Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











quarta-feira, abril 05, 2006

Israel, 1989 - na primeira Intifada - dentro de Nablus

…”Seguimos pelas montanhas, a corta-mato, eu mais o Carlos Aranha e o guia palestiniano. Entramos em Nablus de noite e era quase madrugada quando conseguimos chegar ao kasbah da cidade sem sermos apanhados pelas patrulhas israelitas. As ruas estavam desertas. As paredes cheias de graffitis e frases em árabe que o nosso guia ia traduzindo… diziam as pichagens que aquela era uma zona considerada “libertada” do domínio do exército israelita. Descobrimos o que isso queria dizer quando, pouco depois, fomos sequestrados por um grupo que se intitulava “Águias Negras” e que, segundo entendi, obedeciam às ordens de Abu Nidal, um tipo considerado terrorista. Fomos levados para uma casa, fechados numa sala, despojados de toda a documentação e equipamento de reportagem. Os palestinianos pensavam que nós éramos soldados israelitas disfarçados de jornalistas… durante horas os sequestradores discutiram com o nosso guia. Era difícil seguir o rumo da discussão, porque era em árabe…Várias horas depois, não sei bem quantas, havia um rapazito na sala que se foi aproximando e, em dado momento, me saudou: shalom!, disse ele. Naquele segundo, fui iluminado pelo instinto de sobrevivência e percebi que a saudação era uma armadilha. Shalom dizem os israelitas quando se cumprimentam. Os palestinianos dizem marhaba… tive a sorte de o perceber, tive a sorte de não reagir por reflexo, tive a sorte de saber a palavra em árabe. Tivemos muita sorte porque, acredito, se tivesse respondido shalom estaríamos mortos pouco depois.”
(Este texto é parte de um post antigo, editado em 2 de Janeiro. A reposição justifica-se para, simplesmente, ordenar a cronologia dos textos).

Nablus

Depois deste susto, o grupo palestiniano libertou-nos e devolveu-nos os documentos e todo o equipamento de reportagem.
As the show must go on… fomos para o hospital, cenário garantido de imagens chocantes.

6 comentários:

an0kes disse...

Já sabia que ia voltar mas depois deste post tenho a certeza que vai ser todos os dias(pelo menos vou tenar..).
Espero que inda hajam milhentas histórias como esta porque para aqueles com aventuras limitadas ao cimento citadino são bem fixes!

muuaks anormalecos e porte-se como kiser...

Ana Afonso disse...

Obrigada pela visita á minha humilde casa!
Não são minha filhas ... mas tenho pena! ... são duas meninas de birra no Brasil não queriam tomar a profilaxia da malária e ficaram de birra ainda bastante tempo!!
É sempre com muito gosto que aqui venho ... deve ser um lugar comum ... peço desculpa ... mas ... um verdadeiro contador de histórias!
Abraços e sorrisos
Ana Afonso :)

(anaafonso74@hotmail.com)

Bajoulo disse...

"Há 6 meses cinco militantes mascarados do hamas assassinaram uma jovem recém-casada que voltava a casa da praia, onde tinha passeado de mão dada com o marido, acto considerado de provocação obscena. São estes os amigos da Esquerda e do Luís Rainha". - Quitéria Barbuda in "O Mal", Revista "Espírito", nº 24, 2006.

www.riapa.pt.to

dakidali disse...

Mais uma fantástica crónica.
Beijinhos

Sofocleto disse...

Shalom - uma saudação que podia ter saído funesta numa terra cheia de equívocos.

LM disse...

Os equívocos da palavra!
Boa noite.

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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