Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











domingo, fevereiro 19, 2006

Congo, 2001 - A Expedição, descobrir o passado

O primeiro homem branco a ver um gorila foi o português Eduardo Lopes que, em 1590, explorou o interior do Congo. Eduardo Lopes foi um “lançado”, assim se chamavam os aventureiros que, ao serviço do rei de Portugal, se embrenhavam por África adentro. Eram missões arriscadíssimas, como se pode imaginar, e que duravam anos. Muitos nunca regressaram. Mas os que conseguiram voltar, trouxeram histórias fantásticas sobre esse novo continente que os homens brancos estavam então a descobrir. O relato de Eduardo Lopes sobre os gorilas que ele viu, é apenas um exemplo desses relatórios fabulosos. Pena que pouco se saiba sobre esses pioneiros… Imagino eu que os gorilas que Eduardo Lopes viu eram os gorilas da região do Maiombe, a floresta tropical de Cabinda. Ainda hoje existe por ali uma população de gorilas extremamente ameaçada pela caça dos humanos. Por causa da guerra em Cabinda, há muitas dezenas de anos que não se faz qualquer observação sobre o estado desses gorilas. A última vez que ouvi falar sobre eles foi em 2002, quando alguém levou de Cabinda para Luanda um gorila bebé, cuja mãe tinha sido morta por um caçador. Esse bebé acabou por morrer, também, ao fim de umas semanas, numa jaula no Clube Hípico, um restaurante de Benfica, nos arredores de Luanda…
Mal comparada, a expedição científica que tenho estado a relatar, tinha alguns paralelismos com a epopeia dos “lançados”… também aqueles cientistas iam observar pela primeira vez, na história da ciência moderna, um determinado território.
Como já referi antes, a primeira vez que se falou da existência de gorilas, nesta parte central de África, foi em 1898, quando uma expedição colonial, chefiada pelo oficial da coroa belga Le Marinel, trouxe três crânios de gorilas recolhidos algures perto de Bili. Dois desses crânios pertenciam a animais que tinham sido caçados e cozinhados por indígenas, o terceiro foi encontrado vivo e morto a tiro por um dos soldados da expedição. Os crânios foram recolhidos no Museu da África Central em Tervuren, perto de Bruxelas, onde ainda estão. Foram classificados como uma nova subespécie de gorilas: o Gorila Uelensis, por referência ao Rio Uéle que passa perto de Bili. Mas nunca se investigou a existência destes animais, malgrado alguns relatos mais ou menos credíveis, tanto de europeus como de habitantes locais, sobre a existência de grandes macacos a viver naquelas florestas. Grandes macacos a quem os nativos chamam “babi”, para os diferenciar dos chimpanzés normais a quem eles chamam “mokumbusso”.
O Museu da África Central é um legado do Rei Leopoldo II da Bélgica.
É um museu com um vasto espólio científico e é aí que reside a sua importância. O Rei Leopoldo deve ter fundado esta instituição para expiar parte dos crimes que cometeu na implementação da sua política colonial. A repressão belga no Congo foi terrível, embora isso seja um facto que os belgas tentam esquecer… eles que foram para civilizar os nativos, acabaram por introduzir o trabalho escravo em massa e uma tristemente famosa punição para os que se revoltavam: a mutilação de mãos e pés. Este castigo desumano foi aplicado a milhares de negros escravizados, segundo relatos independentes da época. Outro costume dos brancos era, quando subiam os rios, ao passar por aldeias divertiam-se a fazer tiro ao alvo nos habitantes que estavam nas margens.
Estes costumes bárbaros dos belgas inspiraram, de resto, o escritor Joseph Conrad que denunciou estes actos no livro “O Coração das Trevas”, editado em 1899.
O Rei Leopoldo II foi, assim, um dos primeiros chefes europeus a fazer parte do rol dos genocidas modernos. Foi sob o seu reinado que os civilizadores homens brancos se revelaram notoriamente selvagens.

7 comentários:

Isabela disse...

Há anos que não leio nada sobre esta questão específica de História dos Descobrimentos (prefiro, como os brasileiros, chamar-lhes "achamentos").Tenho a ideia que os "lançados" eram condenados a ser lançados borda fora dos navios. Efectivamente lançados. Era uma pena a que tinham sido condenados. Quase sempre, morte certa. Muitos não chegavam nunca à margem, até porque não sabiam nadar, mas alguns dos que chegaram tornaram-se figuras importantes, exploradores, chefes, sim; desempenhavam um papel muito importante quando realmente chegavam os emissários do rei, os missionários, etc. Porque conheciam os costumes, a região, tinham aprendido a língua, etc. Porque possuíam influência, miscegenavam-se por ali, inicianbdo uma outra vida, etc.

CN disse...

o que sei sobre isso, é um pouco diferente. os "lançados" seriam realmente tipos condenados pela prática de crimes, e que cumpriam a pena sendo lançados pelo interior do continente, em missões na prática suicidas... missões solitárias. sim, muitos miscenizavam-se... o resto coincide. mas, vês, sabemos muito pouco, quase nada, sobre esses factos e esses homens.

delta disse...

Sem querer questionar, nem sequer relativizar as ingáveis barbaridades e crueldades cometidas na altura dos Descobrimentos e posteriores colonizações, não deixa de ser importante recordar que os juízos de valor que fazemos, fazemos a partir do nosso aqui e agora. Entretanto, sempre aprendemos qualquer coisita, embora devessemos ter aprendido muito mais, como mostram as reportagens de CN. Mas, relativamente à (nossa...) Expansão, não só fico impressionada com as chacinas e crueldades cometidas, como com afirmações como a seguinte, retirada de um texto escrito por um colono português no Brasil (Gabriel Soares de Sousa, "Notícia do Brasil), século XVI, ao observar os costumes dos tupis e referindo-se especificamente à sua língua, na qual não conseguiu identificar alguns fonemas: "se não têm f, é porque não têm fé em coisa nenhuma (...), se não têm l na sua pronunciação é porque não têm lei nenhuma que guardar (...) e se não têm esta letra r na sua pronunciação, é porque não têm rei que os reja e a quem obedeçam." Este raciocínio revela, mais que um inevitável desconhecimento da fonologia moderna, uma profunda incapacidade para interiorizar a existência de diferentes culturas e verdades, diferentes modos de viver e representar o real. É uma visão do mundo de tal modo estreita - e este não era um qualquer condenado - que, assim, impressionam de igual modo, mas não admiram tanto, algumas das barbaridades cometidas.

Sony Hari disse...

É impressionante como mesmo depois de tanta História escrita, ainda hoje somos confrontados com barbaridades não tão diferentes das que relata no seu texto. O conhecimento parece também aguçar o requinte das "atrocidades".

planaltobie disse...

Ainda antes de Eduardo Lopes (1590) houve vários. Vou destacar o primeiro (primeiro nesta zona): Rui de Sousa (1491, cem anos antes). Desembarcou na foz e impulsionado pelas ideias e ordens do rei (D. João II)foi para Leste à procura de Preste João.
E como já dizia Azurara, D. Henrique procurou obter informações do interior do continente, desse continente que fascinara o mundo romano e o medieval com miragens de riquezas prodigiosas, de sol, ouro, marfim e escravos.
Quem começou?
É muito dificil dizer, assim como é dificil de não dizer que o primeiro relato oral na Europa não tenha sido de Rui de Sousa, mesmo sabendo que os gorilas são timidos e não se mostram.

PCosta

Anónimo disse...

Sei que sou nostálgica... mas, dói-me que os nossos descendentes não conheçam Hammarskjöld, o presidente da ONU assassinado. Dóiem-me imensas desinformações. As dos últimos mortos da ONU, muito mais. Alouine Beye era um estudioso, um líder, um analista. Foi assassinado e todos continuam a insistir na tese dos desastres de avião. Já são tantos, em África!!!Machel foi o primeiro, lembram-se?
Juanita Camiñante

Denudado disse...

A propósito dos lançados, Pero Vaz de Caminha escreveu a certa altura na sua Carta:

«E daqui mandou o capitão a Nicolau Coelho e Bartolomeu Dias que fossem em terra e levassem aqueles dois homens e os deixassem ir com seu arco e setas, e isto depois que fez dar a cada um sua camisa nova, sua carapuça vermelha e um rosário de contas brancas de osso, que eles levaram nos braços, seus cascavéis e suas campainhas. E mandou com eles, para lá ficar, um mancebo degredado, criado de D. João Telo, a que chamam Afonso Ribeiro, para lá andar com eles e saber de seu viver e maneiras.»

Só assim é que fazia sentido o transporte de condenados nas naus. Eles iam para serem deixados em terra, ficando a viver entre os nativos, a fim de ficarem a saber mais sobre as gentes, as terras e as suas riquezas.

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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