Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











sexta-feira, junho 09, 2006

T.P.C.

Todas as noites, depois de chegar da escola, a Sara faz os trabalhos de casa que a professora prescreveu. Contas de somar e diminuir, leitura de textos curtos, preenchimento de espaços em branco em frases incompletas, coisas assim. Gosto de ver como ela progride. Já soletra melhor, com mais rapidez, já entende o texto de modo a conseguir resumi-lo no final. O cálculo mental também está mais agilizado.
Quando a professora deixar de passar trabalhos de casa, como irei fazer para perceber a progressão escolar da Sara? Obrigo-a a fazer mais trabalhos, além daqueles que ela já fez na escola?
Percebo a intenção da ministra, percebo a preocupação de tornar a escola mais igualitária e democrática. Mas acho que se devia começar pela obrigatoriedade do uso da bata escolar nas escolas públicas (o que não acontece na escola da Sara). O uso da bata esbate as diferenças sociais. As crianças ficam mais iguais entre si, mesmo se por baixo da bata umas vestem roupa de marca e outras roupa do supermercado. Essa talvez devesse ser a primeira medida.
Quanto ao resto das medidas anunciadas ultimamente, no âmbito do Plano de Enriquecimento Curricular do 1ºciclo, agrada-me a introdução das actividades desportivas e do ensino musical, embora note que existe uma contradição com as intenções democratizantes da ministra. É que se as novas actividades, tal como o inglês, não fizerem parte do currículo escolar, só alguns terão acesso a elas: os filhos dos mais ricos. Além de que não percebo como se podem obrigar as escolas a proporcionar actividades extracurriculares.

9 comentários:

planaltobie disse...

Olá!
Esta é a velha questão, ...se a escola reproduz as diferenças sociais ou não. O factor mais decisivo para o sucesso é a "origem socio-económica dos alunos". Deste modo os TPCs caem que nem ginjas a certos meninos, e a outros é um calvário. Teóricamente é uma medida correcta. O Carlos agora pode ter mais tempo para a filha sem ser através deste tema, embora lhe possa e deva perguntar pelos trabalhos.
A bata também me parecia uma boa medida. Sabe que as expectativas dos professores são diferentes consoante falam com um garoto "investido" ou com um de aspecto mais pobre? ...E que essa expectativa passa e alarga ou limita a ambição social dos alunos?
Em relação às actividades de Enriquecimento Curricular penso que a escola pública deve arranjar um sistema universal e gratuíto. Enquanto não, há que puxar pela imaginação para conseguir soluções locais.

Anónimo disse...

E como é que fazes para esconder as sapatilhas de marca e os telemóveis? Quando os putos são pequenos, não sabem nada dos capitalismos e dos lacostes. Essas coisas começam "só" lá para os 13!
Não estou muito confiante nestas educações modernas...
Posso comentar neste blog? Posso mandar umas bacoradas, neste blog tão bom?
luis

CN disse...

A questão dos tpc`s, é que através deles eu consigo observar a evolução da Sara. Sem essa bitola, acho que será mais fácil distrair-me com outras coisas e passar ao lado das dificuldades escolares, onde eu a posso ajudar.
E, além disso, eu quero mesmo que a minha filha seja boa aluna. Não precisa de ser a melhor, basta-me que seja boa aluna. Isso é importante para a sua auto-estima. E para a minha também...

Luís, bem-vindo!

escrevi disse...

A questão dos TPC é complexa.
Se a tua filha tem um pai interessado e com alguma disponibilidade, outros há que chegam a casa com os pais, tarde e a más horas, depois de apanhar o autocarro o barco e o comboio.
Os pais chateados com os transportes e o trabalho, com o salário cada vez mais longe do necessário para chegar ao fim do mês pouca paciência têm para as crianças.
Como é para essas crianças e esses pais, o problema dos trabalhos de casa?
E quando os miúdos estão na escola todo o dia. Será que não merecem algum tempo para não fazer nada?
Por outro lado os TPC também servem para adquirir algum método de estudo e aprender.
Eu acho que a questão social não fica esbatida com a bata (embora concorde) ou os trabalhos bem feitos.
O problema é mais profundo. Tem de ser atacado por algum lado. Concordo que não mudar nada não leva a lugar nenhum, mas conhecendo como conheço a zona velha da cidade de Lisboa (serve-me como referência) e o insucesso e abandono escolar, tenho dúvidas que a solução proposta altere granda coisa.

Madalena disse...

O Inglês vai ser obrigatório no 3º e 4º anos.
O meu sentir de professora está aqui (http://chora-que-logo-bebes.blogspot.com/2006/05/o-direito-de-resposta.html), sem medos de avaliações, mas perfeitamente consciente de que este problema de pais contra professores e professores contra pais não passa de manobra de alguém ou "alguéns" para desciar as pessoas do verdadeiro debate da educação: condições de vida nas escolas, pobrezas, desigualdades sociais e outras, bem como duração de tempos lectivos e novas áreas.
Beijinho à Sara que é quem mais importa no meio de tudo isro!

CN disse...

Escrevi, o problema dos pais iletrados ou chateados com a vida e que, por isso, não são capazes de ajudar os filhos, não se resolve desta maneira, acho...
Se os miúdos tiveram apoio escolar extra para minimizarem as dificuldades escolares, será óptimo. Mas não tenho a certeza que por os pais de lado, no processo de aprendizagem, vá beneficiar alguém. Quanto muito, prejudica aqueles filhos que têm pais empenhados e pacientes (mesmo quando a vida não corre bem...).
Claro que podemos sempre continuar a interessar-nos, mas será certo que não vamos impor mais exercícios escolares aos miúdos... e perdemos essa parceria que eu acho essencial.
Vamos ver no que isto dá.

escrevi disse...

Concordo contigo.
Só que de facto estas situações existem e não são tão poucas como isso.
De qualquer forma só tentei deixar algumas dúvidas. Não tenho a solução na manga mas parece-me que não nos devemos abstrair da realidade social que nos rodeia.
E não se trata de desresponsabilizar os pais mas sim de encontrar formas de lhes dar condições para terem essas responsabilidades.

tuga disse...

Interessante recordar a bata branca. Cheguei a usar e não havia distincoes sociais.

Bajoulo disse...

“Seguindo o mesmo princípio que guiou a astuta Ministra da Educação ao querer dar poder aos pais para avaliar os professores, eu exijo, como automobilista, poder avaliar, para efeitos de progressão nas carreiras, os elementos das brigadas de trânsito. Assim, baixaria de imediato a alta taxa de infracções detectadas”.

Ratinho Blanco, auto-mobilizado Paço Arquiano

www.riapa.pt.to

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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