Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











terça-feira, fevereiro 07, 2006

Angola, a kamanga

Cafunfo é uma aldeia na Lunda Norte. A particularidade desta aldeia é que tem uma pista de aviação, de terra batida, construída pela engenharia militar do exército angolano (penso eu). Durante a guerra civil, foi uma das principais bases operacionais dos Comandos das FAPLA que combatiam a guerrilha da UNITA.
Estive no Cafunfo várias vezes, em 1998, com o Carlos Santos (camera-man). Dali partíamos de helicóptero para outras localidades… ao contrário do que possa parecer, não era um trabalho muito excitante. A maior parte do tempo era de espera. Longas esperas, muitas em vão…Um dia, em que esperávamos ordem de marcha para qualquer lado, chegou um avião de Luanda. Fomos até à pista, ver quem chegava. Era gente anónima, tipos aventureiros, que iam para o negócio dos diamantes, a kamanga. Uns iam para o garimpo, outros apenas para a transacção. Mas, todos, chegavam ali com a esperança de ficarem ricos no dia seguinte… o que nunca acontecia, claro… Cafunfo, como toda a região diamantífera próxima da fronteira com o Congo, é uma espécie de far-west africano. Todos têm uma arma, os assaltos são constantes, os assassinatos são tema banalizado. Mas quem lá chega pela primeira vez, ainda só sabe de ouvir dizer e não releva a insegurança, o medo, o perigo, só pensam nos diamantes… Dessa vez, enquanto observava os que desciam do avião, lembro-me de ouvir um mulato dizer, para si mesmo, enquanto batia com os pés no chão com força, “eles estão aqui! Eles estão aqui!”

6 comentários:

planaltobie disse...

Sobre o tema e quase tão bom, ou tão bom como o post d`hoje, veja o artigo de Rafael Marques "O sacrifício do cabrito, diamantes e feitiçaria"

Procurem na "janelinha da pesquisa" em http://www.visaonews.com

...se colocarem o nome de Rafael Marques vão logo lá.

Mais do que as condições de anarquia do garimpo, admira-me a coragem de certos jornalistas!

PCosta

Paulo J. Ribeiro disse...

O continente africano e a região da Lunda, em particular, sempre me fascinaram. Nunca estive em África. Não conheço a Lunda. Mas, desde o dia em que li o livro "Lueji" de Pepetela, apaixonei-me por aquele pedaço de civilização. Espero um dia poder lá ir. Não sei se terei a sua coragem.

Phwo disse...

Lunda Norte, Lunda Sul, Moxico... Na "pista" dos Tucokwe, mas por razões distintas e com uma motivação obsessiva: os Akixi.

ELCAlmeida disse...

Caro Narciso,
A pista de Cafunfo foi feita por volta de 1973/4 por uma empresa que estava a construir uma estrada nas redondezas.
Essa empres a foi a mesma que construiu a belíssima estrada da Leba; os Lourenços Empreiteiros. E cpor causa dessa estrada magnífica e porque o Estado não cumpria com as suas obrigações contratuais - já naquela altura - a empresa acabou por abrir falência.
Vale o facto de ainda hoje existir quer a magnífica e bela Estrada da Leba (e não só) quer a pista de Cafunfo.
Um abraço
Eugénio Costa Almeida

The Okie disse...

Gostaria de esclarecer e corregir o comentario de que os Lourencos Empreiteios, construtores da belissima estada da Leba tiveram que abrir falencia devido a falta de pagamento por parte do governo. Como filho do Antonio Lourenco, e tambem administrador da mesma firma, gostaria de confirmar que os Lourencos Empreiteiros nunca abriram Falencia e o governo Portugues nunca falhou nos seus compromissos fonanceiros com a firma em questao.,

Marta Candala disse...

Não sei se estaremos a falar da mesma pista mas, eu nasci no Cafunfo em 1966 e nesse ano, estando a minha mãe grávida, teve que ser evacuada para o hospital mais próximo. Foi evacuada por avioneta e sei que usaram a pista do Cafunfo. É verdade que a dita pista não estava acabada e nem iluminação tinha. Foram colocados carros com os faróis ligados para "marcar/mostrar" a pista.


PS - Por curiosidade: a avioneta, um cessna conhecido por "Pássaro Azul", descolou da pista e caiu a seguir. Não se aproveitou nada. Todos os ocupantes sobreviveram e sem grandes danos. Pouco tempo depois nascia eu!

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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