Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











sexta-feira, junho 30, 2006

O segundo stringer

O outro stringer foi em Angola, no Cuito. A UNITA tinha atacado e cercado a cidade durante 23 dias. Foi o último dos ataques da UNITA no Planalto Central. Depois de falhado o cerco, Savimbi parece ter perdido também a alma…Entrei no Cuito em Janeiro de 1999 com o Renato Freitas. Fomos os primeiros jornalistas a lá chegar. Connosco, à boleia, foi também uma jornalista do Expresso.
A cidade estava um caos. Em 12 de Dezembro de 98, os últimos funcionários civis tinham sido retirados para Luanda. Nem médicos ficaram. Em 16 de Dezembro, a cidade começou a ser bombardeada. Onde quer que as bombas caíssem, morriam pessoas. Havia mais de 300 mil pessoas refugiadas no perímetro urbano. Tinham fugido à frente do avanço da UNITA e ali julgavam-se mais protegidas. Escutei muitos relatos tipo “eram oito, só escapou um”, vi muitas valas comuns abertas logo ali, no local onde os mortos estavam caídos. Por isso, havia gente enterrada na porta das escolas, no quintal das casas, onde quer que fosse.
Chegámos lá no dia seguinte ao cerco ter sido quebrado. Havia combates a 10 quilómetros de distância. Não nos deixaram lá ir. Mas havia um tipo que tinha maneira de apanhar uma boleia até à frente de batalha. Era primo de um comandante militar e vivia ali, era conhecido por todos. Chamava-se Carlos Alberto Miguel e tinha uma pequena handy-cam. Por mil e poucos dólares, ele lá foi. Andou dois dias em cima de um blindado e filmou combates de artilharia, casas a arder, cadáveres na beira das estradas e até um fuzilamento sumário de um prisioneiro.Nós ficámos na cidade, filmámos cenas de outro tipo de violência. Tudo junto, deu um documentário esmagador (intitulado Cuíto, simplesmente, exibido no programa da Margarida Marante), que o José Alberto Carvalho anunciou, no Jornal da Noite, como sendo “a reportagem mais violenta da história da televisão portuguesa”.

7 comentários:

planaltobie disse...

E acredito que fosse de facto a reportagem mais violenta, tal como acredito que o Cuíto foi a cidade mais mártir do tempo da Guerra Fria e dos anos que se lhe seguiram.
Sim, não nos podemos esquecer dos genocidios do Ruanda e de outros países africanos. Aos milhões! Mas o Cuíto sofreu cercos, guerras clássicas com bombardeamentos, minas, execuções... durante mais de vinte anos.
Saberão disto em NYork?
Põe na capa do livro a guerra do Cuíto, dedica-lhe muitas páginas e faz o beberete do lançamento numa livraria em NY.
Não temos só bons futebolistas. Orgulho-me de alguns jornalistas.

escrevi disse...

Estou de acordo com o planaltobie.
Não percebo como consegues "deixar passar" o facto de tanta gente insistir na vontade e necessidade de ler o que viste e sentiste, em livro.
Eu... continuo há espera.

Pequenina disse...

E pela descrição, acredito mesmo que tenha sido. Como diz o blogger planaltobie, não temos apenas bons futebolistas, há que preservar ainda algum orgulho em alguns dos bons jornalistas que temos. As histórias que nos conta são uma motivação para os futuros jornalistas, deixa-nos o "bichinho"...

VN disse...

Lembro-me bem desta Grande Reportagem e de também eu ter nessa noite dificuldades para dormir.
Um grande abraço de PAZ.

Anónimo disse...

Não me lembro desta reportagem, mas recordo-me perfeitamente de andares atrás de gorilas. Longe vão os tempos em que havia mais do que futebol para ver na TV. Anda tudo entretido com a bola e ninguém dá conta do que se vai passando por aqui. Vai uma aposta de acabando o Mundial as TV vão virar-se para os incêndios. Os senhores da Protecção Civil e dos Bombeiros andam, por estes dias, todos contentes porque ninguém os chateia com os fogos que vão acontecendo. O de Barcelos, noutra altura, teria feito rolar cabeças...
Seja como for, cada vez que apareço por aqui, caro Narciso, a vontade de voltar a trabalhar contigo é imensa. É quando quiseres!
JLúcioDuarte

RPM disse...

CN.

Nasci no Dondo, Quanza Norte e vivi a guerra de cidade...

Fui pioneiro da UNITA e o meu pai dirigente da UNITA enquanto os ventos de Lisboa diziam que a solução eram eleições democráticas e livres....

Mas tudo foi por água-abaixo quando em Lisboa entra o Governo de Esquerda e deixa DELIBERAMENTE, com Rosa Coutinho a dormir diariamente num barco ao largo de Luanda e como governador de Angola, o MPLA a ser equipado com o de mais moderno a URSS e países amigos tinham....

O Savimbi, nos finais eram um homem muito acossado e já estava com o espírito de sobrevivência ao de cima da pele....

mas as denominadas eleições democráticas em que Savimbi foi um representante, elas foram 'mexidas' pelos apoiantes do MPLA....

repare que há mais angolanos do Sul que do Norte....não é sinónimo de vitória para a UNITA, mas as tribos do Sul eram apoiantes da UNITA!

Um abraço de amizade

RPM

Andreiovsky disse...

Carlos,

onde posso arranjar este doc? Arquivos da sic?

AddThis

Bookmark and Share

Arquivo do blogue

Acerca de mim

A minha foto
Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

Seguidores