Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











terça-feira, fevereiro 14, 2006

Congo, 2001 - A Expedição, o grego

Toda a região norte da República Democrática do Congo está isolada do resto do Mundo, há já muito tempo. Nos últimos 10 anos, as sucessivas guerras civis cavaram ainda mais esse isolamento. Estrangeiros, por aqui, só mesmo os missionários ou aqueles que se esqueceram de partir, como é o caso do cidadão grego Nikolaos Fotopoulos, que vive agarrado a memórias de outros tempos…
Nikolaos Fotopoulos chegou ao Congo em 1971, tinha então apenas 26 anos. Adaptou-se tão bem que nunca chegou sequer a aprender francês, a língua colonial. Nikolaos fala o dialecto kizande, a língua do povo da terra. Da Grécia mata saudades através da telefonia, gosta de música pimba que lhe chega na onda-curta mas, apesar da nostalgia, não quer regressar. É a vergonha de ser pobre, de não ter sequer dinheiro para tentar a viagem. O grego Nikolaos vive numa casa que foi do português Figueiredo. Quando o português resolveu partir, cansado da independência, Nikolaos pediu ao governo que lhe concedesse a casa abandonada. E foi assim que ficou com uma oficina de reparação automóvel e com maquinaria para torrar café e descascar arroz. Mas nada funciona. A oficina não trabalha porque a guerra matou todos os automóveis. Em toda a região, quase tão grande como Portugal, existem apenas dez ou doze carros que ainda funcionam. Nikolaos tem um desses veículos, um camião, que já serviu para carregar café até Isiro ou Kisangani, cidades a mil quilómetros de distância.

5 comentários:

Karla disse...

É grego, mas podia ser português. Habituámo-nos a ouvir histórias de portugueses que amando a terra e as gentes, se deixaram ficar.

Sony Hari disse...

Aí está a prova de que o desenvolvimento, possível pela paz, é o grande motor das necessidades. Para quê oficinas, se não há carros?

Phwo disse...

Fica um rasto de infelicidade depois de se ler este texto. Aquele sentimento perturbador e incómodo de se ter pena de alguém e que eu, leitora, quero recusar.
Tenho a certeza de que este homem grego tem histórias e estórias magníficas para contar. Histórias que o foram prendendo à terra e estórias que lhe foram alimentando os sonhos. Senão... porque ficaria "para trás"?

Anónimo disse...

"Ter pena de alguém"
Expressão que me incomodou pela sobranceria e arrogância.
Lamento, não é uma virtude cívica.

Desajuste entre indivíduos e sociedade é o que mais vemos, à nossa porta, nos sem-abrigo que voluntariamente (também) escolhem (ou não) viver outras necessidades, outros sonhos.
Terão esses homens e mulheres histórias e estórias menos interessantes que as deste grego?

O "Grego" terá escolhido, por orgulho(?) e vergonha(?), deixar-se ficar, como parece ser segundo o texto de CN. Teria regressado, caso tivesse feito fortuna?
Ou teria ficado para ajudar ao desenvolvimento da terra e das gentes que agora também são suas?
Porque fogem tantos africanos à miséria e à pobreza, na clandestinidade? Porque é que há africanos que usurpam o dinheiro que permite o desenvolvimento local e vivem vidas refasteladas na Europa e não só?

E por último, não vivem também as sociedades do futuro com métodos e mecanismos do passado?

Mário Barros

CN disse...

caro Mário Barros, obrigado pela visita e pelo comentário. O "ter pena" da visitante anterior é, tal como a própria disse, "sentimento perturbador e incómodo"... e é de facto. Percebo que o rejeite, mas perceba que é difícil não o sentir, em determinadas circunstâncias. Quanto ao grego de que falo nesta história, sei, por quele me disse, que o regresso foi sempre adiado por falta de dinheiro. Sabe que um emigrante deseja sempre voltar, mas coberto de glória, digamos assim. Quando isso não acontece, é sinónimo de fracasso. O grego Niko sabe que fracassou... e, lamentavelmente, assume essa derrota deixando-se ficar. É claro que por há ali muito amor e apego à terra, ao ambiente, a algumas pessoas, claro que há. Mas também devia ter havido na Grécia, quando ele decidiu partir...
Um abraço a todos. Gosto de vos ver por aqui.

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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