Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











domingo, abril 16, 2006

Guiné Bissau, a guerra civil. Balas perdidas

O principal problema era que o governo guineense não controlava a SIC, como controlava a RTP. Mesmo do ponto de vista institucional, o governo guineense tinha alguma autoridade sobre os funcionários da RTP em Bissau. Além do mais, a RTP foi apanhada sem jornalistas em Bissau, quando a guerra começou. Quem lá estava era o delegado, um gestor, sem formação jornalística, desobrigado em termos de ética e deontologia profissional. Era, além do mais, um homem muito habituado a obedecer. Por isso, era fácil controlar o que a RTP emitia a partir de Bissau. Por isso, a presença da SIC passou a ser um incómodo grande. Pior que isso, assim que entrei em Bissau passei a ser solicitado pelas rádios Voz da América, Voz da Alemanha e BBC para lhes prestar colaboração. Até a TSF me pediu crónicas, mas enquanto as outras rádios me pagavam o trabalho, a TSF achava que eu tinha de o fazer de borla… de modo que deixei-os a falar sozinhos ao fim de três dias. E se era verdade que na Guiné-Bissau ninguém sabia bem o que eu dizia nas reportagens na SIC, o mesmo já não se passava, por exemplo, com o que eu dizia na BBC, talvez a estação de rádio mais escutada em Bissau durante a guerra. E o que eu dizia desmentia, muitas vezes, o que dizia o governo guineense sobre o desenrolar da guerra.

Campo de batalha, no Paiol de Brá, 1998

Até mesmo na embaixada de Portugal se notava algum incómodo pela nossa presença em Bissau. O embaixador Henriques da Silva sempre foi de uma educação extrema connosco, mas percebia-se que nos temia, isto é, temia as consequências do nosso trabalho. Bissau deve ter sido o posto mais difícil da carreira do embaixador Henriques da Silva. O homem sentia-se infeliz, manifestamente. Esteve meses sem sair da embaixada e passou pelo susto de sentir a explosão de um obus que caiu na zona residencial da embaixada, felizmente sem ferir ninguém. Um dia, o embaixador confidenciou-me que o próprio Presidente Nino Vieira lhe tinha dito para eu "ter cuidado com as balas perdidas". A mensagem era tão clara que o embaixador me pediu encarecidamente para eu sair de Bissau e, se possível, sair do país. Fiquei e denunciei a ameaça num directo para o programa da Margarida Marante. Se tivesse havido alguma bala perdida, sabia-se de onde tinha partido…

4 comentários:

para mim disse...

Nesta nossa terra não há o perigo de balas perdidas, mas a ver pela quantidade de mortes nos últimos tempos à porta de discotecas, há um real problema de balas bem intencionais...

Isabela disse...

És como os gatos.

Sundiata Keita disse...

Carlos, sempre adimirei a sua coragem. Também ouvi este seu relato no dito programa da Margarida Marante. Mas os métodos de Nino foram sempre esses, "balas perdidas" ou "enfartes de miocardio". Ainda bem, para a nossa alegria, nada disso o atingiu.

Sony Hari disse...

Não há nada como um "directo" para desencorajar os cobardes.

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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