Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











quarta-feira, fevereiro 15, 2006

Congo, 2001 - A Expedição, o chimpanzé

O povo Azande sempre comeu macacos. Um hábito que, dizem alguns cientistas, pode até ter estado na origem do processo de passagem do vírus HIV dos símios para os humanos. Os símios têm o vírus mas convivem com ele. O HIV não os mata. Mas pode ter acontecido que por contacto com o sangue de algum animal caçado, ou pela ingestão da carne, o HIV dos símios tenha encontrado maneira de viver no organismo humano. De algum modo o vírus passou dos macacos para o homem. Nestas regiões subdesenvolvidas, é muito próxima a convivência entre os humanos e esses animais. Os macacos adultos são comidos, as crias servem de brinquedo para as crianças até irem, também, parar à panela.
Mas a maioria das crias morre cedo. Em Bili, na casa do comandante militar local do MLC, encontrámos dois bebés chimpanzé órfãos de caça. As duas crias estavam em muito mau estado de saúde. Morreriam rapidamente se não fossem socorridas. Decidimos tentar salvar a mais debilitada, uma pequena fêmea, na esperança de que o outro bebé tivesse forças para recuperar a saúde. O pequeno chimpanzé foi resgatado e ficou connosco durante todo o tempo que permanecemos na região. Alguém a baptizou Georgina… e assim ficou. Quando abandonámos Bili e fomos para o acampamento na floresta, Georgina foi connosco. Nunca a prendemos e nunca fugiu. Passava o dia a subir e a descer árvores, comia frutos silvestres e dormia como um bebé. Via-se que confiava em nós, que sabia que não lhe iríamos fazer mal. Por imitação, ganhou hábitos humanos. Ao entardecer, pegava na sua manta que estava sempre pendurada numa corda e encaminhava-se para a tenda de Karl Ammann, onde se habituou a dormir. Foi assim, durante aquele mês e meio em que estivemos no mato. Depois, havia que decidir o que fazer com ela. Devolvê-la ao antigo dono, nem pensar. Agora que estava gordinha, daria um churrasco soberbo… deixá-la em liberdade era o mesmo que matá-la logo ali. Além de ser ainda um bebé, não sabia nada dos perigos da floresta. Na primeira noite seria comida por algum leopardo, leão ou hiena, predadores comuns e que constantemente rondavam o acampamento durante a noite. Ninguém a queria como animal de estimaçãoA solução foi dada por Karl Ammann que, através do telefone-satélite, entrou em contacto com organizações de protecção da vida animal e conseguiu um lugar para a Georgina num santuário dedicado aos grandes símios, numa ilha do Lago Vitória, no Uganda. Ali ela ficaria em liberdade e protegida de predadores, humanos inclusive. É lá onde vive, hoje, numa ilha chamada Ngamba.

6 comentários:

Antonio disse...

Numa blogosesfera tão imensa e cheia de azedume este seu blog, feito de memória, acaba por ser uma lufada de ar fresco.

O passado é menos emocionante. E talvez por isso dado a uma observação mais serena. Mais comtemplativa. Mais lucida. Para mim, mais interessante.

Denudado disse...

Não só o HIV terá passado do macaco para o homem, como também os vírus de Ebola e de Marburgo.

Quando se fala nas muitas riquezas que há no Congo, nunca se costuma referir o tântalo, elemento que só existe em quantidades minimamente exploráveis no Congo Democrático e em mais nenhum outro país do mundo.

Até há poucos anos, o tântalo só era alvo de curiosidade científica e pouco mais. Mas agora, com a miniaturização que se tem verificado na electrónica, ele tornou-se uma verdadeira preciosidade. As suas características dieléctricas são tais, que permitem o fabrico de uns componentes electrónicos, chamados condensadores, que têm dimensões extremamente diminutas. Não há telemóvel nenhum que não tenha condensadores de tântalo.

Ora as explorações de tântalo na RDC situam-se precisamente nas zonas que até recentemente foram as mais inacessíveis e preservadas da acção do homem. A pressão humana que agora se verifica nas regiões ricas em tântalo leva ao abate generalizado de macacos para consumo (bush meat) nessas regiões.

O perigo de novos contágios e até de novas doenças, resultantes desse consumo, é real e também se receia muito seriamente pelo futuro dos gorilas, como espécie seriamente ameaçada.

Sem sabermos, ao comprarmos um telemóvel, estamos a contribuir indirectamente para a destruição da vida selvagem na África Central e, até, para a disseminação de perigosas doenças.

Muitos especialistas em microelectrónica estão conscientes deste grave problema e procuram encontrar um substituto para o tântalo. O nióbio é o melhor substituto que se encontrou até agora, mas não tem as mesmas qualidades do tântalo, nem de perto nem de longe. Mesmo assim, espera-se que dentro de muito pouco tempo os telemóveis venham a ser equipados com condensadores de nióbio e não de tântalo, a bem da Natureza.

CN disse...

É rigorosamente verdade, isso que diz, Denudado. São as coisas que o branco inventa...

Isabela disse...

Nada sabia sobre o tântalo nem o nióbio, nem sobre a devastação florestal para esse efeito: muito menos que era hábito matar assim macacos para alimentação.

Esta é a história de um Bambi. Mas só esta se salvou. E eu fico triste com isso. A realidade é demasiado real.

Marilia Mota disse...

Também não sabia nada sobre o tântalo, nada disso. Blog também é cultura! :)
Mas sei que há mto nióbio na Floresta Amazônica (Brasil), principalmente nas reservas indígenas demarcadas por pressao internacional. Essas reservas se tornaram praticamente países dentro do País. Como os estrangeiros se preocupam com nossos indiozinhos!

alice disse...

que linda história!

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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