Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











sábado, abril 08, 2006

Israel, 1989 - na primeira Intifada - Yad Vashem

Em Jerusalém, em 1989, era fácil percebermos se estávamos na zona árabe ou na israelita. Os bairros árabes eram sujos, desordenados, as casas inacabadas com o tijolo à mostra, as ruas tortuosas e esburacadas. Na zona israelita não havia pichagens a sujar as paredes, nem pneus a arder no meio das ruas, nem contentores de lixo a abarrotar para o chão, notavam-se as preocupações urbanísticas e o cuidado na preservação das pedras milenares. Estas diferenças abismais, às vezes, eram de uma rua para outra ou do outro lado do cruzamento.Hoje talvez já não se note, porque estão a construir um muro alto para separar as comunidades. O olhar deixará de se escandalizar com a degradação, para ficar murado pelo betão. Não sei se o muro irá dividir Jerusalém do modo como está a cortar a Cisjordânia
Eu e o Carlos Aranha percorremos a cidade de lés a lés e fomos à descoberta do resto do país, visitámos Tel Aviv, fomos a Haifa, no norte, conhecemos Nazaré, estivemos em Beersheba, ficámos uns dias em Elat para darmos uns mergulhos no Mar Vermelho. Israel pode ser um país encantador, culturalmente riquíssimo, tanto quanto pode ser um local horrível onde povos inimigos se matam metódica e encarniçadamente. E é tão estranho que seja assim… como pode um povo que passou pelo Holocausto ser, assim, tão duro com outro? Ou será que é precisamente por isso que, hoje, os judeus preferem matar a correrem o risco de voltarem a ser alvo de extermínio colectivo? Um dos locais que mais me impressionou foi o Museu Yad Vashem, em Jerusalém, erigido em memória dos que foram mortos pelos nazis. É um museu sui generis, um espaço de vários hectares, com jardins e vários pavilhões temáticos. Tudo o que está ali foi concebido para provocar emoções… o labirinto de Babi Yar, por exemplo, mexe com os nervos de qualquer um. É um labirinto, ao ar livre, constituído por imensos blocos de granito. Em cada bloco, o nome de uma ou mais comunidades judaicas exterminadas pelos nazis.São tantos nomes escritos na pedra… os caminhos desse labirinto levam, forçosamente, ao centro da estrutura onde está um banco de pedra em frente à pedra de Babi Yar, uma localidade russa que os nazis riscaram do mapa e onde não sobreviveu um único membro judeu. Quem se senta naquele banco, sente uma tristeza imensa, uma angústia esmagadora, indisfarçável.Outro local que jamais esquecerei, em Yad Vashem, é o pavilhão dedicado às crianças mortas nos campos de concentração nazis. Dirigi-me para lá, convencido que ia ver um montão de fotos de meninos e meninas esqueléticas, de cadáveres amontoados, de carinhas tristes… mas, no interior, mal entramos, fomos envolvidos pela escuridão imensa, impenetrável. Uma voz aconselhou-nos a tactear um corrimão e a caminharmos pela escuridão apoiados nessa trave. Começámos a caminhar, devagar, apareceram umas luzinhas de vela ao longe, primeiro uma, duas, três… chegaram às centenas. Por cada luzinha trémula, ouvia-se a voz dizer um nome e uma idade: João, 3 anos… Inês, 5 anos… Maria, 6 meses… Joaquim, 7 anos… Ana, 11 anos… Manuel, 9 meses… Sofia, 6 anos… António, 10 anos… Joana… uma vertigem, uma coisa horrível, as lágrimas irreprimíveis… no final do corrimão, a porta abriu-se e entrou luz do dia, violenta, que iluminou o porteiro… um homenzinho muito magro, vestido com umas calças e um casaco cinzento às tiras pretas, que ao esticar o braço para segurar a porta aberta destapou um número tatuado no antebraço… e que nos disse “obrigado por terem vindo”.

6 comentários:

Maite disse...

Ao ler mais este seu relato estava aqui a pensar que o ser humano não pára de se destruir ou melhor de se autodestruir como membro da mesma espécie. Olhando com algum distanciamento, pode até afirmar-se que não há culpados nem inocentes. Uns não são só agressores e os outros as vítimas. Sempre que se tem a oportunidade, e de uma forma congénita, aniquila-se o outro. Sempre o mais fraco, naquele momento.

Bom dia para si e bom fim de semana

Filipe Pinto disse...

de vez em quando leio o que escreve. a sensação que fico é que o carlos pode afirmar com toda a força - eu vivi.
filipe pinto

LM disse...

Neste dia de lágrima fácil, faltava mesmo um relato assim!
Tão cruel e tão belo.
Fique bem.

Su disse...

vim ler...o que não li durante a semana, que foi tudo....o tempo..corre.....mas...

fica a sua pergunta: E é tão estranho que seja assim… como pode um povo que passou pelo Holocausto ser, assim, tão duro com outro???!!!

obgda pela partilha das suas vivências

jocas maradas de tempo

Phwo disse...

«E é tão estranho que seja assim… como pode um povo que passou pelo Holocausto ser, assim, tão duro com outro? Ou será que é precisamente por isso que, hoje, os judeus preferem matar a correrem o risco de voltarem a ser alvo de extermínio colectivo?»

- Quantas vezes penso nisto!...

Isabela disse...

Não sou cínica. Não costumo ser. Contudo, há muito que não me espanta que as vítimas sejam também carrascos. E vice-versa. Não somos uma só coisa. E isso não torna mais suave o que se sofre nem desculpabiliza o que se faz sofrer.

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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