Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
Hakuna mkate kwa freaks.











quinta-feira, abril 20, 2006

Cego, é quem não quer ver

…”a perda de audiências da SIC levou à queda de 82% do resultado líquido do grupo, para 0,6 milhões de euros, de acordo com o mesmo ‘research’. O analista adianta que as receitas de publicidade da TVI deverão crescer 11%, contra a queda de 14% das da SIC”, reza a análise de Pedro Mendes, especialista da bolsa do BCP Investimento, em declarações publicadas no Diário Económico.
A SIC está com problemas crescentes. Nada que surpreenda. Todos sabem (menos o Dr.Balsemão…) que o negócio da televisão se faz investindo. Investindo sempre e cada vez mais. Fazer televisão é um combate sem tréguas, tanto mais num mercado publicitário pequeno como o português, onde o primeiro ganha a maior parte do bolo e os segundos dividem as migalhas entre si. Um dia, em 2001, o Dr.Balsemão decidiu que a SIC iria deixar de lutar pelo prime-time. Foi avisado de que aquele era o caminho errado… disse-lhe o Emídio Rangel (antes de ser despedido) e disseram-lhe os delegados sindicais dos jornalistas (antes de serem despedidos), numa Carta Aberta publicada no jornal Público, em Setembro de 2002. Dizia essa carta:

“Carta Aberta aos accionistas da SIC
Senhores accionistas,
Há ocasiões na vida de uma empresa em que o desnorte parece ditar todas as decisões. Em nosso entender, na SIC, é o que se passa. A uma crise sucede-se outra e todas têm a mesma solução: despedimentos. Aquilo que constituiu sempre a primeira razão do sucesso da SIC – os trabalhadores da empresa - começa a desaparecer na voragem desta gestão. Já saíram da empresa profissionais qualificadíssimos e prepara-se, agora, nova ronda, como se a única doutrina gestionária fosse o afastamento das pessoas que estiveram desde o início e fazem parte da fundação da empresa. Aos nossos olhos, assistir-se-á de novo ao enfraquecimento e ao depauperamento da empresa. Triste ironia, se este ritmo prosseguir não conseguimos projectar quem vai pensar e realizar todo o trabalho que uma empresa de televisão exige. Nós calculamos que os senhores vivem também angustiadamente a situação daquela que foi considerada a melhor empresa de televisão da Europa e que apresentava lucros elevados todos os anos, em nítido contraste com o que se passa hoje. Nós sabemos que a vossa reflexão induzida por terceiros ou apreendida directamente e a de que a crise económica e publicitária é a responsável por este quadro de “miséria” que tudo consente, desde o afastamento de quadros importantes até ao abandono de linhas de programação e informação que fizeram o êxito da SIC. Mas talvez seja importante dizer-lhes que nós, representantes dos jornalistas da empresa, temos uma outra leitura da situação que queremos partilhar humildemente com todos, para se superar este período negro da empresa, que consome todos os dias muito dinheiro e uma parte substancial das nossas energias.
Para qualquer observador comum, mas sobretudo para nós que vivemos lá dentro, a primeira razão que dificulta a ultrapassagem da crise é a desorientação que reina na administração e na direcção e a insistência numa estratégia que não dá resultados. Voltada para o objectivo de ser a segunda estação, a SIC é por vezes a terceira e normalmente perde o prime-time. Quando a SIC nasceu e tinha zero por cento de audiência definiu como objectivo o confronto com a RTP que dispunha, obviamente, de mais de 95% do share. Parecia arrogância, mas foi a única maneira de mostrar a nossa ambição em pôr de pé um projecto alternativo e ganhador. Que sentido faz, nos dias de hoje, que a SIC mostre que não é carne nem peixe e não procure ser o que durante anos conseguiu, isto é, a primeira estação do País. Todos sabem que a distribuição publicitária, mesmo em tempos de crise, se faz sempre de forma desigual. Quem é primeiro recebe a maior fatia. Depois do episódio “Big Brother” a SIC teve uma oportunidade única de voltar à liderança e desperdiçou-a. A administração, fixada na ideia dos despedimentos, e os directores de programas e informação, cada um a disparar para alvos diferentes, não souberam construir uma solução duradoura que ganhasse o dia e o prime-time. O resultado está à vista. A TVI, sem nenhuma precipitação, voltou ao comando do prime-time, admitiu profissionais qualificados, alguns da SIC, em vez de despedir, e tem de novo um orçamento de exploração positivo, isto é, está a ganhar dinheiro. É este saber e ambição que está a faltar à SIC. Quando o teve, liderou e ganhou muitos milhões de contos.
Queríamos dizer-lhes, senhores accionistas, que estamos profundamente preocupados com a situação da nossa empresa e gostávamos de ajudar a encontrar uma solução, porque a SIC interessa-nos, a nós como aos senhores. Estamos ali há mais de dez anos, trabalhámos com afinco para pôr de pé aquele projecto e não queríamos, de maneira nenhuma, assistir ao desmoronamento da única estação privada de televisão em Portugal que vai ficar na História. A nossa convicção é de que alguma coisa os senhores podem fazer. Pelo menos, podiam ajudar a empresa a voltar a um clima sereno onde se gerem soluções bem pensadas para retomar os caminhos do sucesso, do lucro e do gosto de fazer televisão. A SIC precisa de uma estratégia de programação e informação que não nasça já derrotada, e aí também os senhores podem ajudar, animando e impulsionando os profissionais que têm essa tarefa entre mãos. Nós, pelo nosso lado, estamos preparados para todos os sacrifícios, desde que se retomem os caminhos da esperança num projecto ganhador. Tudo o que queremos é recuperar a SIC, a nossa e a vossa estação. Tudo o que não queremos é desmantelá-la e vê-la sem forças e sem ânimo. A crise económica e publicitária é um grande obstáculo, mas não explica tudo.
Carlos Narciso
Waldemar Abreu
Delegados sindicais dos jornalistas da SIC”

Cinco anos depois, os problemas da SIC não desapareceram. A administração da empresa não mudou de estratégia, apesar do exemplo ganhador da TVI que investe forte em produção própria. Em 2001, o Dr.Balsemão anunciou-nos que a SIC teria de se adaptar ao mercado. Adaptação feita à custa de despedimentos de centenas de trabalhadores, alguns de uma lealdade para com a empresa a toda a prova. A SIC continua a perder audiência (é já o 3ºcanal, atrás da RTP-1) e, portanto, deverá ter de se adaptar novamente. Os trabalhadores da empresa sabem bem o que isso significa.

9 comentários:

escrevi disse...

Não sendo concerteza uma ideia nova, gostaria de saber se já pensaste em escrever todas as tuas memórias em livro. O que viveste, o que viste, os testemunhos que recolheste fariam naturalmente dele um documento histórico para as futuras gerações, e para nós um muito bom documento de informação e esclarecimento.
É que a Internet é, na minha opinião, perigosa em termos de memória. Qualquer dia fartas-te de escrever, vem de lá um virus e apaga tudo o que escreveste.
A sério acho que é uma responsabilidade que tens; dar conhecimento de tudo aquilo que viveste.
(Pode ser que além de ti mais alguem fique sem dormir, ao tomar consciência da realidade que se vive por esse mundo fora).

Xanu disse...

Neste momento na minha modesta opinião a Sic tem uma programação bem melhor que a TVI.
Três novelas, mesmo que portuguesas, seguidas ao serão é dose...
Quanto à informação também me parece bem melhor.
As séries idem aspas, aliás a TVI passa as séries de madrugada o que limita bastante quem as vê (ou pretende fazê-lo)
Mas o que conta são as audiências e essas dão o 1º lugar à TVI. Seja por que razão for...

Sony Hari disse...

O que distancia a SIC da liderança das audiências é a sua crescente arrogância e incapacidade de aprender com os seus próprios erros e com as glórias de outros canais, em particular com a TVI. Não sendo um canal que vejo regularmente, tenho que reconhecer o mérito da TVI no que respeita à ficção nacional. Muitos profissionais estão envolvidos nesta aventura(de riscos calculados), nomeadamente, actores que, sem a TVI, teriam o seu talento artístico suspenso.

CN disse...

Escrevi: tento fazer só o que me apetece e... ainda não me apetece escrever um livro. Acho que sou demasiado tímido.

Xanu: temos todos o hábito de olharmos o Mundo com os nossos olhos. A SIC pode ter tudo melhor que a TVI e, ainda assim, a maioria das pessoas optarem por ver outro canal. Cá por mim, que tanto faz (como diz um amigo meu), acho que a maioria tem sempre razão, mesmo quando não concordo. Se a maioria vê a TVI...

Sony: a arrogância... pois é, talvez tenhas razão. Precisava de perder tempo a ver a SIC e, sinceramente, não é coisa que me apeteça. Aliás, cada vez vejo menos televisão. É uma fase, isto passa um dia destes...

LM disse...

adaptar novamente=despedir novamente,verdade?
Noite boa.

zecadanau disse...

Mas também há a considerar outros porquês:
A estupidificação geral das massas feita por quem de direito leva a que as pessoas procurem cada vez mais a baixa qualidade (neste caso a TV pimba) e a TVI aposta forte nesse ponto, mais que qualquer dos concorrentes.

Um @bração do
Zeca da Nau

Carlos Alberto disse...

Caro Carlos Narciso

Que saudades do quejá foi a SIC.
Eu, que já pouca, ou nenhuma, televisão vou vendo, do pouco que vou observando acho que a SIC merece estar em 3º. Deixei de acreditar na informação televisiva, depois de vergonhosa cobertura de umas eleições no Benfica, em que a SIC tinha o seu candidato e a TVI apoiava outro. Nunca o Jornalismo ficou tão próximo da sarjeta.
Mas não aprenderam, e a vergonha continuou com a cobertura desta última campanha Presidencial, e é por demais evidente que a actual redacção da SIC é politicamente empenhada num Jornalismo pró PSD.

Isabela disse...

No outro dia quis cá deixar a seguinte mensagem mas não consegui:
- os tímidos também escrevem livros. Não tem que ser à pressa. Pensa nisso com calma, porque o comentário de Escrevi é acertado.

- Quais eram os planos de Balsemão em 2001? Ou seja, que televisão queria ele fazer? Lembras-te disso? Havia um plano?

dadada disse...

Narciso, escreve o livro.

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Jornalista; Licenciado em Relações Internacionais; Mestrando em Novos Média

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