Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











domingo, fevereiro 05, 2006

Batalhão Búfalo

Aqui há dias vi, no Telejornal do Canal 1, uma reportagem do António Mateus sobre o recrutamento dos antigos militares do Batalhão Búfalo, como mercenários para missões nos actuais palcos de conflito, nomeadamente Iraque e Afeganistão. Aquilo não era bem uma reportagem, era mais uma notícia documentada com algumas imagens referentes aos protagonistas.
O António Mateus repôs partes de duas reportagens (essas sim) que ele fez há anos na base do exército sul-africano em Pomfret, onde podíamos ver a base do Batalhão Búfalo durante a guerra e, mais tarde, já desactivada. O Batalhão Búfalo, de facto, merecia um esforço melhor para que a sua história pudesse ser conhecida. Eles foram o Batalhão 32 do exército sul-africano que serviu o apartheid.
Eram indígenas das etnias do sul de Angola, exímios combatentes, que fizeram a vida difícil ao MPLA, mas também à SWAPO e aos guerrilheiros do ANC.
O Batalhão 32 foi dissolvido em 1993. Os ex-militares foram perseguidos pelos novos poderes emergentes em Angola, na África do Sul e na Namíbia. Proscritos na sua própria terra. Muitos morreram na maior das indigências.
A pobreza e o desprezo a que foram votados levou-os, naturalmente, a procurarem meios de subsistência onde quer que fosse. Reconhecidos como soldados exímios, não foi difícil cederem às ofertas das empresas de contratação de mercenários que ajudam a alimentar guerras e golpes de estado. Membros do antigo Batalhão Búfalo já foram encontrados, vivos e mortos, em conflitos tão distantes como a guerra da Costa do Marfim ou o golpe de estado nas Seychelles.
Lembro-me de ter lido, há anos, declarações de um desses antigos soldados sul-africanos, onde se dizia mais ou menos isto: "Somos soldados, mas podíamos ser carpinteiros, pedreiros, electricistas e canalizadores, ofícios que poderíamos exercer para nos levantarmos de novo. A nossa gente está desesperada, mas aprenderá seja o que for para sobreviver".
Acabaram no lado errado da História, tal como dizia o António Mateus nessa peça do Telejornal. Dificilmente sobreviverão.

3 comentários:

Isabela disse...

Excelente reflexão.
Outra que me ocorre: as potências coloniais (e a África do Sul, enquanto potência colonial intrínseca)serviram-se sempre das rivalidades e óidos étnicos para ganhar conflitos sem sujar as mãos. Dava menos trabalho pôr negros a matar negros; afinal seria um assunto entre eles. Tenho lido números dos "Cadernos Coloniais" (conheces esta colecção de revistas saídas durante o Estado NOvo?) com relatos absolutamente incríveis sobre a forma como, no século XIX e princípios do XX, conquistavam um território comprando uma tribo para que dizimasse outra. Mas essa estratégia perdura. Os ódios tribais, étnicos têm sido uma arma contra o próprio continente humano. A questão é, como construir uma União Africana? Como construir uma única etnia feita de muitas? Eu continuo a apostar em África, sempre, muito, tudo. E isto é o gostaria de ver, ainda no tempo da minha vida, que espero seja longa! :)
Um beijo. Excelente texto, blogda-se.

planaltobie disse...

O drama é não saber vencer, CN! Nas tragédias gregas os vencedores choravam os vencidos. Acredito que o apoio, a integração, as ajudas fossem complicadas devido à conjuntura, mas... assassinar, como fizeram na Guiné aos flechas!!

Que sabe disto?

PCosta

CN disse...

sei alguma coisa sobre os Flechas.
fica para um próximo post.
de resto, minha querida Isabela, o drama dos Flechas enquadra-se no que acaba de escrever: dividir para reinar.

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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