Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











quarta-feira, dezembro 13, 2006

Mercenários

O José Milhazes publicou, no seu blog, uma história onde fala da presença de militares soviéticos a combater ao lado das tropas governamentais angolanas durante a guerra civil. Milhazes resume um livro que leu (e que eu adorava ler, também) intitulado “Tropas Especiais Russas em África” e menciona a participação de conselheiros militares soviéticos nos combates em Cuito Cuanavale, a “Estanilegrado angolana”.
De todas as vezes que andei por Angola confesso que nunca vi nenhum soldado soviético em combate. No entanto, vi vestígios e ouvi vários testemunhos relativos à presença deles. Depois da queda do muro e da desintegração da URSS, houve até russos e ucranianos que foram contratados para combater ao lado da UNITA. Em 1999, na derradeira ofensiva de Savimbi contra a capital do Bié, a cidade do Cuito, os blindados da UNITA eram pilotados por brancos eslavos de nacionalidade incerta. Alguns morreram na batalha de Kunge, no planalto sobranceiro ao Cuito. Estive lá, vi os blindados destruídos, vi as campas onde os brancos foram enterrados e vi os restos das fardas que vestiam. E falei com quem os matou, simples soldados rasos, tipos sem manhas políticas nem qualquer interesse aparente em contar histórias aldrabadas.
Curiosamente, no livro de Alcides Sakala (que já referi aqui), “Memórias de Um Guerrilheiro”, não vi nenhuma menção à presença de mercenários russos nas hostes da UNITA. Nem todas as verdades são para serem reveladas… sabe-se lá porquê. Sakala menciona várias vezes a participação de pilotos brasileiros nos bombardeamentos a populações afectas à UNITA, mas nunca mencionou a presença de russos combatentes.
Em 1998, conheci outros conselheiros militares que participaram activamente na guerra como combatentes, mas eram portugueses. Sim, militares portugueses enviados para Angola em missões de cooperação, supostamente para instrução militar, participaram muito activamente na guerra. Não vou referir nomes, por questões óbvias. Não seria bom para mim, nem para esses homens. Mas, pelo menos, posso dizer que eram oficiais, tenentes, capitães e majores, do (à época, extinto) Regimento de Comandos, que não se limitavam a treinar a tropa especial angolana. Esses militares portugueses tinham um estatuto especial, nitidamente. Andavam sempre de camuflado, tinham sempre uma kalashnikov debaixo do banco do carro, conduziam veículos do exército angolano e nunca eram mandados parar pela polícia.
Uma noite, um desses capitães deixou-nos um recado. Tínhamos um jantar combinado, mas ele teve de se ausentar repentinamente. Quando voltasse telefonaria. Telefonou 6 dias depois. Sobre o que tinha andado a fazer ou onde tinha ido, pediu-nos para não lhe fazermos perguntas, porque ele nada nos poderia dizer. Pareceu-me bastante cansado e stressado.

6 comentários:

AGRIDOCE disse...

"... E falei com quem os matou, simples soldados rasos, tipos sem manhas políticas nem qualquer interesse aparente em contar histórias aldrabadas..."
Esta foi a frase que mais retive do post.
Os "especiais" também são abatidos e até por simples soldados rasos. As balas, no momento certo, não seleccionam elites para um lado e os outros para o outro lado.
Que Angola foi, desde os finais da II GG, campo de cobiça para os dois grandes blocos, com outros emergentes também presentes, já se sabia. Que continuará a ser, também não me admirará. A presença chinesa em força que se sabe por lá estar a ser semeada, não deixa dúvidas. Resta saber como e se os angolanos se vão defender .
Ah! Também retive que J. Milhazes resumiu um livro. Espero que seja identificável, para que o possa adquirir.

Elisabete Alfaiate disse...

Esta tua revelação, compreensivelmente sem nomes, é uma novidade, para mim, e parece-me grave. Militares portugueses andaram a combater em Angola e o povo português não sabe disso? Muito nos contas. Eu gostava de ver isto melhor esmiuçadinho algures. Estou a tentar digerir a informação, mas não está a ser fácil!

Paulo A. Videira da Costa disse...

Carlos, deves ter lido "Terrorismo de Estado" http://planaltobie.blogspot.com/2006/11/o-terrorismo-de-estado.html

Filipe Alves disse...

Bom post. A participação activa de mercenários portugueses e de 'cooperantes' nos combates contra a Unita é algo que de que se ouve falar há anos, mas nunca se esmiuçou a questão. Esperemos que, com o passar dos anos, a verdade venha a cima. Li algures que, na última fase da guerra, Portugal terá dado apoio ao MPLA, fornecendo imagens de satélite das movimentações das forças da Unita. Acha isso verosímil? Essas imagens de satélite teriam sido cedidas pelos EUA, sendo cruciais para o desfecho da guerra.

Jose Milhazes disse...

Carlos Narciso, depois do desmorenamento da URSS, tornou-se frequente a participação de militares de antigas repúblicas soviéticas em barricadas opostas. Isso aconteceu em Angola, sucedeu também na guerra entre a Etiópia e a Eritreia, quando os aviões militares etíopes eram tripulados por russos e os eritreus, por ucranianos.
A desintegração das forças armadas soviéticas deixaram milhares e milhares de oficiais desempregados. Cumprimentos. JM

CN disse...

Sim Filipe, acho possível, embora a participação de Portugal não fosse necessária. O governo angolano, por essa altura, já tinha as melhores relações com o norte-americano, não havia necessidade, portanto, de mediações. Quanto à participação dos soldados portugueses, deixa-me só acrescentar que estou convencido de que se fazia a título particular. Isto é: eles iam inseridos numa missão de cooperação, de facto, mas, depois, davam início, paralelamente, a outro tipo de actividades, através da celebração de um contrato privado. O Estado português não era tido nem achado neste negócio, creio eu.

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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