O nome de Néné Marcos Lopes nem sequer apareceu na ficha técnica, porque ele não queria. Quando Néné nos vendeu uma cópia das suas quatro cassetes cheias de guerra, fê-lo à revelia da Junta Militar e dos pequenos chefes que pululavam nas redondezas. Alguns tipos da Rádio Bombolom, a rádio da rebelião, não queriam que nós tivéssemos acesso aquelas imagens, nunca percebi porquê, e ameaçaram Néné de porrada e até de morte se ele nos vendesse aquele material. Suspeito que a razão se prendia com o negócio que aquelas imagens proporcionavam e, os tais pequenos chefes, quereriam meter algum ao bolso. De modo que a transacção foi feita com mil secretismos e Néné ficou com os originais… No que me diz respeito, com essas imagens e outras captadas pelo Renato Freitas e pelo Carlos Aranha, escrevi e montei uma reportagem de 45 minutos sobre a
guerra civil, a que chamei “A Revolta dos Mais Velhos”. É um título deslocalizado, digamos assim… a expressão “mais velhos” é de Angola. Deveria ter sido “A Revolta dos Homem Grandi”, mas ninguém iria perceber…

Os “homem grandi” na Guiné-Bissau são aqueles que, pela idade e conhecimentos adquiridos, têm o respeito da comunidade. Foram esses que, desde o primeiro minuto, fizeram
a guerra contra Nino Vieira.

Era quase comovente ver aquela tropa de cinquentões e sexagenários… e ouvi-los falar com a certeza da vitória. Eles, que tinham derrotado o exército português (na guerra colonial), iriam vencer os
senegaleses.
2 comentários:
Cada post é um documento.
Fico sempre com a sensação que estou a ler um livro cheia de interesse e falta a luz. Tenho de esperar que a energia volte...
Não sejas preguiçoso, escreve o livro.
Tens material tão interessante. Isso aliado à tua visão dos factos, à forma como viveste cada momento, são os ingredientes necessários para começares.
O livro, ou livros serão, no mínimo, elementos importantes de estudo pois os temas a abordar não se limitam a descrever uma guerra mas toda a envolvente humana e política que a tornam possível e que a justificam.
Há coisas que não "cabem" numa peça de jornal, nem numa reportagem mais alargada, e que merecem ser contadas. Em livro, de preferência!
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