no casting e acabei por ser o escolhido, pelo Joaquim Leitão e pelo produtor Tino Navarro, para o papel de “Luke”, um dos marados de um grupo de ex-soldados que viviam sob o trauma do stress de guerra.


Adorei a experiência, podem crer. Fiz parte de um grupo interessantíssimo de actores (Júlio César, Nicolau Breyner, Joaquim de Almeida, Ana Bustorff, José Wallenstein, Cândido Ferreira, António Melo, José Mora Ramos, Rogério Samora, Carlos Santos, entre outros) que me acolheu e ajudou como se eu fosse um deles.


Claro que não sou actor. Nunca fui fingidor. Falta-me a “lata” necessária para esse tipo de performance. Mais tarde, ainda aceitei um outro desafio do género, num filme intitulado “A Noiva”, protagonizado pela Catarina Furtado e por um jovem loiro de que não me lembro o nome. Mas, dessa vez, foi apenas uma participação especial, numa única cena, interpretando o papel de um médico militar.
Joaquim Leitão regressa, então, ao grande ecrã. É notável a persistência deste tipo. Passaram 7 anos, mas o projecto não foi abandonado. Poderão passar mais sete, até que a trilogia se complete. Espero que este filme tenha sucesso. Sem receitas de bilheteira, os filmes não têm sentido. Joaquim Leitão sabe isso e tenta fazer filmes comerciáveis… foi por isso, de resto, que no “Inferno” se procurou um não-actor para um dos protagonistas, numa tentativa de captar melhor a atenção do público. Não sei se fui uma boa escolha, mas enfim. Por alguma razão o “Inferno” não foi o sucesso esperado.
Quanto à importância destes filmes do Joaquim Leitão… pois, julgo que a guerra colonial devia ser debatida, discutida, observada, estudada, radiografada, reflectida, absorvida de todas os modos possíveis, através da literatura, da ficção, dos filmes, documentários, peças de teatro, blogs, jornais, rádio, televisão. Devíamos exorcizar todos os medos, fantasmas, remorsos e assumir a exaltação e comunhão que as guerras sempre proporcionam a todos quantos participam nelas.

sábado, dezembro 16, 2006

Teorias da conspiração

Circula pela net um power-point com dezenas de fotos do 11 de Setembro de 2001 em Nova Iorque e no Pentágono. Não sou ferveroso partidário de teorias da conspiração, mas admito que elas (as conspirações) existam. Quem me quiser convencer, tem de trabalhar um bocado e apresentar provas e não, apenas, meras conjecturas.

Uma das teorias mais conspirativas é a que aponta para a hipótese do atentado do 11 de Setembro ter sido auto-infligido... confesso que me custa acreditar numa monstruosidade dessas.
Mas, por vezes, surgem evidências que nos põem a pensar... Reparem então nestas fotos, obviamente obtidas nos dias seguintes ao atentado.
O fogo estava já apagado. Os destroços recolhidos. Acham que foi um Boeing que bateu no edifício do Pentágono? ...

Isto cheira a história mal contada, não acham?

sexta-feira, dezembro 15, 2006

Leopoldo, o Indigno

“The river where he had landed would be known by Europeans for most of the next five hundred years as the Congo”, assim começa, na prática, uma história horrível relatada no livro que agora estou a ler. Uma história com início em 1492, com a chegada de Diogo Cão à foz desse imenso rio.
É um livro sobre um homem e os povos que ele dominou. O homem é o Rei Leopoldo II da Bélgica, por muitos ainda hoje considerado um grande humanista, filantropo, protector da ciência e da dignidade humana. Nunca um só homem beneficiou de uma mentira tão grande. E é isso que este livro desmascara. Um homem que vitimou os povos que viviam no imenso território que ele, no alto da sua imensa arrogância, reclamou para si próprio: o Congo.
A colonização belga do Congo vitimou 8 a 10 milhões de seres humanos. Foi um genocídio à dimensão do holocausto e, no entanto, não se fala dele. Ainda hoje, o silêncio impera sobre o que sucedeu no Congo nos últimos anos do século XIX. Ainda hoje, quem for a Tervuren, nos arredores de Bruxelas, pode continuar a ser enganado ao visitar o Museu da África Central com que Leopoldo II maravilhou o Mundo com os leões empalhados, as cabeças de gorilas e as peles de crocodilos que as expedições belgas traziam de África. Mas Leopoldo esqueceu-se de dizer que tinha outros troféus: mãos e pés decepados de seres humanos que ousavam desafiar a ordem instituída. Mãos e pés decepados aos milhares. Um sofrimento difícil de descrever, mas que vem contado neste livro de que vos falo: O Fantasma do rei Leopoldo. Existe uma tradução em português, da Caminho, mas preferi comprar a versão inglesa, a original.
A primeira vez que ouvi falar nestes relatos foi, precisamente, no Congo e, em rigor, num dos locais onde esse terror foi vivido: na província Equatoriale, no norte do país.
Foi durante a expedição científica organizada por Karl Ammann e que seguiu as pisadas de uma dessas expedições coloniais belgas do século XIX, no caso a liderada pelo explorador Le Marinel, mas disso já vos falei aqui. Foi num fim de tarde, no acampamento, que Ammann me falou deste livro. Desde então que estava para o ler. Foi agora.

quarta-feira, dezembro 13, 2006

Mercenários

O José Milhazes publicou, no seu blog, uma história onde fala da presença de militares soviéticos a combater ao lado das tropas governamentais angolanas durante a guerra civil. Milhazes resume um livro que leu (e que eu adorava ler, também) intitulado “Tropas Especiais Russas em África” e menciona a participação de conselheiros militares soviéticos nos combates em Cuito Cuanavale, a “Estanilegrado angolana”.
De todas as vezes que andei por Angola confesso que nunca vi nenhum soldado soviético em combate. No entanto, vi vestígios e ouvi vários testemunhos relativos à presença deles. Depois da queda do muro e da desintegração da URSS, houve até russos e ucranianos que foram contratados para combater ao lado da UNITA. Em 1999, na derradeira ofensiva de Savimbi contra a capital do Bié, a cidade do Cuito, os blindados da UNITA eram pilotados por brancos eslavos de nacionalidade incerta. Alguns morreram na batalha de Kunge, no planalto sobranceiro ao Cuito. Estive lá, vi os blindados destruídos, vi as campas onde os brancos foram enterrados e vi os restos das fardas que vestiam. E falei com quem os matou, simples soldados rasos, tipos sem manhas políticas nem qualquer interesse aparente em contar histórias aldrabadas.
Curiosamente, no livro de Alcides Sakala (que já referi aqui), “Memórias de Um Guerrilheiro”, não vi nenhuma menção à presença de mercenários russos nas hostes da UNITA. Nem todas as verdades são para serem reveladas… sabe-se lá porquê. Sakala menciona várias vezes a participação de pilotos brasileiros nos bombardeamentos a populações afectas à UNITA, mas nunca mencionou a presença de russos combatentes.
Em 1998, conheci outros conselheiros militares que participaram activamente na guerra como combatentes, mas eram portugueses. Sim, militares portugueses enviados para Angola em missões de cooperação, supostamente para instrução militar, participaram muito activamente na guerra. Não vou referir nomes, por questões óbvias. Não seria bom para mim, nem para esses homens. Mas, pelo menos, posso dizer que eram oficiais, tenentes, capitães e majores, do (à época, extinto) Regimento de Comandos, que não se limitavam a treinar a tropa especial angolana. Esses militares portugueses tinham um estatuto especial, nitidamente. Andavam sempre de camuflado, tinham sempre uma kalashnikov debaixo do banco do carro, conduziam veículos do exército angolano e nunca eram mandados parar pela polícia.
Uma noite, um desses capitães deixou-nos um recado. Tínhamos um jantar combinado, mas ele teve de se ausentar repentinamente. Quando voltasse telefonaria. Telefonou 6 dias depois. Sobre o que tinha andado a fazer ou onde tinha ido, pediu-nos para não lhe fazermos perguntas, porque ele nada nos poderia dizer. Pareceu-me bastante cansado e stressado.

terça-feira, dezembro 12, 2006

A Partilha do Indivisível

Com a caixa de correio electrónico inundada de pedidos de explicações e, também, devido à minha própria surpresa, tratei de saber o que se passava com “A Partilha do Indivisível”, o livro que vos recomendo muito para oferecerem este Natal.
Pois, nem imaginava que a história fosse tão complicada…


A distribuição foi contratada com uma distribuidora que, na prática, monopoliza o mercado. É a que distribui livros para os supermercados e que, a pouco e pouco, tem vindo a tomar conta do mercado, devido à desistência da concorrência. É uma técnica velha do capitalismo: fazer dumping para, depois, quando já só houver cadáveres à volta, ficar rei e senhor do território. Na distribuição de livros, parece que é o que está a acontecer. Bom, acontece que essa empresa considerou que o livro estava muito barato, demasiado barato, o que desvalorizava os seus outros produtos (leia-se livros) e, assim, resolveu “esquecer-se” do nosso livro no armazém.
Esta atitude prova duas coisas: primeiro, que os livros só não são mais baratos porque as distribuidoras não deixam; segundo, que os livros não são olhados como veículos culturais mas, sim, como pacotes de manteiga.
Assim, depois de muitas vicissitudes e tentativas de ultrapassar este monopólio instaurado, o livro chegou, só agora, à rede de distribuição da FNAC. Deve ser posto à venda no próximo fim-de-semana.
Até lá, quem quiser comprá-lo, tem de se dirigir à Rua da Palma, ao Arquivo Fotográfico Municipal, onde está patente a exposição de fotografias que integram o livro. Lá há livros disponíveis.
Só mais um pormenor: imaginem que a ACEP (a ONG que editou a obra) está à procura de alguém que queira patrocinar a oferta de um livro para cada uma das 154 bibliotecas municipais existentes em Portugal. Para este fim, a ACEP disponibiliza cada exemplar de “A Partilha do Indivisível” a 9 €… são… (deixa cá fazer as contas…) 1.386 € (mil trezentos e oitenta e seis euros) e está difícil encontrar um mecenas… que país miserável!


segunda-feira, dezembro 11, 2006

As razões da política

O jornal inglês The Independent dá conta da “profunda mágoa” da baronesa Margaret Thatcher pela morte do general Pinochet, ex-ditador chileno e responsável político pelo desaparecimento, rapto e morte de milhares de cidadãos chilenos, durante os anos em que dirigiu o país com mão de ferro.
No princípio da notícia não percebi porque motivo uma democrata teria alguma razão para lamentar a morte de um tipo tão velhaco, mas depois entendi. É que, durante a guerra das Falklands (ou Malvinas, se preferirem), Pinochet terá dado ajuda decisiva para a vitória inglesa. Uma dívida de gratidão que Thatcher manteve até agora. A política tem destas coisas. Pinochet atraiçoou Videla, o general argentino que dirigia também com mão de ferro o país vizinho. Quando seria natural que dois ditadores de direita se entendessem quanto a um inimigo comum, eis que Pinochet ajuda a Inglaterra numa guerra difícil de vencer: as ilhas Falklands estão a milhares de quilómetros da Inglaterra, no Atlântico Sul, mas relativamente perto das costas argentinas. Seria de esperar que a Inglaterra perdesse essa guerra, dada a extensa linha de abastecimentos que teria de suportar, enquanto que a Argentina jogava em casa.
Mas, graças a Pinochet, a Argentina perdeu. Foi por isso. A Guerra das Falklands aconteceu em 1982 e estive na Argentina no final dessa década, em 1989, para cobrir a transição política para a democracia. O primeiro presidente eleito foi Carlos Menem, mas disso já aqui vos falei antes. Apenas quero acrescentar que, mesmo Menem, passados quase 8 anos sobre essa derrota militar, ainda falava das Malvinas (ou Falklands, se preferirem…) como terra argentina. A ferida ficou, até hoje.

sábado, dezembro 09, 2006

Sol zangado

Quando aqui há dias publiquei uma pequena crítica a um texto do Sol, nunca imaginei que iria provocar a ira de um tal Filipe Alves, jornalista do dito semanário. Mas, olhem só a reacção do aprendiz (publicada na caixa de comentário):

“Sou Jornalista do "Sol" - um dos tais "jovenzitos empolgados" -, e reconheço que o nosso site deixa muito a desejar, em alguns aspectos. Mas o mesmo se pode dizer dos sites do Público, do DN ou da SIC, entre outros orgãos de prestígio. E isto porque, como o sr. Carlos Narciso certamente saberá, as redacções online são frequentemente o "parente pobre" das redacções. Quanto à política salarial do Sol, devo referir que o que escreve é completamente falso. Para lhe dar uma ideia, um estagiário do Sol recebe mais do dobro (!!) que os colegas do Diário Económico, do Público ou da SIC, por exemplo. Aliás, recebem mais do que muitos jornalistas de outros orgãos. Portanto, houve uma aposta na qualidade, sem olhar a economicistas. E creio que essa aposta tem dado os seus frutos. Goste-se ou não do Sol, e apesar de estar na moda dizer mal, o jornal tem vendido acima do previsto (80/90 mil exemplares por semana). O projecto tem pernas para andar. Habituem-se!"

Caro Filipe:
Conheço bem esse estado de espírito, esse assumir da camisola, esse espírito de grupo. Já imaginava que isso estaria a acontecer na tua redacção. Dar corpo a um projecto de raiz, é uma oportunidade rara na vida de qualquer um. Vivi o mesmo na SIC. E, por isso, caro Filipe, compreendo-te bem. Mas, escuta, a soberba é má conselheira e mãe de muitas desilusões. Depois, nota bem, “orgãos” ainda se escreve órgãos e a tua frase “houve uma aposta na qualidade, sem olhar a economicistas” está mal construída, embora eu perceba onde querias chegar. Filipe, os aprendizes deviam ser proibidos de falar nos primeiros dois anos de profissão, deviam escutar mais e envaidecerem-se menos. Por último, quero felicitar-te pelo soberbo ordenado que deves estar a receber. Podes dar graças a deus, deves aliás estar habituado a tal. Mas não te fies na virgem, como costumava dizer a minha avó. Eles põem-te na rua quando começarem a sacrificar os primeiros carneiros. A Páscoa é uma época cruel, como deves ter aprendido na catequese. E em vez de te vangloriares, devias indignar-te por um aprendiz estar a ganhar mais que outros mais antigos na profissão e, provavelmente, melhores jornalistas que tu. Ah, e cuidado com a língua portuguesa. Uma última coisa: vai-te habituando às críticas. Podes aprender alguma coisa com quem as faz.

quinta-feira, dezembro 07, 2006

Todos os vendedores de automóveis em 2ªmão são aldrabões em potência, ou como se perde o emprego

Era um Volkswagen carocha de janela estreita atrás. Os connaisseurs sabem a importância do pormenor. Tinha para lá de 180 mil quilómetros, mas se dividirmos mais de duas décadas de vida por essa quilometragem dá menos de 9 mil quilómetros por ano, ou seja, cerca de 20 quilómetros por dia, o que não é nada. Além do mais, a publicidade dos anos 80 dizia que era “um carro para o resto da vida”.
Comprei-o à Mila, uma assistente de realização da RTP que ia emigrar para São Paulo, no Brasil, onde abriu um negócio.
Andei com o popó uns meses. Fui de férias para o Algarve e, no regresso, inacreditavelmente, avariou a meio do caminho para Lisboa. Julguei que o iria abandonar em plena planície alentejana, mas lá conseguimos chegar juntos a casa. No dia seguinte, levei-o à oficina da marca e o diagnóstico foi fatal: motor gripado. O arranjo era mais caro do que o valor do carro. Fui aconselhado a despachá-lo…
Fui trabalhar. A redacção da delegação de Lisboa do jornal O Comércio do Porto era na esquina da Rua da Emenda com a Rua Horta Seca. Estava na varanda a olhar para o destroço estacionado em cima do passeio, quando o chefe de redacção chegou e perguntou como tinham corrido as férias. Ele era um tipo sempre cheio de esquemas para facturar arredondamentos ao salário, famoso por comprar e vender carros velhos, entre outras coisas. Perguntei-lhe se não quereria comprar aquela jóia tecnológica… ele olhou para o carro, perguntou se estava tudo bem (respondi-lhe que sim…) e ele, então, disse que vinha mesmo a calhar, porque a irmã tinha acabado de tirar a carta e ele ia-lhe oferecer aquele clássico VW carocha. Passou o cheque (60 contos), mandou o paquete do jornal ir comprar uma declaração de compra e venda e pediu-me para deixar o carro numa oficina de um amigo dele, “para uma limpeza”. Aníbal Mendonça era famoso por dar cabeçadas nos tipos que o chateavam… no dia seguinte já não fui trabalhar.

terça-feira, dezembro 05, 2006

Breaking News - notre ami Bemba vient chez nous

A novidade provém de Luanda, via Rádio Nacional de Angola: Jean-Pierre Bemba, candidato derrotado nas presidenciais da República Democrática do Congo ( ex- Zaire), chega hoje a Portugal para uns dias de férias. Assim, Bemba não assiste à tomada de posse do presidente eleito, Joseph Kabila, marcada para amanhã, em Kinshasa.
Parece que, antes de partir, Jean-Pierre Bemba fez um apelo aos seus apoiantes para que mantivessem a calma, aceitando democraticamente a vitória de Kabila, o novo chefe de Estado do país.
A acreditar, ainda, na RNA, a mulher e os cinco filhos de Bemba já cá estão desde o início de Novembro.
Era sabido que Bemba tem uma maison na Quinta do Lago, no Algarve (com vista para o 8ºburaco). Ele confidenciou-me, quando nos encontrámos em Gbadolite, que tinha desgosto por não ter tempo para gozar em condições a sua bela casinha portuguesa. Como de costume, Bemba deve viajar no seu aviãozinho particular.

segunda-feira, dezembro 04, 2006

Uma revolução que se aguenta

A reeleição de Hugo Chavez é mais uma derrota para a política externa dos Estados Unidos. Desde 1998, quando Chavez venceu as primeiras eleições presidenciais, os EUA já tentaram tudo para o tirar dali, desde tentativas de golpe de estado ao apoio declarado e financeiro dos opositores internos. Até ver, tudo falhou. Em 2002 estiveram quase a conseguir. Nessa altura, fui enviado pela SIC para cobrir o golpe de estado em curso. Ninguém dava um chavo pela manutenção do presidente. Quando cheguei a Caracas, o aeroporto estava cercado por milhares de apoiantes de Chavez e a estrada que leva à cidade estava controlada pelos adversários do presidente. Havia carros queimados ao longo da estrada e já havia gente morta nas duas barricadas. Com muitos civis armados por todo o lado, o ambiente era de pré guerra civil. Levei mais de 24 horas para percorrer os 30 quilómetros do aeroporto até Caracas. Na capital, havia muitas lojas pilhadas, principalmente supermercados. Com o passar dos dias, Hugo Chavez recuperou o poder perdido momentaneamente. Morreram algumas pessoas em manifestações e comícios que degeneraram em confrontos de rua entre os apoiantes do golpe de estado e os do presidente, nomeadamente, se não erro, na Praça de França, no bairro Altamira, uma zona burguesa de Caracas. Mas Hugo Chavez tinha, realmente, a maioria da população com ele. E não eram só os pobres dos imensos bairros da lata de Caracas, mas também boa parte dos militares. De modo que ainda lá está e, agora, depois desta vitória eleitoral, com legitimidade reforçada. Bush já não deve saber o que há-de fazer, só lhe falta tentar os métodos do amigo Putin.

sábado, dezembro 02, 2006

Centro Histórico de Évora: 600 casas degradadas

Esta semana a agência Lusa difundiu uma entrevista com o Presidente da Câmara de Évora, onde o autarca reconhecia que 1/5 dos edifícios do centro histórico estão degradados, muitos em ruínas e abandonados.
Quando se está nas vésperas das celebrações dos 20 anos da classificação da cidade, pela UNESCO, como Património da Humanidade…
Na referida entrevista (que não vi reproduzida em nenhum jornal nacional…), o autarca falava do êxodo populacional do centro da cidade para as periferias, sendo certo que, paradoxalmente, Évora é das poucas cidades do interior de Portugal que continua a atrair população. Portanto, se as pessoas querem ir viver para Évora, porque não habitam o centro histórico? Porque é difícil estacionar carros? Acho que deve haver outras razões…
Quando, em Agosto, fui a Évora visitar a minha irmã, não pude deixar de reparar na degradação evidente de muitas casas do centro histórico. Disso dei aqui conta, se bem se recordam. Se não se recordam, façam o favor de seguir estes links... As fotos que acompanham esses textos, e este, são meros exemplos das 600 casas degradadas do centro histórico de Évora, qualquer coisa como 20% do total das habitações. Todas estas casas têm dono. A Câmara Municipal podia, e devia, responsabilizar esses proprietários pelo estado de degradação dos edifícios e, em caso de recusa ou impossibilidade deles repararem esse património, então ele deveria ser recuperado coercivamente e a propriedade passar, também coercivamente, para a câmara. É que, esse património, embora tenha dono, pertence à Humanidade desde há 20 anos…

sexta-feira, dezembro 01, 2006

A justiça dos vencedores

O comandante do cerco a Sarajevo, entre 1992 e 1994, o general sérvio Stanislav Galic, foi condenado em 2ªinstância do Tribunal Penal Internacional à prisão perpétua.
Galic tinha sido condenado a 20 anos, na 1ªinstância, recorreu e viu a pena agravada. É bem feito. Quem lá esteve sabe que é. Raramente vi tamanha desumanidade. Também, raramente vi tamanha tenacidade.

no centro de Sarajevo

Sarajevo sofreu um cerco de 44 meses, o mais longo cerco a uma cidade desde o fim da II Guerra Mundial. No fim, quase só restaram escombros. Morreram dezenas de milhar de habitantes. Muitos morreram à vista de toda a gente. A cobertura mediática daquela guerra foi de tal forma que poucas coisas aconteciam sem que se soubesse logo.


na morgue
Contribui modestamente para essa denúncia. Mas, ainda hoje, questiono como foi possível que, apesar disso, apesar das centenas de jornalistas que lá estiveram sempre, como foi possível deixarem aquilo acontecer? O general sérvio foi bem condenado pela sua competência assassina. Mas, talvez, outros devessem ser julgados por negligência assassina.

quinta-feira, novembro 30, 2006

Tá difícil vender papel

O homem voltou a ser notícia, ontem, na Focus e no Público… mas não havia necessidade.


Conheci o José Esteves em 1994, quando iniciei o Casos de Polícia e, durante uns tempos, ele tentou explorar essa oportunidade para chamar as atenções sobre si. É um tipo que sempre viveu de esquemas estranhos. Sempre teve uma conduta bizarra, muitas vezes sem necessidade. Uma vez, lembro-me de o ter entrevistado sob intimidação de uma arma que ele deixava vislumbrar, abrindo discretamente o casaco, num coldre colocado por baixo do sovaco. Noutra ocasião, apareceu sem aviso para me emprestar um rádio com as frequências da polícia, “que me iria ser muito útil” segundo garantiu, embora de facto eu não precisasse daquilo para nada. Devolvi-o uma semana depois. Uma outra vez abriu, em cima da mesa, um pequeno saco com diamantes angolanos. Era useiro e vezeiro neste tipo de actuações, para espantar o interlocutor. Outras vezes, reivindicava contactos pessoais ao mais alto nível da política (sempre da direita) para encenar poder. Mas, realmente, é um pobre diabo. Era difícil acreditar numa palavra daquele homem. Tanto dizia sim como não, dependendo das circunstâncias do momento. Sempre tive a impressão de que tinha comportamentos psicopatas. Não percebo porque continuam a entrevistá-lo. Um tipo assim, não merece crédito. Mesmo quando fala verdade, mente.

quarta-feira, novembro 29, 2006

Habemus Barradas

Ontem, cheguei a casa ainda a tempo de o ver na pantalha a falar sobre o grande show do momento: a visita papal à Turquia. O Barradas ressuscitou. Milagre!, dirão os mais crédulos. Mas não foi. O Barradas terá de agradecer a outros, que não Deus ou o Papa.


A RTP demorou quatro anos a perceber que lhe faltava um comentador de política internacional de grande craveira, um poço de cultura, poliglota, de raciocínio felino. Mas ainda foi a tempo. É uma ironia, mas foi uma óptima maneira de assinalar os quatro anos de semi-desemprego do João Carlos Barradas, desde que foi despedido pela SIC. Foi precisamente em Novembro de 2002 que ele e o Waldemar Abreu receberam a famigerada cartinha registada com o aviso de despedimento… foram os primeiros, mas outras cartinhas seguiriam nas semanas e meses seguintes.
No reptilário, os “cabeças de vaca” (como o Barradas lhes chamava) devem ter caído de cú.

terça-feira, novembro 28, 2006

United Colours

O Observatório Europeu do Racismo e Xenofobia, no seu relatório anual, diz que em Portugal há poucos registos de actos racistas ou discriminatórios por motivos étnicos.
Ora, todos sabemos que, se é assim, é porque as pessoas não vão para a esquadra participar de quem os ofende. Não estão para perder tempo, arranjar ainda mais problemas, essencialmente porque têm a percepção que seria inútil. Pois, eu penso que deveriam fazê-lo, mesmo sendo inútil… quanto mais não fosse para não permitirem a existência de uma estatística cor-de-rosa, para não permitirem a manutenção de uma mentira.
De resto, acho que esse índice deveria contar com mais factores, para além da participação policial, tais como, por exemplo, a dificuldade de uma pessoa não caucasiana em arranjar emprego que não seja nas obras, nas caixas dos supermercados ou nas boutiques dos centros comerciais…Conheço vários casos em que pessoas negras foram rejeitadas para determinadas funções porque “seria mau para o negócio”. Ora, se isto não é racismo, não sei o que será. Revela o preconceito do empregador, provavelmente consequência do preconceito generalizado na população.
Além disto, acho que o racismo tem sido pouco e mal estudado. É que, convém não esquecer, o racismo não tem um só sentido. É uma acção que provoca reacção. Às vezes, mais do que isso. Provoca mesmo explosão.

domingo, novembro 26, 2006

Notícias da crise

No Público da passada 6ªfeira, uma notícia dava conta de uma reunião mundial de responsáveis editoriais da imprensa escrita realizada em Madrid.
Li que esses senhores terão chegado à conclusão que os jornais continuam de boa saúde e a vender bem. Só se for lá nos países deles, digo eu. Hoje, segundo as estatísticas, os jornais portugueses estão a vender cada vez menos, perdem leitores todos os dias.
A notícia do Público limitava-se a dar eco das opiniões de alguns dos participantes dessa reunião. E acrescentava uma história confusa sobre um jornal polaco que conseguiu inventar um modo de interagir com a população da sua cidade e, agora, parece que o povo escreve notícias e publica fotos (a partir dos telemóveis) dos acontecimentos locais… (um pouco à semelhança do que se passa com os blogs… também eu, por exemplo, publico fotos aqui a partir do telemóvel, como as fotos de hoje, por exemplo).


Bom, há dias contei 11 leitores de jornais na carruagem do metropolitano onde ia. Eram onze. Todos a ler jornais gratuitos… nenhum com o Público, nenhum com o Diário de Notícias, o Correio da Manhã, o Avante, nem sequer nenhum com a Bola ou o Record, nem o Washington Post, o Pravda, o Corriere della Sera, a Folha de São Paulo ou o El País ou qualquer outro que custasse dinheiro. Estavam todos com o Destak e o Metro.


Bom, sempre iam a ler qualquer coisa, mas se isto não é crise da imprensa escrita convencional, então não sei o que significa crise.

sábado, novembro 25, 2006

Casos de polícia (da série Reptilário)

O julgamento do processo Casa Pia vai na 251ª sessão e, hoje mesmo, completa dois anos de duração, com mais de 211 pessoas ouvidas em audiência, até agora.
Sendo certo que o processo tem dimensões pouco habituais, também é certo que todas as partes envolvidas têm sido exímias no exercício de estratagemas para baralhar, confundir e dificultar o desenrolar do julgamento e a apreciação do júri.
Dir-me-ão que esses estratagemas são expedientes legais e, portanto, de uso legitimo. Pois são. Mas a verdade é que por este andar jamais se fará justiça, seja ela qual for. Um julgamento não pode durar dois anos. E, este, talvez nem em três se consiga cumprir.
Enfim, são as teias da lei que propiciam este tipo de expedientes. Por exemplo, ando há mais de um ano a caminhar para o Tribunal de Oeiras para depor como testemunha num processo que o jornalista Jorge Schnitzer moveu contra a SIC. O processo trata de uma questão de direitos de autor. Schnitzer foi o autor de um programa que esteve no ar mais de 10 anos e a SIC nunca lhe pagou as autorias. Em vez disso, despediu-o. Agora, Schnitzer tenta receber aquilo com que se compram melões e que Balsemão se recusa a pagar.

Jorge Schnitzer no Tribunal de Oeiras, esta semana (foto tirada com o meu telemóvel)

Ora, porque diabo o processo não avança? Por que razões andam as testemunhas para trás e para a frente, a perder tempo e a gastar dinheiro em excursões à porta do tribunal? Porque o dono da SIC falta sistematicamente às sessões. Farto desta brincadeira, Schnitzer dizia, na passada 3ªfeira, que ia solicitar ao juiz que, para a próxima vez, mandasse a GNR à Quinta da Marinha para escoltar o réu até ao tribunal e, assim, o julgamento possa ter início. Adorava ver… mas acho que este juiz não se chama Baltazar Garzon.

o juíz Baltazar Garzon(foto da Wikipedia)

O julgamento foi adiado para Abril de 2007.

sexta-feira, novembro 24, 2006

Nas melhores livrarias do país

A Partilha do Indivisível está à venda a partir de hoje. É um livro de fotografias de dois repórteres, um moçambicano e outro cabo-verdeano. Tem oito textos, também. O sexto, sobre a pandemia da Sida, foi escrito por mim.


O livro dá uma excelente prenda de natal. É um bocado como comprar aqueles cartões da UNICEF. Só que aqui ajudamos a ACEP - Associação para a Cooperação Entre os Povos, uma ONG portuguesa dedicada à educação para o desenvolvimento.
Para mim, é o primeiro sucedâneo deste blog... parte do texto foi aqui escrito primeiro.

quarta-feira, novembro 22, 2006

5ª dimensão

Aqui há dias ouvi alguém recordar o tempo em que ia com a família ver televisão ao café. Quem falava é um cinquentão (mais velho que eu) e invocava memórias da meninice. Os pais bebiam galão e as crianças sumos. E viam televisão sentados, se chegassem cedo. Em pé, se chegassem tarde. Era o tempo em que o visionamento da televisão era um hábito comunitário, partilhado e, provavelmente, discutido. Depois, a televisão começou a isolar as pessoas. A banalização do aparelho, em simultâneo com outros electrodomésticos, tirou a televisão das áreas públicas para dentro de casa. Hoje, dizia-se em fecho desta conversa que vos relato aqui, há um televisor em cada quarto e mais outro na cozinha. Ver televisão é, agora, um acto solitário e, por vezes, até pode ser alienante. Penso que a televisão perdeu sabedoria.

Não me lembro de ter vivido esse fenómeno da televisão comunitária. Lembro-me que o primeiro aparelho chegou a minha casa uma semana antes do homem ter chegado à Lua, em 1969. Lembro-me de ver (a preto e branco) o astronauta Armstrong aos saltinhos na superfície lunar. Devo ter ficado fascinado.
Mas, em 2000, observei esse fenómeno que leva uma comunidade em peso olhar para uma janela de luz e som. Foi em Bili, no norte do Congo. Um dia, uma senhora pediu-nos o pequeno gerador portátil emprestado e convidou-nos para ir a casa dela, nessa noite, ver filmes. Televisor e leitor de cassetes ela tinha, mas faltava-lhe energia para os por em funcionamento. Lá fomos, mais por cortesia que por vontade de ver televisão. Estava lá toda a gente. E a senhora cobrava bilhetes pela entrada. Cada pessoa, além de pagar o direito de acesso, carregava a sua própria cadeira.

Estavam mais de 70 pessoas a ver televisão, esbugalhados, a olhar para um velho documentário da BBC. Às vezes riam-se muito, outras vezes comentavam entre si o sucedido na pantalha. Era uma experiência partilhada com muito entusiasmo, curiosidade, atenção e alegria. Sei que, hoje, desde que haja energia, as sessões de televisão repetem-se em Bili, no norte do Congo. Em Santo Tirso é que já não (excepto quando joga o fêquêpê).

terça-feira, novembro 21, 2006

O botão essencial

Tenho um amigo que costumava dizer que quando queria ver televisão tinha de ser ele a fazê-la. Brincava, exercitando um humor muito peculiar que sempre o caracterizou. Mas, realmente, agora que ele já não faz mais televisão, reparo que, de facto, o Mário tinha razão… a televisão está uma trampa. Quanto mais concorrência, menos diferença encontro entre os vários canais. Tendem todos para o mesmo: concursos e telenovelas. Quem vê um, vê todos, principalmente se falamos dos canais privados, os tais que vieram para libertar a televisão do jugo estatal. No princípio, enfim… lançaram algumas pedradas ao charco, sem dúvida. Mas agora… Vão por mim: a televisão não é tudo na vida, há muitas outras coisas para fazer.

A televisão, como entretenimento inodoro, faz sono. Mesmo as notícias não substituem a realidade. Não se limitem a conhecer o mundo por essa falsa janela.
Ah! E nunca se esqueçam que o aparelho vem com um botão de ligar/desligar.

sábado, novembro 18, 2006

Os armazéns de marfim e a espiral da História

O reino do Benim era rico. Dizia-se que esse rei tinha armazéns cheios de dentes de marfim e pepitas de ouro. Além disso, para controlarem completamente o comércio no Golfo da Guiné, os cônsules ingleses exigiam que o reino fosse conquistado. Os ingleses estavam fortificados na foz do rio Benim. Mas o interior do território era controlado pelos negros.
Em Fevereiro de 1897, foi feito o ataque. Os ingleses conquistaram a cidade, pilharam-na e incendiaram-na. Nunca chegou a averiguar-se quantos habitantes de Benim foram mortos pelas tropas britânicas. O que veio nos jornais ingleses da época foram os relatos dos bárbaros sacrifícios humanos praticados por aqueles selvagens. A acreditar nesses relatos, nunca algum habitante do Benim teria morrido de causas naturais… de modo que, o ataque, a invasão e o extermínio levados a efeito pelos ingleses acabaram por ser justificados pela necessidade de salvar, pela civilização, as pessoas do Benim sujeitas a hábitos tão incivilizados.
Esta e muitas outras histórias relativas à colonização de África podem ser lidas em “Exterminem Todas as Bestas”, livro escrito por Sven Lindqvist, um viajante sueco que escreve sobre as terras por onde passa. E já escreveu mais de 30 livros…
Agora, transponham esta história que acabo de relatar para a actualidade. Uma outra potência invade um estado bastante mais fraco, sob o pretexto de ir livrar a população da opressão exercida pelos dirigentes políticos locais. Tudo acaba numa chacina inútil, em que ninguém se dá ao trabalho de contar as dezenas de milhar de mortos de um lado, mas sabe-se com exactidão que já morreram 2.263 marines do outro lado. Tudo isto, finalmente, apenas para controlar os “armazéns de marfim”…

sexta-feira, novembro 17, 2006

Desafinação

Andei anos sem entrar num transporte público. Digo-o sem ponta de pedantismo. Acho que o mesmo acontece com milhões de cidadãos que não se encaixam nos apertos, na inadequação, nos horários dos autocarros e do metropolitano.
A percepção que temos do mundo depende muito do estilo de vida que levamos, de facto. Para mim, Lisboa tinha menos pedintes, agora, do que há 20 anos. É verdade que, volta e meia, me apareciam uns miúdos romenos a vender isqueiros nos semáforos, sim, as ciganas continuavam a tentar ler sinas em algumas esplanadas, via alguns sem abrigo cobertos de cartão nos vãos de escada, mas todos eles, romenos, ciganos, sem-abrigo, eram aparições fugazes, passavam de raspão e não me tocavam. Isto é, não me incomodavam.

Um dia destes andei de metropolitano, de novo. Aproveitei para um tour pelas novas linhas e estações (embora já estejam feitas há anos, para mim são novas). Foi bom, até que apareceu um cego tocador de sanfona, com uma caixa de esmola pendurada. O homem entrou na carruagem e tocou… tocou… tocou… volta e meia, entoava o refrão “Olhó ceguinho!! Ajuuudem o ceguinhoooo!...”. Insistiu durante uma boa parte do trajecto. Angariou alguns cêntimos e, depois, mudou de carruagem. Também saí… no corredor em direcção à superfície, havia outros tocadores de miséria. Uns sentados em banquinhos, outros no chão exibindo mazelas físicas. Tal e qual há 20 anos. Não mudou quase nada, afinal de contas.

quinta-feira, novembro 16, 2006

O vencedor do costume

Como já devem saber, Joseph Kabila foi declarado vencedor das eleições presidenciais no Congo. A comunidade internacional deu cobertura ao processo eleitoral e declarou que tudo se passou de modo transparente, livre e justo. Agora, nada mais se pode fazer, excepto recomeçar a guerra civil. Duvido que Bemba o queira fazer, se conseguir uma repartição equitativa do poder e das riquezas do país. Talvez outros grupos rebeldes mais pequenos e desenquadrados deste jogo político prefiram continuar a desestabilizar o país e a tentar substituir-se à autoridade do estado. Mas, se Bemba alinhar com o novo poder institucional, Kabila tem boas probabilidades de conseguir, pela primeira vez, controlar o imenso Congo.
foto da Associated Press
Mas tudo depende da capacidade negocial de Kabila. Tudo depende de quanto ele vai querer abrir mão. Essa é a grande dúvida. Kabila deve ser um tipo cheio de medo e desconfiança. Vive em Kinshasa rodeado por uma guarda privada de 15 mil homens. É um exército pessoal temível, quanto mais não seja pelo número de soldados. Alguns nem serão congoleses, suspeito. O regime de Kabila foi, digamos assim, imaginado e suportado por Luanda, desde o primeiro minuto. Duvido que José não continue a apoiar Joseph, nestas horas de incerteza. Se Kabila não tivesse sido declarado vencedor, como teria reagido esse exército? Quem teria capacidade para o desarmar?
foto minha, em Bondo, à hora do almoço
Portanto, é bom que o povo saiba que pouco poderá esperar destes senhores que, agora, se vestem da dita legitimidade democrática. A vida continuará dura e faminta mas, pelo menos, que não os matem impunemente nem os escravizem, como até agora.

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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