Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











domingo, fevereiro 12, 2006

Sarajevo, 1994 - o jornal da libertação

Em Sarajevo não havia água canalizada e a comida escasseava. As pessoas só se lavavam nos meses quentes, na via pública, em locais onde havia roturas nas canalizações ou nas bocas de incêndio onde a pressão ainda permitia que a água corresse. A comida era distribuída pela ajuda humanitária. Vi gente que cultivava tomates e batatas em vasos, dentro de casa… não havia gás para cozinhar, não havia energia para aquecer as casas. A cidade não tinha nada, mas havia um jornal que saía diariamente. Chamava-se Oslobodjenje (Libertação) e, na época, havia uma aura de heroísmo ao redor do jornal e de quem o fazia. Lá fui para a reportagem da praxe, visitar as catacumbas onde o jornal se escrevia e se imprimia, falar com os jornalistas, espreitar pela janela a proximidade dos snipers sérvios, verificar in loco o sacrifício daqueles tipos… sim, era tudo verdade, mas o Oslobodjenje já não era um jornal de jornalistas. O jornal prestava um serviço político à facção muçulmana do conflito bósnio. Na prática, era um órgão da resistência contra os sérvios. E era um documento estranho. Tinha sempre uma história de primeira página, a manchete, mas depois o resto do jornal era ocupado com uma imensa lista de necrotério… nomes e nomes e nomes, às vezes com foto, de gente morta, alegadamente às mãos do inimigo. O edifício tinha sido quase totalmente destruído dois anos antes, em Agosto de 92, por bombardeamentos sérvios. Era um edifício longo, com uma torre alta de três ou quatro andares. A estrutura metálica da torre tinha ficado torcida, mas permanecia de pé, como uma árvore seca. Lembro-me de dizer, nessa reportagem, que lhe “tinham destruído o físico, mas não a alma, que continuava viva nas catacumbas”… custava o equivalente a 50 escudos, hoje diríamos 25 cêntimos. E esgotava todas as edições, diariamente, apesar de não passar de uma longa lista de necrotério. Ou talvez por isso mesmo…

3 comentários:

Karla disse...

Uma guerra chocante, como todas, obviamente.
Esta, foi muito vivida em directo, teve atrociades quase medievais e atingiu populações com as quais nos podíamos identificar.

Este blog foi uma descoberta recente, mas vai passar a fazer parte das minhas visitas diárias, para pôr a leitura em dia.

Sony Hari disse...

A guerra é a acção, quanto a mim, mais racionalizada, articulada e cruel que um povo pode desenvolver. E arrepia-me o discurso da "insensibilização". Não é porque recebemos informação em massa, em todos os meios de comunicação e a toda a hora, e porque o conflito é lá num ponto que fica a mihares de Km, que podemos continuar a dormir descansados. Tudo o que se passa no mundo tem a ver connosco.

jose ramos disse...

Ao tentar misturar as minhas memórias com outros testemunhos, vim aqui parar e gostaria de lhe perguntar em que mes de 1994 esteve em Sarajevo.Além da pequena comunidade militar e para militar que na altura estava em Sarajevo ( ou melhor, na
BH), só me lembro de dois jornalistas, aos quais demos o nosso melhor apoio e connosco cearam na noite de natal) e que nos retribuiram com uma reportagem no Independente, na qual as referências sobre a nossa pequena força foram, no mínimo, pobres e miseràveis. Gostaria de ter a oportunidade de, em pessoa "desabafar" esta minha indignação.

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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