Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











quinta-feira, fevereiro 02, 2006

Bissau, 1998 - Nino e o povo

Bissau, durante a guerra, era um cenário surrealista. Era a cidade do absurdo. As ruas vazias. As casas fechadas. As trincheiras da tropa senegalesa. Calor. Os bombardeamentos matinais. Os bombardeamentos ao pôr-do-sol.
Nos finais de Julho, numa tarde que já ia longa, estava encostado ao muro da casa, a deixar passar o tempo, quando aparece uma pequena multidão no final da rua. Era um grupo de homens, quase todos de camuflado militar. Avançavam lentamente, rua acima. Havia um que filmava. No meio do grupo estava o Presidente da Guiné-Bissau. De pistola à cinta…
Quando se aproximaram o suficiente, percebi então o que se passava. Nino acenava para uma multidão fictícia, como se recebesse ovações vindas das janelas fechadas, dos passeios vazios, das ruas desertas. O Presidente ria e acenava, de braços no ar, numa encenação de fraternidade de um povo que… de facto, não estava ali.
Neste teatro, Nino avançava pelas ruas de Bissau, rodeado de assessores e seguranças armados e filmado por uma equipa de reportagem do exército senegalês. Tratava-se de uma acção de propaganda completamente mentirosa.
Mal tive tempo de gritar para dentro de casa. O Carlos Aranha veio, mesmo descalço, com a Betacam ao ombro. Saltámos para a rua e avançámos para o grupo. Ouviram-se armas a serem engatilhadas e a voz de Nino a dizer “deixa, deixa”. A encenação virou entrevista. Feita em andamento, até à última trincheira senegalesa, junto ao depósito da água, perto do mercado do Bandim. Nino estava furioso com os jornalistas portugueses, principalmente com dois. Comigo, que não dava cobertura às mentiras do governo sobre o andamento da guerra. Com o Luís Castro, da RTP (entretanto chegado a Bissau), porque havia boas razões para pensar que o jornalista tinha levado uma encomenda do governo português para o líder da rebelião, o Brigadeiro Ansumane Mané. Que encomenda? Um telefone-satélite.

6 comentários:

planaltobie disse...

Para cenários surrealistas não há como a cidade do Kuíto, Angola.

Dou-lhe a devida atenção, embora nunca comente.

PCosta

para mim disse...

Ok... vou ser óbvio e simples: Gostei das calças. Onde posso arranjar umas iguais?!

CN disse...

já não há mais... o stock esgotou-se.

Isabela disse...

Pois, é isso, que se lixe o Nino e a encenação toda. Pago para vos ver aos dois com as calcinhas vestidas, de novo. As calças são metade da história.

para mim disse...

A propósito de encenações e para não tirar interesse ao estratagema de Nino, diz-nos uma outra coisa: acaso as vossas calças foram igualmente filmadas ou optaram por não as mostrar?!

CN disse...

vou contar, então, a história das calças. antes da guerra, havia em Bissau uma boutique de roupa, de uma estilista local. com a guerra, a loja fechou, claro. mas a senhora precisa de comer... quando nós aparecemos, ela viu ali uma boa oportunidade de ganhar umas massas. e nós comprámos porque, ainda por cima, tinhamos chegado quase sem roupa para vestir. a carga desnecessária ao trabalho tinha ficado no Senegal... mas não gostam das calças? invejosos...

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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