
As poucas pessoas que permaneciam em Bissau depressa ficaram a saber que os jornalistas tinham um telefone... uma notícia que passou de boca em boca entre os dois ou três mil habitantes que permaneciam na cidade. Com o tempo, primeiro os vizinhos, depois todos os outros acabaram por fazer fila no portão da nossa casa para "fazer uma chamada"... para dizer a alguém que ainda estavam vivos, para saber de alguém novidades sobre os familiares que se tinham refugiado em Portugal, ou no Senegal, ou em Cabo Verde ou noutro lugar qualquer. Aquele era o único telefone possível, porque ao da RTP só tinham acesso os dois funcionários da casa, os dirigentes do governo e alguns militares guineenses que apoiavam o Presidente Nino Vieira.Não havia maneira de negar aquele favor... não há como dizer não a alguém que pode morrer no minuto seguinte... Porque aquele era o nosso único telefone e porque não havia qualquer possibilidade de o reparar ou substituir, o manuseamento do aparelho era feito por mim e só passava o auscultador se e quando do outro lado alguém atendia... portanto, passei horas a marcar números e a ouvir vozes desconhecidas a quem pedia para esperar um pouco, que ia passar o telefone...Uma noite, uma 2ªfeira, uma senhora deu-me o número que queria contactar. Lembro-me que era da zona de Coimbra... lembro-me de ouvir durante algum tempo o som de chamada, lembro-me que cheguei a pensar que ninguém ia atender... e de repente, uma voz ansiosa: "Roda dos Milhões! Boa noite!..."
1 comentário:
É formidável o crescendo emocional em que o texto se vai construindo, e a ironia descontrutiva que o termina.
Enviar um comentário